A pedra verde no anel de Diaspro não parava de brilhar intensamente naquele beco escuro. Ele olhava para Henrique, que parecia avaliar as pessoas que passavam, querendo se prevenir de um ataque surpresa. Henrique, apenas estava se certificando que encontrassem o que estavam desejando, o que fez sair do seu instituto no meio da madrugada.

— Shelly e Lys já deveriam ter voltado. — Henrique comentou inquieto, os olhos ainda vagando pelas cabeças de quem passava perto dele.

Ao contrário do parabatai, Diaspro estava totalmente relaxado apoiado ao muro, alisando com o dedo indicador a sua lâmina que emitia um brilho, quase na mesma intensidade que seu anel.

— Relaxa, gatinho, devem estar em um beco namorando... — Ele olhou para o outro, contendo um sorriso de canto. — Não deveríamos estar fazendo o mesmo? —

Henrique enrubesceu, e agora parecia mais inquieto que anteriormente. Seus olhos encontraram os de Dias, estavam frios , quase fazendo o outro se reprimir.

— Claro que não. Você é meu parabatai, isso é proibido. — Deu de ombros. — E não faz o meu estilo ficar com garotos. —

Não era totalmente verdade o que ele disse, mas em parte sim. Diaspro, era um garoto andrógino, com o rosto e o corpo um tanto feminino e curvas acentuadas, um logo cabelo negro que descia até a metade das costas. Ele usava peças de roupas peculiares para um garoto, um tanto curtas, mas em seu corpo havia um acabamento estranhamente bonito. Uma mistura de sexy e perigoso, até algumas caçadoras de sombras haviam inveja dele.

— Relaxa, Rique... — Garantiu ele ao outro, andando em sua direção. — ...Além do mais, devem estar perto, meu anel está brilhando demais. Ou os dois estão por aqui, ou os ''mundanos'' querem dizer 'Oi'. —

Henrique não se virou para observar Dias, ele ainda mergulhava sua atenção ao rosto das pessoas, que despreocupadas caminhavam.

— Não precisa mais ficar inquieto, preocupadinho. Olha pra direita. — Disse Dias, bufando entediado.

Um casal de mãos dadas apareceu na multidão de cabeças. Embora estivessem vestidos de preto e couro, as pessoas ao seu redor não notavam sua presença. Shelly, estava com uma calça de couro bem justa, e apesar da noite no Rio de Janeiro ser quente, também usava uma blusa com jaqueta por cima, que cobria boa parte das runas em seu corpo. Lyssander, era praticamente um ''armário'' ao lado da garota, visivelmente mais alto que ela, com a mesma expressão misteriosa de sempre.

— Acharam eles? — Perguntou Rique, quando se aproximaram o suficiente.

Shell, balançou a cabeça discordando. Não era uma coisa boa. A missão que fez os quatro jovens saírem do instituto, é que dois garotos filhos de Nephilim estavam na madrugada perto da lapa se divertindo. Ambos não sabiam o que eram, portanto teriam que arrastar dois mundanos a força para o instituto. O clima não estava agradável, era início de Fevereiro, uma semana depois seria o Carnaval, onde criaturas do submundo não precisavam esconder sua verdadeira aparência aos mundanos, e como todo ano, sempre faziam suas vítimas e mais membros para suas raças. Só que para os vampiros, era como se fosse um banquete aberto a espera de suas presas.

— Afinal...Como vamos achar eles? — Dessa vez a pergunta foi do Diaspro, que se aproximou mais dos três.

Todos ficaram em silêncio, nenhum deles fazia alguma ideia de como achar os garotos, poderiam ser qualquer um que estivesse ali agora.

— Bem, meu anel continua brilhando. — Falou Dias, mostrando a pedra verde em seu dedo. — Então devem estar perto. É assim que funciona, quando um filho de Nephilim está perto ela brilha, mas quando se aproxima o suficiente ele ignora, começando a rastrear outros...Portanto, estão perto. -

Henrique, arqueou as sobrancelhas impressionado, seus olhos castanhos claro estavam em um tom mel pela luz amarelada do poste.

— Esse anel seria mais útil comigo. — Protestou, parecendo chateado. — Vamos, você primeiro.

Diaspro passou abrindo caminho, o braço estendido a frente do corpo. Qualquer um que visse eles achariam que o carnaval começou antes, pois pareciam fantasiados. O grupo andou em direção a lapa. O som do samba estava alto em um dos bares, pessoas comemoravam, bebiam, dançavam, e namoravam. Pense em um lugar onde consegue ver pessoas de todos os tipos diferentes, você encontrava ali.

