Relatos do Cotidiano: Eternas Cicatrizes
1 Capítulo 1: Um dia de médico
Notas iniciais
A noite começava bem lenta, com um pouco do céu alaranjado bem ao fundo. Rogério vinha da aula para o posto de saúde perto de sua casa, onde passava o tempo com um amigo médico, já formado, e que deu permissão para ficar por ali. Não poderia exercer fielmente a profissão de médico, afinal, estava em seu segundo ano de curso. Caminhava de forma rápida, aliás, sempre sua ajuda foi de muita apreciação, tinha alguns dias em que os casos médicos eram tantos que os médicos dali não davam conta.
—Tem certeza que quer ficar aqui hoje? – Seu amigo, Marcelo, mantinha o corpo todo trabalhado e musculoso, tinha fortes olheiras abaixo dos olhos marrons caramelos. Seu jaleco era um pouco apertado, como se fizesse um de forma proposital. – Virá um médico aqui da região para poder ver como os médicos estão agindo. Estão recebendo muita reclamação dos médicos noturnos.
—Uai, não tenho meu CRM, mas estou aqui para ajudar.
—Você sai da faculdade e vem direto para cá, nem deve comer direito. Por sinal, está mais magro do que eu me lembro.
—Fique calmo, são as provas. Eu prometo que nas férias eu vou me cuidar melhor.
—Não seja aquele médico do "Faça o que eu mando, não faça o que eu faço", já não basta meia dúzia que se formou comigo.
—De uma sala com cem alunos, meia dúzia é pouco.
—Não quando são filhos de papai que já têm um consultório montado. – Enquanto conversavam, Marcelo passava para uma prancheta alguns casos que teve durante seu turno, que terminaria em breve, por volta das nove da noite. – Nada como um garoto com uma diarreia lascada, um pequeno infarto em um senhor de 80 anos, um bebê com prisão de ventre e uma mulher com menstruação atrasada que jurava estar carregando um bebê.
—Dia agitado, melhor que o meu apresentando dois trabalhos.
—Fim de semestre é assim. Só quero ver quando começarem a pedir um artigo por semestre.
—Fora as leituras e sabe sei lá mais o que mandarão.
Nisso, uma mulher entra com uma criança de colo, ela deve ter cerca de cinco anos. Muito pálida, quase apática, sem muita vida em seu semblante. Para uma criança dessa idade, não era nada normal. A mãe era acompanhada pelo pai, que vinha com uma carranca séria, preocupada certamente, sobre o estado da criança. Além do mais, a criança mal se movia, tinha lágrimas nos olhos, com certo de risco de chorar.
—Doutor, o senhor poderia me ajudar? – A voz meiga da mãe parecia chorosa, assim como a da criança, que resmungava bastante. Rogério ficou para trás enquanto via todo o procedimento, assinavam papéis e mais papéis, pegavam a digital da criança para poderem analisa-la com cuidado. Entretanto, a pequena começou a gritar de dor, reclamava de dor na barriga. Sua roupa era um pouco larga. No desespero, Marcelo e mais uma enfermeira encaminharam a garota para uma sala e começaram os exames. Os pais foram atrás, ainda mais preocupados do que antes. Rogério foi atrás.
—Vocês podem me dizer o que ela comeu? Acidentes? Ferimentos? Brigas? Surras? – Quando disse "Surra", o pai dela inflou o peito, certamente não gostou de ser apontado como um pai violento. – Vou precisar que ela tire a camiseta para eu escutar os pulmões e o coração. – A mãe ajudou bastante ao tirar a blusinha pequena de unicórnios coloridos. Os músculos da barriga da garota se contraiam e ficavam rijos por um longo tempo. – Opa...
Rogério e Marcelo trocaram olharem ao verem a barriga da garota daquele jeito. Marcelo era paranoico quando se tratava de doença, principalmente algumas em que ele teve, infelizmente, a oportunidade de ver. Ele analisava a região com calma, porém, a criança gritava de dor ainda mais. O pai parecia uma fera enraivecida enquanto estava sentado. A mãe era mais calma, mesmo com todo o clima entorno da filha.
