Relatos De Uma Jovem Desocupada
2 Opa querida... Resolveu pensar?
Notas iniciais

E lá estava eu, acordando para o inferno que eu chamo de vida, mas fazer o que? As férias acabaram e eu prefiro muito mais o colégio que ficar em casa ouvindo minha mãe reclamar da vida, minha irmã me xingando, meu pai ausente, é essa é minha vida, não tenho muitas escolhas.
Eu tinha dezesseis anos e fui me tocar disso naquela manhã, veja só, até ontem eu era a novata do sétimo ano da escola, inocente... Aí que saudade dessa época, soltei um riso de canto e me levantei da cama, logo eu termino o segundo colegial, depois o terceiro e minha tão sonhada faculdade de Direito.
– Caralho! Perdi muito tempo viajando — Corri pro chuveiro e tomei um banho, era o primeiro dia de aula e eu não iria de qualquer jeito, não que eu seja aquele tipo que se arruma todo dia, meu amigo, eu acordo, visto o uniforme, passo a escova no cabelo e vou pra merda da escola, mas como disse, esse é o primeiro dia de aula do penúltimo ano em que eu tenho pra ser irresponsável, então, vamos embora porque não ta fácil.
Terminei meu banho, e vesti uma calça jeans normal sem muitos detalhes e uma blusa preta, de alça fina e que deixa uma pequena parte de minha barriga aparecendo por ser meio que aberta, eu não sei explicar. Escovei os dentes e penteie o cabelo deixando ele solto mesmo, passei um rímel nos olhos e um batom meio que marrom claro mate, aquilo estava ótimo pra um primeiro dia de aula. Calcei meu vans, passei o desodorante e meu típico perfume que eu amo por ter um cheiro forte, mas não daquele jeito: Ta na cara que passei perfume. Forte do tipo marcante, que deixa claro que eu estou ali. Peguei minha mochila de ombro na qual tinha arrumado ontem e parte da mesada que eu recebi dessas férias e juntei, coloquei na bolsa e desci as escadas.
– Ninguém acordado. Ótimo — Abri a geladeira peguei um suco de caixinha e tomei, deixei na pia e fui andando e ouvindo música pro colégio.
Não era tão perto assim, mais eu gostava de acordar mais cedo e ir andando, pelo simples prazer de caminhar um pouco, reparar nas pessoas ao redor, pensar e refletir sobre minha vida, que mesmo sendo uma merda, eu ainda gosto dela.
Vendo as pessoas andarem apressadas pra lá e pra cá me faz querer rir, porque elas não percebem que só corremos pra não perder tempo. Quando paramos de correr, percebemos os bons momentos da vida que perdermos correndo, a chance de ajudar alguém que perdemos por estar atrasado, o barulho do vento e da chuva quando a eletricidade caí... Costumo pensar sobre tudo isso, sobre o mundo e como ele seria bem melhor se andássemos calmamente, sem pressa, se parássemos para apreciarmos os momentos bons da vida.
Cheguei ao colégio e me senti confortável ao ver que quase ninguém usava uniforme, na primeira semana de aula normalmente é assim, não tem necessidade de uniforme, mas vai saber que um dia todo mundo resolve vir de uniforme por preguiça de escolher outra roupa e só eu apareço de qualquer roupa aqui? O que foi, eu tenho uma reputação a zelar!
O sinal não havia batido ainda e aproveitei pra ver em que sala eu caí, fui até o mural com a lista das turmas e olhei no segundo ano do colegial. Eu havia caído no 2° E.
Todo ano é o mesmo horário se permanecermos na mesma sala, o colégio se adapta assim, quando percebem que um aluno não está indo bem ou é muito briguento, o trocam de sala no próximo ano. Meu colégio é consideravelmente grande, todas as turmas vão de A á F, ou seja, seis turmas de cada ano/série, por isso, têm aulas que são dadas juntas, com três salas na quadra, normalmente Educação Física, Música, Espanhol... Matérias a parte que são fáceis.
O bom de ter caído no E, foi que fiquei mais próxima dos meus conhecidos, antes eu era do B, até que no nono ano, me colocaram no E, minha sorte é que 60% dos meus amigos também foram transferidos pro E, ainda de que as aulas que tínhamos juntos de outras salas, eram a salas D e F, nas quais eu tinha mais conhecidos. Então foi uma boa mudança pra mim.
