Relatos De Um Assassino
1 Capítulo 1 - Vício
Já se passavam das onze horas da noite, o sol já havia deixado de raiar a muito tempo e agora dava espaço para as nuvens que vinham acompanhadas com fortes rajadas de vento.
A infinita escuridão do céu preenchia a minha vista. Armava-se uma enorme tempestade. O vento balançava as folhas das árvores irregularmente, jogando-as a metros de distância, em enorme quantidade, assim, elas praticamente revestiam as calçadas em todas as direções, tomando também boa parte do asfalto. Os raios iluminavam o interior das nuvens negras revelando a intensidade de tons escuros e exaltando sua aterrorizante imensidão. Os trovões gritavam com força, cada vez mais alto, produzindo uma incrível e admirável orquestra incessante. Lembranças recentes ocupavam a minha mente, e eu insistia em recordá-las nos mínimos detalhes possíveis, os flashes surgiam em questão de segundos e faziam-se presentes dentro de minha cabeça com tanta perfeição e realismo, que podia as ver com clareza quase palpável, como se eu estivesse as presenciando novamente, sentido e apreciando cada momento.
O cômodo estaria totalmente escuro, se não fosse pela luz da lua cheia que entrava pela janela, revelando o aposento e possibilitando assim, ver parte da sala. O tapete estava manchado com pequenas gotas de sangue, o suporte da mesa-de-centro estava estirado em um canto, enquanto o vidro que antes repousava sobre o suporte estava estraçalhado e seus pequenos e afiados cacos espalhavam-se pelo corredor que ligava-se ao aposento. Entre a televisão e o tapete, numa distância de quatro metros que os separava, estava Tália Singh, deitada inerte sob o chão empoeirado e duro. Sangue escorria de seu pescoço com intensidade e seguia as pequenas valetas que separavam as madeiras do piso, formando uma imensa trilha sinuosa, irregular e brilhante de um vermelho vívido, que conforme o ângulo, refletia a luz da lua que entrava pela janela.
Seu corpo ainda se mexia com pequenos espasmos involuntários, fazendo assim, seu cabelo balançar suavemente como se estivesse ao sabor do vento, revelando em sua face nada além de ódio e desprezo. Prazer em meus olhos ao vê-la chorar e música para meus ouvidos o som de seus estridentes gritos.
Ela tinha uma beleza incomum, seus cabelos negros e reluzentes como petróleo, seus lábios espessos cor de mel e sua pele branca e delicada a tornavam única, como jamais havia visto antes.
Passado alguns segundos, os músculos de Tália relaxaram e sua expressão facial desapareceu, seus olhos se fecharam e ela permaneceu imóvel. Meu ego estava preenchido e meu ódio estava maior, minha sede era insaciável e minha ira contagiante. Eu estava bem, sentia-me vivo, como jamais estivera antes, mas algo dentro de minha mente me incomodava.
Desde a infância, sempre repudiei os atos de meu pai, mas nunca havia imaginado que seguiria seus passos. Eu estava atordoado e entre as sensações de prazer por ter matado Tália, sentia junto uma sensação de desprezo por mim mesmo. Eu não queria me tornar uma pessoa como Bryce.
Assim, procurando esquecer tudo, desde as recordações de Tália assim como os pensamentos que me afligiam, decidi contar cada passo que eu dava pelas calçadas de Londres, mera distração para ocupar a mente e evitar meus pensamentos que já estavam me deixando atordoado. Segurei a minha maleta mais forte ao ver passar uma viatura policial. Era meu primeiro assassinato, não poderia errar logo no início e estes atos não me permitiriam errar uma vez sequer. Aos poucos fui aproximando-me de minha casa, os gritos permaneciam ecoando em minha mente e eu sorria ao ouvi-los, um por um, pois de alguma estranha maneira eles pareciam me fazer bem.
Já perdendo a conta dos passos que havia dado, parei em frente ao meu prédio, no momento em que milhares de gotas começavam a despencar ruidosamente do céu. Abri a porta e esperei no hall pelo elevador. No momento em que as portas estavam se fechando pude ver Sarah Harvey, a moradora do 19º andar correndo em minha direção, prontamente, apertei o botão que impedia as portas de se fecharem para que ela pudesse entrar. Sarah sorriu ao passar por mim e eu pude sentir o cheiro de seu perfume. Ela tinha uma beleza peculiar, muito mais bonita que Tália, seus longos cabelos cor de ouro e seus profundos e inquietos olhos verdes eram acompanhados de um indescritível sorriso, cujos lábios levemente curvavam-se numa perfeição simétrica. Não era a primeira vez que eu a via, e esperava também, que não fosse a última.
- Obrigada! — disse ela ainda ofegante apertando o botão referente ao 19º andar.
- Disponha. Que hora ruim para chover hein? — falei tentando manter a conversa para poder continuar ouvindo o som calmante de sua voz.
- Verdade! Mas o tempo já estava se armando desde ontem.
- É, em Londres o tempo se arma todo dia.
Ela olhou para mim e começou a rir, o sorriso dela havia me deixado sem movimentos e eu teria permanecido assim por um longo tempo, mas o elevador havia chegado ao meu andar e assim, tive que me despedir de Sarah.
Abri a porta do meu apartamento e aproximei-me da janela contemplando a tempestade, sentei-me no sofá e abri minha maleta. Recordando minha vida, ao longo de meus 36 anos já havia visto de quase tudo, já havia adquirido muitos bens e muito conhecimento... meu vício era recente, não era e nunca foi meu plano me tornar isso.
Peguei a faca no cabo e olhei para o sangue que já estava seco, fiquei por alguns instantes parado, olhando através do vidro e meditando ao som dos fenômenos naturais que estavam ocorrendo em conjunto lá fora, assim, mudando o foco da visão, observei uma gota deslizar lentamente sobre a lisa superfície do vidro e disse, para mim mesmo, relutante mas ao mesmo tempo satisfeito:
- Não sei no que eu me tornei, apenas sei que eu gosto...
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