Reis e Rainhas.
7 A Coroação.
Mesmo após as festas, o palácio continuava com lotação máxima. Quase todos os quartos estavam ocupados e os funcionários do castelo trabalhavam feito loucos para atender o grande numero de nobres que se hospedavam no palácio.
O motivo dessa loucura era simples. A coroação.
O rei tinha anunciado publicamente, no primeiro dia do ano, que iria se aposentar, e passar a coroa para seu único filho, Maxon. Ele continuaria a viver no castelo com sua esposa, mas não teria nenhum podar politico no país.
Des de então, minha vida estava uma loucura. Eu, Silvia e a rainha Amberly trabalhávamos como loucas nos preparativos. Toda a cerimonia seria televisionada, e nós tínhamos duas semanas para preparar tudo.
Eu mal via minhas criadas, as quais ficaram responsáveis por desenhar meu vestido. E os vestidos das meninas.
Ainda assim, arrumei um tempo para me encontrar com Nicoletta nos jardins. A princesa me esperava sentada em um dos bancos. Ela usava um lindo vestido creme, e seus cabelos cor de mel desciam pelas costas sem penteado nenhum. Quando ela me viu, Nicoletta se colocou de pé, sorrindo.
–America! — ela exclamou sorrindente – Fico feliz por ter arrumado um tempo para passear comigo.
– Eu também – eu desabafei – Tem sido uma loucura, eu quase não tive tempo de ver minhas filhas nas ultimas semanas.
– Ah, suas garotinhas. Tão adoráveis. Mal posso esperar para ter meus próprios. Sabe, eu me casarei logo. Espero que você compareça a cerimonia.
– Ah, Nicoletta! Seria um prazer!
Nós paramos de caminhar e nos sentamos abaixo de um lindo carvalho.
– Estou certa em poder te considerar uma amiga, não é? – a princesa sorriu para mim.
– Claro. Eu já lhe considero... quero dizer, eu não tenho muitas amigas além de minhas damas. O castelo é um pouco solitário.
– Uma das muitas coisas que precisam ser mudadas quando você e seu marido assumirem o trono – Nicoletta cochichou. – illéa é um pais extremamente fechado e ... obsoleto.
– Eu sou obrigada a concordar – cochichei de volta – As coisas que você me contou a respeito da Italia, e como seu povo é livre... As coisas vão mudar em Illéa.
– Fico contente em ouvir isso – Nicoletta disse, apertando minha mão. – Ela olhou para os campos e avistou uma garotinha de cabelos dourados correndo até nós. – Aquela não é sua garotinha?
Lira chegou até nós com as tranças balançando. Ela tinha o rosto corado pela corrida, e a respiração acelerada.
– Mamãe! Mamãe! — ela exclamou sorridente.
– Lira, onde estão seus modos? – eu perguntei, só então ela notou que eu tinha companhia, e fez uma breve reverencia a Nicoletta.
– Mamãe, uma das cadelas do canil teve filhotes! Venha ver!
Eu sorri. Eu estava morrendo de vontade de passar a tarde brincando com minha filha e vários filhotes, mas infelizmente eu estava sem tempo. Minha conversa com Nicoletta já fora um luxo que eu não podia arcar. Não com tantos preparativos a serem feitos.
– Ah querida – eu disse me ajoelhando na altura dela. – Eu gostaria muito de passa um tempo com você. Mas a mamãe já esta atrasada para outra reunião.
Lira parecia decepcionada. – Ah, eu já falei com Melody, mas ela esta ocupada com aqueles livros bobos dela. E Miguel ainda é muito pequeno para brincar comigo.
– Eu brinco com você – Nicoletta se ofereceu. Ela olhava amavelmente para Lira. A garotinha deu um salto de alegria e abraçou as pernas de Nicoletta. A princesa riu e afagou os cabelos de Lira – e depois que sua mãe resolver tudo, vocês podem me visitar na Italia. Não seria ótimo?
– Podemos ir mamãe? Por favoooor?
Eu revirei os olhos, com um sorriso no rosto. – Mamãe tem que voltar a trabalhar agora.
– Então vamos – declarou Lira, puxando Nicoletta pela mão. Acenei em despedida para a princesa, enquanto ela era conduzida pelo jardim por uma garotinha de quatro anos autoritária.
Voltei para a sala das mulheres a fim de me reunir com a rainha Amberly e Silvia. Tinhamos ainda muito o que fazer, des de escolher os arranjos até o estofamento dos assentos.
Eu quase não vira Maxon nas ultimas semanas, a não ser muito tarde da noite, quando ele se esgueirava para o meu quarto se enfiava na cama, colocando os pés gelados entre os meus e me fazendorir. Ele ia la todas as noites, pelo simples prazer de dormimos agarrados um no outro.