— É aqui! — Avisou, Dias, que precisava aumentar sua voz por culpa do som alto. — Está brilhando demais.

Eles começaram a procurar atentamente e novamente os dois garotos. Os olhos vagavam rapidamente entre o emaranhado de pessoas .Não conseguiam achá-los, nem sabiam como eram os dois.

— Que aparência eles tem? — Shelly, parecia a mais confusa entre os quatro.

— São gêmeos idênticos. É tudo o que sei. — Lyssander respondeu, quase de imediato.

— Devem estar lá dentro. — Rique apontou para o bar, que estavam parados bem a frente.

O local estava bastante cheio, as pessoas que saiam eram ligeiramente substituídas por outras. Doce Luar. Esse era o nome do bar, que brilhava em neon em uma placa. Uma música alta saia lá de dentro, não era samba, mas um ritmo mais eletrizante e empolgante.

— Um bar de Lobisomens? — Shell, riu baixinho. — Tão inusitado. —

Dias, deu de ombros no mesmo momento.

— Ahh, eu gosto dos Licantropos, eles são selvagens. —

Rique puxou o braço do garoto andrógino trazendo para perto de si.

— Não podemos entrar nós quatro, vai chamar muita atenção, lobisomens podem nos ver. — Balançou o corpo inquieto. — É mais fácil só o Dias e a Shell entrarem.

Lys fechou a cara, só ele conseguia ficar com um rosto mais sério do que parecia o habitual.

— Não gostei dessa ideia. Nem aprovo. — Comentou, com nojo nas palavras, olhando para Shelly que estava ao seu lado.

— Não, Lys. Rique tem razão. — Ela foi para o lado de Diaspro e deu o braço, entrelaçando com o dele. — Eu sou uma garota, e o Dias, bem...É tão gostoso quando muitas por ai. Vamos ser uma distração bem melhor do que os dois.

Diaspro sorriu triunfante como se tivesse ganhado na loteria.

— Além do mais. — Disse completando a frase da Shell. — Eu tenho bastante experiência com eles.

Os dois se dirigiram para a porta do bar e logo entraram, passando a frente das pessoas e do segurança que não os viam. Henrique revirou os olhos em desaprovação, juntamente com Lys que tinha os braços cruzados em tensão, enquanto esperavam ao lado de fora. Eles não gostaram nenhum pouco da ideia dos mais novos entrarem sozinhos, mas tinham que dar créditos a Diaspro. Ele sabia muito bem lidar com os filhos da lua, tanto na violência quanto em outras questões.

— Lembre-se, estamos aqui a procura dos gêmeos. — Shell sibilou para o companheiro, que admirava os garçons com muita aprovação no olhar.

O bar por dentro era inteiramente agradável. A luz amarelada no interior vermelho dava um ar antigo, juntamente com as mesas de madeira circular onde as pessoas estavam sentadas ao redor se entretendo.

— Claro, muita concentração. — Respondeu, com a atenção voltada para o barman.

Shelly sabia que o outro não estava nenhum pouco focado, o que sempre acontecia quando se tratava do assunto e distração predileto de Dias: Homens.

Doce Luar era enorme. A entrada havia uma pequena recepção, adiante começava as mesas e bem ao fundo o bar. Um balcão de mogno que separava os clientes do barman e suas bebidas.

— Sabia que conhecia ele. — Falou Diaspro, que começou a andar em passos rápidos para o final do bar.

Seis pessoas estavam perto ao balcão, sentadas em cima de bancos de madeira. O barman que estava do outro lado era um lindo mulato, cabelos negros bagunçados e olhos mel esverdeados. Quando viu o caçador de sombras se aproximar sorriu abertamente, mostrando dentes perfeitos e brancos.

— Diaspro. — Pareceu contente em vê-lo, mesmo que seu tom fosse bastante formal e baixo. — O que faz...Aqui dentro?

Shelly não havia entendido nada, apenas foi puxada pelo amigo até ali, sabia que não adiantaria ter protestado. Ela olhou para os dois intrigada, com toda certeza não era uma bebida que Dias queria pelo olhar, e também o homem era um submundano, pois podia ver eles.

— Estou a procura de dois garotos. — Tentou soar sensual. — Relaxa, não viemos para uma luta.

O moreno riu baixinho enquanto lavava uma caneca de cerveja.

— Não estou nenhum pouco chocado com essa informação vindo de você. — Os olhos dele voltaram-se para Shelly — E quem é essa linda dama?

