Notas iniciais
Esse capítulo não é indicado para menores de 14 anos: há cenas de vingança e tentativas de homicídio.

Gente, vocês viram o que aconteceu naquela festa. Que tragédia enorme, hein?

Bom, vamos nos esquecer disso porque eu tenho uma história para contar a vocês. Não sei se já me apresentaram, mas começaremos do início. Sou a Milena, a amiga do Zé Antônio. Alguém, eu acho que o Carlos, disse que fui a um acampamento da minha igreja. Sou uma pessoa bem religiosa e gosto muito disso. Assim como o Zé, eu tenho vários amigos que perderam esperança em religiões, pois muitos religiosos não respeitam a orientação deles.

Eu não opinarei sobre isso, pois cada um tem a sua opinião, crença, moral ou ética, mas como sempre digo: Aceitar é uma opção, respeitar é um dever. Não importa o que crê, mas respeita. Não mata ninguém e é de graça.

Agora, vamos a minha história:

No final de semana da festa, eu tinha um acampamento da minha igreja. Muitos amigos meus do grupo de jovens iriam também. Como em todo lugar, há os falsos moralistas, há as intrigas, há o companheirismo, ou seja, há vida e ser humano. Nós fomos de ônibus, pois ficaríamos em uma cidade próxima, a única que tinha uma grande reserva florestal para simbolizar um acampamento verdadeiro. Na verdade, não era bem um acampamento, pois ficaríamos em casebres. Eles eram de madeira, reformados recentemente e todos mobiliados, bem estilo ao acampamento de um livro.

Assim que cheguei, dei de cara com uma panelinha de dois meninos e duas meninas, ambos casais.

A simpatia foi esquecida na hora da fabricação e, além de não irem com a minha cara, eram os falsos moralistas da rodinha. Os quatro condenavam tudo e a todos, principalmente a mim por ter um amigo gay, porém, eu sei, tenho imagens e áudios, que os quatro pulam a cerca. Lógico, não estereotipando, mas cada um deve agir conforme aquilo que é prezado.

Eu tenho também os meus defeitos, como falar demais e o que não deve, eu julgo algumas pessoas, além de guardar um pouco de rancor. Estou trabalhando para mudar essa situação. Não sou vingativa, pois creio que a vingança não leva a lugar nenhum; porém, depois ~que fizeram a coisa errada, nada podemos fazer e eu, como posso dizer, apenas aproveito.

—Bem-vindos, meus irmãos e irmãs, para mais um encontro com Deus. – Era o líder do grupo de jovens. Era um rapaz jovem, com seus vinte e poucos anos, cabelos acastanhados e uma pele morena, queimada com o Sol de seu trabalho de pedreiro. Ele é muito humilde, companheiro e sempre se pôs diante de todos para ajudar em problemas. – Hoje começa o décimo encontro anual do grupo de jovens e o tema será "Amor à Natureza".

Eu gostei do tema, ainda mais que sou fanática por animais, principalmente os silvestres, e eu sabia que havia muitos por ali. Eu tinha dois sonhos: ou ser bióloga ou veterinária. Bom, nada me impede de fazer as duas faculdades. Meus pais me apoiavam em ambas as decisões.

—E, hoje, receberemos o primeiro grupo infantil de nossa comunidade. – Ele apontou umas crianças acompanhadas dos pais. Alguns eram do grupo e ajudariam no encontro, outros apenas levaram os filhos. – E, tomando conta deles, a nossa veterana mais nova, Milena.

Todos começaram a aplaudir. Achei meio desnecessário, pois eu apenas estava ali porque eu gostava. Lógico, eu frequento o lugar desde os meus cinco anos, assim como aqueles pequenos, mas não acho que isso deve ser mostrado ao mundo ou usado como forma de chamar a atenção.

Eu tomei a frente do lugar e as palmas pararam. Eles queriam um discurso meu, porém recusei, e pedi para que iniciassem o encontro oficialmente. Ele me levou para conhecer as crianças. Uma mais fofa que a outra. Todas bem tímidas, assim como eu, quando vim pela primeira vez.

Nós nos apresentamos e, lógico, não guardei o nome deles, portanto, os apelidos de fofinhos e lindinhos perdurariam por um tempo.

Eu os organizei nos quartos, colocando as malas sob os beliches, já que não havia cômodas, e os preparei para irmos à gincana. Era uma caça ao tesouro. Enquanto os adolescentes cuidavam das crianças e das brincadeiras, os adultos ficavam na cozinha preparando o almoço, café da tarde e afins. Dividimos as crianças em dez grupos de três pessoas cada, além do adolescente que cuidaria delas.

