Relatos de uma fracassada

5 Capítulo 5- Feridas antigas


Notas iniciais
Deve haver uma luz, uma luz que lhe fará persistir, acredite no bem, não tenha medo do instável, não viva pelas cicatrizes do passado, pense apenas no presente.

Acabamos de chegar da visita da minha irmã, e a cada dia uma melhora, amanhã meus pais vão lá no hospital novamente, mas não vou poder ir. Mas mesmo com minha irmã melhorando estou tão triste, e quase não estou falando com meu pai, só o essencial como oi ou bom dia.

O concurso de poesia foi ótimo, eu não ganhei, mas fiquei em terceiro lugar, e ganhei medalha honrosa, fiquei tão feliz. O garoto que ganhou foi Sam, ele tem traços japoneses, mas nasceu aqui em New Jersey mesmo. O Daniel, a Aline e o Nathaniel estavam lá, foi tão bom vê-los torcer por mim.

–Parabéns! –Daniel disse vindo em minha direção.

–Você veio! Obrigada... –Eu logo disse e ele me deu um abraço.

–NANDA, estou tão feliz por você. –Disse Aline e Nath que estavam atrás de mim.

–Aline...Nathaniel...vocês também vieram!! E aí amiga, está melhor?

–Bem eu vou indo, tenho que treinar, até mais meninas, até mais Nathaniel. –Disse Daniel se retirando.

–Tudo bem, tchau. –Aline e eu respondemos.

–Sim, eu acordei mal na sexta, mas já está tudo bem. Eu achei que você ia vencer, amiga, estou tão orgulhosa!! –Ela disse, me dando um abraço apertado, e eu me senti um pouco sufocada, só que mesmo assim não consegui tirar o sorriso do rosto.

–Ganhando ou não você mereceu, parabéns! –Disse Nathaniel me dando outro abraço.

–Chega de abraços, já estou ficando tonta, mas obrigada gente! Estou muito feliz por vocês terem vindo me ver.

–Eu nunca que iria perder de ver minha amiga realizando o sonho dela. –Disse Aline, eu apenas sorri.

Logo em seguida vieram meus pais me parabenizar, com um abraço em família, odeio abraços em família, mas suplico que esse seja um momento especial para isso. Me despedi de Nath e Aline que estava indo para casa do pai dela. Os pais de Aline são separados, e nos finais de semana ela vai para casa de seu pai. E fui direto para casa com meus pais, que me surpreenderam com um jantar especial, eu fiquei um pouco surpresa com aquilo tudo, mas havia algo estranho, porque eles não fariam um jantar desses só por causa de um concurso de poesia na escola, que eu nem ganhei. E eu não estava enganada em estranhar, eram notícias PÉSSIMO.

Meu pai recebera uma oferta de emprego para trabalhar em Los Angeles, ele é jornalista, e o chamaram para ser editor chefe do jornal local de Los Angeles, só que eu não podia largar a escola agora, não agora, as coisas estavam indo tão bem entre mim e o Daniel, eu finalmente tinha feito novos amigos, a Aline sempre foi a única amiga de verdade que eu tive.

–Filha, você sabe que isso é muito importante para seu pai, e para nosso futuro. –Disse minha mãe tentando me acalmar, mas não do jeito melosa e sim com aquele jeito durona dela.

Eu apenas os fiquei encarando com cara feia, e então meu pai se levanta da mesa não aguentando mais aquela situação.

–E aí vocês vão largar a Mary aqui? –Eu disse me levantando também e completamente tomada pela raiva.

–Nós não vamos larga-la aqui! você sabe que os custos do hospital são caros, e eu não posso mais continuar pagando com o salário que ganho. –Ele disse levantando a voz para mim enquanto minha mãe tentava acalma-lo. Eu só saí correndo aos prantos me trancando no quarto, minha mãe veio logo atrás de mim, mas desistiu e ficou na sala de jantar com meu pai. Eu e meu pai sempre fomos muito próximos, mais do que com minha mãe, e ele nunca levantou a voz pra mim com exceção de hoje à noite, estava tão chateada com aquela situação que resolvi não sair mais do quarto por hoje.

