Notas iniciais
A vida de Elsa não ficou nada fácil desde que ela assumiu o trono de Arendelle. Mas Anna tem um plano para ajudar a irmã... Mais tarde, Elsa recebe a visita de um estranho rapaz de cabelos brancos e que não parece afetado de forma nenhuma pela neve e pelo frio.

Fazia três meses desde o retorno de Elsa a Arendelle. A rainha foi encorajada por sua irmã a fazer um discurso, desfazendo os rumores sobre a verdadeira razão de sua partida. Em apoio a Elsa, a princesa Anna declarou publicamente abrir mão da coroa e realizou uma semana de celebrações em homenagem à rainha de Arendelle e ao fim da incerteza quanto ao futuro do reino.

Mas nem tudo transcorria como esperado. A coroação de Elsa permanecia tema de controvérsia entre os súditos da nobreza, que conheciam a razão de seu afastamento. E para aqueles que ainda mantinham vívida a lembrança daquele baile, era apenas questão de tempo até a verdade vir à tona.

...

A primeira semana do inverno mal havia começado e problemas eram trazidos à coroa de todas as partes do reino. A produção de comida, leite, grãos, tecidos, manufaturas e demais itens essenciais de consumo havia diminuído com a primeira geada. A falta de comida logo evoluiria para uma crise devido ao que prometia ser um inverno rigoroso.

Mas esse era somente uma das consequências do clima extremo daquele ano. A população tinha dificuldade de deixar suas casas para ir trabalhar. O frio era tão intenso que até o gado havia morrido nas fazendas ao norte do reino.

Sentada em seu trono, Elsa recepcionava os dignitários das regiões mais importantes de Arendelle, ouvindo suas exaustivas reclamações por horas a fio com uma expressão entediada, o queixo pousado na mão. Lutando contra o cansaço, ela controlou um bocejo que ameaçava se abrir. Seu assessor soltou um ruído discreto da garganta e avisou que ela estava com a postura torta, com seu braço praticamente deslizando na braçadeira do trono. Elsa se endireitou, olhando em volta para ver se ninguém tinha percebido.

Ela moveu seus olhos cansados do dignitário, que discursava sobre a morte do rebanho de ovelhas, para a paisagem noturna lá fora. Caía uma suave geada. A visão da neve se precipitando na janela sempre lhe trazia uma grande paz interior. Mas agora, nem mesmo sua visão favorita conseguia relaxá-la. Elsa baixou a cabeça, que parecia pesar uma tonelada. Suas noites passavam em branco. O sono deveria ser restaurador, mas ela acordava com a sensação de que não havia descansado nada.

Qual fora a última vez que ela teve uma noite decente de sono desde que a semana havia começado? Elsa mal se lembrava com o que havia sonhado na noite passada. Na noite retrasada. E na noite anterior a essa.

Elsa garantiu ao dignitário que se reuniria com seus ministros para resolver o problema da falta de lã e autorizou sua saída com um gesto da mão. O homem claramente não havia terminado de expor a longa lista de reclamações que havia trazido para a rainha, mas Elsa havia deixado bem claro que havia declarado o fim da sessão. Ao menos pelo dia.

A rainha sabia muito bem o que se passava na mente do povo. As pessoas eram assoladas pelo medo do futuro. Suas preces se voltavam para os deuses na esperança de serem poupados de um destino terrível. Por toda parte, rumores haviam se espalhado sobre quem seria o verdadeiro culpado pela crise. Rumores que acusavam Elsa de usar seus poderes em segredo para punir aqueles que no passado haviam lhe chamado de monstro. Se ao menos ela tivesse um jeito de encontrar a fonte dos rumores e dissuadi-la...

Anna veio por um dos corredores e se ajoelhou perante a irmã com expressão preocupada. A fila de dignitários do lado de fora foi dispensada pelos guardas e o último dos representantes da liga comercial se retirou do saguão do castelo.

– Elsa, pelo amor de deus, você ficou sentada aí o dia todo! Não comeu, nem bebeu nada direito. Já faz uma semana que isso se repete.

– Eu não posso me recusar a receber os dignitários, Anna. Não importa que eles queiram ficar falando durante horas e horas sobre a falta de trigo, a falta de trabalhadores, a falta de lã... –ela suspirou, afundando a cabeça.

– Não acho que ficar se torturando desse jeito vai resolver alguma coisa. Anda, vem comigo.

