Notas iniciais
Comecei escrevendo ouvindo "Thinking Out Loud" do Ed Sheeran, depois mudei para "Towers" do Little Mix e terminei ouvindo "No One" da Aly e a AJ. Agradeçam à Ana Rita Marques e à Amanda Werneck por terem lido o conto antes de receber o prêmio do sorteio e ter liberado para vocês lerem também! Espero que gostem! Esse é só o primeiro.

De todos os momentos ótimos e péssimos da minha vida, fazer dezoito anos de idade havia sido o que mais tinha me marcado até então. Nos dias que antecederam meu aniversário, eu tinha contado os segundos para o grande momento chegar. Porque sabia, no fundo do meu coração, que me sentiria diferente. Eu seria diferente. Entraria em uma fase diferente da minha vida. Eu seria adulta.
Tinha passado minha vida inteira pensando naquilo. Nunca tinha me faltado tarefas e obrigações dignas de uma princesa real, mas aquele dia seria especial. Seria único. Era quando eu finalmente viraria adulta, finalmente maior de idade. Não seria mais olhada como uma adolescente que não tinha ideia do que estava fazendo. Não. Eu me sentaria na mesa dos adultos e teria minha opinião considerada. Voltaria à minha faculdade e seria levada a sério. Tudo mudaria. Tudo seria melhor.
Mas, na manhã do meu aniversário, depois de horas olhando para o teto, sem conseguir voltar a dormir, nada parecia diferente. Repeti para mim mesma várias vezes que era agora maior de idade, que oficialmente tinha as responsabilidades de uma princesa.
Mas nada.
Não importava se eu sabia, no fundo, o que era, quantos anos tinha e o que viria com aquilo. Eu me sentia normal. Era a mesma da noite anterior. O peso sobre meus ombros, os olhares distintos, a sensação de ter entrado na nova fase da minha vida, tudo aquilo estava na minha cabeça. E quanto mais eu os buscava, menos encontrava.
Minha festa de aniversário foi épica. Eu usei o vestido mais bonito que tinha, fui coroada outra vez por pura celebração e assinei o meu primeiro documento como alguém maior de idade. Era meu voto de que doaria minha vida pelo meu país, de que tinha toda a intenção de me tornar a próxima a subir ao trono e que, se não acontecesse, continuaria a serviço do meu povo pelo resto dos meus dias. Era uma grande decisão, apesar de eu definitivamente não precisar nem pensar para tomá-la. E do tipo que eu só poderia tomar tendo dezoito anos.
Mas, mesmo quando me virei de volta para as pessoas da festa ou quando saí na varanda para acenar para o povo, eu ainda era a mesma. Estava emocionada, é verdade. Mas ainda era a mesma eu dos dezessete.
Me convenci de que era loucura querer mudar da noite para o dia, que esse tipo de coisa demorava dias, semanas, meses. E, enquanto lidava com dois cursos de faculdade e uma agenda bastante ocupada de eventos oficiais, fiquei esperando em algum momento sentir algo diferente, reconhecer alguma sensação que nunca tinha tido, alguma que fosse exclusiva dos adultos. Até cheguei a me convencer de que provavelmente já tinha acontecido, que eu só não sabia apontar exatamente como ou quando. Ou, até mesmo, se seria permanente.
No entanto, era difícil acreditar, pois ainda acordava todos os dias e, assim que abria os olhos, mirava o teto e me perguntava se ainda era a mesma.
Duzentos e treze dias depois do meu aniversário e, sim, eu ainda era a mesma.
Me sentei na cama, olhando à minha volta. Mal tinha amanhecido, só um rastro de luz que conseguia passar pelas cortinas mostrava que o sol já tinha nascido. A maior parte do meu quarto continuava escura, mas eu já tinha decorado tudo que estava ali o suficiente para conseguir enxergar mesmo sem quase nenhuma iluminação. E, mesmo se não conseguisse, meus olhos acabavam indo em uma só direção: a do meu vestido de noiva.
Ele estava pendurado em uma das portas do meu closet, sua barra a alguns metros do chão. Não consegui passar mais de um minuto o olhando sem me levantar e ir até ele para tocar de novo em sua saia.
Aquela era outra razão para ficar esperando finalmente me sentir como uma adulta. Eu tinha mais do que dezoito anos. Eu tinha uma vida a dois pela frente, tinha me apaixonado pelo homem dos meus sonhos e tinha uma data marcada para me casar. Se aquilo não provava que eu não era mais uma adolescente, nada conseguiria.
Afundei minha cara na saia do vestido, sentindo seu cheiro de lavado e bem cuidado. Se Clarissa me visse daquele jeito, diria que eu era louca, arriscando sujá-lo. Mal sabia ela que na noite anterior eu o tinha vestido sozinha para dar umas voltas pelo meu quarto. E quase o tinha sujado com o blush que insisti em passar.
Mas ela entendia porque eu não conseguia aguentar muito tempo longe dele. Ela não admitiria, mas de vez em quando eu a pegava o olhando, tão encantada por ele quanto eu me sentia. E depois ela me olhava, prestes a suspirar. Eu só não sabia se era algum tipo de orgulho de mim, satisfação de me ver feliz ou só seus próprios sonhos. Mas o sorriso e o olhar perdido estavam lá. Todos os dias desde que as preparações tinham começado.
Deixei meu vestido para trás e fui em direção ao banheiro. Antes que saísse, já ouvia alguém entrando pela porta. Até me apressei, esperando encontrar Clarissa, mas, quando entrei de volta no quarto, percebi que ela não estava sozinha.
Liev entrava junto com ela. As duas pararam assim que me avistaram e fizeram uma reverência, mas Liev parecia não estar com humor para aquilo, pois, assim que pôde, se esticou e veio até mim.
"Princesa, seu café da manhã foi adiantado," ela disse, colocando uma mão nas minhas costas para me indicar o caminho da penteadeira. "Princesa Penelope acabou de me informar que terá que fazer uma viagem importantíssima hoje à tarde, então a encontrará agora cedo."
"Ah, claro," falei, me sentando à frente do espelho, enquanto Clarissa se posicionava atrás de mim e Liev ia se sentar na cadeira mais próxima. "Viagem importantíssima. Já posso imaginar qual acordo ela está querendo firmar."
Clarissa encontrou meus olhos no espelho e eu sorri, enquanto ela pressionava os lábios, tentando não me imitar.
"Independentemente de suas intenções," Liev continuou, "ela disse que isso não significa que está deixando de ser sua dama de honra e confirmou que estará de volta amanhã com o resto da sua família. "
"Ah, que bom," suspirei, enquanto Clarissa penteava meus cabelos. "Mesmo que nenhum outro convidado venha, já teremos conversas altas e constantes o suficiente para uma festa inteira.”
"Não se preocupe, nós tivemos mais confirmações do que em seu aniversário."
"Não estou preocupada," respondi, mirando meus olhos no espelho.
Eu realmente não estava. Não só porque a família real italiana garantia mesmo o barulho de uma multidão, mas porque sabia que muitas pessoas viriam.
Era só sobre isso que se falava no reino todo. Eu me casaria. Tão nova, segundo eles, tão certo! Eu vivia meu conto de fadas na vida real e, além de ser o dia mais feliz da minha vida pelos votos que eu trocaria com o homem ideal, também estaria garantindo minha posição em relação ao trono. Podia já ter dezoito anos, mas só seria uma verdadeira herdeira à coroa (e a primeira!) quando tivesse um anel no dedo.
Entretanto, o povo andava celebrando tanto, criando tantos especiais da família real e de Reid e eu na televisão e em revistas nacionais, que estava começando a ter medo de esquecer que aquele dia era meu. Ou pelo menos, mais meu do que deles.