—Ela se machucou recentemente? – O pai negou, não se lembrava de nada. A mãe afirmou que ela se feriu, mas foi superficial, não sangrou nada. Fez um curativo em casa, demorou a cicatrização, lembrou, fazia uns trinta dias. – Pode me mostrar aonde foi? – A menina não conseguia levantar a calça, ainda mais que sentia muita dor nos músculos da barriga. A mulher se levantou e ajudou a enfermeira a retirar a calça dela. Quando relou na perna dela, sentiu uma cicatriz grande na panturrilha, bem superficial, nada drástica. Claro, se não tivesse causado o que desconfiara.
—Eu só preciso saber mais algumas coisas antes de passar o remédio. – O pai resmungou bastante, estava insatisfeito com o que ouviu. – Alguma dúvida?
—Sim, por que não dão qualquer remédio para ela? É só frescura de criança! – A voz era alta, bastante exaltada por sinal.
—Espero mesmo ser uma frescura, e não o que eu acho que é. – O pai dela, aparentemente, ria por dentro, como se a situação toda fosse um circo para rir. – Agora, se for tétano, terei que entrar com antibiótico e mais alguns remédios, certamente precisará tomar soro.
—Como saberemos que não é tétano? – A mãe parecia tensa em sua cadeira, falar naquele instante parecia um desafio árduo. O pai meio que a repreendeu com o olhar, Rogério a viu se encolher.
—Ela tomou as vacinas de tétano até os cinco anos?
—Não damos vacina, não acredito que funcionem. – Aquilo foi um soco na cara dos funcionários daquele lugar. – E a de tétano é a que mais eu suspeito, como uma coisa boa pode ter efeito colateral?
—Qualquer remédio que o senhor tomar pode ter efeito colateral, nenhum ser humano é igual, igualmente os nossos organismos. As vacinas também são assim. Apesar de aconselhável para todos tomarem, alguns possuem restrições.
—Nosso vizinho não pode, ele tem alergia. Explique isso?
—Como eu disse, os organismos não são iguais. O fato de ele não poder tomar a dose, não simboliza que as vacinas não funcionam. O correto é nós tomarmos para evitar a proliferação da doença e ajudar essas pessoas que não podem tomar. Além disso, ele pode entrar com um recurso para tomar uma vacina mais cara, porém, que possui o antígeno ainda mais fraco. O efeito é o mesmo, porém, mais demorado.
O pai não parecia nada convencido o que Rogério falara, simplesmente se sentou, cruzou os braços e encerrou o assunto. A mãe pegou a carteira de vacinação e mostrou a Marcelo. Seu olhar mostrou horror ao ver aquilo em branco, sem nada.
—Agora, vou pedir a transferência de sua filha para um hospital maior. Eu também trabalho lá e quero acompanhar o caso dela. Vamos inocular a vacina nela para impedir a proliferação da doença e bloquear a ação das toxinas.
—Vocês não vão vacinar minha filha, porra nenhuma! – O homem se levantou e quase partiu para cima de Marcelo. Rogério e uma enfermeira atravancaram sua passagem. – Eu que mando na vida dela! Vamos embora agora!
—Sabia que sua filha poderia ter morrido? – Tudo ficou em um silêncio irritante. – O tétano pode causar espasmos musculares e deixar tudo enrijecido, e o coração é um músculo. O dela poderia ter parado em minutos. Agora, como faz um mês da infecção, creio que conseguiremos reverter o quadro rapidamente.
O pai começou a bufar sem parar. Começou a gritar, empurrou a esposa que se esforçava para fazê-lo parar. Marcelo parou o que fazia. Não iria seguir com nada sem a permissão dos pais.
—Ninguém fará nada com ela. – O pai segurou a filha no colo, ela se contorcia de dor e ele nem parecia ligar. No momento em que saiu do quarto, seguiu em direção da entrada. O pessoal escutava e via a cena terrível. O choro da garota ecoava por todos os lugares. – Vamos embora! Não vim aqui para ser atendido por sádicos!