O olhar pidão de Anna tornava o pedido impossível de recusar. Sua irmã sempre encontrava o melhor jeito de convencê-la a fazer suas vontades.

– Está bem. Mas só por uma hora. – Elsa sorriu, levantando-se do trono.

...

As irmãs saíram do castelo e caminharam até o jardim interno. A parte da frente era composta de uma área com grandes arbustos podados e um pequeno parque com um chafariz há muito tempo desativado. Mais adiante havia um labirinto, no qual Elsa e Anna brincaram por incontáveis verões.

– Eu sempre gostei desse jardim! Lembra quando nossos pais deixavam a gente brincar aqui nas tardes de verão? – disse Anna.

– Eu me lembro que você tentou roubar no pique-esconde de mim. Você até prometeu dar uma boneca da sua coleção favorita para uma das jardineiras se ela mentisse para mim sobre onde você estava.

– Mas você não acreditou. – ela respondeu, rindo.

Anna passava a mão pela folhagem dos arbustos enquanto dava voltas em seus contornos. Os jardins da família real um dia foram considerados os mais belos de Arendelle. Desde que o castelo fora permanentemente fechado a visitação, exceto para membros da nobreza, somente as irmãs podiam apreciá-lo. Uma equipe de jardineiros ainda se ocupava de sua manutenção em memória ao rei e à rainha, e a tudo que a família real representava para Arendelle.

Elsa apreciava a beleza da neve depositada em cima das árvores. Havia algo de poético na forma a camada branca ficava depositada nos galhos e na copa. Algo que evocava memórias de infância, de quando seus pais lhe traziam ao jardim antes dela descobrir seus poderes e que lhe dava segurança.

– Então, você prometeu me contar da situação entre você e Kristoff, já esqueceu?

Anna parou de caminhar e se virou para a irmã.

– Ah. Sim. É verdade. Eu tinha esquecido. O negócio é que ele está querendo pedir sua permissão para uma coisa, mas está com medo de falar com você diretamente.

Elsa conhecia a irmã bem o suficiente para saber por que ela vinha com insinuações.

– Oh? Se ele pretende levar você a uma viagem de lua de mel, é melhor ele pensar duas vezes.

O sorriso no rosto de Anna se desfez na mesma hora.

– Elsa... –ela implorou.

Mas a irmã mais velha cruzou os braços.

– É costume em Arendelle os membros da família real passarem ao menos as três primeiras semanas da lua de mel no castelo.

Anna fez uma careta enjoada, vendo que, depois desse argumento, não teria como ganhar a discussão.

– Tá bom. – ela disse a contragosto – Mas não era por isso que eu queria falar em particular com você.

Elsa lhe perguntou do que se tratava, então. Anna se aproximou da irmã e disse que o aniversário de cem anos da declaração da independência de Arendelle seria em um mês.

– Então... o quê? Você quer comemorar a lua de mel antes da independência?

Mas Anna fez uma careta de desespero.

– Não se trata disso, Elsa! Ai, esqueça que falei no Kristoff. Estou preocupada com você. Elsa, vai vir gente não só de todo reino, mas dos reinos vizinhos, também. Não sei se você lembra, mas antes daquele baile, quando...você sabe... –ela encarou a irmã de um jeito inseguro, evitando ser mais explícita.

– Sim, eu sei. – ela respondeu, lembrando-se de quando criou uma muralha de gelo no meio do palácio por acidente, bem na frente dos convidados.

– Pois bem. Antes daquele baile, papai e mamãe deixaram no testamento que queriam que você se casasse assim que alcançasse a maioridade para evitar que a coroa fosse contestada e entregue a um dos herdeiros de uma das casas nobres.

Elsa sabia bem do que Anna falava. Seus pais previam que a aristocracia de Arendelle poderia se opor a Elsa e banir as duas irmãs do castelo se descobrissem que ela era uma bruxa. Se Elsa quisesse evitar um escândalo no próximo baile, teria de encontrar um jeito de manter seus poderes sob controle e tranquilizar os convidados a respeito disso.

O que ela precisava era projetar uma imagem de estabilidade e confiança. Do contrário, enfrentaria oposição de todas as frentes.

– Eu tive um plano. Eu pedi ao seu assessor para me dar uma cópia da lista de convidados do baile passado e reparei numa coisa importante. Cerca de metade dos convidados não tinha comparecido. Parece que houve uma nova rixa entre duas casas que já eram rivais há algum tempo e a metade que era fiel a uma delas não compareceu em protesto. Ou seja, agora é a sua chance de convencer essa outra metade de que você é a governante certa para Arendelle.