Por sorte, eu fiquei com um grupo mais pacífico, pois os demais eram muito agitados. Claro, eram crianças, lotadas de energia para gastar. Então, começamos a brincadeira.

Apesar de não haver tanto Sol e ter muitas nuvens cobrindo os seus raios, meu suor caía pelo meu corpo magro e branco. Eu tinha cabelos lisos e levemente ruivos, todos presos em um rabo de cavalo bem frouxo. Minha estatura mediana, de um metro e sessenta centímetros não se destacava dos demais adolescentes, que não passavam dos seus um metro e setenta.

Eu peguei meu grupo e segui com ele por uma trilha que aparentava ser pacífica. O objetivo era encontrar um pequeno baú. Contudo, para abri-lo, as crianças deveriam adivinhar uma pergunta que está escrita em um pequeno envelope logo à frente do baú. Eu fiquei com um pé atrás disso, pois foi aquele grupo que organizou a brincadeira. Apesar da escolha dos grupos ter sido por sorteio e os caminhos a seguir também, desconfio que eles aprontaram alguma comigo.

Enquanto eu e os pequenos descíamos a trilha, que dava para uma cachoeira, eles conversavam calmamente, se apresentando para mim. Eram duas meninas e um menino. Uma era loira, com os cabelos bem cacheados e olhos bem acastanhados, quase um verde quando a luz solar refletia em sua íris. De nome Júlia, ela segurava a minha mão. Antes de sairmos, um dos adultos me informou que ela possuía medo de serpentes, pois seu tio a atormentava com uma pelúcia velha e horrorosa. Brincadeira de mau gosto, além dos pais dela permitirem isso. Nem comentarei sobre o caso, porque... Ah, esquece.

A outra menina, uma garota negra, cuja pele era delicadamente lisa e os cílios bem grandes. Seus cabelos eram encaracolados, assim como os de Júlia, e seu nome era Natália. Ela, diferente da Júlia, esboçava um sorriso imenso enquanto carregava um pedaço de madeira, mostrando liderança ao grupo. Por fim, o menino, Mathias, era um pouco ruivo, com os cabelos bem cortadinhos e lisos. Ele era tímido e segurava a minha mão com menos força do que a Júlia.

Assim que chegamos à cachoeira, os três contemplavam aquela incrível paisagem da água colidindo com as pedras e espirrando em nós.

—Eu acho que o baú está por aqui, não é Milena?

—O que está dizendo a pista que vocês receberam? – Júlia, aquela que me perguntou, segurava um papel em mãos. Ela o abriu e disse:

Assim como o cajado que acertou a pedra

A água escorre pela cachoeira

Abaixo da sua fonte onde se quebra

Há o tesouro lotado de poeira

—Bom, o que vocês entenderam disso? – Nenhum dos pequenos respondeu e eu não podia ajudar. Mas, o que impediria os outros grupos de ajudar os pequenos? Eu não, pois seguirei todas as regras firmemente.

—Ele compara o fato de Moisés tocar na pedra para dar água ao povo com a cachoeira.

—Então, acho que deve estar lá em cima, o tesouro.

Júlia e Natália completaram suas falas e apontaram para o alto da cachoeira, mas a subida era enorme. Teríamos que dar uma volta colossal até chegarmos lá em cima. Lógico, poderíamos escalar as pedras da encosta, mas estavam molhadas e cairíamos, se tentássemos.

—Acho que teremos que subir. – Disse Mathias, com as únicas palavras que ele se esforçou a proferir. Quando estávamos voltando à trilha, havia alguma coisa passando de um lado para o outro. Até onde eu sabia, não havia nenhuma cobra ali por perto e, muito menos, daquele tamanho. Eu não me toquei de que minha mão ardia fortemente até encarar Julia amassando a minha mão com muita força. Ela estava pálida, mais do que já era.

Eu tentaria acalmá-la, contudo, não deu tempo. Ela gritou intensamente e ecoou pelo arvoredo inteiro. Notei que a cobra se apressou e adentrou nos arbustos rapidamente. Esse foi o momento em que eu peguei meu grupo e segui a trilha. Os três iam à minha frente, assim eu poderia permanecer com meus olhos sobre eles.