Clarissa estava começando a trançar meu cabelo para enrolar em volta da minha cabeça como uma coroa, quando uma batida veio à porta.
Uma outra criada entrou, fez uma reverência, entregou uma pilha de revistas nas mãos já ocupadas de Liev e saiu.
"Vá em frente," falei, enquanto ela olhava as capas.
"O GRANDE DIA ESTÁ CHEGANDO," Liev jogou cada uma de lado conforme lia seus títulos. "CONTANDO OS SEGUNDOS PARA O CASAMENTO REAL. TUDO QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE A PRINCESA LOLA E SEU NOIVO. O FUTURO PRÍNCIPE DO REINO UNIDO. E mais coisas desse tipo," ela completou, abrindo a última e a folheando. "Não deve ter nada de novo, nem sei como sobrou assunto. Mas tem várias especulações sobre seu vestido."
Como mágica, nós três viramos o rosto na direção dele. Era quase como se não fosse meu, só algo que tínhamos tido a chance de conseguir deixar perto de nós para podermos admirar de vez em quando.
"Mas, então," Liev foi a primeira a quebrar o encanto, voltando seus olhos para a revista outra vez e me fazendo mirá-la pelo espelho, "se quiser, podemos soltar alguns detalhes para atiçar mais ainda a curiosidade deles."
"Como quiser," eu disse, fazendo ela pegar sua prancheta e checar algumas coisas. "Que tal uma foto do bolo?"
"Pode ser," ela mal parecia ouvir, sem tirar os olhos do papel por um segundo. "Deixe comigo."
Clarissa terminou de prender a trança em volta da minha cabeça e eu arrisquei um olhar em direção ao relógio. Eram sete e dois. Eu tinha oficialmente vinte e cinco horas e cinquenta e oito minutos como solteira.
Sem querer, um sorriso tomou conta do meu rosto. Quando meus olhos encontraram os de Clarissa, ela tinha as sobrancelhas levantadas, me observando.
"O que gostaria de vestir hoje, Alteza?" Perguntou, dando um passo atrás.
Podia jurar que ela tinha outra coisa em mente para me perguntar, como do que eu estava me lembrando, se estava sonhando com Reid ou se o frio na barriga já começava a me afetar. Mas eu mesma preferia manter meus pensamentos em segredo, mesmo quando estavam já claros a ponto de aparecerem em capas de revistas.
Arrisquei um olhar na direção de Liev. "Devo começar?" Ela perguntou e eu assenti uma vez. "Café da manhã com seu pai em dez minutos. Encontro com a Princesa Penelope às oito e vinte e três. Degustação dos vinhos para a festa às nove e meia. Checagem da ordem das músicas às dez. Escolha das flores às onze e quinze. Almoço com a Primeira Ministra meio-dia em ponto. De tarde, prova do vestido à uma em ponto. Revisão dos convidados e a ordem de chegada às duas e dez. Recepção dos que se hospedarão no castelo está marcada para às três, mas pode ir até às quatro, já que o café com a Penelope mudou. A família de Reid deve chegar só depois das seis, mas às quatro e vinte começa o ensaio, que deve demorar no máximo duas horas. E às sete em ponto começa o jantar com as duas famílias."
Conforme ela foi falando, eu fui organizando na minha cabeça tudo que teria que fazer e tudo que tinha planejado para cada uma das atividades. Aqueles eram os planos, mas eu podia apostar que, durante o dia, acabaria encontrando outras coisas para fazer, outros detalhes para checar, algo provavelmente daria errado. Liev era a organizadora de festas oficial do castelo e já tinha preparado a maioria dos meus aniversários, o que claramente provava que eu confiava nela. Mas aquele dia era meu. Mesmo que ainda tentassem roubar a atenção e o significado que eu tinha guardado para ele, era meu. E a primeira coisa que tinha dito para ela quando avisei que teríamos um casamento real era que eu precisaria ver e decidir absolutamente tudo.
E mesmo ali, quando sentia uma pontada de preguiça de ter que olhar flor por flor para ver se as pétalas estavam em bom estado, sabia que tinha tomado a decisão certa. Eu queria que fosse perfeito. Não para o povo, não para meu pai e nem para Liev. Mas para mim e para Reid. E o único jeito de garantir isso era acompanhar tudo de perto.
"Eu estarei andando por todo o castelo o dia inteiro?", perguntei, me virando na cadeira até estar com o rosto apoiado no encosto, olhando para Liev.
"Algum dia já não teve que andar pelo castelo inteiro?"
Balancei a cabeça, apesar de que aquilo machucava meu queixo.
"Exatamente," ela completou.
Fiquei em silêncio, pensando um pouco. Depois voltei a olhar na direção de Liev. "Câmeras?", perguntei, e ela assentiu. Depois virei para Clarissa, que esperava logo atrás da minha cadeira. "Contanto que em algum momento eu possa usar o lenço que parece ter sido feito para turistas em Londres," Clarissa sorriu, olhando para o chão, “que vai ser perfeito para receber os convidados, você pode escolher todos as outras roupas. Mas, para o ensaio, acho melhor eu usar aquele vestido de gala que teria usado no aniversário de meu pai, se não tivesse mudado de ideia. Ele tem mais ou menos o formato do meu de amanhã."
Clarissa assentiu. "Perfeito, Alteza," disse, indo até o closet.
Eu e Liev a acompanhamos com os olhos, mas eu me perdi no vestido outra vez. Me levantei e fui até ele, aproveitando os poucos segundos que tinha para tocar sua saia e sentir o tecido roçando por entre meus dedos.
"Alteza?" Era a voz de Clarissa, que me fez dar um passo ao lado.
Ela carregava um vestido rosa claro que em poucos minutos estava me cobrindo. Eu já vestia os sapatos quando voltei a me sentar na penteadeira para ela fazer minha maquiagem.


Quando finalmente deixei meu quarto e encontrei com o guarda que me acompanharia até a sala de café da manhã, Liev já tinha repassado os nomes dos convidados importantes de outras cidades e da família de Reid. Não que precisasse, eu e ele tínhamos feito questão de memorizar todos os parentes um do outro nas noites daquela semana. Talvez não do método mais eficiente do mundo, mas definitivamente do mais divertido.
O castelo estava cheio. Normalmente, os vários corredores só eram constantemente habitados por guardas e o ocasional nobre que visitava. Mas, nos dias que antecipavam o casamento, era difícil encontrar um só vazio. Nós tínhamos contratado bem mais criados do que já tínhamos e eles corriam de um lado para o outro, não só preparando o grande evento, mas também cada um dos quartos e acomodações que seriam usados pelos convidados. Eu já não sabia o nome de quase nenhum de costume, agora então seria impossível começar a aprendê-los.
Mas toda vez que qualquer pessoa cruzava meu caminho, eu lhe fazia um aceno, que era prontamente retribuído. Quando finalmente cheguei ao primeiro andar, meu pescoço quase doía. Mas eu não parava. Todos que passavam por mim me olhavam com olhos brilhando. E sabia que não era só por mim, era pelo que estava prestes a acontecer.
E entendia. Gostava disso! Podia parar e conversar com cada um, ouvi-los me dizendo o quanto estavam felizes por mim. Como isso seria praticamente inviável, me contentava com os acenos.
Quando entrei na sala de café da manhã, meu pai já comia. Arrisquei um olhar em direção ao relógio para descobrir que já eram quase sete e vinte.
"Estou atrasada," falei, querendo logo assumir o erro e deixá-lo me repreender.