Voltei para o quarto aquela noite massageando as têmporas, exausta. Quando me aproximei da porte, ouvi a voz de Anne e Lucy, elas conversavam baixinho, mas mesmo assim pude ouvir o que elas diziam.
– Você deveria ser grata – disse Lucy – Ninguem no mundo é tão boa quando a Princesa America. Qualquer outra poderia estar nos maltratando. Você se lembra daquela concorrente... Celeste. Ela vivia batendo nas criadas. America poderia até ter nos trocado por criadas melhores assim que se casou com Maxon, mas continuou conosco.
– Eu sei – respondeu a voz de Anne, chorosa. Eu me surpreendi. Anne não era do tipo chorosa – Mas eu quero mais que isso. Você não quer Lucy? Eu amo trabalhar aqui, e sou grata a Princesa com todo meu coração, Mas eu quero me apaixonar daquela maneira que tira seus pés do chão. Quero casar e ter filhos...
– Você pode fazer isso – disse Lucy com a voz baixa.
– E trabalhar nas cozinhas? Você sabe que eu não levo o menor jeito pra isso. Mary está acostumada com isso, acredito. Ela cresceu no castelo, sabe que o destino dela sera como o da mãe. Criada de quarto até se apaixonar, de depois passar a vida nas cozinhas. Mas eu já estou ficando velha para me casar, nunca fui muito bonita e possivelmente vou passar minha vida aqui... mas.. eu quero mais que isso. É pedir demais?
– Não é – eu disse finalmente entrando no quarto. Anne se sobressaltou, limpando rapidamente as lagrimas.
– Princesa, eu...
– Anne, venha cá – eu disse com toda serenidade, segurando as mãos dela entre as minhas e a conduzindo até a cama. – Sente-se. Anne, eu serei rainha dentro de algumas semanas, e muitas coisas vão mudar. Aos poucos, eu prometo. Peço que seja paciente e eu poderei mudar algumas leis, você poderia ser minha criada e ainda assim casar e ter seus filhos. Mas preciso que me diga se quer sair. Posso tentar arrumar um emprego melhor do que as cozinhas para você. Você pode casar-se e ter uma boa vida Anne Você ainda é jovem e bonita, mas é a única que não ve. É só me pedir, eu nunca negaria uma coisa dessas a você.
Anne limpou mais uma vez as lágrimas, mas dessa vez sorrindo. – Você é a melhor pessoa que eu já conheci – ela disse – Vou trabalhar para você até o fim de minha vida de isso for possível.
Foi então a vez de meus olhos se encherem de lágrimas.
As semanas seguintes passaram como um turbilhão. Eu acorder cedo, sentindo o estomago revirando. Eu corri para o banheiro, com as mãos na boca. Quando finalmente me recuperei e sai, Maxon olhava ligeiramente preocupado, mas tinha um toque de esperança na voz quando perguntou:
– America, isso significa o que eu estou pensando?
– Sim – eu disse sorridente – Estou esperando outra criança Maxon.
Ele levantou correndo da cama, com os pés descalços vindo em minha direção. Maxon passou as mãos por minha cintura, le levantando no ar. Ele me rodava e gargalhava, nossos olhos cheios de lágrimas de alegria.
Era contagiante a alegria que Maxon ficava cada vez que eu anunciava estar grávida. Ele poderia ter dez filhos, se eu anunciasse um decimo primeiro, ele ainda me giraria pelos corredores, como se fosse seu primogênito a caminho.
– Mas que dia feliz – ele disse, me colocando na cama com delicadeza. – Você, vá se arrumar, temos uma cerimonia em poucas horas.
– Te vejo lá, Rei Maxon – eu disse, e ele se empertigou, sorrindo, enquanto atravessava a junção de nossos quartos. Eu toquei o sino, chamando Anne, Mary e Lucy. Depois de tomar um demorado banho com agua de rosas, Minhas damas de companhia chegaram, invadindo meu quarto como um turbilhão.
Helena estava com Miguel, e todas as damas cuidavam das meninas, que corriam de um lado para o outro, com as fitas e as flores. O garotinho recém nascido de Laura estava nos braços da mãe.
Na maioria das cortes, cada umse arrumava em seus gigantescos quartos até a hora da cerimonia. As criadas arrumavam as crianças, e a família so se juntava momentos antes. Mas eu gostava da bagunça de todas no mesmo quarto. Rindo e contando piadas sujas quando as crianças não estavam por perto. Eu gostava daquela sensação familiar, quando todos se juntavam. Eu crescera em uma casa onde fazíamos tudo juntos, aqui não poderia ser diferente.
