Relicário
1 Trocaria a eternidade por esta noite
Notas iniciais
A brisa marinha soprou gentilmente sobre os dois, levantando de leve o cabelo negro da jovem. A temperatura já tinha caído alguns graus desde que chegaram naquela praia no fim da tarde. Agora a lua já estava alta no céu, o barulho das ondas quebrando o silêncio entre eles.
Ele tentou a enxergar pelo canto do olho, sem coragem suficiente para encará-la de frente. Ela estava quieta, a expressão reflexiva na direção do mar. Segurava os joelhos com os braços, as sandálias displicentemente penduradas em uma das mãos. Os pés afundados na areia e o vestido esvoaçante, tal qual o cabelo.
A última noite dos seus três anos de relacionamento. A decisão era óbvia ao mesmo tempo em que era estranha.
[O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou]
— Eu vou sentir sua falta — ele conseguiu dizer, por fim, sentindo o nó na garganta quase lhe tomar todo o ar.
Ela se virou. Deu um sorriso suave, demorado. Respondeu com um beijo, encostando de leve seus lábios no dele. A brisa marinha soprou de novo, dessa vez trazendo junto parte do perfume dela.
— Você vai ficar bem — disse, ao se afastar.
Ele concordou, sorrindo de volta.
Tinha sido uma decisão em conjunta, não partira dela nem dele. Simplesmente aconteceu. O tipo de situação em que você percebe ter chegado em uma rua sem saída, daquelas que não há o que fazer senão dar meia volta e seguir por outro caminho.
Óbvio, e ao mesmo tempo, estranho.
— Acho que é melhor a gente ir embora — ela falou. Já nem sabiam mais que horas eram.
Ele engoliu em seco, com medo de falar qualquer palavra que fosse. Era como se o silêncio pudesse ser capaz de adiar alguma coisa.
A decisão era corajosa, ele admitia. De ambas as partes. E a admirava ainda mais por isso. No fundo, achava que ela iria se sair muito melhor do que ele. E, afinal das contas, ele tinha concordado. Não que estivesse arrependido. Estava apenas... inseguro. Sentia o mesmo frio na barriga agora, no último dia da relação, que sentiu no primeiro.
Não estava tão preparado quanto achou que estivesse.
[Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se pôr
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for]
Três anos. De sorrisos, de lágrimas, de surpresas, de sustos. De brigas, de pazes, de dúvidas e de certezas. E, por fim, a conclusão inesperável de um final esperado.
— Como que o amor acaba assim? — ele perguntou. Era uma pergunta retórica, não queria uma resposta. Mas ela veio de qualquer jeito.
— Não acaba — ela disse — O amor continua. Apenas muda.
Ela baixou os olhos para o próprio corpo. Colocou a mão sobre a barriga e a acariciou por um instante. Sentiu a mão dele sobre a sua, se unindo como um só membro.
Quando voltou a encará-lo, estavam ambos sorrindo novamente.
[O que você está dizendo?
Um relicário imenso deste amor]
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