Notas iniciais
Hey pessoal. Eu vou ser bem breve.
Espero que gostem dessa oneshot, e que de alguma forma eu possa te comover, e até conscientizar sobre o assunto. Acompanhe James nesse relato, e se comova com sua história de vida.
Boa leitura.

“Eu, James, faço este relato do meu inferno. Talvez, você que está escutando isso ache que as pessoas não tem sentimento. Mas elas tem. Muita gente é magro demais, ou gordo demais, ou estranho... e quando você tira uma piada, por mais inofensiva que pareça, ela machuca.
Esse é o meu problema; quando eu tinha 9 anos comecei a desenvolver anorexia. Eu era julgado, e todos tiravam piada comigo. Eu tentava superar isso, sabe? Mas, independentemente de eu tentar mudar e ser uma pessoa normal, todos sempre me lembravam quem eu era. Um magro, desidratado, saco de ossos, até me comparam com aquelas crianças da África. O que eles não sabiam, era que eu não deixava de comer simplesmente para fazer pirraça. Eu estava doente, e eu precisava de ajuda.
Pelo bem da minha sanidade decidi me alimentar, aceitar que estava ficando magro demais, e que eu não era a pessoa gorda que via quando me olhava no espelho. De certa forma, quem me fez ver isso, foi justamente aqueles que riam de mim. Eu tomei remédios para ganhar peso. Pois é, depois de deixar de comer para ser magro, naquela fase comecei a fazer de tudo para engordar. E, era um fato estranho, porque... eu comecei a comer muito e não me preocupar com o meu peso. Disseram que eu tinha depressão severa, e que isso causou a minha compulsão alimentar. Eu nunca acreditei nisso. Acabou que, depois de tantas piadas sobre minha magreza, comecei a receber comentários sobre minha gordura.
O tempo foi passando e tudo só piorou. Eu encontrava calma na comida. Quando os garotos grandões da escola me batiam, ou faziam cuecão em mim, o único jeito de eu me acalmar era colocando todas as comidas que via pela frente na minha boca. Sabe, o gosto era bom... eu me sentia completo, como se aquilo fosse a única coisa que pudesse me deixar relaxado. Era a minha droga.
Um dia, na escola, aquela menina que eu gostava me olhou e sorriu. Eu sorri de volta, abobado. Ela se levantou do banco e caminhou até mim. Ela me enganou direitinho. Disse que me observava há algum tempo, e que estava tomando coragem para me chamar para sair. Nós marcamos de nos encontrar na porta do banheiro masculino depois da aula.
Assim que o sinal tocou, eu saí correndo para encontra-la, e lá estava ela, sorrindo para mim. Fui um tolo. Assim que me aproximei, os caras que sempre me batiam saíram do banheiro masculino. De começo pensei que fosse só uma coincidência, mas a ilusão acabou quando ela começou a rir, enquanto os meninos me levavam para dentro do banheiro. Primeiro eles me espancaram. O mais alto me deu um soco no tórax, enquanto os outros dois me seguravam. Eles trocaram de posição e os outros dois que antes me seguravam, deram murros em meu rosto. A dor era tremenda, eu ainda tenho cicatrizes daquele dia. A menina se aproximou, aquela que eu amava. Ela deu um chute no meu órgão genital, doeu tanto que eu senti um líquido sair. Talvez fosse sangue, talvez fosse urina. Eu só sei que eles começaram a rir. Riam e me batiam repetidas vezes... me jogavam no chão e aproveitavam da minha fragilidade para dar murros e chutes no meu rosto. Eu podia sentir o sangue saindo pelo meu nariz e boca. Fora os machucados que se alastravam por todo o meu corpo.
Minha visão já estava turva e eu só sentia a dor em todas as minhas entranhas. Não sei quem me arrastou até uma das cabines onde ficavam os sanitários, só vi quando enfiaram minha cabeça dentro daquele lugar imundo. Eu lutava para não engolir aquela água, mas foi em vão. Estava muito fraco e fui pego de surpresa. Eu engoli algo daquela água. Meu estômago tinha começado a revirar de nojo, foi quando aquela vontade de vomitar veio... eu tentei, juro que tentei me segurar, mas não consegui. Abri minha boca e vomitei ali dentro, acidentalmente bebendo mais água do sanitário, só que dessa vez com meu próprio vomito. Isso deve ter durado um 10 segundos. Eu escutei quando alguém disse que já estava bom, ou aquilo iria me matar. Antes de me soltarem a menina puxou minha cueca com força, fazendo arder. Todos repetiram o movimento, cada vez mais forte. Eles me deixaram jogado no chão, e antes de sair cada um me deu um chute na costela. A dor que eu sentia era tão forte, que eu só chorei e desmaiei.
Acordei no dia seguinte no hospital. Fiquei um mês longe da escola, e da civilização. Me chame de burro, ou de qualquer coisa, mas não tive coragem de dizer pra ninguém quem tinha me agredido. Eu tinha medo deles voltarem e repetirem todo o processo. Por isso me calei, e inventei que não tinha visto a cara de nenhum dos agressores.
Nesse meio tempo que eu fiquei em casa, conheci minha nova melhor amiga: a navalha. Eu tinha desencadeado uma série de cortes, e tinha mania de dar nome para eles. Não pense que eu abandonei minha compulsão alimentar! Claro que não. Ela continuava comigo, e o meu peso só subia. Certa vez eu quebrei a balança da minha mãe. Ela não aguentou meu peso e trincou. Minha mãe brigou comigo. Disse que eu era um gordo imprestável e que só servia para acabar com as coisas que ela dava duro para comprar depois que o papai morreu. Mais um corte para a coleção.
Foi assim toda a minha vida.
Agora eu tenho 16 anos, era para eu fazer 17 na próxima semana, porém, não acredito que vou durar até lá. Eu talvez não tenha contado no começo do meu relato, mas, acabei de tomar uma caixa de comprimidos fortes. Por isso a minha voz... São os remédios fazendo efeito. Provavelmente, daqui a pouco morrerei de overdose. Mas saibam que eu estou feliz.
Finalmente toda aquela dor vai acabar. Finalmente vou poder ficar em paz, em Deus, sabe — se lá aonde. Muitas pessoas não veem comoção no suicido, mas o ponto é que, eu não quero que vocês se comovam com a minha história. Eu só quero que saibam que, eu cansei. É rapazes, mãe, meu primeiro amor... eu estou cansado. Cansado de todos vocês.
Não quero mais aquela ladainha que meus amigos virtuais falam. “Seja forte, estamos aqui para você” ou então “A morte não resolve nada”, bem, se essa mensagem chegar até vocês, quero que saibam que eu sou muito grato. De verdade! Mas a minha hora chegou. Infelizmente, vocês não estão aqui comigo, para me abraçar e me dar apoio. Às vezes, é preciso mais do que palavras para acolher alguém, e vocês estão à milhões de quilômetros de mim. Só que eu amo vocês.”
James fungou e lutou para ficar acordado, os remédios tomavam conta dele, o matando lentamente. Ele já suava frio, e já estava preparado para morrer.
“Acredito que agora seria aquele momento em que eu rezo para Deus guardar minha pobre alma e me perdoar pelo que estou fazendo. Porém, eu não tenho medo de ir para o inferno... eu tenho medo de viver, de continuar nessa vida de merda. Todos temos os nossos medos. Meu pai costumava me levar para a igreja, e eu costumava pedir para Deus me ajudar a passar por todos os meus problemas. Na mesma tarde, depois de uma missa, fui agredido na esquina de casa. Perdi toda a minha crença. Era como se nada fizesse mais sentido, eu sempre seria o gordo imprestável na minha vida. Você deve se perguntar: por que ele não revida? Eu te respondo: a vida é uma hierarquia. Tem os mais poderosos, os mais ou menos, e os subalternos. Eu faço parte dos subalternos. Aqueles que não podem revidar porque são fracos, porque tem medo dos poderosos, aqueles que vivem em constante ameaça. Se eu revidar, vou pagar em dobro. Essa é a verdade.
Eu já não tenho muito o que falar. A única coisa que posso dizer é que, eu perdoo todos vocês que me agrediram, tiraram sarro de mim, me humilharam e fizeram tantas outras coisas. Não quero que ninguém se sinta culpado, afinal, essa é uma escolha minha e como já disse: estou feliz. É estranho não saber o que vai ser daqui pra frente, não saber se alguém vai ouvir isso, se alguém vai se importar com isso.

