Relatos de Uma Repórter Chamada Alice
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Notas iniciais
Quem poderia estar rindo? Eu estava sozinha naquela casa maravilhosa e sinistra.
Eu só podia estar imaginando coisas. Imagine! Uma menininha rindo? Aquilo era ridículo, era... impossível.
Por mais que eu tentasse, eu estava sentindo realmente um pouco de medo. Não me culpe! Por favor! Mas tente você, ficar sozinha em uma casa velha e silenciosa onde já morreu pessoas! E além de tudo ouvindo barulhos!
Então ouvi passos leves e rápidos sobre o chão de madeira. Parecia que alguém estava correndo pelo corredor. Ouvi de novo a risada. O problema é que agora não era a risada de uma pessoa. Era a risada de varias pessoas.
Crianças.
Eles riam convulsivamente.
Eu não sabia o que eu faria na hora: entraria debaixo da cama chorando de medo igual a uma garotinha, ou iria até lá ver o que era, como uma mulher adulta?
Por mais que eu achasse a primeira opção completamente segura, atraente e tentadora, como eu poderia me apresentar como uma repórter depois disso? O que eu diria? Oi, eu sou uma repórter que quando começa as coisas tensas eu fujo igual a uma galinha.
“ Nada disso” pensei comigo mesma “ você é uma repórter, e uma repórter nunca foge da ação.”
As risadas se tornavam mais intensas a cada minuto que se passava. Fui até a porta. Eu estava a centímetros da maçaneta. Eles riam. Eu morria de medo. Eu estava completamente arrepiada.
Girei a maçaneta bem devagar, e abri a porta subitamente.
O corredor estava vazio.
As risadas haviam parado.
Assim que eu abri a porta para ver o que tinha no corredor, as risadas, os passos, tudo sumiu.
Tive que segurar na porta para não cair. Uma tontura veio pelo meu corpo. Eu me sentia realmente mal. Então eu vi uma sombra. Não. Uma sombra não se encaixaria para descrever o que eu vi. Era mais. Era uma luz branca. Irradiava uma sensação de paz e ao mesmo tempo desespero. A luz brincava a minha volta. Parecia que ela estava rindo, não gargalhando com antes, era uma risadinha calma e baixa, quase inaudível.
Então ela desceu as escadas como um jato. Fiquei confusa. Apenas olhava para a escada. Então ela voltou até o começo dos degraus, ficando parada me encarando. Então ela começou a subir e descer a escada. Ela não parava de fazer isso. Então como se aquelas lâmpadas tivessem acendido em cima da minha cabeça, eu entendi o que ela queria. Ela queria que eu a seguisse.
Ela queria me mostrar algo.
Levantei do chão e comecei a seguir aquele pequeno feixe de luz.
Nós descemos as escadas e paramos na sala ela queria dizer algo. Mas o que? Então ela começou a pular sobre o tapete. Era como se ela tivesse tentando tirar o tapete, mas ela não conseguia. Era como se ela estivesse em um plano paralelo ao meu.
Então tirei o tapete. Em baixo dele havia uma porta. Como um alçapão. Estava todo empoeirado. Será que Ana sabia sobre aquele alçapão? O que será que está acontecendo hoje? Definitivamente estou tendo um dia maluco.
Abri o alçapão e neste exato momento a luz sumiu.
Não havia nada.
Eu precisava continuar. Aquela estranha luz havia me levado até aquele lugar por algum motivo e eu precisava descobrir qual. O problema é que eu não era corajosa o bastante para continuar.
Comecei a descer as escadas, que estavam apenas iluminadas pela luz que vinha do cômodo.
O lugar cheirava a mofo, e parecia que ninguém ia até lá havia anos. Havia camadas de pó espalhadas por todos os lados.
Era como um mini-quarto. Não teria mais que cinco metros em cada parede. A parede do lado norte tinha uma prateleiracheia de livros. Fui até lá para ver que tipos de livro eram. Havia várias obras de autores famosos. William Shakespeare, Emily Brontë, Júlio Verne, entre vários outros. Tirei um que me chamou a atenção. Era uma das minhas histórias favoritas: Alice no país das maravilhas. O livro estava todo surrado, como se alguém, tempos atrás, o tivesse lido várias vezes. Soprei a camada de poeira que o cobria e abri a primeira página. Havia uma folha dentro. Nela, estava escrito um parágrafo em uma caligrafia de criança:
Eu adoro esta história, mamãe contava para mim antes que eu e Tyler dormíssemos. Depois que a mamãe se foi e papai se casou, eu tento ir para o país das maravilhas, mas a cada minuto, este lindo país está mais distante de mim. Que sorte tem a Alice.