Eles olhavam para o chão e para os lados constantemente, com certeza em busca da serpente. Ela deve ter se assustado e fugido. Pelo tamanho, acredito que não era venenosa. Com nossos passos corridos e cautelosos, seguimos por outro trecho do bosque, que daria para o alto da cachoeira. Apesar do medo das crianças, encontramos o baú que continha mais uma pista. Como eles descobriram sozinho o que dizia a outra pista, nem foi preciso esperar por muito tempo. Assim que folheei os papéis que eles colocaram para lotar a pequena arca, havia um manuscrito enrolado com uma fitinha amarela e lá dizia:

Assim como as chagas visíveis

Apenas com o toque as percebeu

Mesmo como labaredas insensíveis

A palma rosada que ardeu

—Tomé! – A resposta mútua deles ecoou pelas árvores, espantado algumas aves que nos observavam.

—E por que vocês falaram dele? – Eu tinha que incitá-los a explicar a resposta.

—Ele foi o único discípulo que não acreditou que Jesus havia retornado e ele precisou tocar nas marcas das palmas e das chagas. – Respondeu Mathias.

—Você está certo. Agora, onde podemos procurar o próximo baú? — Eu não imaginava onde poderia estar, pois não havia mais nenhuma pista. Analisei os demais papéis e nada achei sobre mapas ou afins. — Acho que, se voltarmos ao acampamento, nós encontraremos respostas.

Os pequenos me apoiaram na decisão e, no momento em que eu me virei, vi um escorpião subindo na perna de Natália. Não me movi bruscamente, muito menos avisei os pequenos do aracnídeo, apenas fiquei estagnada. Assim que eu ia dizer, alguma coisa passou perto de mim, como se fosse um mosquito turbinado. Outro acertou a cabeça de Júlia, que trombou em Natália. Todos assustamos, assim como o escorpião, que picou a perna da garota. Um terceiro objeto passou pela gente e bateu em mim, o que me fez perder o equilíbrio e cair cachoeira abaixo. Eu ouvi apenas os gritos finos das crianças. Mesmo com a picada, Natália queria me ajudar. Lá debaixo, quase me afogando por causa da profundidade do lago e da forte correnteza, não conseguia me aproximar da margem. Do nada, eu senti alguém pulando na água. Era um menino, de cabelos castanhos e olhos pretos, quase acinzentados como fumaça. Ele me ajudou a sair do lago e me deparei com Rubens, um amigo meu do grupo de jovens.

—Milena, o que aconteceu?

—Natália... Picada... Escorpião... – eu cuspia água enquanto tentava falar. Ele, recebendo a mensagem, correu em busca de Natália para socorrê-la. Eu, recuperando as minhas forças, senti que algum animal estava perto. Eu olhei para o outro lado da margem e me deparei com a cobra que surgira anteriormente. Ela não era tão grande e repousava a sobre uma pedra, aquecendo o corpo frio com os raios solares. Ignorando-a, eu me coloquei em pé e corri para ajudar Rubens, que já se aproximava do acampamento. Eu, a pedido dele, corri mais adiante para preparar a enfermaria, ou melhor, chamar uma ambulância. Eu, quase sem fôlego, expliquei o que havia acontecido e alguns adultos foram ajudar meu grupo e buscar o resto dos grupos, os demais arrumaram a enfermeira, pois a aplicação do soro antiescorpiônico teria que acontecer ali, pois a distância entre as cidades mais próximas era enorme.

Eu estava em choque, pois não sabia o que ocorrera, nem o que me acertou. Em segundos, Natália, carregada por Rubens, aparecia pelo arvoredo e era levada à enfermaria; em minutos, todos os grupos voltavam escoltados por adultos e a ambulância aparecia na entrada do lugar. Dois paramédicos desceram com uma mala. Depois, fiquei sabendo que lá havia o soro e as agulhas. Depois de meia hora, os pais dela chegaram e foram me perguntar o que aconteceu. Contei tudo, desde o sorteio dos grupos até eu cair da cachoeira.

—Milena, por que os levou até lá? Aquela área tem muitos animais perigosos.

—Acho que ela percebeu isso. – Rubens havia respondido em meu lugar. Ele é muito simpático, bonito e bondoso, no entanto, sabia como agir quando estava nervoso. Suas veias da cabeça saltavam enquanto ele ficava parado do meu lado.

—A minha pista nos mandou para lá. – E, com o papel molhado, li o que estava escrito: "Assim como o cajado que acertou a pedra, a água escorre pela cachoeira. Abaixo da sua fonte onde se quebra, há o tesouro lotado de poeira.". – Até onde eu saiba, apenas lá tem uma cachoeira. Faz parte da gincana. Foi ideia deles.