Ela corou visivelmente e mexeu no cabelo para disfarçar, agradeceu a Raziel mentalmente por Lys não estar junto a eles. Diaspro pareceu ter notado a presença da amiga novamente e riu ao ver o rosto dela avermelhado.

— Essa é Shelly, uma excelente caçadora de sombras. — Ele mordia o lábio para não rir. — Shelly, esse é Victor.

Shel acenou timidamente para ele enquanto o mesmo fazia uma pequena reverência com a cabeça. Se desligou do falatório desviando a atenção para o balcão. Os dois continuaram conversando sobre algo que a garota não estava nenhum pouco interessada, mas sabia que os olhos de Victor ainda pairavam sobre ela, poderia até sentir.

— Diaspro! — Shelly disse em alerta, segurando a mão dele. — O anel... —

O garoto de imediato olhou para a pedra verde que havia parado de brilhar em seu dedo. Estavam bem próximos. Ele ignorou Victor e voltou sua atenção para Shel, que olhava atentamente para os garotos do local. Dias sabia que a distância que ela estava procurando ainda era grande, pois se estivesse em uma das mesas a pedra ainda estaria brilhando.

Ela bufou claramente irritada, se virou para Diaspro respirando fundo.

— Não estou vendo eles. — Descarregou em um tom de fúria. — Você deveria refazer a runa novamente nessa pedra.

Dias se virou para ela também, que continuava a falar. Apoiou um dos braços no balcão pendendo o corpo para o lado. Victor não estava escutando ou não parecia querer se intrometer, assuntos de caçadores de sombras nunca era de bom agrado para os lobisomens.

— Olha, eles devem estar aqui dentro, vai ver... — Ele engoliu em seco, olhando para dois garotos que estava apoiados no balcão, três bancos atrás de Shelly.

O perfil deles eram iguais, a cor da pele branca e levemente bronzeada, o cabelo castanho claro, apenas haviam cortes diferentes no penteado. Ambos conversavam entretidos, mas o da direita parecia estar no seu quinto copo, pois a voz estava carregada e embolada.

Shelly se virou assim que Diaspro se calou, observando os gêmeos. Eram dois mundanos, ou pareciam bastante. Sentados tomando cerveja, pelo menos o da direta estava bêbado. Ela suspirou em alivio por ter encontrado e voltou a olhar para o amigo.

— Que tática devemos usar para arrastá-los para fora? — Perguntou, mas sabia claramente a resposta.

— Sedução é, claro. — Pegou na mão dela indo em direção aos dois.

Embora os garotos fossem gêmeos, ainda sim poderiam não ser o que estavam procurando. Esse pensamento fez Shell ficar mais impaciente, pois estava cansada.

— Oi, lindos. — Diaspro fez a tentativa, quando chegou perto deles.

Ambos olharam com a testa franzida, a pura expressão de dúvida, aquela expressão que sempre tinham quando olhavam para o garoto caçador de sombras. Observando melhor, os gêmeos haviam uma pequena diferença um do outro. O da direita havia olhos azuis esverdeados, o da esquerda verdes azulados.

Com um movimento rápido a garota agarrou a nuca do que estava bêbado.

— Cala a boca e vem com a gente! — Disse, empurrando o garoto embriagado forçando a sair do banco.

O irmão dele arregalou os olhos, a cor havia fugido de seu rosto. Quando tentou se levantar Diaspro fez o mesmo movimento, reclamando baixinho em seguida. A tática havia mudado de '' Vem comigo, amor. '' para '' Faz o que estou mandando ou te apago. '', deixando o mesmo nada contente.

Quando começaram a arrastá-los para fora ambos tentaram se soltar, se agitando e gritando, mas apenas conseguiram um aperto maior na nuca. Eles grunhiram de dor.

— Eu tenho dinheiro, leva! — O sóbrio gritou, parecendo uma criança. Todos os olhares do bar estavam nele agora.

Dias encontrou os olhos de Shell em desaprovação, ela não pareceu ligar. Não estava com paciência para aguentar piadinhas de bêbado, queria acabar com aquilo logo.

— Não deveriam estar fazendo isso. — Um cara alto e musculoso se colocou na frente deles. — Caçadores de sombras não deveriam sequestrar mundanos.

Eles pararam, dessa vez o andrógino parecia mais irritado que a amiga, porém tinha um sorriso sarcástico no canto da boca.

— Esse assunto é diretamente da Clave e não lhe diz respeito, licantropo. — Ele estava frio agora, seu bom humor não estava mais lá. — Então sugiro que saia da nossa frente antes que aconteça uma encrenca maior.