Quem teria escrito aquilo. Bom, pela lógica, só podia ter sido Elle. Não poderia ter sido a Molly porque a mãe morreu no parto, então... Bem. Elle tentava se fechar em um mundo imaginário onde tudo era maravilhoso. Apenas para fugir da realidade lá fora.
Fechei o livro intrigada e o pus de volta na prateleira.
Fui até o outro lado daquele pequeno ambiente. Havia uma pequena escrivaninha com vários papéis espalhados por cima dela. Abri a gaveta e havia mais papéis. Desenhos, papéis de escola, entre várias outras coisas não interessantes.
Quando eu ia fechar a gaveta eu vi uma aranha. Eu dei um pulo para trás ( porque eu tenho fobia de aranhas). Só depois eu vi o estrago que eu havia feito. No momento em que eu me assustei, a gaveta saiu e caiu no chão fazendo a maior bagunça. Peguei todos os papéis caídos e os pus de volta no lugar. Quando eu fui encaixar a gaveta eu vi dentro do buraco um pequeno caderno. Onde a gaveta deve ser encaixada, tem uma pequena abertura do tamanho certo para caber um caderno.
Este caderno parecia ter uns 15x20cm. Era de capa preta e as várias paginas estavam amareladas pelo tempo. Cada pagina estava preenchida com uma letra pequena e elegante. Era simples, nada além de tinta preta sobre as folhas – que eram – brancas.
- Estranho – eu disse para mim mesma – o que será isso?
Eu podia muito bem ter posto de volta no lugar, mas o que eu fiz foi por a gaveta no lugar e levar o pequeno caderno para cima comigo. Eu já estava cheia de experiências estranhas por hoje. Primeiro a luz sorridente ( foi esse o nome que eu dei para ela ) depois eu acho este caderno.
Fechei tudo como estava e corri para meu quarto.
Ao me sentar na cama eu abri o caderno. A primeira pagina estava em branco, então passei à segunda. Nela estava escrito:
“ 14 de março de 1965
Já faz algum tempo que papai se casou. Eu tive a primeira impressão errada sobre Gabrielle. Ela é um doce de pessoa. Sempre tentando nos deixar felizes. Ontem nós estávamos sentadas no banco que tem no jardim. Ela estava contando das inúmeras viagens que ela fez pelo mundo:
- Então eu fui até Paris – ela disse – lá eu comprei a bolsa mais bonita do mundo.
- Sério? – perguntei – Quando eu crescer eu quero viajar o mundo todo. Como você.
- Você ainda é jovem – ela sorriu – terá muito tempo para isso.
- Gabrielle – eu disse timidamente – eu queria me desculpar pelo modo que eu agi na primeira vez em que nos vimos. Sabe, eu sempre tive medo que você substituísse a mamãe, e o papai esquecesse-se dela.
- Eu amo demais o seu pai – ela disse – por mais que eu ame demais vocês também, eu nunca vou substituir a mãe de vocês. Ela é insubstituível. Eu quero que vocês me tenham como uma amiga. Uma grande amiga.
- Você já é minha grande amiga – eu a abracei.
Então eu vi Molly e Tyler vindo em nossa direção. Ele sorriam e Tyler disse:
- Encontrei as sumidas – ele riu – papai está nos chamando lá na sala de jantar, até que enfim vamos comer! Oi Gabi!
- Oi Tyler.
Então fomos jantar. Depois de um tempo eu, Molly e Tyler estávamos nos acostumando com Gabrielle. Ela mostrou a moça de valor que ela é e o quanto ela é boa. Agora estou indo, Molly estava enchendo o saco de Tyler hoje o dia inteiro para que fossemos ao parque.”
Para tudo. Então este é o diário de Elle? Quer dizer que Gabrielle não é a pessoa má que eu pensei que fosse. Ou, ela pode ter enganado as crianças e ela irá pegar o dinheiro depois. Mas como pegar o dinheiro se ela também tem muito dinheiro? Isto está ficando cada vez mais confuso.
Então ouvi passos no corredor. Pequei o diário e o escondi embaixo do meu colchão. Ana apareceu na porta e olhou sorrindo para mim.
- Vamos almoçar? – ela perguntou.
- Vamos.
Notas finais
Tudo isso e muito mais no próximo capítulo...
Comentem, recomendem e acompanhem.
Beijinhos com carinho
Carlyluna.
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