Bem, obrigada por me escutarem até aqui. Acho que isso é um Adeus, porque eu não consigo mais manter meus olhos abertos. Espero que no céu, ou no inferno, ou em qualquer canto que eu esteja indo, me façam ser uma pessoa normal, sem ser gordo ou feio. E que sejam todos semelhantes à mim, assim o bullying vai ser finalmente aniquilado, e todos poderemos ser felizes.
Amigos, foi um prazer compartilhar o meu pequeno relato do inferno.”
James esperou um pouco. Seu corpo era preenchido por calafrios, estava próximo. Ele podia sentir seu corpo o avisando. Esticou a mão para a escrivaninha e pegou uma pequena caixinha verde. Lá dentro tinha todas as suas navalhas. Ele pegou a mais afiada e fez um caminho até o pulso, o último corte. James tinha visto em filmes que o corte vertical matava. Um corte vertical, profundo o suficiente para fazê-lo acelerar o processo. Foi isso que ele fez.
James soltou um grito agudo, e mordeu o lábio. Deitou na cama sentindo o sangue jorrar de seu pulso. Ele se permitiu sorrir e deu o nome para o seu último corte. Pena que não foi ouvido para o gravador que ainda gravava os últimos minutos de James. Seja lá qual foi o nome que ele tinha dado, havia morrido com ele.

Notas finais
:'( Estou triste. Espero que tenham gostado do final deste relato.
Quem se identificou, ou conhece alguém com os problemas de James, eu ficarei mais do que feliz em ouvi-los e se eu puder, ajuda-los. Então me digam se gostaram, me conte suas histórias (brevemente, pfvr. hahahaha) Me digam se eu preciso melhorar em algo, estou aberta a sugestões e a críticas construtivas.
Até a próxima. Xoxo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!