O homem deu uma passo para trás ainda não convencido, os olhos estavam dourados sobre a luz amarelada, a boca em uma linha reta perfeita.

— Está parecendo um idiota falando com o nada. Como sabe, mundanos não nos veem. — Complementou Shelly.

— Mas que droga estão falando? Alô? ESTOU SENDO SEQUESTRADO! — O sóbrio ainda fazia tentativas de ser escutado — Por que ninguém ajuda? AI! — Ela apertou a nuca dele mais forte, de modo que o fez calar a boca.

Os olhos do homem rolaram pelo bar. Assim como o pessoal olhavam para os gêmeos se afastando, faziam a mesma coisa com ele. Sussurravam uns com os outros, como se estivessem vendo alguém louco. O musculoso saiu de frente da porta liberando a passagem. Os garotos continuaram atravessar até saírem com os gêmeos que se debatiam em um esforço inútil.

Os rapazes estavam aflitos ao lado de fora, Lyssander estava a ponto de adentrar o bar para ver o por que da demora. Henrique, estava abaixado, encostado em um muro com a estela na mão.

— Talvez se entrarmos poderíamos ser de grande ajuda. — Lys disse se aproximando onde o outro estava encostado.

Ele guardou a estela no bolso da calça e se pôs de pé, respirando fundo olhou para a entrada do bar. Se virou para o maior que lhe encarava, a cor dos olhos estavam quase pretos, mal conseguindo ver o cinza escuro da íris.

— Vamos esperar mais um pouco. — Propôs para acalmá-lo.

Passaram se minutos, ou talvez uma hora desde que entraram. A fila do bar lentamente foi se dissipando, e a rua estava quase deserta. O samba havia terminado, e alguns restaurantes ao redor começavam a fechar.

— Que horas são? — Rique voltou a ficar inquieto.

Lyssander deu de ombros, nenhum deles estavam com relógio ou usavam celular. Normalmente em um dia comum de caçadores de sombras eles matavam demônios, utilizavam armas, não aparelhos eletrônicos.

— Três da manhã, por ai. — Ele voltou a olhar para a porta e suas sobrancelhas arquearam.

Rique virou a cabeça seguindo o que ele estava vendo, e então estavam ali, andando na direção deles, segurando os gêmeos pela nuca. Um deles parecia que iria chorar a qualquer momento.

— Pelo anjo...O que está acontecendo? — Rique estava pasmo. — Solte eles, acho que não se atreveriam a correr.

E realmente não iriam, um estava assustado demais para isso e o outro bêbado ao extremo. O mais sóbrio estava com o rosto vermelho, ele passava a mão na nuca olhando para os quatro. Seu irmão se sentou no chão, fazendo pouco caso deles, parecia que iria desmaiar.

— Quem são vocês? O que querem? Por favor, não mate a gente! — Ele ficou de joelhos na frente de Rique, podia jurar que o ouviu soluçar.

Lys puxou o braço do garoto e o colocou de pé com gentileza, o outro não pareceu entender o ato. Henrique parecia totalmente desconfortável com o estado apavorado do menino, mas os outros dois estavam acostumado com todo o drama.

— Matar? Viemos resgatar vocês. — Henrique ajudou o outro a se levantar do chão. — Meu nome é Lyssander, esse é Henrique. Os dois que foram buscar vocês é Shelly e o Diaspro, mas não estamos com tempo para apresentações.

Ele avaliou os quatro conforme foi apresentado. A menina baixinha de cabelo e olhos negros, chamada Shelly. O garoto com curvas demais, cabelo preto e olhos mel, Diaspro. O que estava ajudando seu irmão, um pouco forte, mas magro, ruivo acobreado e olhos castanho claro, e o Lyssander, o maior e mais musculoso, com a cor do cabelo um tanto entranho, parecia um loiro sujo.

A cabeça dele estava a mil, não sabia ainda nada deles, quem eram e o que queriam com ele e o irmão.

— Bem... — Pareceu relutante, mas continuou. — Sou Josh, e ele é o Brad. — Apontou pro irmão bêbado que se apoiava em Henrique. — Mas, nos resgatar de que? São de alguma facção? Tem cortes pelo corpo.

Os quatro caçadores se entreolharam preocupados. A rua não era um local para se falar a alguém que não era mundano e o que sabia era mentira, porém Josh era detalhista, ele até notou as pequenas e finas marcas das runas nos garotos.

— Se quiser resposta, siga a gente. — Falou Henrique, segurando o peso morto que era Brad.

