Relatos de uma fracassada

9 Capítulo 9 - Solo Sagrado


Notas iniciais
"[...]Não entendi bem o que eu queria dizer com solo sagrado, apenas escrevi, e aquelas palavras me pareciam tão certas. Fiquei com os olhos fixos no poema por um tempo até que adormeci.[...]"

Estávamos na sala de espera, eu minha mãe e meu pai. Enquanto mamãe chorava aflita abraçada com papai, ele também deixava algumas lágrimas caírem. Ela já estava com o rosto inchado, era possível ver claramente os olhos vermelhos, e profundos. Só queria sair dali, ou encontrar um buraco pra me enfiar.

Me levantei e pude ver minha mãe me observar, saí fui até o jardim do hospital sem dizer nada, calada apenas, eu não chorava mas estava com a aparência cansada. Me sentei na grama verde, era um lugar bonito mesmo sendo em um hospital, o que me fez pensar se era ali onde os parentes e amigos iam quando visitavam os pacientes para ficar ali com eles, com tantas árvores verdes e uma em especial com folhas rosadas, que não me lembro o nome, luzes por todo o canto, isso me trouxe um pouco de paz.

Me deitei ali mesmo e comecei a olhar para o céu, a lua estava enorme voltada de nuvens negras. Comecei a me lembrar dos primeiros anos em que vovô foi levado para o asilo.

Eu tinha cinco anos, e mamãe me disse para não ficar assustada e me contou que ele estava tendo alucinações, e então levou uma pancada na cabeça e começou a piorar. Chorei tanto nesse dia, porque passou pela minha cabeça que vovô não iria mais lembrar de mim. Na primeira semana que ele estava no asilo fomos vê-lo, e ele me abraçou tanto, eu o visitava toda semana sem falta.

E aí os anos se passaram, e aos 10, contei a vovô que sofria bullying na escola, e ele me disse que eu iria encontrar as luzes que me guiassem de volta para casa, que nunca era tarde pra se levantar. Na época eu não entendi bem o que ele quis dizer, mas acho que hoje sei o significado da palavra “casa”. Então depois desse dia, só o visitei novamente aos 12 anos, estava sentada numa cadeira ao lado da cama onde vovô estava deitado, e ele me pediu que pegasse uma réplica pequena de um barco que ficava na estante, começou a me contar as suas histórias de marinheiro, e eu passei a tarde toda o ouvindo falar, era tão bom. E antes de hoje, aquele foi o último dia que o vi, porque a parti daquela noite ele começou a piorar, e os médicos aconselharam aos meus pais a não me deixarem mais vê-lo pelo meu próprio bem. Mas aquilo não me fazia bem algum, ninguém quis me ouvir naquela época, foi tão difícil.

Quando voltei para sala de espera pude ver meus pais levantados conversando com o médico que o atendeu, só pude ouvi-lo dizer...

–Sinto muito...

Tudo começou a passar em fleshs, eu vi minha mãe chorar, meu pai abraça-la, e de repente eu estava deitada numa cama de hospital, com minha mãe chorando ao meu lado segurando minha mão, eu estava com minhas roupas, e sem os sapatos que estavam no chão. Meu pai estava assinando uma papelada enorme, e eu perguntei a minha mãe porque eu estava ali, e porque vovô morreu, ela só ficou sem reação e chorou junto comigo, pois como pra mim era difícil perder um avô, para ela era difícil perder um pai. Honestamente era difícil de acreditar. Eu dormi ali mesmo, passavam das 4 horas da madrugada, e quando acordei umas 6 horas da manhã já estava na minha cama, com meu pijama e minha mãe dormindo ao meu lado.

Eu peguei uma folha me sentei na cama cuidadosamente para mamãe não acordar e escrevi um poema.

Solo Sagrado

E mais uma vez
O solo sagrado caiu sobre minha cabeça
Eu poderia esperar mil séculos
Mas nem sempre o tempo cura.

Palavras de misericórdia
Palavras de sabedoria
Eu sei que se eu deitar
Não vou levantar.

Eu poderia chutar o caderno preto
Até todas as suas folhas voarem
Mas estamos em solo sagrado
E aqui as plantações não crescem.

E as estrelas me dizem olá
Mas eu estou de cabeça baixa
Talvez eu não queira ser iluminada.

E mais uma vez
O solo sagrado caiu sobre minha cabeça
Eu poderia sair com facilidade
Mas está me engolindo como a areia movediça.

As quatro paredes podem ouvir
Gritos silenciosos
E ela te apertam
E quebram todas as janelas
Até não haver mais saída
Só que estamos em solo sagrado
E se eu deitar não vou mais levantar.

Não entendi bem o que eu queria dizer com solo sagrado, apenas escrevi, e aquelas palavras me pareciam tão certas. Fiquei com os olhos fixos no poema por um tempo até que adormeci.

Fiquei o resto da semana sem ir à escola, tinha explicado tudo a Aline e ela veio me ver todos os dias. Pedi que não dissesse nada ao Daniel, mesmo tendo feito as pazes com ele, apenas queria que ele me esquecesse por essa semana pra que eu tentasse esquecer ele também. Nesse momento só precisava da minha família e da companhia e Aline.

Notas finais
[...]As quatro paredes podem ouvir Gritos silenciosos E ela te apertam E quebram todas as janelas Até não haver mais saída Só que estamos em solo sagrado E se eu deitar não vou mais levantar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.