Até agora, o plano de Anna parecia sensato, qualidade que era rara na irmã.

– E quanto ao problema dos termos do testamento?

Anna tomou Elsa pelo braço e a puxou para um canto. Ela tinha em mente três candidatos perfeitos, todos de idade aproximada da de Elsa. E dos três, um havia defendido a rainha durante uma conferência no país vizinho.

– Tenho certeza de que você vai gostar dele, Elsa.

– Vou? – ela questionou, nunca tendo sequer ouvido falar do nome do sujeito.

– Vai, sim. Ele é perfeito para você! – Anna deu um tapinha em seu braço, abrindo aquele típico sorriso otimista dela, que era o prelúdio para quase todos os problemas em que ela se metia. E nos quais a irmã era invariavelmente envolvida.

...

Naquela noite, Elsa deixou os confins do castelo e rumou para a floresta vizinha levando um par de patins consigo. Ela havia aprendido a não confiar em ninguém. Quando precisava resolver algum assunto sério, sua atitude era de ir buscar alguns momentos de solidão.

Sem que ninguém soubesse, aquela floresta foi por muitas vezes seu refúgio nas raras ocasiões em que ela conseguia se evadir do seu quarto, onde seus pais a deixavam trancada contra sua vontade. Com muito esforço, Elsa aprendeu a disciplinar seus poderes e a criar uma escadaria de gelo, que serpenteava da sua janela até o pátio externo, por onde ela fugia para ter alguns momentos de liberdade.

No meio da floresta havia uma clareira, e nela, um imenso lago. Elsa se sentou em uma rocha e começou a desatar o cadarço de suas botas, deixando os patins encostados no chão. Enquanto removia seu calçado, ela se recordava de quando passava as tardes de inverno patinando com Anna naquele lago.

– Eu tomaria cuidado se fosse você. Nem todo lago é seguro para patinar.

A voz saiu dentre as árvores, ecoando do outro lado do lago. Elsa mal conseguiu esconder seu susto ao saber que era observada por um estranho. Ela girou o rosto para todos os lados à procura de seu dono.

– Quem está aí?

– Nossa, que desconfiada! Não precisa ficar tão nervosa. Tudo bem, aqui estou eu. – a voz repetiu.

Um rapaz quase adulto emergiu da outra margem, levando consigo um cajado. A primeira coisa em que Elsa reparou foram em seus cabelos, completamente brancos. A segunda foi nas estranhas roupas que usava. Ele trajava um moletom azul e calças apertadas, sem remendo na altura do tornozelo. E para finalizar aquele visual exótico, ele estava completamente descalço. Como ele conseguia pisar na neve sem seus pés congelarem?

Seus passos eram leves e despreocupados conforme ele contornava a margem. Ele girou o cajado em sua mão e o pousou no ombro com a habilidade de quem sabia manejá-lo como uma arma. O formato na ponta do objeto evocava a forma de uma foice.

A visão daquele rapaz que mais parecia saído de uma história provocava em Elsa uma certa euforia. Em Arendelle, todo mundo crescia ouvindo mitos e lendas sobre os seres mágicos que habitavam as florestas do ermo. Sua própria irmã jurava ter visto fadas naquela floresta há tantos anos, coisa que Elsa interpretou como uma tentativa de chamar atenção de seus pais. Mas agora ela se perguntava: seria aquele garoto prova viva destes mitos? Um dos guardiões e monstros de que ela tanto ouvira falar na infância?

– Você não é do vilarejo, nem de nenhuma parte do reino. – ela reparou.

– Tem certeza? Eu é que nunca vi ninguém vestida como você na minha vida. –ele rebateu, caminhando casualmente.

Elsa cruzou os braços, se pondo a andar no mesmo sentido que ele.

– Você costuma passear nessa floresta?

– Nem sempre. Eu quase nunca viajo além do Canadá. Mas quando visito a região, faço dessa floresta a minha casa. Eu costumo dormir numa árvore, naquela colina ali. – ele respondeu, muito tranquilo, apontando numa direção.

Elsa achou que ele só poderia estar de brincadeira.

– Não pode ser. Você quer que eu acredite que você dorme no meio de uma floresta durante o inverno?

O garoto deu de ombros. — O frio nunca me incomodou.