Os cinco começaram a caminhar para o ponto de ônibus mais próximo, já que o irmão de Josh era mais arrastado pelo Rique do que andava com as próprias pernas. Não conhecia nenhum deles, mas de alguma forma não estava mais se sentindo desconfortável com a presença dos jovens, como se já os conhecessem de alguma forma. O estilo, as roupas, havia algo neles que era familiar.

— Escuta, eu não consigo ficar calado. — Continuou andando. — Quem são vocês e o que querem?

O nervosismo tomou conta de Josh novamente, mas nenhuma resposta obteve nas tentativas. Ele continuou a perturbar, mas algo o fez olhar para o lado, um choramingo. Uma menininha estava em posição fetal, cobria o rosto nos braços que abraçava os joelhos, ela chorava com calma. Os outros não notaram a presença dela, mas Josh se aproximou e se abaixou levemente na direção.

— Algum problema, anjinho? — Seu tom era doce e gentil.

As roupas da garotinha estavam sujas e rasgadas, ela havia um cheiro forte de enxofre. Ele se levantou um pouco enjoado para conseguir respirar melhor, a menina havia parado de chorar.

— Na verdade... — A voz dela ainda era chorosa, mas algo havia mudado. — Eu que te pergunto, Nephilim.

Ele levou o corpo para trás lentamente ao escutar a voz fina de uma criança inocente se tornar uma voz tripla e sinistra. A cabeça da garota se levantou, ela havia um rosto de criança, mas seus olhos estavam totalmente brancos, não havia íris nem pupila, os dentes amostra eram iguais a de um tubarão.

— JOSH, SAI DAÍ! — Berrou Lys, que corria na direção dele.

O garoto havia pulado para trás e olhou para Lyssander que corria em sua direção com algo na mão direita.

— HALALIEL! — Uma lâmina que parecia vidro saiu de algo que ele segurava, brilhava bastante.

Quando Josh se virou para frente a menininha havia desaparecido e o cheiro de enxofre estava muito mais forte. A sua frente se encontrava algo esguio, ossudo, a pele era vermelha em carne como queimaduras de terceiro grau, totalmente deformada. Os dedos da coisa eram longos e acabavam em pontas finais que pareciam lâminas iguais aos pés, mas no rosto ainda havia os olhos brancos e o sorriso medonho com os dentes afiados.

A coisa o atacou, ele tentou ser rápido se jogando para trás, mas ainda sim seus longos dedos passaram cortando o peito do garoto, deixando a camisa rasgada e o sangue começando a escorrer pelo ferimento. O corte não foi fundo, mas o suficiente para Josh gritar de dor, era como se estivesse queimando a carne por dentro.

Ele escutou passos correndo e viu Lyssander, atacando a coisa cortando a mão dele fora com um movimento rápido e brutal da lâmina, mas isso não o fez parar, apenas cambaleou antes de atacar novamente com a outra mão. Lys foi mais rápido novamente e desviou se esquivando, agora estava atrás dele e com outro movimento perfurou a coisa bem no coração, claro, se ele tivesse um.

O monstro urrou de dor, um som horrível e se jogou ao chão se debatendo. Do peito onde perfurado estava saindo algo negro, gosmento. A coisa parecia ter pego fogo e virou cinzas. Não havia sequer sinal que um monstro estava ali antes.

A visão de Josh estava começando a ficar turva e negra quando caiu e bateu de cabeça no chão com força. Sentia a ardência que parecia crescer mais pelo corpo. Shelly e Diaspro estavam ao lado dele, haviam rasgado mais sua camisa e avaliava o ferimento. O garoto gemeu de dor.

— Faz uma iratze nele, Shelly. — Diaspro estava nervoso, a voz cresceu o tom em um oitavo.

Shel, estava com os olhos arregalados e retirou do bolso algo parecido com uma varinha. Na ponta havia uma pedra branca. O cabo era totalmente dourado com desenhos, runas. Ele viu o objeto na mão dela e cerrou os olhos para ver se conseguia enxergar melhor. Sabia o que era, o pai dele havia contado e mostrado isso em desenho para ele e o irmão quando eram crianças. Era um objeto de uma história de fantasia, não poderia existir.

A estela tremia na mão dela, estava relutante se fazia a runa ou não, mas se não fizesse ele iria morrer. Ela colocou a ponta sobre a pele dele e começou a desenhar. Josh sentiu o local arder, como se alguém o estivesse arranhando. Aquilo não poderia ser real.