Mas ele levantou o rosto na minha direção e sorriu. "Bom dia," disse.
Eu me aproximei, sentando na cadeira que o guarda puxou para mim, logo antes de ir ficar perto da porta. Além de meu pai, outras cinco pessoas também estavam ali. A mesa era só nossa, mas seus dois guardas pessoais estavam perto das outras portas que davam para aquele cômodo. Havia também um servente para cada um de nós e, é claro, o conselheiro real, Donald, que parecia estar preso dentro do seu próprio mundo. Poderia jurar que nem tinha me visto, se ele não tivesse se levantado quando eu entrei. Mas nossos olhos nem se cruzaram e logo ele já estava mirando seu telefone outra vez.
Por incrível que pudesse parecer, assim que eu pude sorrir de volta para meu pai, senti que estávamos sozinhos.
"Bom dia," falei. "Me perdoe o atraso."
"Perdoado," ele disse rapidamente, olhando de relance para o papel ao lado de seu prato e então voltando a me mirar. "Os corredores estão cheios, até eu cheguei um pouco atrasado."
Apertei os olhos, observando-o atentamente. "Quanto tempo?" Perguntei, enquanto meu criado me servia uma xícara farta de café.
Meu pai fez cara de quem estava pensando, mas acabou por sorrir. "Talvez quinze segundos," falou, se dando por vencido.
Eu balancei a cabeça, reprovando-o de brincadeira. "Esperava mais de você, Gareth Farrow. Esperava mais."
Ele riu de leve, logo levando o chá para lavar a garganta. Usava sua coroa mais simples, o que me indicava que devia ter algum compromisso em que apareceria em público, mas provavelmente nada muito importante. Não era exatamente necessário que ele aparecesse com a coroa, mas, apesar de todas as suas outras virtudes irem contra qualquer tipo de vaidade fútil, ele secretamente adorava usá-la.
Talvez não tão secretamente, uma vez que todos naquele castelo já tinham percebido.
"Como vão as preparações? Tudo direcionado?”, ele quis saber, quando voltou sua xícara à mesa e foi servido de um prato com broas inglesas.
"Ainda tenho mais um dia de preparações, mas sim. Tudo direcionado," eu me estiquei e alcancei uma das suas broas, trazendo-a de volta para mim. Ele nem falou nada, só continuou comendo. "O que me lembra," continuei, "o ensaio começará às quatro e vinte."
"Devo comparecer?"
"Não," falei, sarcástica. "Só se ainda quiser entrar comigo na igreja. Senão, eu posso chamar outra pessoa." Na hora em que falei isso, a porta se abriu. "Stan, por exemplo," completei, apontando para o mordomo assim que ele se colocou de pé ao lado da mesa.
Nós dois levantamos o rosto para olhá-lo.
"Majestade, Alteza," ele fez uma rápida reverência, "perdoe a intromissão. Mas a Princesa Penelope chegou."
Meu pai olhou dele para mim, enquanto eu bufava discretamente o quanto aquilo era inconveniente. Olhei o relógio, sete e vinte e cinco. Ela estava exatamente uma hora adiantada. Realmente devia achar que eu não tinha nada para fazer, já que ficava mudando o compromisso e aparecendo quando lhe desse na telha.
"E então?" Meu pai perguntou, um sorriso aparecendo em seu rosto. "Parece mais um problema seu do que meu."
"Ultimamente, parece que só problemas meus aparecem por aqui."
Ele riu. "Quer trocar?"
Eu levantei uma sobrancelha, considerando aquilo. Meus problemas estavam bem mais frequentes nos últimos dias, principalmente no último mês. Eu que tinha decidido me casar trinta dias depois do noivado, praticamente merecia aquilo.
Mas mesmo que eles fossem inconvenientes e, na sua maior parte, completamente dispensáveis, ainda preferia ter que lidar com eles a trocar com meu pai. Já teria que assumir os dele quando estivesse no trono, não tinha problema algum em adiar aquilo um pouco mais.
"Alteza?" A voz de Stan me trouxe de volta ao momento e eu olhei para ele. "Gostaria que eu a enrolasse?"
"Por favor!" Pedi, exclamando de felicidade.
Ele concordou com a cabeça e saiu pela porta. Sabia que aquilo não era o suficiente. Penelope nunca se deixaria levar pelo mordomo e pelo que quer que ele estivesse planejando usar para distraí-la. Pelo menos eu tinha ganhado alguns minutos para terminar de comer.
"Por que Reid não pode lidar com esse tipo de coisa?" Perguntei, me apressando para terminar a broa e me servir do pão de passas e rum que estava logo à minha frente. "Por que sou eu que tenho que fazer sala para os convidados?"
"Primeiro, porque Penelope é sua dama de honra," meu pai fez questão de apontar. "E não se preocupe com o Sr. Willard, ele terá um dia cheio conosco."
"Sabe que pode chamá-lo de Reid, não é?"
Ele sorriu, satisfeito. "Estou ciente," disse, levando sua xícara de volta à boca para um gole rápido. "E o chamarei, uma vez que for realmente meu genro."
Dei de ombros. "O que está planejando para ele?"
"Outra visita ao parlamento, um almoço com os ministros, uma conversa séria."
"Uma conversa séria?"
Meu pai fez questão de soltar da faca que usava antes de continuar. "Uma conversa séria," ele repetiu, juntando as mãos acima do prato e se apoiando nos cotovelos. "Acha mesmo que eu deixaria qualquer um se casar com a minha filha sem antes ter uma conversa séria com ele?"
Eu revirei os olhos. "Reid dificilmente é qualquer um, pai. E o que essa conversa implica? Alguma ameaça caso ele me machuque? Ou está mais preocupado sobre quando ele virar o próximo dono de sua coroa?"
Instintivamente, meu pai levou as mãos a ela. "Não," ele me garantiu, a ajeitando mesmo que fosse desnecessário. "Com a coroa, ele pode ficar. As ameaças serão todas por sua causa," ele finalizou baixando as mãos e me entregando outra broa.
Eu tinha acabado de comer o único pedaço de pão que tinha pegado e nem precisou de mais do que uma olhada minha na direção do seu prato para ele entender o que eu queria.
"Obrigada," falei, a pegando dele. "Mas devo dizer que uma conversa sobre sua coroa faria bem mais sentido, pai. Reid é a última pessoa no mundo que me machucaria."
"Não," ele me corrigiu, direto e firme. "Eu sou."
Nossos olhos se encontraram e eu imitei seu sorriso. Teria me levantado para ir abraçá-lo, mas só aquele olhar já era o suficiente. E nós continuamos comendo.
"Tem alguma conversa séria que você precisa ter com a outra metade desse casamento?" Perguntei, discretamente disfarçando meu interesse. "Algo que precisa me falar?"
Ele olhou rápido de volta ao documento que fingia revisar e o dobrou antes de me responder. Fez até questão de se inclinar no encosto da cadeira e me mirar fundo. Quando finalmente abriu a boca, eu mesma já tinha soltado de meu garfo e esperava a pior notícia do mundo.
"Todas as conversas que já tivemos durante sua vida inteira, Lola, eram para lhe preparar para esse momento. E vários outros. Isso não significa que você já aprendeu tudo que poderia em sua vida, mas acredito que já fez um trabalho excepcional de me ouvir até durantes seus anos adolescentes e que não precisa de outra conversa agora."
Pela distância que ele estava, parecia que ele me observava mesmo como um trabalho finalizado. Ou, pelo menos, que chegava perto disso.
Eu me deixei absorver o peso do seu olhar, tentei inspirar aquela sensação que ele parecia ter de linha de chegada, transição de momentos na vida, tudo aquilo que eu estava esperando que me afetasse há meses.