Eu passei o resto da noite trancada no quarto, deitada na minha cama chorando, eu quase liguei para Aline mas eu não queria estragar a noite dela. E então...sem querer fiquei ouvindo a briga entre meus pais.

–Ela está certa Robert, nós não podemos deixar nossas vidas assim, ela ainda não terminou o primeiro semestre. –Disse minha mãe.

–Essa é uma oportunidade única Julia, você sabe disso. –Meu pai respondeu tentando convence-la.

–Eu sei...mas...nós não podemos ir e deixar a Mary...-Ela dizia chorando com a voz fraca.

–Você sabe que podemos leva-la para um hospital por lá.

–Eu...eu não quero ir, vá você! Mas nós não vamos. Eu tenho o meu trabalho aqui, a Amanda tem a escola, os amigos. Robert, Amanda nunca teve amigos, Aline foi a única amiga dela e eu não quero tirar isso de minha filha. –Minha mãe falava e continuava aos prantos.

E eles ficaram em silêncio, a partir daí eu não consegui ouvir mais nada, essa foi a primeira vez que ouço minha mãe chorar, e eu comecei a chorar por ela também.

Estava tão triste que só você poderia me compreender nesse momento. Sabe, e o que ela disse sobre eu não ter amigos, isso é verdade. Eu sofria Bullying na escola, os meus amigos viviam rindo de mim e me excluindo por eu ser um pouco “estranha” na época, não entendo o significado de estranha, eu talvez seja anormal, penso muito nisso quando vou dormir, ou talvez eu só seja um ser incapaz. Os mesmos me apelidavam, puxavam meu cabelo, as vezes tento travar essas lembranças, mas eu acho que não tenho amigos, porque toda vez que conheço alguém me lembro das palavras perversas que me diziam quando eu tinha apenas 5 anos, e isso continuou até os 11. Quando eu tinha 8 anos, Aline começou a estudar comigo e viramos amigas, ela sempre me defendia, mas antes disso eu não tinha ninguém, só o Ted meu ursinho de pelúcia que assim como você me ouvia chorar e podia sentir minha dor sem que eu precisasse explicar. Ainda me lembro das vezes que chegava em casa todos os dias chorando e minha mãe me perguntava o que havia acontecido e eu tentava esconder dela, mas era impossível; mesmo agora, com tudo o que eu passei, as pessoas ainda me chamam de estranha, tento ignora-las mas é como quando você ouve alguém te chamar, você tenta não olhar, só que não consegue. Tento ser forte todos os dias, a cada dia uma cicatriz se fecha, e outras se abrem, Eu não gosto de ter que viver um pesadelo, guardava tantas feridas no coração quando criança que hoje as vezes essas cicatrizes se abrem com tanta frequência que é como se eu não pudesse respirar com tanta dor dentro de mim. As pessoas são tão burras que não conseguem enxergar os sofrimentos que causam, mas nós devemos perdoar, eu sei que é difícil olhar para alguns e não lembrar do sofrimento causado. Só que sem o perdão, não há como seguir em frente. Não acho que alguns fazem o que fazem pelo simples prazer de ver o outro caído no chão de um quarto escuro, pois vai sempre haver bondade no coração de todos, só depende dos olhos de quem vê.

Hoje, domingo, quando chegamos do hospital, meu pai veio falar comigo, e me disse que talvez ele fosse para Los Angeles sozinho, eu só comecei a chorar e ele me acolheu. Eu não queria meu pai tão longe de mim, mas ele disse que não estava nada resolvido ainda, que precisava pensar muito e que tinha dois meses para dar sua decisão, mas que iria aceitar o emprego.

Notas finais
[..]vai sempre haver bondade no coração de todos, só depende dos olhos de quem vê.
Agora só vou poder postar uma vez por semana, talvez na sexta ou nos finais de semana sorry :(
Hope you enjoy :*