Quando terminou ela colocou a estela no bolço e o olhou confuso. Diaspro ao seu lado segurou o garoto ajudando ele a levantar. Rique caminhava lentamente em direção ao restante dos amigos com Brad apagado, não teria como ajudá-los, mas observou tudo com pavor. O maior colocou a lâmina em uma parte do cinto na sua cintura. Josh viu a espada encolher e virar o objeto de novo. Ele já estava melhor, e em pé olhou para os quatro com o olhar descrente. Sua cabeça não doía mais, e a ardência em seu peito não existia.

— Vocês são caçadores de sombras. — Engoliu em seco ao dizer.

O grupo ficou boquiaberto, ele era um mundano, não teria como saber daquilo.

— Como sabe disso? — Selly se aproximou mais dele, ainda chocada de como ele sabia essa informação.

— Meu pai me contou sobre vocês... — Respirou fundo, estava se sentindo tonto. — ...Eram personagens de histórias. Quando criança ele contava para mim e meu irmão sobre esse mundo que não existia.

Lyssander se aproximou mais dele e colocou a mão em seu ombro levemente, o garoto estava fraco e cansado, essa adrenalina o esgotou.

— Mas existimos, e somos caçadores de sombras. — Os olhos cinzentos fitaram o do garoto. — E isso inclui você e seu irmão. Acho que temos mais perguntas a lhe fazer do que você a nós.

Ele assentiu com a cabeça e Diaspro passou para seu lado, querendo se certificar de que o garoto não fosse desmaiar como o irmão. Outro barulho ocorreu de um corpo caindo no chão, todos viraram o rosto, Lyssander já estava com a espada na mão e havia invocado lâmina.

Brad estava caído, ainda parecendo o bêbado de antes, porém, mais próximo a ele havia um homem pálido de pé, bonito, loiro dos olhos pretos. Ele segurava Henrique pelo pescoço, apoiava o caçador em um muro e os pés dele não tocavam o chão. O engasgo de Rique ecoou na rua silenciosa.

— Mas que droga está acontecendo hoje? — Gritou Shelly alto o suficiente. — Bernardo, solta ele!

— Quem é ele? — Perguntou Josh, desconfiado e apavorado.

Diaspro chegou mais perto do ouvido dele. Lys e Shel estavam caminhando lentamente em direção a criatura.

— O líder das crianças noturnas — Confirmou a dúvida do garoto. — Um vampiro.

Não se sabia ao certo se vampiros podiam tremer, mas o braço dele estava balançando freneticamente enquanto segurava no pescoço do outro, que parecia perder a cor do rosto. O pavor estava estampado no olhar do morto vivo, parecia descontrolado e louco.

— PARE DE NOS CONTROLAR, ENTENDEU? — Gritou ele de volta. — SABEMOS QUE A CORÔA ESTÁ COM VOCÊS!

Ninguém entendeu o que ele quis dizer, nem mesmo Lyssander que era o mais velho e experiente. A espada na mão dele estava brilhando intensamente, pronta para atacar o vampiro.

— Não sabemos do que está falando. — A voz dele era calma, mas mortal.

— CLARO QUE SABEM, É MELHOR PARAREM OU... — O rosto pálido dele ficou sem expressão.

Em fração de segundos o vampiro havia corrido, ele era rápido, ninguém conseguiu saber para onde foi e segui-lo não seria uma escolha sensata. Os pássaros estavam começando a cantar, sinal de que o nascer do sol não estava longe.

Lys e Diaspro correram em direção ao amigo que estava no chão. Henrique massageava o pescoço enquanto tossia. Seu rosto estava começando a ganhar cor novamente, por fim, estava bem.

— Vamos logo voltar, antes que um feiticeiro ou licantropo apareça querendo briga. — O sarcasmo de Dias havia desaparecido totalmente.

Todos voltaram a andar e pararam em um ponto de ônibus. Mesmo depois que aquilo tudo aconteceu, Josh sentiu uma imensa vontade de rir. Não conseguia imaginar um grupo de jovens vestidos de couro e preto, depois de matar uma criatura e enfrentar um vampiro iriam pegar um ônibus, esperava que eles tivessem um carro ou automóvel parecido.

Os dedos de Josh passaram sobre o desenho em seu peito. Conseguia sentir uma fina linha que parecia uma cicatriz e lembrou de um dia, quando viu o pai sem blusa. Ele havia muitas cicatrizes pelo corpo como a dele. Nunca o perguntou o que poderia ter sido, talvez fosse uma coisa ruim e não gostaria de fazer seu pai relembrar.