Mas ele desviou o olhar para o prato antes que eu conseguisse me sentir diferente e eu me voltei ao meu.
"A verdade, Lola, é que tenho certeza de que você vai se dar bem em tudo que escolher fazer."
"Mesmo em dois cursos de faculdade ao mesmo tempo?" Arrisquei.
Ele bufou rapidamente uma risada. "Não que haja a necessidade de você se matar para conseguir completar tão rápido os dois, mas, sim, acredito que vai se dar bem. E já está se dando, eu sei." Ele virou o resto de chá que tinha e parou a mão no ar, esperando que o servente viesse trazer seu charuto. Eu continuei comendo até que ele o tivesse aceso e pudesse falar de novo. "No seu casamento, não será diferente." Ele bufou alguns círculos de fumaça no ar. "Se você encontrar alguém que realmente ame, tenho certeza de que será feliz e superará qualquer dificuldade que tiver."
"Como assim, se?" Perguntei, praticamente segurando minha respiração. "O que você quer dizer com isso?"
Ele tragou outra vez, tirando o charuto da boca e se inclinando de volta no encosto. "Não quero dizer nada demais. Não tenho nada contra Willard."
"Reid."
O servente tirou seu prato e ele se inclinou na mesa, na minha direção. "Não tenho nada contra ele, Lola. Nem pensava nele. Estava falando de você e só você."
Respirei fundo, soltando os ombros e olhando para meu prato. O cheiro do charuto já tinha tomado conta do ambiente, mas não me incomodava. Combinava estranhamente bem com o café que eu bebia.
Peguei minha xícara e a trouxe para mais perto de mim.
"Eu não tenho tanta certeza de que vai ser fácil assim," falei.
"Nunca disse que iria ser fácil," ele me corrigiu. "Mas sinta-se livre para ter um pouco mais de esperança em si mesma, Lola."
"Não sei se me falta esperança," parei para tomar um gole e deixar o líquido quente se atrever a me esquentar. "Eu tenho certeza de que não teremos problemas. Não em relação ao casamento. Reid é," pausei, olhando para o teto, procurando a palavra certa. Mas não a encontrei e acabei só balançando a cabeça. "Eu tenho certeza, profunda certeza de que teremos o melhor casamento da história. Estou bem mais ansiosa com a festa do que os anos que se seguirão."
"Qual o problema então?"
Suspirei. "Eu não venho sozinha. Se nós fôssemos ter só um casamento, já seria complicado o suficiente. Eu venho com um reino inteiro. E se ele se cansar? E se não aguentar ser rei? Se não fosse a lei que me obriga a só poder virar rainha com um marido, ele seria só um príncipe-consort. E não teria toda a pressão que eu tenho."
Foi minha vez de me inclinar com os cotovelos na mesa.
"Eu o amo, pai. E, quando olho para ele, sei que é o suficiente. Sei que podemos superar qualquer coisa. Não me falta esperança ou fé. Não em nós dois juntos. Mas me sobra insegurança de que ele não tenha percebido o que vai mudar para ele, quem ele irá se tornar."
Meu pai franzia a sobrancelha, me observando. "Não," disse, sem a mínima hesitação em sua voz. "Volte a se preocupar com a festa, Lola. Ou até mesmo com o casamento. Se tem uma coisa da qual eu tenho certeza é de que Reid sabe exatamente no que está entrando."
Recuei um pouco no meu lugar. "No que está entrando?"
"E de que quer se tonar o soberano desse reino. Não precisa nem perder mais um segundo pensando nisso. Se você o visse no parlamento, entenderia. Até mesmo Julia Fletcher acredita que ele está levando tudo bem mais a sério do que esperávamos." Na hora, pensei em Julia e em como eu a teria que ver no almoço. Nunca nem tinha parado para pensar no que ela e os outros ministros poderiam achar do meu casamento. "Se você tem medo de ele não estar preparado para ser rei, pergunte a ele," meu pai continuou, intercalando palavras com tragadas. "Tenho certeza de que ele já pensou bastante nisso e de que a ideia lhe agrada bastante."
Meu pai falava como se o assunto não fosse nada, jogando as palavras no ar junto com a fumaça do charuto, completamente desinteressado para onde iriam depois que saíssem de sua boca.
Mas, para mim, parecia um peso que ia se acumulando em meus ombros. Eu ficava esperando a próxima vez que ele falaria alguma coisa e torcendo para que ele se explicasse com o que eu queria ouvir.
Depois de alguns segundos, nos quais os únicos barulhos da sala vinham de Donald e seu celular, me ajeitei no meu lugar e larguei minha xícara na mesa.
"Você acredita que ele almeja ser rei?" Perguntei, levando tanto tempo para terminar a frase que quase desisti no meio.
Meu pai assentiu. "Sim," falou, parecendo sentir o quanto me custava ter que perguntar aquilo em voz alta. "Mas isso não significa que ele não queira ser seu marido," ele continuou. "Lola, a melhor pessoa para tomar o trono não é aquela que não quer, que não almeja o poder. Claro que aquela que só pensa nisso é declaradamente desqualificada para a posição. Mas indiferença não é uma virtude nesse caso. É preciso amar a ideia de ser rei, querer isso de verdade. Porque não é um emprego que se pode largar ou levar de qualquer jeito. Ele querer o trono é um bom sinal. Significa que você não precisa se preocupar. Ele nunca vai usar isso contra você, nunca vai lhe culpar por colocá-lo em uma posição na qual ele nunca quis estar."
Concordei com a cabeça, respirando fundo, mas discretamente. Era isso que eu queria ouvir. Então por que o peso nos meus ombros parecia ainda estar lá?
"Agora," meu pai continuou, "se em algum momento você sentiu que ele não estava sendo verdadeiro," eu balançava a cabeça já freneticamente quando a porta se abriu e ele virou o rosto na sua direção. Quando voltou os olhos para mim, já parecia ter desistido do que falava. "Penelope," disse, baixo o suficiente para só eu ouvir.
Virei meu rosto para encontrá-la apoiada no batente da porta de braços cruzados e parecendo bastante impaciente.
Olhei uma última vez para meu pai, engolindo a seco logo depois. Ainda não estava pronta para sair daquela conversa. Ainda precisava garantir a meu pai que eu não tinha a menor dúvida, que nunca tinha sentido que Reid não estava sendo verdadeiro.
Mas Penelope bateu o pé! E eu tive que respirar fundo e me levantar, jogando meu guardanapo na mesa.
"Penelope, querida," falei, assistindo-a praticamente bufar de raiva por eu a ter feito esperar. "Que bom te encontrar."
"Engraçado, Lola. Estava começando a achar que não queria me ver!" Ela se virou de costas para mim quando eu estava chegando perto dela e saiu pela porta.
Antes de segui-la, olhei no relógio. Oito horas.
"Ouvi dizer que fará uma viagem hoje mesmo," falei, indo atrás dela.
Penelope não era muito alta, mas tinha pernas longas, o que dificultava eu chegar ao seu lado sem ter que correr. Mas fiz meu melhor.
"Sim," ela disse, ainda impaciente. "E é para você!"
"Como assim, é para mim?"
Por um segundo, achei que ela fosse dizer que teria que me buscar algum presente.
Ela brecou com tudo para me olhar, quase acertando uma criada. "É para eu ir pegar o meu vestido para amanhã, Lola!" Ela explicou, abrindo os braços e me obrigando a esconder um sorriso. Claro que não era para mim de verdade. "Stace estragou completamente o que eu ia usar! Agora eu vou ter que ir a Milão para buscar um novo!"