E apontei para o quarteto. Fabiano, Lúcia, Matheus e Carla, os quatro que não gostavam de mim, muito menos do Zé Antônio. O Primeiro era o mais alto, quase dois metros. Com um par de olhos mais negros que a noite, ele encarava a namorada, Lúcia, que tinha cabelos curtos e castanhos, estilo capacete. O terceiro era o menor, um pouco mais de um metro e sessenta. Ele e a namorada, Carla, tinham cabelos iguais, bem loiros, estavam com as mãos dadas, ou melhor, grudadas.

—Foi sorteio. Poderia ter acontecido com qualquer um. – Isso não me convenceu, muito menos Rubens ou os adultos, ainda mais que Lúcia riu da resposta de Fabiano. – Não tenho culpa de que Milena é azarada.

Eu ia responder, mas escutamos a porta da enfermaria abrindo, revelando os dois paramédicos. Um deles, o mais baixo e mais novo, falou com os pais da garota e explicaram que ela poderia ficar no acampamento, mas teria que ficar de repouso total.

Eu me ofereci para cuidar dela, junto da enfermeira. Todos concordaram, ainda mais que quase me afoguei. Lá dentro, apenas eu, Natália e a enfermeira fomos visitadas por Rubens.

—Como você sabia onde estávamos?

—A pedido dos adultos, o quarteto fez uma segunda cópia das pistas. Apenas uma tinha nome e era a sua. Assim que eu a li, e foi por acaso, percebi que eles estavam armando algo para você. Sorte minha chegar naquela hora.

—Muita sorte mesmo. – em seguida, houve duas batidas na porta e Mathias e Júlia entraram. Ela estava com um saco de gelo no rosto por causa da pancada.

—Milena, você está bem? – As vozes dos dois pequenos me confortaram por um momento que passou repentinamente. Mesmo os dois estando bem, sem qualquer arranhão, eu ainda me sentia mal por Natália.

—Eu que devo perguntar se você está bem. Como está o seu rosto? Você levou uma forte pancada.

—Ah, isso não é nada. – Ela se aproximou de mim e mostrou um enorme roxo redondo em sua bochecha. Ela apertava com a ponta do indicador, mostrando que não doía. – E nossa amiguinha, como ela está?

—Estou bem. Só um pouco tonta. – Ela, se esforçando muito, sentou na cama e, com as mãos cruzadas, as apoiou sobre o colo. – Eu queria saber o motivo que eles tiveram para fazer isso com a gente. – Com exceção dos pequenos, todos nos assustamos com o que ela disse. Ela não se movia, assim como os médicos pediram, ainda mais que havia uma agulha presa em sua veia aplicando o soro.

—Você está dizendo do quarteto lá fora? Eles não tiveram nada com isso.

—Claro que tiveram. Antes de você chegar, eles sortearam os grupos e os envelopes com as pistas.

—E um envelope estava separado. Quando Mathias perguntou, além deles ficarem nervosos, disseram que era especial. No final, foi você que o recebeu.

—Milena, eles estão certos. E isso prova porque apenas a sua cópia tinha nome.

—Vocês não acham mesmo que eles queriam ferir a Natália?

—Ela não, mas você. Você, enquanto tentava ajudar as meninas, foi acertada, perdeu o equilíbrio e caiu do penhasco.

—Milena, você tem joguinho no seu celular? – Mathias me perguntou, totalmente fora do assunto. Eu entreguei meu celular desbloqueado e ele ficou jogando um joguinho de doce, apesar de eu não escutar o barulho.

—O que eu acho é que vocês quatro precisam descansar. Pelo o que me informaram, talvez eles encerrem o acampamento essa noite por causa do incidente, além de tentarem evitar outros. – A enfermeira colocou Rubens para fora e arrumou a cama para Mathias e Júlia dormirem também. Ela nos deu um remédio e todos nós dormimos rapidamente. Mathias demorou um pouco mais, pois eu o deixei brincar com meu celular por mais um tempo.

Quando acordei, já estava escuro. Dormi por quase oito horas. Nesse momento, Rubens apareceu na porta enquanto carregava uma bolsa com roupas para mim e para as crianças. Ele me informou que deveríamos tomar banho na enfermaria. Eu fui a primeira e as crianças em seguida e, depois de quase meia hora, todos de banho tomado estávamos.

