Reinventada
8 Confusa
Notas iniciais
O dia passou bem rápido. Logo depois de voltarmos ao dormitório, não fiz muita coisa, mas Faith pareceu se enturmar facilmente com os outros transferidos que não tínhamos conversados no almoço. Fiquei sentada algum tempo em minha cama, finalmente tendo tempo para pensar na Cerimônia de Escolha. É nessa hora que a dor começa a voltar.
Lembro-me do olhar decepcionado de minha mãe, como se eu tivesse lhe traído. E também lembro da dor, daquele rastro de dor que ela manteve sobre mim, e que não sairia da minha mente por um longo tempo. Eu deveria ter lhe dito a verdade, pelo menos uma última vez, antes de deixá-la com promessas não cumpridas. Eu deveria ter sido verdadeira, assim a dor teria sido menor.
Meu pai sabia desde o começo. Ele sorriu para mim antes de sair do grande salão, mas não sei se o verei novamente. Nunca conversei realmente com ele porque sabia que se o fizesse, ele veria as mentiras estampadas em meu rosto. Sei que minha escolha o afetou, mesmo que ele não tivesse demonstrado. E sei também que eu o amo muito, mas preferia ter saído de lá com o mínimo de respeito pela facção – e pelo meu pai –, do que ter permanecido e ter mergulhado ainda mais em mentiras.
Me encaminhei rapidamente para o banheiro, fechando a porta. Meus olhos ardiam, mas eu não ia chorar. Eu fiz essa escolha, tenho que conviver com ela, digo para mim mesma. Uma lágrima escapou e trilhou seu caminho pelo meu rosto, mas a empurrei para longe rapidamente.
Eu sabia que não poderia viver com os meus pais para sempre, eu sabia. O futuro só depende de mim, a minha felicidade só depende de mim. Preciso ser forte. A dor não vai passar, mas ela se acomodará em mim. Poderei viver com a felicidade passageira que é ajudar os outros, ver o sorriso e uma faísca de esperança nascer nos que mais precisam. Um sorriso brotou em meus lábios involuntariamente com o pensamento.
Lavei meu rosto e voltei para o beliche.
Faith perguntara se estava tudo bem comigo, e disse que sim. Ela percebeu que eu não estava muito para conversa e me deixou um pouco só. Fiquei com meus devaneios e acabei “saindo do ar” – Katina falara uma vez que quando eu estava muito pensativa, ficava “fora do ar” por horas – até tarde, quando fomos jantar, e depois, dormir. Ninguém sabia que horas eram, mas todo mundo pareceu se conformar. O dia seria bem cheio.
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Abro os olhos e pisco algumas vezes. O sol entra por uma janela na outra parede e bate na porta branca, e é a primeira coisa que vejo ao acordar. Me sento coçando levemente o olho para eles se acostumarem com a luminosidade discreta, e me levanto. Todos estão dormindo. E o dia não está quente. Dou uma olhada pela janela e percebo que o sol acabou de nascer. Acordei cedo, como sempre. Me encaminho para o banheiro e fecho a porta devagar, não querendo acordar os outros. Olho para acima da pia e percebo que não vejo o de costume, um espelho. Mas, um segundo depois, me lembro que a Abnegação não usa espelhos, pois acham que é um ato de autocomplacência, vaidade. Estou tão acostumada a ver meu rosto de manhã que me surpreendo. Mas as coisas vão mudar. Lavo meu rosto e o seco. Tiro minhas roupas e tomo um banho rápido, que relaxam meus músculos. Logo depois, exploro as gavetas abaixo da pia, e encontro várias toalhas limpas. Pego uma e me enxugo. Visto as roupas cinzas novamente, e saio do banheiro secando meu cabelo.
Algumas pessoas tinham começado a acordar, e percebi que elas choraram durante a noite, pois seus olhos estavam inchados – mais do que o normal quando se acorda – e vermelhos. Não tive muito tempo para pensar em minha família quando fui dormir, simplesmente apaguei. Vou para a minha cama e sento, secando meu cabelo.
Flinch se levanta meio atordoado do beliche no lado oposto do quarto, e boceja por um longo momento.
