Relatos Sobre o Homem Esguio
3 Capítulo 3 - Olívia
Notas iniciais
Bueno Brandão amanheceu num ensolarado dia de verão. Não era nem nove horas da manhã e o sol já queimava as principais ruas de paralelepípedo, castigando os pedestres. Da janela do saguão do hotel, enquanto tomava café com Fernanda e Ricardo, observei os habitantes mineiros se locomovendo pelo centro da cidade, protegidos em seus chapelões de palha e sombrinhas floridas.
— Que cidadezinha mais calma. É difícil imaginar que houve um crime por aqui. — comentou Ricardo devorando um pão de queijo.
— Não sabemos ainda se é um crime. — respondi dando uma piscadela. Fernando me olhou atravessada pela insinuação, e procurou mudar o rumo da conversa:
— Até que não seria uma má ideia procurar alguma cachoeira. De dia, é óbvio.
— Que graça teria, amor? — Ricardo acariciou a nuca dela.
— Não começa!
Deslocada entre o casalzinho, fiquei aliviada ao ver meu irmão retornando à mesa. Um senhor magro, de camisa listrada, vinha com ele:
— Pessoal, esse é o Seu Chico. Ele trabalha aqui no hotel, e a mulher dele trabalha de faxineira na pousada em que o casal sumiu. — Jonas apresentou o homem — Ele está disposto a responder nossas perguntas.
— Num sei bem o que os meninos querem, mas posso tentar. — objetou Seu Chico amigavelmente.
— Claro. Sente-se conosco. São apenas algumas dúvidas locais. — tranquilizei o mineiro, convidando-o para acomodar-se na cadeira vaga.
Jonas foi sentar ao meu lado, e foi ele quem começou a entrevista:
— Pode começar nos dizendo como anda a região em questão de... hã... crimes?
Seu Chico pensou um pouco antes de responder:
— Olha, a coisa é bem calma por aqui. Ano passado o irmão do Ronildo, um salafrário daqueles, roubou o cofre da imobiliária que eles tinham em sociedade e sumiu da cidade. Fugiu. Dizem ter ido lá pro lado do Mato Grosso.
— Tá, e fora isso? — Jonas estimulou-o a dizer algo mais “relevante”.
— Moço, Bueno Brandão é uma cidadezinha de nada, como vocês podem ver. Já fui pra capital, pra Belo Horizonte, sei como essas cidades grandes são cheias de gente desconhecida, com más intenções, mas não é o caso aqui não. Quando polícia, bombeiro e investigador apareceram aqui, depois que o rapaz de fora sumiu, ficamos bem assustados.
— Entendo... Me diga mais sobre o caso então. — Jonas estava começando a ficar afoito, sedento por respostas — Essa cachoeira que eles foram, por exemplo.
— Ah, é a Cachoeira das Pedras. Ela fica na divisa entre Bueno Brandão e Munhoz. Se olhar direito no mapa vai ver que ela faz mais parte de lá, do que de cá. Nós aqui na cidade não recomendamos ela pra banho. Foi uma coisa que a polícia veio interrogar para os funcionários da pousada, a que minha mulher trabalha. O casal queria aventura, por isso foi pra lá.
— O que a com essa Cachoeira das Pedras? — perguntei.
— Além de ficar completamente fora de mão, ela faz jus ao nome. Tem muita pedra lisa embaixo, dá pra escorregar e bater a cabeça facinho, facinho. E a queda dela também é violenta, ruim pra ficar debaixo da cascata.
— Interessante. — meu irmão abriu o bloco de notas do celular e fez suas primeiras anotações. — Sua mulher disse como era esse casal? Como eles se portavam?
— Ah, ela disse sim. Bonzinhos, bonzinhos. Pareciam muito apaixonados. É algo que a gente não esquece, porque a polícia e o investigador perguntaram com bastante insistência pros funcionários, como era a relação dos dois. Acho que pra saber se eles tinham brigado ou não.
— Provavelmente. — concordei.
Seu Chico sorriu, simpático.
— Ajudei?
— Sim, muito. — Jonas anuiu, mas ainda não havia terminado. Faltava nossa pergunta padrão a cada investigação — Só mais uma coisa: sobre esse tal homem que a moça disse ter visto, existe algum rumor que ronda a cidade acerca dele? Ou acham que foi invenção dela?
Pela primeira vez, o solícito homem murchou o olhar e abaixou a cabeça. Sua resposta veio depois de quase um minuto:
— Olha, meninos, não é por nada não, mas nós do interior temos nossas crenças. Alguns comentaram pras autoridades sobre isso, mas eles ignoram essa parte, chamando a gente de caipiras supersticiosos.
— Não somos eles. — eu falei trazendo segurança na voz — Estamos abertos as “crenças”. Acredite.
— Então... Tem a história do homem de cabeça branca que vagueia por essas matas. E a mocinha tinha dito que viu um homem de cabeça branca...
— O que esse homem faz? — Jonas e eu estávamos animados. Ricardo sorria, entusiasmado. Fernanda enfiou a cara na xícara de café e fingiu estar alheia a conversa.
— Não sei muita coisa... é um falatório antigo. Quando era garoto diziam que ele sumia com quem via ele. Sendo sincero, sempre tive medo disso e não ficava pra ouvir o resto da história da boca de quem conhecia detalhes. Sinto muito.
— Quem pode nos fornecer maiores detalhes? — Jonas quis saber.
— Em Munhoz eles são capazes de saberem mais, tem mais relatos pro lado de lá. Por aqui só os mais velhos acreditam, e eles tentam não remexer num assunto sem necessidade.
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