A esposa vinha calmamente, humilhada, envergonhada, parecia menor do que era, o corpo mirrado curvou-se de forma que os longos cabelos morenos caiam sobre a face avermelhada. Ela chorava. Ouviu, então, um baque no chão, acreditava ser a filha que pulou do colo do pai; contudo, viu ser a muleta de um garoto. Tinha cerca de sete anos, com o corpo mais debilitado que o da filha, sentiu uma dor no coração maior, uma dor de mãe, ver uma criança naquela situação.
—O que ele tem? – Ela viu seu marido deixando a filha no banco da praça da frente enquanto foi buscar o carro. Ela disse consigo mesma, só que um pouco alto.
—Poliomielite. – Respondeu a mãe dele, aparentemente. Ela não vinha com um sorriso para o seu lado, porém, não tinha lágrimas. – Não sei se serve de consolo, mas fui assim como eu marido, não tinha crença nas vacinas, não vacinei meu filho, ainda mais que a dele não era nem por agulha, mas a gotinha mesmo. Agora, ele ficou assim... – Ela não dizia com voz de choro por causa de como o filho ficou, mas pelo o erro ter sido seu, somente seu. Ninguém a alertou, era dada a mais sábia de seu nicho, portanto, ninguém a contestava. Só ocorrera isso com seu filho, poderia ter sido com o de uma amiga, até consigo mesmo se sua mãe não tivesse lhe dado as vacinas. – Não deixe isso acontecer com sua filha, é só o que eu digo.
A mulher correu ao marido, que colocava a filha dentro do carro. Gritava, poucos dali conseguiam escutar com clareza as palavras. Ele estava irritado, não concordava. A mulher apontou para trás, os dois viram o menino e a mãe o ajudando. Claro, de forma radical, a forma como as vacinas podem ajuda-los foi mostrada. Ao menos, o pai cedeu.
Rogério correu e ajudou a mulher levar a criança mais uma vez ao posto para tomar a vacina, apenas para amenizar e começar o tratamento. Em seguida, iria direto ao hospital. Aquela pequena situação consumiu cerca de duas horas. Esperaria dar seu horário e partiria para o segundo plantão da noite, no Hospital do Centro. A menina iria antes, um amigo de lá começaria os procedimentos, uma ambulância já a esperava. Tudo parecia correr bem.
—Quando estiver melhor, terá de voltar para cá e tomar todas as vacinas. Melhor prevenir...
—Do que remediar. – Repetiu o pai, em meio a uma espécie de rugido, sem abrir a boca ou revelar os dentes.
Antes de irem, a mãe parou ao lado da mulher e a agradeceu, ela retribuiu com um sorriso e um abraço.
—Precisamos ficar unidas e nos ajudar.
Ela parecia mais revigorada, aliás, tinha uma postura mais poderosa, como se uma pequena visão e poucas palavras a fizesse perder tudo aquilo que temia dentro de seu interior. Depois, fez o mesmo com Rogério e Marcelo, afirmando espera-lo no hospital. A ambulância prosseguiu ao hospital, a mãe acompanhou a filha, o pai seguia com o carro, sem antes encarar os dois médicos com um olhar mais feroz.
—Mais um paciente que não vai olhar para a sua cara?
—Se eu salvar a filha dele, ele pode fazer qualquer careta para mim. – Os dois voltaram para dentro. A criança ainda estava lá, brincava com um jovem de dez anos, mais ou menos. A mãe acabara de pegar um exame, chorava de felicidade. – Ainda estou bobo que, por acaso, Miguel apareceu aqui nesse mesmo horário.
—Conhece o garoto?
—Ele ama ficar aqui, a mãe diz porque o salvamos de uma crise de epilepsia. Desde então, vê a gente como heróis.
—E vocês são! – Gritou ele do outro lado assim que Marcelo o encarou e levantou o dedo polegar, um 'joia'.
—Quem dera alguns pais terem o mesmo que aquela mãe teve, parariam com essa mania de falar que vacina não ajuda em nada. – Rogério e Marcelo saíram juntos, Marcelo de carro, voando para seu segundo turno. – Vai devagar, o hospital não vai sair de lá. – Marcelo foi a pé, colocando seus pensamentos em ordem. Sua casa era próxima. No dia seguinte, completaria um mês de namoro com Miranda, ela estava melhor, lembrava menos do abuso do que antes, estava feliz, assim como ele.
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