Ela voltou a andar, ainda mais rápido, batendo os pés no chão como para aliviar sua frustração.
Eu respirei fundo antes de começar a ir atrás dela. Por que não tinha escolhido outra pessoa para ser minha dama de honra?
Ela trombou com um guarda no final do corredor e o barulho me fez olhá-la.
Porque eu não tinha outra amiga para escolher. Não, que não fossem minhas primas ou colegas de faculdade. Penelope era a única pessoa que eu conhecia desde pequena. E a mídia já tinha incontáveis fotos nossas juntas durantes os anos para fazer um álbum de noiva-dama-de-honra. Todos concordavam que era a escolha que fazia mais sentido, até eu mesma. Será que seria uma pessoa terrível por quase querer não ter dama de honra alguma?
Quando voltei a andar na direção dela, Penelope já não brigava com o guarda. Pelo contrário, ela enrolava o próprio cabelo no dedo, ria até ter que jogar a cabeça para trás e o tocava distraidamente de vez em quando. Ele devia ter o dobro de sua idade, mas ela claramente parecia não se importar.
Passei por ela, andando rápido pelo corredor, enquanto cada criado parava para assentir de volta para mim. Nem olhei para trás ou chamei seu nome, mas ela acabou me seguindo.
"E então?" Ela perguntou quando estava do meu lado. "Tem alguma coisa que eu preciso saber antes de amanhã? Alguma razão em especial para você ter me chamado aqui?"
Eu parei de andar, esperando que o guarda mais próximo abrisse a porta da sala de chá para nós entrarmos e depois fechasse atrás de nós.
Uma criada colocava a mesa, provavelmente esperando que nós só chegássemos às oito e vinte. Ela me olhou assustada e correu para ficar de pé do lado da mesa, escondendo suas mãos nas costas e fazendo uma reverência.
"Pode ir," falei para ela, que olhou de mim para a mesa.
Eu segui seu olhar. Nossas xícaras estavam ainda em sua bandeja e ela não tinha tido tempo de terminar.
Só assenti, e ela correu para não demorar mais do que o absolutamente necessário. Quando terminou e saiu pela porta, pude imaginá-la respirando fundo lá fora, aliviada. Queria ter sorrido para demonstrar que não precisava entrar em pânico, já que não podia falar que a culpa era de Penelope e sua falta de responsabilidade com compromissos marcados. Mas a criada saiu antes de trocar outro olhar comigo, e a princesa italiana falava sem parar do que tinha feito na noite anterior e de como sua irmã era hilária.
Pessoalmente, nunca tinha achado Micaela tão engraçada. Mas ela ainda era muito nova, e eu definitivamente não tinha paciência o suficiente para prestar atenção ao que ela dizia por muito tempo.
Penelope era alguns anos só mais velha que ela, mas falava dela como se ela mesma já fosse adulta. Poderia apostar que ela já se sentia como maior de idade, mesmo que ainda não tivesse noção do que aquilo significaria. Ela até tinha a terrível mania de falar comigo como se fosse mais velha que eu, fingindo não ter dois anos de experiência e bom senso a menos.
“...E foi tão engraçado!" Ela riu alto, completando sua história.
Eu mesma não conseguiria dizer sobre o que era e o que tinha sido tão engraçado nem para salvar minha vida. Sabia que não precisava, Penelope falaria sozinha com ou sem incentivo. E eu não estava disposta a me ocupar dos problemas dela.
"Que ótimo," falei rapidamente. "Mas Penelope, sobre seu vestido novo. Ele ainda será azul escuro, não é?"
Ela tomou um gole do seu chá, que estava me embrulhando o estômago desde o outro lado da mesa. "Não," disse, assim que apoiou a xícara na mesa. Eu arregalei os olhos. "Desculpa, Lola! Mas não consegui encontrar nenhum que fosse azul escuro," ela fez questão de revirar os olhos quando falou a última palavra. "Mas ele será azul, não se preocupe."
"Que tipo de azul?" Já podia imaginá-la destoando de toda a decoração do casamento.
Não que ela precisasse do vestido errado para isso. Conseguiria facilmente só com as suas risadas e comentários inapropriados em momentos inoportunos.
"É até melhor," ela continuou, parecendo nem me ouvir. "Eu vi uma foto daquela louca da Amélie com um vestido da mesmíssima cor na Nova Austrália. A última coisa da qual eu preciso é das revistas falando que estou tentando imitá-la!"
Eu respirei fundo, mil comentários aparecendo na minha cabeça. Primeiro, que, sim, Penelope tinha a mania de tentar imitar outras princesas e todo mundo já sabia disso. Mas ela era nova, não me espantava tanto. Segundo, que ninguém perderia tempo falando das roupas de Amélie. Sua vida no último ano tinha sido cheia o suficiente de escândalos para que não tivessem que procurar assuntos fúteis para estampar as capas das revistas.
E, por último, e muito mais importante, é claro que não seria melhor assim! Independente do resto do mundo se vestindo da mesmíssima cor, a decisão era minha e Penelope não podia simplesmente fazer o que quisesse!
Mas eu respirei fundo outra vez. "Tudo bem," falei, enquanto já planejava um jeito de encontrar outro vestido para ela. Já até podia imaginar quando pedisse para que ela o vestisse. Ela faria uma cara de emburrada que levaria pela festa inteira e só confirmaria minha vontade de não ter dama de honra alguma.
Ela pareceu nem precisar me ouvir outra vez, só continuou comendo e enchendo a boca, pegando seu celular e o deixando na mesa de cinco em cinco segundos. Eu sorri, tentando me concentrar na minha própria xícara de café, apesar de que a minha vontade de beber já tinha passado no café da manhã.
Mas nem meu sorriso ela notou.
Me perguntei se poderia simplesmente me levantar e ir embora. Será que ela notaria?
Penelope se esticou um pouco no seu lugar para alcançar os docinhos que estavam mais perto de mim. Ela já mastigava alguns, mas não fazia questão de esperar para atacar os próximos. Como se nós não fôssemos as únicas ali e alguém pudesse roubá-los antes que ela tivesse a chance.
Fiquei olhando para ela nos próximos minutos, enquanto ela bufava toda vez que lia uma mensagem no celular e me explicava o quão insuportável a nova assistente dela era. Penelope era bastante bonita, naturalmente bonita. Mas era fácil aquilo passar despercebido quando ela jogava seus péssimos modos na nossa cara. Parecia que tinha pulado absolutamente todas as aulas de etiqueta que já tivesse tido na vida. Eu até questionaria se os pais dela não a reprimiam, mas eu os conhecia e eles eram ainda piores.
Ela falava alto, ria alto e às vezes mastigava com a boca aberta. Aliás, não se importava muito de esperar ter engolido para acrescentar mais um comentário. Não tinha pose. Precisava jogar os ombros mais para trás, levantar um pouco mais o queixo, parar de fazer uma careta por segundo. Seu cabelo estava para todos os lados, quase caindo no prato e ela não parecia notar. Fazia piadas o tempo todo, reclamava de tudo. Qualquer pessoa que fosse minimamente contra o que ela queria levaria um comentário desagradável para casa. Ela era definitivamente a pior pessoa para se ter do meu lado no altar.
Mas não ter ninguém seria ainda mais humilhante. E não era como se a mídia já não tivesse percebido sua fama de desleixada. Pelo menos, seria melhor do que aparecer como a princesa que não tinha amigas. E, do seu lado, qualquer falha minha seria ofuscada.
Só esperava não ser ofuscada completamente.
Olhei rapidamente para o relógio, torcendo para que já fossem nove e meia e eu tivesse a melhor das desculpas para sair dali.