Elsa sentiu um arrepio descer pelo corpo. Por um momento, ela desviou a atenção do estranho e voltou a calçar os patins.

O rapaz lançou outro olhar ao lago e voltou a encará-la.

– Esse lago é bem mais fundo do que parece. Por isso pouca gente se arrisca a vir aqui nas férias.

– Elas não têm motivo para se preocupar. Eu sempre vinha aqui quando criança. – ela insistiu, terminando de calçar os patins.

– Ainda assim, eu não me arriscaria. Não sem ter alguém para salvá-la se algo acontecer.

– Eu sei me cuidar sozinha. Obrigada. –ela disse, pondo o primeiro pé em cima da superfície congelada.

O garoto se apoiou no cajado e lhe devolveu um olhar cético.

– A não ser que você tenha poderes especiais e seja capaz de manter a camada de gelo intacta por conta própria, acho que você não sabe no perigo que está se metendo, mocinha.

Elsa ergueu o queixo e arqueou a sobrancelha, respondendo com orgulho:

– E se eu disser que posso?

Com um floreio da mão, ela selou todas as fissuras na superfície congelada em meros segundos.

Seu estranho amigo ficou agitado, soltando um urro excitado e caindo para trás. — Como você fez isso?

– Não sei. É um dom natural. –ela respondeu dando de ombros, falando de um jeito convencido. O rapaz interpretou aquilo como provocação.

– Eu também conheço alguns truques. Olha!

Elsa deu um grito ao ver o garoto dar um salto e sair planando pelos céus como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ele dava piruetas, fazendo acrobacias enquanto se exibia para ela, criando correntes de ar no caminho. Em dado momento, ele deu um rasante, levantando seu vestido, ao que Elsa protestou na mesma hora.

Apontando o cajado para o lago, ele fez cristais de neve precipitarem em sua superfície, formando um cortina de flocos de neve. Elsa apanhou um punhado deles e fez uma concha com as mãos. De todas as manifestações da neve, os flocos eram para ela os mais graciosos. Pois desde menina, ela gostava de pensar neles como flores geladas que os anjos enviavam à Terra para diminuir a tristeza típica que acometia as pessoas no inverno.

O rapaz pousou perto dela, admirando seu rosto fascinado enquanto fitava os flocos em silêncio.

– As crianças adoram quando eles caem do céu. Elas gostam de ficar de boca aberta olhando para cima, esperando eles caírem para comê-los.

Jack imitou a pose que as crianças faziam e Elsa soltou uma risada, lembrando que costumava fazer isso também.

– Você costuma fazer isso todo inverno?

– Só quando estou de bom humor. – ele respondeu – Mas o que elas gostam mesmo é das guerras de bola de neve.

Elsa parou de sorrir e desviou o rosto. Ela nunca havia brincado com outras crianças dessa forma. O garoto percebeu que havia falado algo de errado.

– Ei...

Ele tocou na sua mão e Elsa não pode deixar de reparar no quanto sua palma era fria.

– Me desculpe. Eu falei alguma coisa que te chateou, não foi?

Por alguma razão, ela sentiu um calor no peito e teve dificuldade em encará-lo nos olhos. Ela passou a mão na testa, disfarçando a súbita excitação e lhe deu uma rápida olhadela, impressionada em como seus olhos eram de um azul tão límpido.

– Olha, eu cheguei nessa cidade faz pouco tempo. A verdade é que vim para cá porque fiquei sabendo que um amigo estava de passagem por aqui e eu queria pregar uma peça nele.

– Por quê?

– Porque ele é um chato. Porque ele é um ranzinza. Está bem, porque eu gosto de tirá-lo do sério.

Elsa mal podia acreditar no quanto ele era debochado.

– Que tipo de amigo ele é? Talvez eu o tenha visto antes por aí.

O garoto coçou a parte detrás da cabeça.

– Se eu disser que ele é um coelho, você acredita?

Elsa mal podia acreditar naquele doido.

– Está de sacanagem comigo? Com o que você que eu me pareço?

O garoto segurou sua mão firme e rodopiou Elsa, trazendo-a para perto dele.

– Vestida assim, você parece a princesa de um reino distante. – ele disse, mantendo sua mão na cintura dela por um instante a mais antes de soltá-la. Elsa teve de se controlar para não fazer nenhuma besteira.

– Nada mal. –ela insinuou — E você é exótico demais para ser uma pessoa comum. Do jeito que se comporta e que fala, mais parece um dos guardiões das histórias de infância que minha mãe me contava.