—Acho que você vai gostar da surpresa. – Mathias disse para mim assim que deixamos a enfermaria. Rubens nos esperava na entrada do salão principal, onde ocorreria um vídeo com os melhores momentos do acampamento. Sim, como em casamentos. Além disso, anunciaria qual equipe ganhou a gincana. Isso era para ocorrer no dia seguinte e, pelo o que eu escutei enquanto ia ao salão, os adolescentes sobrecarregaram as crianças para que fizessem o máximo de brincadeiras possíveis. Bem desnecessário, mas o que eu poderia fazer? Estava parecendo a Aurora.

—Vocês não ficarão chateados por não participarem do resultado final?

—Milena, não precisa se preocupar com isso. Nunca dormi tanto em minha vida e não me arrependo. – Rimos da resposta de Mathias, que estava dando pulinhos de alegria. Motivo da felicidade eu não sabia, mas poderia perguntar depois. Além do mais, ele estava mais solto, mais alegre do que antes, já que aparentava uma enorme timidez.

O representante do grupo de jovens começou a fazer um discurso breve e simples, mas bem bonito. E, em segundos, o vídeo começou, porém, estava estranho. Eram as imagens do meu celular, as mesmas que eu tinha como provas das traições de Fabiano, Lúcia, Matheus e Carla, cujas faces brancas ficaram vermelhas como um tomate. De repente, os quatro, que estavam na frente do lugar, começaram a gritar com o organizador. Eles exigiam que o vídeo fosse retirado, porém, o controle do telão havia desaparecido.

Eu olhei ao redor e vi os pais deles todos vermelhos de vergonha, eu vi todos falando deles e soltando outras histórias.

—O que aconteceu? – Rubens, o único que sabia dessas fotos e vídeos, me encarava com receio.

—Eu não fiz nada.

—Gostou da surpresa? – Era Mathias que me perguntava. Ele esboçava um sorriso gracioso, porém, levemente esperançoso e um pouco maléfico.

—Foi você que fez isso? Mas como? – Ele contou que, enquanto jogava em meu celular, por causa do término das vidas, ele foi mexer em minha galeria e encontrou um álbum escrito "Pistas". Assim que ele viu as fotos e os vídeos, mandou para o celular dele e montou o vídeo com um aplicativo (nessa idade, o meu celular era rosa, apesar de eu querer azul, e tocava uma música irritante). Enquanto ele colocava o vídeo no projetor, ele escutou o quarteto conversando sobre como o plano dera quase certo.

—Eu não ia colocar o vídeo, pois a consciência estava pesada, mas eles disseram que era para você morrer na água. Fiquei com mais raiva ainda e mudei de ideia.

—Mathias, eu sei que você quis se vingar por mim, mas isso foi errado. Agora, eles vão ficar marcados com isso por um longo tempo.

—Eu não tive intenção. Por favor, me perdoe.

—Eu te desculpo, mas fique avisado: A vingança não compensa. Todos nós estamos vivos e bem. Não era necessário isso.

—E se a Natália tivesse morrido?

—Eles teriam que se ver com Deus, e não conosco. Deus sabe o que faz. Não se preocupe com isso.

Mathias continuava triste, mas Natália e Júlia se aproximaram dele e o puxaram para longe, apenas para brincarem no parquinho que tinha ali do lado. Enquanto a gritaria persistia e o circo pegava fogo, eu e Rubens fomos para longe, perto de um morro. Ali, sentamos na grama fofa e ficamos olhando o céu estrelado, que quase não era visto na cidade.

—Você está bem?

—Por que pergunta?

—Milena, você adora ver confusão, mas dessa vez, você se afastou.

—Eu não sei, na verdade. Você viu o que o Mathias fez. Eu sei que ele é apenas uma criança e está aprendendo o que é certo e o que errado e, muitas vezes, não sabe o que faz, fala ou pensa. Contudo, você viu o que ele fez. Ele se vingou do quarteto, e de uma forma bem cruel.

—Você sabe como são as crianças.

—Eu sei como elas são. Apesar de eu não lembrar muito, eu também fui, mas eu tenho medo algumas vezes. Parece que nós estamos fazendo-as crescer muito, fazendo-as adultos antes da hora.

—Não podemos mudar o mundo se ele não quer mudar. Fazemos a nossa parte e isso importa para Ele.

—Você está certo. – Eu deitei em seus ombros e, juntos, ficamos encarando a imensidão estelar que nos acobertava.