Mas não. Ainda eram oito e vinte, exatamente o horário em que eu tinha marcado de encontrá-la.
Mesmo assim, me levantei. Senti um impulso de mentir e inventar alguma coisa e não resisti. Era melhor nem pensar muito, senão acabaria desistindo.
"Penelope, querida. Sinto muito, mas eu vou ter que te deixar," falei, colocando meu guardanapo na mesa.
Ela me olhou como se tivesse lhe dado um tapa. "Como assim?!", perguntou, sua voz estridente chegando ao teto que estava a bons seis metros de nossas cabeças. "Mas você nem me falou porque queria que eu viesse hoje!"
Eu sorri, pensando rápido em uma desculpa. Antes, ia pedir que ela ficasse com as alianças, mas agora estava achando melhor pedir para Reid deixá-las com o seu padrinho.
"Então," falei, dando de ombros para ganhar tempo, "eu só queria poder te ver, saber como estava seu vestido. Essas coisas," péssima desculpa, Lola. "E ficaria mais tempo aqui, mas tive que marcar uma entrevista de última hora agora! Você me perdoa, não é?"
Não esperei que respondesse, já balancei o sino para uma criada vir.
Ela olhou para o prato à sua frente, parecendo bastante envergonhada, e eu senti uma pontada de culpa.
Ela ainda era só uma menina. Mesmo que tivesse seus hábitos detestáveis e não fosse muito mais nova que eu, ainda era uma menina. E eu estava praticamente a abandonando.
Fui até ela e apoiei uma mão em seu ombro. "Me perdoe. Mas você pode ficar aqui, aproveite os doces!" Sorri, esperando que aquilo compensasse. Quando a criada bateu e entrou pela porta, eu me virei para ela. "Jen, cuide de Penelope e lhe sirva tudo que ela pedir!", ordenei, me virando de volta para ela. "E, se você precisar de alguma coisa, mande me chamar," na minha cabeça secretamente prometi que criaria outras desculpas caso ela realmente levasse aquilo a sério. "Te vejo amanhã de manhã!" Me abaixei e lhe dei um beijo no rosto.
Eu odiava aquilo. E toda vez que ela me cumprimentava assim, minha vontade era de lavar meu rosto.
Mas sabia que ela achava beijo na bochecha a coisa mais adorável do universo e eu precisava conseguir deixá-la um pouco menos desanimada ali. Quanto mais incomodada ela ficasse de ser abandonada, mais rápida correria de volta até mim para reclamar de alguma coisa.
"Ciao!" Falei, quando estava passando pela porta.
Mas Jen já tinha conseguido sua atenção e anotava mentalmente tudo que Penelope declarava necessitar para sobreviver àquele chá.
Saí no corredor e respirei aliviada. Vários criados e guardas passavam por mim, deixando qualquer caminho ali tumultuado e barulhento. Mesmo assim, me parecia bem mais relaxante do que lá dentro com Penelope.
Repeti para mim mesma que ela era só uma menina. Dezesseis anos era uma idade difícil. Se sentir perto de ficar adulta, mas ainda tão longe era difícil. E eu precisava ter um pouco mais de paciência com ela.
Mas não era fácil. Era praticamente impossível conseguir fingir me importar com o que ela falava. Cada um dos seus problemas com as criadas, a assistente, as pseudo-amigas. Eu já nem fingia ouvir e ela nunca pareceu se importar. Ou até mesmo perceber. Cada segundo do lado dela era um que eu contava para me afastar.
E, por mais que meu alívio de a deixar para trás viesse com pontadas de culpa, ele ainda era deliciosamente libertador.
Passei pelas pessoas pensando no que eu podia fazer com aquele tempo que tinha conseguido. Poderia criar mesmo uma entrevista, pedir para Liev chamar qualquer um dos repórteres que estavam do lado de fora do portão para uma exclusiva. Ou então podia simplesmente adiantar a degustação de vinhos.
Mas, por enquanto, gostava de poder andar devagar no meio de tanta gente apressada. Era como uma bolha que eu colocava em volta de mim, aproveitando meus próprios pensamentos sozinha. Mesmo que todos me vissem, me percebessem e acenassem para mim, meus pensamentos eram meus. E só meus. O único jeito de ficar sozinha ali. O jeito de poder aproveitar um pouco de calmaria, já que eu sabia que a tempestade chegaria rapidamente.
Só que, assim que virei o corredor, perdi toda a vontade de ficar sozinha.
Mas por uma boa razão.
A alguns metros e várias pessoas de mim, estava um par de olhos azuis que me sorriam. Reid estava parado, sem deixar que o caos de fora o atrapalhasse. Por um segundo, eu também parei. Mas logo voltei a andar, aumentando a velocidade a cada passo, querendo chegar até ele o mais rápido que podia!
Por entre as pessoas que passavam entre nós, eu conseguia ver seu sorriso, depois suas orelhas grandes que só conseguiam me fazer pensar que ele era lindo. Ele era lindo. E eu mal podia esperar para chegar perto dele, colocar os braços em volta dele e esquecer tudo que não fosse o fato de que em um dia eu seria dele, só dele.
Ainda estava a alguns dez metros de chegar ao seu lado quando outra pessoa colocou uma mão em seu ombro. Diminui o passo até parar. Mesmo ainda com todos os guardas e criados entre nós, pude ver que era meu pai. Ele falou com Reid, não percebendo que eu tinha estado indo em sua direção, e o forçou a começar a andar com ele. O sorriso, que antes era para mim, agora era para cada coisa que meu pai falava a ele. E eles só se afastavam de mim, levando consigo toda a esperança que eu tinha daquele pequeno encontro, pequeno intervalo só nosso.
Antes de virarem o corredor, Reid ainda arriscou um olhar na minha direção e, embora não tendo a chance de falarmos nada, só uma última troca de sorrisos foi o suficiente por enquanto.


Continuei parada ali por mais alguns minutos, deixando que os criados me olhassem e se perguntassem o que eu estava esperando. E teria ficado ainda mais tempo, se Liev não tivesse descido as escadas e praticamente marchado até mim.
"Princesa! Você tem seu café com Penelope agora! Está atrasada!" Ela disse, usando um headset e depois falando algumas palavras no microfone. Quando parou na minha frente, fez um gesto para que eu começasse meu caminho em direção à sala onde Penelope estava.
"Não tenho. Ela já está aqui, já tomamos café, já fugi," falei.
Ela ainda teve que responder algumas coisas no microfone, algo sobre a decoração do altar estar atrasada, antes de se virar de novo para mim.
"Bom, você tem ainda quase uma hora até a degustação," ela disse, olhando no relógio e trocando sua prancheta de mãos por alguns segundos. "Quer que eu antecipe?"
Ia concordar, mas vi as portas principais do castelo com o canto do olho e virei o rosto para observá-las.
"Tem muita gente lá fora?" Perguntei.
Ela olhou de mim para as portas, sobrancelhas franzidas. "No portão? O povo?" Assenti. E ela deu de ombros. "Claro, está lotado! Seu pai estava pensando se não seria mais seguro parar o trânsito."
"Posso ir falar com eles?" Perguntei, fazendo ela arregalar os olhos. "Só um oi rápido, algo sobre o que comentarem depois."
Ela concordou com a cabeça devagar, como se ainda estivesse pensando sobre aquilo e se convencendo de que era boa ideia. "Pode ser. E mais tarde divulgaremos uma foto do seu bolo. Ninguém vai conseguir falar de mais nada no país todo!"
Eu sorri, satisfeita, e fomos até as portas, onde Liev convocou alguns guardas pelo rádio.