Momentos depois, May entrou pela porta. Ela usava um vestido florido amarelo e branco. Os cabelos ruivos estavam soltos nas costas. Ela instantaneamente se juntou a animação do momento, depois de me cumprimentar efusivamente e dizer que Mamãe e Papai estavam ocupados com nosso irmão mais novo e com nosso sobrinho. Minha irmã estava hospedada em um dos quartos com o marido, assim como meu detestável irmão Kota, o qual eu não consegui impedir de convidar.
– Tenho certeza que esse vestido está me deixando gorda – disse Laura, se olhando no espelho.
– Não é o vestido querida – retrucou Leticia, com a boca cheia dos biscoitos que Lucy tinha trazido. – É você.
– Leticia! – exclamou Rose indignada, mas Laura se curvava de tanto rir.
– É verdade. Eu acabei de ter uma criança, não esperava estar um palito como Suy.
– Devo considerar isso um elogio? – Suy disse, abotoando seu vestido – eu mal tenho peitos!
Todas as garotas começaram a gargalhar, incluindo as criadas. Helena conseguiu fazer Miguel dormir, mesmo no meio de toda aquela barulheira. Ele não participaria da coroação. Era muito novo e seus dentes estavam começando a nascer. Isso significava que ele ficava febril e chorava muito. A coroação era uma cerimonia séria, então Miguel ficaria no quarto com Helena e minhas criadas, onde assistiriam a cerimônia pela tv.
Nós descemos as escadas, apressadas. Eu me sentaria na primeira fileira com minhas filhas e a rainha Amberly. Minhas damas de companhia e as delas ficariam no meio. Vários condes, condessas, príncipes, princesas e até presidentes e presidentas de todo o mundo vieram. A cerimônia seria realizada na catedral do castelo, um lugar realmente belíssimo e gigantesco. Com adornos barrocos em todas as pilastras, pintadas com folhas de ouro. Era uma das construções mais velhas de toda Illéa, se não do mundo inteiro. Mas era extremamente bem cuidada, já tinha sido quase totalmente reconstruída, de tantas restaurações que passara, mas sempre preservando o charme original.
Eu me sentei no meu lugar, Melody sentou ao meu lado. Ela usava um vestido branco e azul extremamente delicado e bonito, com renda nas mangas e na gola alta. Os cabelos de fogo trançados delicadamente, cheios de lindos adornos. Lira estava ao seu lado, e segurava a mão da irmã. Seus olhos verdes eram destacados pelo vestido da mesma cor, os cabelos também estavam trançados, como os de Melody.
A Rainha sentava ao lado delas, ela olhava para frente de uma maneira orgulhosa, quando Maxon subiu no altar. Como se tivesse esperado a vida toda para ver este momento. Seus cabelos ligeiramente grisalhos estavam cuidadosamente presos em um coque, e as rugas de expressão se acentuavam quando ela sorria para o filho, mas isso apenas a tornava mais bela.
Maxon que estava sentado ao lado do pai, sério como deveria ficar. Encarava o fundo da igreja, sem olhar a nada em particular. Ele usava uma terno sofisticado que mesclava de dourado e vermelho, e me remetia a as pinturas anciãs que se encontravam no museu particular do castelo. O rei usava uma roupa semelhante, a não ser por uma capa vermelho vivo. A qual foi retirada de seus ombros e colocada nos de Maxon. Foi então que o Rei se levantou, e disse com a voz grave e firme:
– Eu, Rei Clarckson Calix Schreave, concedo o trono para meu primeiro e único filho Maxon Calix Schreave.
Ele voltou a se sentar, foi a vez de Maxon se levantar. O arcebispo caminhou até e perguntou:
– Promete e jura solenemente governar os povos de Illéa, e de suas posses e outros territórios a qualquer um deles pertencente ou relativo, de acordo com suas respectivas leis e costumes?
– Eu solenemente juro fazê-lo – Maxon disse.
– Você vai usar seu poder para trazer a Lei e a Justiça, na Misericórdia, em todos os seus julgamentos? – pergunta o arcebispo.
– Eu vou.
O arcebispo caminhou até o rei Clarckson e tirou a grande coroa, de sua cabeça, e então caminhou a Maxon, posando a gigantesca joia entre os cabelos dourados dele.
– Vida longa ao rei Maxon Calix Schreave – brandiu o Arcebispo.
– Vida longa ao rei – repitiram todos. Eu tive a impressão que não só as pessoas do recinto, como toda Illéa pronunciou a frase ao mesmo tempo.
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