Sentei-me numa mesa qualquer do enorme pátio da unidade Maracanã do Colégio São Luiz de Gonzaga esperando algum dos meus amigos chegarem, fechei os olhos ouvindo Piloto Automático — Supercombo.
Não demorou muito, até que um deles chegou e me cutucou.
– Morreu — Falou com a voz divertida, abri os olhos me deparando com Gustavo ou como prefiro chamá-lo, Gusta.
– Desculpa, não vai ser hoje que seu sonho se realizará — Respondi rindo e olhei mais atenta para Gusta, ele era um dos meus amigos de longa duração desse colégio, até que não era feio, seus olhos castanhos comuns, o típico cabelo preto cortado naquele estilo de modinha de menino americano que toda garota baba (topete meio moicano) bagunçado, a pele meio amorenada e o típico sorriso perfeito que todo cafajeste tem e exato ele era cafajeste, vagabundo, safado, mais era o meu amigo.
– Desculpa moça bonita — Respondeu rindo e se jogando na mesa ao meu lado, ri também, por lembrar quantas vezes à gente já fez isso naquele pátio, rir não é simplesmente a melhor sensação do mundo? Dá-te uma leveza estranha, sensação de extrema felicidade temporária, ás vezes rimos por coisas tão bobas...
– E aí, o que fez das férias? — O olhei tirando de vez os fones de ouvido e guardando o celular
– Ah, o que eu sempre fiz: sair, viajar, pegar todo mundo, enfim, eu curti e você loira tingida? — Me chamou pelo meu apelido e dei a língua pra ele, deixa meu cabelo e daí se é tingido? Pelo menos é bonito, cansei do preto típico
– O de sempre também, ler, ver séries, sair ás vezes, refletir sobre a vida e me divertir do meu jeito... — Dei de ombros, já viajando outra vez e olhando o teto
– Meu Deus, eu preciso te apresentar uma coisa chamada vida sexual ativa, vodka e festa, me lembra disso? — Olhou pra mim e rio de canto
– Besta você sabe que eu conheço tudo isso, mas não posso ter paz nem nas minhas férias? Querido, dinheiro não caí do céu pra eu ficar indo em balada, ta? Beijo — Falei a última parte do meu típico jeitinho, que eu não sei explicar, mas nunca vi alguém falar de forma parecida.
– Não caí do céu, mas caí das mãos dos seus pais, qual é Manda, todo mundo sabe que seu pai é um jornalista famoso, aliás, o vemos na televisão todo santo dia e sua mãe é uma escritora renomada. Dizer que você tem uma vida média é exagero, você não estuda numa Mackenzie da vida porque não quer — Ele falou e arrancou a toca da minha cabeça
– Não quero e é mais difícil que o capeta, desculpa se eu não quero ter a cabeça enfiada em livros o tempo inteiro e gosto de aproveitar a vida — Revirei os olhos e tentei pegar minha toca de volta, consegui e depois daquilo ficamos conversando assunto banais até os outros chegarem, de fato eu havia chegado cedo de mais na escola, não sei se pelo fato que eu acordei cinco da manhã ou porque hoje o tempo resolveu ser eterno, mas eu havia chegado na escola seis e vinte, Gusta chegou seis e quarenta e o resto do pessoal começou a chegar lá pras sete horas, ou faltando pouco pra bater o sinal, e por isso não deu tempo de conversar com todos. Mas pra isso temos o recreio que em vez de durar apenas 20 minutos, dura quase uma aula inteira.
Meu ciclo de amizade não é tão pequeno, por enquanto da minha sala, existe a Ana Clara, a Cá, o Fê, o Mateus, a Bárbara, o Vitor, a Endy e o Gusta. No 2°D tem o Caio, a Giovanna, o João, a Duda e o Lucas. Já no 2°F temos o Gabriel, a Cris, a Lola, a Juhba, o Leo, o Kleber, o Pedro, a Bruna, a Bia, o Henrique e a Vivian.