Gostava da ideia de saber que meu povo se importava tanto com o meu casamento assim. Não estava tão louca para garantir que não se pensasse em mais nada no reino inteiro como Liev, mas não podia negar que aquilo me fazia me sentir bem. Todos me apoiando e, essencialmente, aprovando Reid. Eu podia não ter muitas amigas, mas tinha um país inteiro torcendo por mim.
Assim que saí no jardim, as pessoas que estavam atrás do portão já balançaram seus cartazes e gritaram. Eu até tinha imaginado algumas estacionadas ali, esperando ver o que conseguissem dos convidados, da decoração, de todo o evento. Mas era bem diferente do que eu podia ter antecipado. Parecia que estavam em um show de rock, esperando um artista e não um casamento.
Não nevava, não naquele momento. Mas estava frio o suficiente para eu ter vestido um casaco pesado e sentir que aquelas pessoas eram realmente loucas.
O casamento não seria ali. E mesmo assim, elas faziam filas para conseguirem enxergar o máximo possível do castelo e de seus convidados. Na neve, de dia, de noite. Rapidamente me lembrei das revistas e de como Liev queria que a gente não deixasse que pensassem em mais nada. Talvez fosse extremamente egoísta da nossa parte, já que toda a curiosidade que instigávamos os forçava a sobreviverem ao frio.
Parei de andar a poucos metros da porta e voltei para dentro do castelo.
"Desistiu?" Liev perguntou, vindo logo atrás de mim.
"Não," falei. "Só preciso levar uma coisa comigo."

Da próxima vez que saímos no jardim, não haviam só guardas à nossa volta, mas várias criadas igualmente agasalhadas. E, na mão de cada uma, copos de papel e uma garrafa de chá ou de café.
Eu mesma levei uma de café. E nós distribuímos os copos para todos aqueles que estavam lutando contra o frio para poder ficar perto do meu casamento, logo os enchendo do que preferissem. Liev foi comigo com uma garrafa de chá e, enquanto servíamos cada pessoa ali, eles faziam questão de me dizer o quanto estavam felizes por mim, que Reid seria um ótimo rei e eu, uma ótima rainha. Alguns até me pediram para serem convidados, mas eu falei que o casamento seria pequeno, só família mesmo. Não era como se Westminster fosse a maior igreja do país.
Não ficamos muito tempo, só o suficiente para ajudar a aquecer um pouco as pessoas. Mas quando eu já tinha entregado minha garrafa a uma criada e acenava para as pessoas, a ponta do meu nariz parecia estar congelada. Aquela ideia tinha sido ótima, todo mundo tinha adorado e tirado várias fotos. Mas quanto mais tempo passava ali, sentindo o vento nos poucos centímetros de perna que tinham se safado do casaco, mais eu sonhava em voltar para o castelo quentinho.
Assim que a porta se fechou atrás de nós e Stan me ajudou a tirar meu casaco, Liev se virou para mim.
"Nove horas. Degustação?" Perguntou.
"Degustação," repeti.
Passei pelas criadas que tinham nos ajudado e todas elas me observavam com aquele mesmo olhar de Clarissa naquela manhã. Era tão encantador assim que eu ia me casar? Por que elas estavam tão apaixonadas pela ideia? Será que achavam que eu nunca chegaria lá?
Aquela não era a primeira degustação que já tínhamos tido. Em trinta dias, eu já tinha encontrado o enólogo do castelo umas quatro vezes, algumas sozinhas, outras com o chef principal. E o problema não era que eu era indecisa, mas que eles mudavam de ideia o tempo todo, descobriam outras comidas, outros vinhos e precisavam de qualquer jeito ver se combinavam e se me agradavam.
Mesmo assim, não me importava de me sentar outra vez à mesa e provar cada uma das garrafas que ele trazia. A adega aonde fazíamos a degustação era bastante afastada da entrada do castelo. Era perto o suficiente da cozinha para que o chef trouxesse amostras da comida, mas longe o bastante para que o clima lá dentro não fosse afetado pelo calor que vinha dos fornos.
Talvez fosse aquilo que eu mais gostava dali, o clima. Era mais frio que o resto do castelo, mas não a ponto de eu sentir minhas extremidades congelando. E aproveitei cada minuto e cada gole que provei ali dentro.
Quando saímos, Jacques tinha decidido outra vez os vinhos perfeitos sozinho, apesar de parecer tão indeciso e inclinado a mudar de ideia quanto das outras vezes. Fomos direto para o salão de festas, onde me sentei outra vez e ouvi partes rápidas das músicas que tinham sido separadas.
A única que me importava era a que Reid e eu dançaríamos juntos pela primeira vez como casados. Na verdade, teria me importado mais. Mas, segundo ele, meu gosto não era apropriado para uma festa de casamento. E ele estava certo. Deixaria que escolhessem músicas clássicas, guardaria minha banda favorita para quando só estivéssemos nós dois.
A hora em que passei no salão de festas foi ainda mais interminável do que o resto da manhã inteira. Foi tão entediante, que eu quase comemorei quando uma criada chegou me avisando que Penelope gostaria de falar comigo. E eu praticamente corri até as portas principais.
Quando cheguei lá, ela me deu dois beijos no rosto e foi embora, dizendo que me veria no dia seguinte, mas que mandaria fotos de Milão para eu matar a saudade. Sorri e acenei para que ela fosse embora logo, pensando em como Milão era definitivamente a cidade mais feia de toda a Europa.
Não voltei para o salão de festas. E nem poderia, já eram onze da manhã e eu tinha que ir até a estufa. Liev me seguia como uma sombra, sem falar nada comigo, só dando ordens ao seu microfone. Eu sabia bem aonde ir e nem me importei muito em ser tão ignorada.
A estufa era completamente diferente da adega. Era ainda mais quente que os outros cômodos e pude sentir o calor me abraçando logo no corredor de vidro que levava do castelo até ela. O jardineiro principal me recebeu com um sorriso enorme, enquanto todos os seus aprendizes levavam as mãos às costas e me faziam reverências.
Eu passei quase uma hora ouvindo ele explicar os cuidados especiais que tinha tido com cada flor que faria parte da decoração, lutando constantemente para não adormecer na sua frente. Não conseguiria imaginar nada mais entediante em toda minha vida! Estava quase querendo negociar com Liev de eu voltar ao salão de festas e ela ficar ali. Principalmente quando o jardineiro me perguntava o que eu tinha achado e eu não sabia o que falar além de que estavam lindas.
E elas estavam mesmos! Estavam lindas! O que mais ele esperava que eu dissesse?
Quando deixei a enorme estufa de vidro para trás, sentia meu corpo todo doer. Era mais do que só os saltos que já pareciam perfurar meus calcanhares. Eram meus ombros, doloridos e pesados, que queriam muito me forçar a encurvar para a frente conforme andava.
"Quanto tempo eu tenho?" Perguntei para Liev quando entramos de volta no castelo.
A cada metro de parede ou pessoa que passava por nós, minha vontade de me apoiar nelas crescia. Teria parado, tirado os sapatos, me sentado no chão, se eu fosse esse tipo de pessoa. Mas, ao invés disso, minha cabeça já trabalhava em desculpas para ir para o meu quarto.
"Vinte minutos," Liev disse.
Eu tive vontade de parar e abraçá-la.
Vinte minutos era o suficiente para eu pelo menos parar um pouco. Não conseguiria ir até meu quarto, mas a sala aonde eu almoçaria com a primeira ministra não era longe e eu poderia usar a primeira que encontrasse para ter um pouco de sossego.
Assim que avistei uma que sabia estar livre, fui em sua direção.
