Relatos De Uma Ex-sobrevivente
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sugiro ouvirem SkyFalls da Adele, mas talvez outras músicas combinem mais. Links:
https://www.youtube.com/watch?v=DeumyOzKqgI
Boa Leitura ^-^
Era cedo de manhã, a luz do sol transparecia levemente sobre as cortinas brancas entreabertas cegando minha visão. Levantei-me aos poucos até que finalmente consegui sentar-me na beira da cama com o sedoso lençol ainda me cobrindo. A cortina parecia esconder algo cinza como a fumaça e o medo me tomou por completa e a única coisa que me veio à cabeça era sair logo dali e achar alguém para dar-me respostas.
Levantei-me e deparei-me com uma cena pior ainda. Minhas pernas, minhas adoráveis pernas estavam cobertas por uma fuligem extremamente negra e ferimentos ainda abertos que jorravam um sangue vivo e sujo. Eu nunca estive em uma situação igual, nunca tive um ferimento que passava de um joelho ralado ou um dedo perfurado por um espinho de uma rosa; aquilo era incomparável com o que já passei. Olhei com emergência ao meu redor atrás de qualquer coisa que pudesse estancar o sangue de minhas pernas.
Havia dos mais variados itens espalhados pela minha cama de casal, desde grãos de feijão até desodorantes. Entre vários itens obsoletos encontrei uma seringa vazia com uma etiqueta pregada em que havia escrito ‘anestesia’. Perguntei-me o porquê de ela estar vazia até que percebi que não sentia dor em minhas pernas arrasadas, então possivelmente o líquido da seringa já estava espalhado por minhas veias.
Procurei, procurei e procurei, porém não encontrei nada além de resto minúsculos de gaze e alguns pedaços de esparadrapos que não tinham mais cola, nesse momento vi que não tinha mais opções e a única forma de sair dali seria do jeito que estava.
Meus pés sovam temerosos em tocar o chão frio do quarto, e ficaram muito piores quando tiveram que sustentar meu corpo. Minha cabeça latejou um pouco, e perdi meu equilíbrio logo nos primeiros segundo em pé e tive de me apoiar às mãos em um ventilador que caiu com meu peso, levando-me junta.
Minha visão ficou turva, e a ligeira concentração que tinha se fora. Sem motivações não vi motivos para sair do chão, até que a ouvi. A voz maravilhosa e estonteante de minha irmã, uma cantora mirim, estava agora em um puro som de temor e calamidade, um grito. Aquele único grito fez meus sentidos voltarem à tona, e ignorando a dor dos anestésicos que surtiam mais efeito sobre a minha pele, levantei-me apoiando minhas mãos na cama.
Minha visão começou se tonar mais clara e logo localizei a porta meu próprio quarto com furos de bala realmente assombrosos, mas logo o grito de minha irmã repetiu-se em minha cabeça e acordei de meu pesadelo interior. A maçaneta estava lisa e coberta por um liquido avermelhado o que retardou minha busca.
A porta quando aberta minha mostrou uma surpresa – um pesadelo, na verdade — escondido. Sangue e corpos mortos espalhavam-se até o fim do corredor, mas aquela não era a pior parte. Entre eles havia brinquedos de crianças, chupetas de bebês e anéis de compromisso, um verdadeiro corredor de sonhos destruídos e fins nunca desejados.
Andei até o fim do corredor sem tirar os meus pés nus do chão, com medo de tropeçar, já que minha visão já estava turva novamente, mas agora por lágrimas. Enquanto andava minha bata hospitalar prendeu-se em um pedaço de arame farpado que de alguma havia parado ali dentro do hospital.
No final do corredor hesitei em descer as escadas, mas me lembrei do motivo pelo qual estava ali, e desci o mais rápido que pude, sem evitar pisar em objetos que maltratavam meus pés, como seringas, pregos, vidros quebrados e agulhas.
No final de escada, eu finalmente a avistei. Estava vestida com um vestido branco que nosso pai a deu de aniversário, porém ele estava bem o, com algumas manchas vermelhas. Seus cabelos loiros cacheados voavam para trás pelo vento.
Não aguentei a emoção e corri, ignorando a dor dos destroços afiados e das minhas pernas arrasadas, até ela o mais rápido que pude. Assim que cheguei a ela abracei-a por trás o mais apertado que pude como se fosse nosso último momento juntas. Esperei ela virar e retribuir-me o abraço, mas ela apenas continuou parada olhando para fora, uma ação um tanto quanto estranha.
— O que foi? – perguntei, ainda com os braços ao seu redor e meus olhos fechados.
— Você acredita no amanhã? – respondeu com uma voz automática.
— Por que isso importa? – repliquei.
— Porque você não vê o que vejo, e não sente o que sinto.
E pela primeira vez olhei para o que ela via.
Assombroso, aterrorizante e medonho não seriam palavras suficientemente fortes para descrever o que via e o que sentia. O que pensava que era uma janela, na verdade era toda a face do prédio do hospital que caíra. Todos os prédios ao nosso redor não existiam mais e sobravam apenas pequenos restos que não passavam de um andar, e mesmo assim estavam totalmente alagados por uma água negra e rubra. Todo o céu parecia contaminado por uma fuligem negra que caía aos poucos em pedaços minúsculos similares a restos de papéis. Até o horizonte tudo estava extremamente catastrófico, e era realmente um mistério o porquê de nós sobrevivermos. Naquele momento realmente nossa existência era um mistério.
— Lá embaixo todos os corpos de nossos conhecidos navegam sobre as águas poluídas pela explosão – disse fria.
Eu não podia responder, eu não podia pensar, não podia raciocinar. Tudo era verdade, mas eu era teimosa demais para admitir isso. Que nosso fim está próximo.
— Por favor, me abrace – sussurrei.
Ela abraçou-me com toda a sua intensidade. Podia sentir suas lágrimas quentes espalharem-se pelo meu ombro, e imaginava que ela sentia o mesmo. Meus ouvidos ouviam seu coração e os ruídos das paredes que declaravam o fim de tudo.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
E nos abraçamos até que a existência deixou nossos corpos.
Fale com o autor