Eles são os meus melhores amigos, apesar de alguns serem mais próximos que outros, mas no final todos gostamos da companhia do outro. Mas pra quê continuar falando sobre isso mesmo? Porque eu não tenho nada pra falar numa aula de Física chata. Deitei a cabeça na mesa e suspirei disposta a dormir.
Fechei os olhos no exato momento em que um papelzinho foi jogado na minha cabeça. Abri os olhos novamente e abri o papel, lendo o que estava escrito:
Tiago resolveu inaugurar o ano com uma festa na casa dele. Topa? Tudo de graça, é aniversário dele.– Endy
Olhei a minha amiga que me olhava esperando uma resposta mesmo que com o sorriso estampado no rosto.
Claro, por que não iria? Ta achando que eu sou quem?
Escrevi no papel e joguei de volta pra ela, nesse mesmo instante eu ouvi o sinal tocar e se acabava a segunda aula, agora apenas mais um período e eu estava livre, essa aula que seria agora, é História.
O professor iniciou falando sobre os espartanos, eu boiei sim, mas resolvi deixar quieto, já sabia o motivo pelo que ele falará aquilo, meu irmão fez prova pra entrar na faculdade de História, e caiu muito, por causa de novas descobertas que fizeram sobre esse povo.
– Professor, com licença, mas não iríamos falar de Iluminismo? — Pergunto Alexia, uma garota qualquer da sala que eu nem conhecia
– Íamos sim, porém como é o primeiro dia de aula, eu resolvi pegar leve com vocês — Respondeu o professor omitindo o fato
– Mas eu quero aprender o assunto da aula, não coisa que eu já aprendi milhares de anos atrás — Reclamou irritada, Mariana, uma garota até que legal da sala, mas ela é muito focada nas aulas que gosta e isso chega a ser irritante.
– Garota se fecha vai, você não ta vendo que ta explicando o assunto porque andaram fazendo mais descobertas sobre esse povo e é provável que caía de redação no Enem? Se toca, vai estudar que nem isso você anda fazendo direito — Respondi com a maioria da sala olhando pra mim, nem liguei, não costumavam bater de frente com ela, por ela ser amiga da maioria ali, mas amiga de conhecida mesmo, ela não se apegava a ninguém, era apenas pra ser simpática.
– Olha querida, me desculpa se você não sabe respeitar opinião própria aqui, se o professor quisesse me repreender, ele repreenderia não uma patricinha qualquer que quer cuidar da vida que não é dela — Ela respondeu e pela primeira vez, batiam de frente comigo, nunca faziam isso, eu sempre tinha a razão
– Opa lá, se você acha que pode vir aqui e tentar provar que eu estou errada, a vontade, não precisa me matar com palavras — Revirei os olhos e me concentrei no caderno — Ah, e outra, patricinha é tua cara, porque se eu fosse patricinha, você seria o que? Um projeto de garota que banca a psicóloga quando tem mais problemas que as pessoas que ela tenta resolver? A me poupe.
– Nunca falei que você estava errada, falei que eu expressei minha opinião sobre algo e que você não devia se intrometer onde não é chamada — Ela respondeu calmamente como se não estivesse nem ligando, sendo que estava alterada antes — Acho que você não devia falar que quem tem problemas sou eu, quando você está se tornando um projeto daquilo que sempre abominou.
Pode não parecer verdade, mas ela me conhece, mas que devia, ela já foi minha amiga, nós sabemos os problemas uma da outra, porém não é mais, no momento em que ela se afastou de mim por achar que acabaria se afetando de mais, não era mais minha amiga, mas nem por isso saí espalhando os problemas dela e foi nessa discussão que eu toquei na ferida dela e ela tocou a minha. Abaixei a cabeça e fiquei quieta o resto da aula, enquanto o professor continuava a falar dos Espartanos.
Até que chegou à hora do intervalo e eu permaneci na aula, eu não queria falar com ninguém, eles iriam me encher de perguntas que eu não estava a fim de responder, ou se tinha medo de perdê-los se eu contasse então eu fiquei ali. Até bater o sinal da saída pra mim ir pra casa.
E foi aí que percebi, que o dia em que eu mais devia estar alegre, se tornou o dia em que eu resolvi não sorrir.
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