"Me faz um favor, Liev?" Pedi, colocando a mão na maçaneta. Ela me olhava já perdida, sem saber o que eu estava fazendo. "Eu vou me deitar um pouco, estou exausta. Mande alguém vir me chamar quando estiver na hora do almoço."
Ela não contestaria, e eu nem lhe dei chance de tentar. Entrei e fechei a porta atrás de mim.
A sala estava decorada como uma pequena sala de estar. Lareira, mesa de centro, sofá estampado e janelas que levavam direto ao jardim atrás do palácio. De lá, eu podia ver os homens que montavam a parte da festa que chegaria até a fonte principal. E tudo que eles faziam, todos os passos e objetos pesados que carregavam pareciam bastante barulhentos.
Mas as janelas estavam trancadas e eram grossas o suficiente para manter o frio e o caos fechados do lado de fora.
Tirei meus sapatos e sentei no sofá, jogando a cabeça para trás. O encosto não era dos mais macios e quase machucava meu pescoço. Mas era uma dor boa, que o forçava a se esticar e aliviava um pouco meu cansaço.
Não podia dizer quanto tempo depois, mas em algum momento ouvi a porta se abrindo. Tinha meus olhos fechados e decidi não os abrir tão cedo. No fundo, sabia que era alguém vindo me chamar para o almoço e não tinha a menor pressa ou inclinação de facilitar seu serviço. Podia imaginá-los dentro daquela salinha, questionando se deviam mesmo me acordar ou não.
Mas, completamente contra qualquer coisa que eu poderia ter imaginado, o que senti foram duas mãos deslizando pelos meus ombros até estarem na posição perfeita de os apertarem.
Abri os olhos, assustada, mas, quando olhei para cima, encontrei Reid sorrindo para mim.
"Olá," ele disse, enquanto seus dedos desfaziam cada um dos nós que levavam dos meus ombros à minha nuca.
"Olá," respondi, sorrindo tanto que fechei os olhos.
Ele parou com a massagem, dando a volta no sofá e se sentando ao meu lado. Não demorou para eu ter entrelaçado meus dedos nos seus.
"Como vão as preparações para o casamento?", perguntou, enquanto eu apoiava minha cabeça em seu ombro.
"Infinitas," falei. "E parece que o ensaio não chega nunca!"
Ele riu rápido. "Assim que se distrair, vai passar rápido. Pode ter certeza."
Suspirei. "Talvez," falei.
Não estava mesmo pensando muito naquilo. Queria mesmo que o ensaio chegasse logo, pois queria conhecer sua família. Nunca tinha visto nem seus pais, uma vez que tínhamos corrido com o noivado.
Mas ali, sentindo o cheiro de seu perfume e enterrando minha cabeça no ombro de seu blazer, eu já não sentia nenhuma ansiedade. Nem para chegar ao ensaio, nem ao jantar, nem mesmo até o casamento.
Levantei meu rosto para olhar para ele, que mirava nossas mãos entrelaçadas. Eu teria fugido e me casado no mesmo dia em que ele tinha me pedido. Mas Reid queria me dar tudo de que eu tinha direito. A festa, o noivado, o país inteiro antecipando aquilo. Do jeito que ele insistiu para que não pulássemos nenhuma tradição, podia jurar que até iria reclamar de eu ter marcado a data para um mês depois de noivarmos.
Mas, se tinha uma coisa que tínhamos em comum, era que nenhum de nós conseguia esperar para estar casado um com o outro.
Logo ele virou o rosto para mim e nós dois sorrimos.
"E o seu dia?", perguntei. "Muito ocupado?"
"Extremamente," ele disse, voltando a olhar para a frente e respirando fundo. "Se você soubesse de tudo que se passa nesse reino, Lola..."
Eu senti como se ele estivesse me empurrando para longe, apesar de não nos mexermos nem um centímetro.
Eu sabia sim do que se passava em meu reino. E bem melhor do que ele.
"É tão complicado assim?", perguntei, apesar de sentir as palavras quase entalarem em minha garganta.
"Sim, muito. Não é qualquer um que conseguiria assumir o trono," ele se virou na minha direção e nossos olhares se cruzaram outra vez. "Você escolheu bem seu noivo. Não vai mais precisar se preocupar, eu vou tomar conta de tudo," ele completou, me dando um beijo rápido.
Assim que nos afastamos, eu sorri. Mas, por dentro, sentia meu estômago embrulhar.
Eu não queria que ele tomasse conta de tudo. Não queria que ele me desse tapinhas nas costas e me dispensasse para cuidar das coisas mais fúteis do reinado. O que quer que ele estivesse aprendendo com o parlamento, eu já sabia. Mesmo que ninguém lá me levasse a sério como deviam levá-lo, eu sabia de tudo. Tinha passado anos assistindo o máximo possível de reuniões e as estudando atenciosamente. Podia não ter tido a mínima voz lá dentro, mas assim que saíamos, meu pai e eu conversávamos extensamente sobre tudo que tinha sido discutido.
Talvez fosse mesmo complicado. Não só cada um dos problemas e assuntos, mas o jeito que um se ligava ao outro. Talvez fosse difícil de entender. Mas eu entendia. Eu sabia do que se tratava. Não tinha o menor problema de conseguir lidar com tudo.
Definitivamente não precisava que Reid tirasse uma única tarefa das minhas mãos.
Mas eu sabia que era só o jeito dele de cuidar de mim. Ele não levava aqueles comentários a sério e eu me sentia extremamente idiota por me importar. Ainda demoraria anos para que assumíssemos de verdade o trono. Meu pai estava com a saúde intacta e, até ele finalmente resolver nos deixar reinar, eu teria tempo o suficiente para provar para Reid que não só estava tão pronta quanto ele para me sentar ao trono, como provavelmente seria até melhor.
Por enquanto, eu engoliria aquela sensação de que ele estava me deixando de lado tanto quanto os ministros costumavam fazer e me concentraria no casamento. Independente da nossa posição política, do meu título e daquele que ele ganharia ao se casar comigo, o dia era sobre nós dois como um casal e só isso.
"Quando seus pais chegam?" Perguntei, só para mudar de assunto e me distrair.
Eu sabia a resposta. Mas o ouvi mesmo assim.
"Acham que às seis. Mas vão tentar chegar antes," Reid continuava a me mirar e seu sorriso cresceu. "Quero muito que eles a conheçam. Eles sempre sonharam em visitar o palácio."
Levantei as sobrancelhas, surpresa. Não tinha pensado neles assim, como o tipo de pessoa que via a minha casa como um lugar a almejar.
"Espero que gostem então," falei e Reid me beijou uma vez.
Logo depois ele se afastou. Eu queria mais, me inclinei na sua direção, mas ele se distanciou.
"Preciso ir," disse, se levantando e soltando da minha mão.
Enquanto ele dava a volta no sofá por um lado, eu dava pelo outro. "Já?", perguntei, olhando o relógio. Ainda faltam cinco minutos para o meio-dia.
"Sim," ele ajeitou seu terno olhando em um pequeno espelho perto da lareira. "Seu pai quer me levar para conhecer seu primo."
"Argh," soltei antes que pudesse me segurar. Notei Reid levantando uma sobrancelha e me observando pelo seu reflexo. "Skar é insuportável. Por favor, não acredite em uma só palavra que ele lhe diga."
Reid se virou para me olhar e me abraçou pela cintura, depositando alguns beijos na base do meu pescoço. "Pode deixar," ele disse, sua respiração brincando de arrepiar minha pele. "Mais alguma coisa que eu deva saber?"
Segurei seu rosto com as duas mãos, o forçando a me olhar nos olhos. "Só que eu te amo."