Pouco tempo depois o ônibus chegou. Rique olhou para o motorista. O homem fez sinal para que entrassem na porta de trás, mas antes de voltar a andar viu o rosto do cara. Parecia um homem, retirando o fato das orelhas serem pontudas e os olhos que eram verdes eletrizantes na maior parte, não tinham pupila. O grupo entrou pela porta de trás e seguiu viagem sentado.

Josh queria fazer um milhão de perguntas a eles, parecia o momento perfeito, estavam todos quietos, o irmão ainda dormindo ao lado de Henrique. Mas ele ficou calado, sabia que não só ele, mas todos estavam estressados e cansados do ocorrido, e aliás nem sabia para onde estava indo.
A viagem foi um imenso silêncio, nem escutar a respiração de alguém conseguia. O garoto ficou olhando para a fora da janela totalmente submerso nos seus pensamentos. Seu pai sempre havia falado de um mundo sobrenatural, de um país onde eles viviam, de raças e bravas lutas. Não sabia se era errado sentir raiva dele, mas era isso que sentia, uma raiva imensa. Por que esconder algo assim? Por que transformar a realidade em uma ficção? E apesar de tudo nem poderia perguntá-lo, pois estava desaparecido a dois anos e meio.

Uma das vezes que o ônibus parou, Josh sentiu aquele cheiro de enxofre novamente e olhou para a janela. Ao lado de fora havia um garotinho, as vestes imundas e rasgadas, mas os olhos brancos, como a criatura que havia visto anteriormente. O monstro não estava olhando para ele, mas sim para uma mulher. Ela conversava com a ''criança'' e parecia não notar os defeitos, pois estava afagando o cabelo dele. Josh, sentiu uma imensa vontade de gritar a mulher para sair dali, mas isso só iria chamar atenção da criatura, então ficou calado. Continuou observando e viu a criança guiar a moça para um beco escuro, logo desviou o olhar e o ônibus voltou a andar. Não queria saber o que aconteceu com a mulher, não teria como ajudá-la.

Na próxima parada todos se levantaram e o garoto os seguiu. O irmão agora estava roncando nos braços de Henrique, que não se incomodava em carregar ele. A rua estava deserta, o céu no horizonte tinha uma cor azul começando a clarear com os raios solares da manhã, estavam em frente a uma igreja, Nossa senhora da Candelária.

— Vem. — Shelly chamou, com a voz embriagada de sono.

Eles entraram em um rua, viraram outra, cruzaram mais uma. Ficaram adentrando muitas ruas, foram pelo menos umas sete até chegarem a uma que não havia saída. A rua inteira parecia ter sido sucumbida ao fogo, até o chão era totalmente preto. Andavam em direção ao final onde havia uma casa que parecia não se aguentar de pé.

— Ahhh...Não é perigoso entrar em uma casa assim? Pode cair nas nossas cabeças. — Falou, olhando para tudo queimado ao seu redor.

Diaspro se aproximou dele, um pouco perturbado com o fato.

— Eu achei que você veria como é, mas me esqueci que foi criado como mundano. — Respirou fundo antes de continuar. — A realidade tem camadas. Mundanos não podem ver o conseguimos enxergar, então precisa se concentrar, use todo o seu corpo para isso. Imagina que esteja limpando algo ou retirando um pano de um objeto e descobrindo uma coisa nova por baixo.

Ele continuou desconfiado olhando para Diaspro, mas depois de tantas loucuras acontecerem, aquela seria a menos louca. Josh imaginou que tinha um arco e uma flecha na mão. Colocou em posição de atirar mas se concentrou antes, olhou para casa, respirou fundo e soltou. A flecha imaginária correu a curta distância que eles estavam da casa queimada ao fundo da rua, e ao tocar nela tudo foi mudando. Foi exatamente como se passasse um pano úmido em um piso empoeirado, vendo realmente o que havia por baixo. Todo o cenário preto e queimado foi substituído por casas antigas em perfeito e bom estado ao seu redor. Havia um toque gótico nelas, os telhados tinham detalhes bronze, até o chão que antes parecia pegajoso fora substituído por pequenas pedras, como cascalho.

— Nossa... — O garoto estava perplexo, boquiaberto e encantado.

A rua toda havia se transformado, parecia vivo e confortável, algo de outro século. O beco era iluminado por pedras que haviam nos muros, elas emitiam uma luz própria brilhante e clara, mas a casa mais bonita era a última. A palavra casa era apenas um apelido humilde, na verdade era enorme, como a igreja da Candelária, só que maior. Havia um estilo gótico como a rua inteira, mas os detalhes eram prateados. No parapeito havia uma estátua de um anjo, ele segurava uma taça e uma espada, vestia uma armadura celestial, estava completamente limpo que chegava a emitir um brilho.

