Reliquias Da Era Dos Zumbis
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Não é o melhor dia para se começar um diário, mas eu sinto que preciso registrar as coisas que têm acontecido e esse é o único meio que me resta. Pelo caos que se instalou, acredito que num futuro só restarão os livros. Eu não sei direito como começou, parecia uma lenda e tudo foi muito rápido. Meus pais viajaram e eu estava responsável pelas minhas irmãs, Nathália de cinco anos e Layza de oito, eu sou bem mais velha que elas, tenho dezoito anos, dou conta de tudo. Todo mundo veio pra cá aproveitar que tínhamos a casa inteira pra nós. Isso é, meus amigos Pedro, Murilo, Priscila, Ariane, Paloma, Isabel e Fran. Planejamos mil coisas pra fazer, mas não daria tempo. Saíram umas notícias estranhas na televisão, falavam de uma grande epidemia, as pessoas dormiam e não acordavam mais, acordavam num sonambulismo eterno como zumbis e devoravam o que encontravam vivos pela frente. Olhamos-nos assustados e incrédulos, o que quer que estivesse acontecendo não iria nos atingir, as coisas nunca acontecem com a gente. Uma hora depois da notícia, Ianca, uma amiga de Fran veio chamá-la, ela disse que a cidade estava em pânico e eles tinham um plano para fugir de avião. Fran se negou a ir. Achamos que aqui há mais segurança, numa cidade do interior tudo demora mais para chegar, até as doenças. Chamei todos para uma conversa e pedi “Por favor, não durmam, tentem dar apenas pequenos cochilos leves, não sabemos o que pode acontecer. Alguém pode não acordar mais ou colocar a vida dos outros em risco”. Bel começou a pirar e querer ir embora “Não tem como ficar sem dormir, isso é loucura, temos que procurar ajuda.” Eu tentei acalmá-los “Vamos agüentar um pouco, logo as autoridades tomam providências, lá fora está um caos, todo mundo correndo pra fugir, muitos acordaram zumbis e atacaram a própria família, talvez tenhamos escapado porque passamos a noite na farra e acho que ninguém aqui dormiu, além das crianças”. Fechamos as portas, eles estavam na sala, quando eu e Nathália fomos fechar o portão do quintal, então eu vi. Minha vizinha, Tamara, debruçada sobre o corpo ensangüentado da filha, ela puxava tripas e órgãos e comia com ferocidade de animal selvagem. Eu quase gritei, eu quase vomitei, quase tudo, mas como responsável pelas minhas irmãs tenho que ser forte agora. Corremos para voltar para dentro, mas ainda deu tempo de ver o mais macabro, homens do exército chegaram e mandaram que abrissem a porta. Eles obedeceram, havia muita gente lá por causa da festa de ontem. As pessoas não pareciam zumbis, mas os homens não perguntaram nada, só saíram atirando até que não restou ninguém vivo. Ficamos trancados em silêncio e não vieram aqui. Pedro e Ariane fizeram uma pipoca para o almoço e discutiam como sempre, eles brigam muito, acho que se amam. Espero que tenham tempo. Minhas irmãs choram assustadas, pedi para Fran ficar de olho em todos e trouxe as duas para descansar um pouco no quarto.
O que eu fiz?! Acordei desesperada, não sabia como, mas acabei dormindo, não sei por quanto tempo, já tinha perdido a noção das horas. Não vi Nathália no quarto, de repente Layza entra, com olheiras enormes e os olhos mais vermelhos que já vi.
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