– Mel, se é que posso te chamar assim, onde você encontrou uma dessas? – ele me pergunta, apontando preguiçosamente para a minha toalha. Dou uma risada por seu cabelo estar tão bagunçado e ele, quase dormindo em pé.
– Tem várias dessa ali, naquela última e grande gaveta – digo apontando para a pia. Ele me agradece e vai tropeçando em seus pés até o banheiro, batendo a porta.
Sinto um leve tremor no beliche e vejo Faith aparecer na minha frente em um salto, pulando de sua cama e dando um longo bocejo.
– Booom dia Mel – ela diz me dando um longo sorriso. Ela também andara chorando, mas finjo não perceber.
– Bom dia Faith, parece que acordou animada. – digo sorrindo.
– Acordo com barulho, e alguém fechou a porta desse banheiro muito forte, quase cai daí de cima – disse bocejando mais uma vez. – Percebi que você já tomou banho, como consegue acordar tão cedo?
– Não durmo muito, quase sempre acordo cedo.
– Eu não sei como consegue, porque eu estou quase desabando aqui querendo voltar para cama. – ela diz e vai arrumar sua cama.
Continuo a secar meu cabelo, e quando vejo que está razoavelmente seco, deixo ele se secar por conta própria. Arrumo minha cama rapidamente, estou acostumada a fazer isso em casa, mesmo sem precisar. Logo depois Flinch sai do banheiro, com os cabelos escuros brilhando por estarem molhados. Arruma sua cama e quase volta a dormir, acordando quando estava prestes a cair na cama de novo. No banheiro, surgiu um impasse com Aaron e Faith. Eles tiveram uma breve conversa do tipo “Pode ir, eu espero” “Não, vá você primeiro” “Eu posso esperar mais um pouco” “Primeiro as damas, vá, eu insisto”, e finalmente, Faith entrou no banheiro. Aaron sentou novamente em sua cama, e esperou. Ele não tinha chorado, não estava com os olhos inchados, nem vermelhos. Mas ele tinha um semblante pensativo, longe. Parecia o tipo de garoto que não diz muito, nem faz muitos amigos. Seus olhos, um cinza meio apagado, se fixavam num ponto fixo e assim ficavam por um longo momento. Ele percebeu que eu estava o encarando e olhou para mim. Desviei o olhar rapidamente e fiquei olhando por um tempo para a maçaneta na porta, que era prata e redonda. Dava para ver o meu reflexo, deformado; mas dava.
Faith saiu do banheiro e sentou ao meu lado. Logo depois, Aaron se levantou e caminhou em direção ao banheiro. Fechou a porta, e olhei para Faith. Ela tinha longos cabelos ondulados, muito bonitos, se não estivéssemos na Abnegação. Ela fez um coque rápido, mas bem feito, e suspirou.
– Ansiosa? Sabe, para o nosso primeiro dia ajudando os sem-facções? – ela me pergunta, e vejo em seus grandes e escuros olhos que ela está ansiosa.
– Um pouco, mas vai passar a partir do momento que eu começar a ajudá-los – digo sorrindo. – E você?
– Completamente. Eu não podia demonstrar muito na Amizade, só o normal para a facção, já que lá somos “amigáveis” o suficiente para isso. – ela diz, vagueando um pouco.
Passado um momento, todos já tinham tomado banho e alguns estavam arrumando suas camas, quando Abbey pareceu na porta, sorrindo para todos.
– Hoje começam as suas atividades, e vejo que todos estão bem dispostos – ela diz olhando para todos sentados em suas camas, e vê Flinch ainda bocejando sem parar – ou quase isso. Sairemos agora e junto com os iniciandos nascidos na Abnegação, vamos para lá – ela aponta para a janela, que tem a vista para uma vastidão de plantas rasteiras, algumas ruas de terras, e mais além, alguns prédios abandonados. Deve ser lá onde os sem-facções moram.
Ela seguiu pelo corredor e nós a seguimos. Descemos as escadas fazendo pouco barulho, até chegar ao primeiro andar. Aqui não tinham portas na escada, então continuamos a andar pela recepção em fila. Abbey entregou para cada um de nós uma mochila – provavelmente com comida, roupas e coisas que os sem-facções precisavam. Ela lança para mim um sorriso, e pego a mochila.
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