— Raziel. — Sussurrou, pois já havia visto aquele anjo naquela mesma maneira em um desenho.

A porta de madeira da frente se abriu com um rangido e lá de dentro saiu uma garota alta e esguia. Havia curvas bonitas e sexy, mas não era exageradamente sensual como a do Diaspro. Seus cabelos caíam em uma cascata ondulada loira bem forte, os olhos azuis claros tinham destaque em sua pele bronzeada. O tipo de garota que imagina sendo modelo de lingerie.

Ela correu na direção de Shelly e a abraçou, o rosto estava aflito, e a mesma havia dificuldades em andar de salto pelo cascalho.

— Pelo anjo, por que demoraram tanto? — Berrou aos quatro, que pareciam tímidos. — Sabe que horas são?-

Lyssander encolheu os ombros, ligeiramente envergonhado.

— Desculpe irmã, tivemos problemas no caminho. — Ele acenou com a cabeça em direção a Brad, que ainda cochilava nos braços de Rique e depois a Josh, que estava com a camisa rasgada pela criatura.

A loira avaliou o menino da cabeça aos pés e ele se sentiu muito intimidado com o olhar penetrante que a garota tinha. Ela Também vestia roupas pretas, mas eram bem mais justas em comparação as de Shelly.

— Meu nome é Rose. — Se dirigiu ao garoto educadamente. — E imagino que estejam cansados. — O olhar dela foi a todos que emitiam uma expressão esgotada. Depois se virou, voltando em direção a ''casa''.

O grupo estava seguindo logo atrás dela, mas Josh permaneceu olhando fixamente o local, ele poderia jurar que conhecia isso tão bem quanto imaginava.

— Vem, deve estar cansado. — Lys o chamou.

Não conseguiu falar, nem sequer mexer a cabeça, ainda parecia estranho estar ali. Ele subiu os três pequenos degraus que levavam para a porta, depois entrou. Após escutar a grande porta de madeira se fechar atrás de si, os olhos dele clamaram ao interior. Parecia brilhar com cada detalhe que conseguia captar.

Estava em um corredor que separava a porta da sala de entrada, mas conseguia ver o local perfeitamente. Havia um longo tapete escarlate com desenhos em dourado que começava da porta e cruzava a enorme sala até chegar em uma escadaria. O garoto continuou a caminhar, a sala era aconchegante, havia estantes lotadas de livros, escrivaninhas, poltronas, sofás. Não tinha qualquer aparelho eletrônico, dava um ar de antigo. As paredes haviam quadros de anjos, pessoas dos séculos anteriores e lugares curiosos. O teto havia uma imensa claraboia que iluminava todo o cômodo, o céu por ele estava ganhando cores mais claras.

Ao lado direito, havia uma passagem na parede que parecia ser a cozinha, ao lado esquerdo também havia outra passagem, mas apenas conseguia ver armas e uma enorme mesa.

O garoto estava girando, contemplando a beleza do local, dava para sentir a história. A escadaria ao centro dava a um ponto espaçoso o suficiente para se locomover, onde se encontravam mais dois lances de escadas, um para a direita e o outro para a esquerda. Na parede desse ponto que era a divisão das escadas havia uma pintura de Raziel. Ele brilhava, as asas abertas, o rosto rígido, novamente tendo em mãos um cálice e uma espada. Na pintura o anjo estava saindo da água mais brilhante que havia visto em um desenho.

Josh tentou abrir a boca para dizer algo, mas estava totalmente seca. Encontrou o olhar de Lyssander, que estava que estava parado na escadaria central, observando o garoto que parecia uma criança em um museu.

— Onde estou? — Ainda estava absorvendo o que via, a voz em puro êxtase.

O rosto do loiro se abriu em um pequeno sorriso, o que era difícil de acontecer depois de um dia agitado.

— Um lugar onde vai estar seguro. — Fez uma breve pausa. — Bem-vindo ao instituto do Rio de Janeiro.

Notas finais
Se você leu o primeiro capítulo completo saiba que já estou bastante agradecido.Espero que tenham gostado, caso queiram falar o que acharam ou dar dicas construtivas, estarei a toda atenção a ler os comentários.Essa fanfic é minha autoria, usá-la sem permissão não seria de bom agrado.Obrigado novamente *~*