Regret
1 único
Notas iniciais
Sanji estava bem ao lado de uma lixeira, fumando e pensando que havia bons dias que não via o garoto de cabelos tingidos de verde.
Jogou a bituca fora e se dirigiu ao banheiro da escola. O céu sem nuvens dizia que estava quente, mas Sanji nunca abriria mão de seus ternos. Ainda mais naquele dia, que gostaria de estar mais bonito que o normal. Contudo, seu reflexo no espelho mostrava o contrário: a pele pálida de defunto, os pêlos aleatórios no rosto e até mesmo havia algumas rugas.
Faria ainda 24, mas já estava acabado. Realmente a faculdade e o trabalho sugaram boa parte de sua vitalidade. Bem, acho que o cigarro também tem um pouco de culpa nisso, em pensar que o marimo exalava saúde e responsabilidade! Já não era mais aquele delinquente e agora disputava uma vaga para o torneio de kendô.
Jogou água no rosto e foi atrás de um lugar na arquibancada, brevemente seria a vez de Zoro, tinha certeza que ninguém era páreo para ele e que venceria todas as partidas. O marimo era forte, Sanji sabia disso desde que notara seus ombros largos naquela noite. Era mais novo do que ele, mas com certeza era mais desenvolvido. Às vezes Sanji sentia falta de seu corpo, moreno e salgado. Na verdade, sempre.
Zoro já começou disputando a vaga na primeira chave, entrou no tatami com as proteções e a espada de bambu; em apenas alguns segundos, conseguiu derrubar o adversário. Sanji sorriu e bateu palmas, mas não levantou ou gritou como faria em outra época. Apenas queria ser discreto e deixar a torcida toda por conta dela.
Zoro tirou o capacete e abraçou Kuina com muita felicidade, ela havia corrido em sua direção. Os dois unidos dessa forma faziam parecer que o marimo já conseguira ganhar a vaga ou, melhor ainda, o torneio. Sanji riu, mas parou de bater palmas.
Sentiu saudades.
Como deixara aquele garoto inocente escapar de seus dedos? Simplesmente um dia tudo havia acabado. Os pais de Zoro não aceitaram que seu filho namorasse um cara e Sanji não cumpriu a promessa. A promessa que lutaria pelo marimo.
Zoro ficou esperando e Sanji foi realista. Não tinha como cumprir aquela promessa, sabia que não era a melhor pessoa para estar ao seu lado desde o início. Então, Zoro se foi e Kuina apareceu.
Sanji gostava de Kuina, era uma boa moça, uma boa namorada para o marimo. "O mais importante é ele ser feliz" — Tentava se convencer com isso, tentava apagar a dor de querer matá-la com isso.
O torneio acabou e Zoro foi o vencedor, a lua já aparecia no céu e Sanji a fitava enquanto fumava. O marimo pediu para que se econtrassem no lago de carpas da escola, mas Sanji cogitava a ideia de ir embora, pois não aguentaria ouvir a sua voz. Daria um passo, mas Zoro estava parado bem ali à sua frente, fitara tanto a lua que não sentiu ele se aproximar.
Os dois se encaravam quietos. Sanji estava com as mãos nos bolsos da calça e com um cigarro pendido na boca, havia muito tempo que Zoro não via essa imagem.
— Você não mudou nada, cozinheiro.
Piscou os olhos, mas riu em seguida. — Por acaso estava perdido pra ter chegado só agora?
Zoro deu uma gargalhada que aqueceu o coração de Sanji, ele estava ainda mais bonito, pensou. Não era mais um garoto, agora era um homem.
— Obrigado por ter vindo! Eu não podia passar esse momento sem você!
Uma perna de Sanji se agitava de tão nervoso que estava, respirou fundo, fingindo estar tragando, e se recompôs. — Não foi nenhum sacrifício... Parabéns, aliás.
— Muito obrigado!! — Continuava com os agradecimentos afobados. — Como você está?
— Indo...
O assunto morreu e Zoro coçou a nuca sem saber o que dizer. — Eu e Kuina vamos comemorar no nosso apartamento com alguns amigos, você quer vir?
— Não. Obrigado, marimo.
Voltaria a dar aquele primeiro passo de novo, mas o garoto disse algo que o parou.
— Me perdoe.
Sanji piscou os olhos, confuso. — De quê?
— De tudo, Sanji! — Começou a chorar, deixando Sanji muito assustado com a mudança abrupta de seu humor. — Você está horrível!!! — Acrescentou entre choros e Sanji quase o chutou de raiva.
— Tá bem, eu vou nessa porcaria dessa festa. Pare de chorar!! Já te superei há muito tempo!!!
— Mas é que você é a pessoa que salvou a minha juventude! — Continuava a chorar.
Sanji fechou os olhos muito puto e depois deu um suspiro com o cigarro ainda na boca. — Está muito piegas.
— Ora, não fale assim! — Avançou até o loiro e pegou no seu terno. — São os meus sentimentos!
— Isso pouco importa quando é você que tá na melhor e eu na pior. — Pegou no colarinho do esverdeado, igualmente bravo.
— Então, você tá mesmo mal? — Sua voz saiu suave, assustado pelo cozinheiro admitir.
Sanji abriu o olhar, chocado com o que acabou de falar. Mas antes que pudesse dizer algo, os dois rapazes perceberam que estavam com as testas coladas e se separaram num pulo. Os rostos de ambos ficaram corados.
— Amassou o meu terno, marimo de merda. — Ajeitava o terno, ainda sem graça. — Bora ir nessa festa. — Começou a andar para o portão da escola.
Zoro também estava sem graça, mas deu um sorriso assim que o cozinheiro lhe deu as costas. Estava feliz por viver aqueles tempos de novo.
— Ei! — Chamou o cozinheiro. — Não fique aí parado e me siga se não quiser se perder!
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