Agora era a vez do garoto de sentir um arrepio. Como uma pessoa comum poderia deduzir tão facilmente o que ele era, ainda mais uma adulta? Se bem que ela não era uma adulta comum...

Ele pigarreou e disfarçou, em vez de confirmar as suspeitas dela. A euforia de Elsa se converteu em dúvida ao não saber se ela havia acertado ou se suas palavras tinham soado feito os devaneios de uma jovem ingênua.

– Então, me diga: como você ganhou as suas qualidades especiais? – ele perguntou.

– Se você se refere ao meu poder sobre a neve, e não a outra coisa – sua sobrancelha se arqueou mais ainda -, eu não sei como sou capaz de manipulá-la. Nem sei se há outra pessoa na família capaz de fazer o que faço. Meus pais nunca mencionaram nenhum antepassado. E quanto a você?

Sem olhar para ela, ele respondeu que seus poderes não eram de nascença. Há muitos anos ele teve uma irmã cujo nome ele já havia esquecido. Após um acidente no lago, ele salvou a vida dela... às custas da própria.

– Meu deus. –ela murmurou- O que aconteceu?

Ele contou a ela tudo sobre sua morte e de como despertou no lago, completamente mudado. Ou quase. Seus cabelos agora eram brancos, os olhos adquiriram um matiz azul. A floresta não era mais a mesma e nem o mundo lá fora. Pelo menos o cajado com que ele salvou a irmã ainda estava por perto.

– Foi a memória de minha irmã que deu sentido à minha vida e me fez encontrar minha vocação.

– Entendo o que você quer dizer. – ela disse de repente.

– Você entende? — ele questionou.

Elsa contou de sua irmã Anna e de como ela nunca havia lhe abandonado, mesmo quando o mundo todo ficou contra ela ao descobrir seu poder. Poder que ela havia mantido em segredo a muito custo.

– Passei a infância trancafiada em um quarto por causa de um dom que eu não pedi para ter. Mas para as pessoas, nada disso importa. Elas só veem o perigo que você representa e são tomadas pelo medo. –ela confessou — Eu só queria que os outros me vissem como Anna me vê. Como apenas uma pessoa comum. E não um monstro.

Elsa não sabia, mas suas palavras faziam todo o sentido para ele. Quantas vezes ele não viu como crianças podiam ser maldosas umas com as outras? O menor sinal de diferença era motivo de piada e chacota. Por mais que ele amasse crianças, esse era um traço delas que ele não admirava nem um pouco e era impotente para mudar.

O garoto se aproximou dela, fitando-a nos olhos e pousando a mão em seu rosto.

– Você não é um monstro.

Nenhum dos dois sabia direito o que estava fazendo. O fascínio de Elsa por aquele garoto, com uma aura mística e um charme que ela nunca encontrar em nenhum homem, mexiam demais com ela. Com um gesto, ela encerrou a distância que havia entre ambos e pressionou seus lábios nos dele. O gesto foi tão súbito que a mente do garoto demorou um segundo para se dar conta de que estava sendo beijado.

Ela percebeu o que tinha acabado de fazer e se afastou por instinto, insegura sobre qual seria a reação dele.

– Você não perde tempo, mesmo. –ele disse em voz trêmula, ainda excitado com o beijo — E eu nem perguntei seu nome ainda. –ele insinuou em voz baixa, acariciando os contornos do rosto dela, provocando-lhe de tal maneira que Elsa acabou fechando os olhos.

– Eu sou...

Os contornos da paisagem estremeceram e se dissolveram feito areia antes que ela desse seu nome. Elsa abriu os olhos, relutante, e sentiu a luz da manhã penetrar no quarto. Do outro lado do mundo, seu misterioso amigo despertava em cima do galho de uma árvore, onde costumava dormir.

Antes daquele encontro fortuito, nenhum dos dois detinha a menor desconfiança de que havia mais alguém nesse mundo com uma história de vida tão parecida e ainda por cima capaz de manipular a neve. Os dois sequer tinham a menor ideia de como era possível acontecer tamanha coincidência de se encontrarem no mesmo sonho. Tudo que eles conseguiam pensar era em responder a dúvida que consumia seus pensamentos...

Quem era a outra pessoa naquele lago congelado?

Notas finais
E aí, como começou a relação de Elsa e Jack? Gostaram da forma como eles se conheceram? Deixe sua opinião nos comentários!