Regressive Infectio
21 Capitulo XVII
Notas iniciais
– Pois é! — Gray suspirou enquanto olhava na direção da loira. Não havia nenhum problema entre eles, mas de alguma forma Lucy sabia que o moreno não queria falar. Sentado atrás do volante, parecia querer ficar sozinho ao mesmo tempo em que queria deixar Lucy sozinha e ir ate Sting.
"Vá até o Gray e fique lá." Sting havia dito com a voz seria que Lucy ainda não tinha se decidido se era portadora de boas noticias ou más. Naquele momento, contudo ela soube, algo estava ocorrendo e não era algo bom. Queria ter ficado, mas sabia que iria atrapalhar. Odiava ser tão inútil. Odiava deixar Sting sozinho cuidando de tudo.
Agora quando havia visto o que parecia o primeiro morto-vivo no retrovisor, não sabia se ficava apavorada por saber que ele havia saído de onde Natsu, Erza e Gajeel estavam ou se ficava apavorada por ele estar indo na direção de Sting. Ela só conseguia se apavorar.
– Desculpe, eu sei que pareço uma louca psicótica agora. — encarou o moreno que apenas deu um sorriso de lado tentando a acalmar, os olhos estavam sérios e duros.
– O Sting consegue lidar com isso e daqui a pouco aqueles três aparecem. – foi tudo o que o moreno falou.
Ainda assim no segundo seguinte Lucy estava com todo o corpo para fora tentando ter uma visão de Sting e uma garantia mínima que ele estava bem. Eram poucos monstros e pareciam lentos, sem muito rumo. Sting conseguiria lidar com eles. Lembrou-se do quanto o loiro era bom. Todos eram bons, todos estariam bem.
– Eles estão voltando. – avisou ao moreno no momento em que Natsu e os demais saíram correndo do colégio.
– Ótimo. – Gray suspirou aliviado e então fechou a porta. Ele havia a aberto? Quando? – Estão sendo perseguidos. Droga! Se senta direito que eu vou dirigir. – avisou, Lucy conseguia ver alguns mortos-vivos saindo do colégio atrás deles, haviam imaginado isso, o local poderia estar infectado.
– Ah, tudo bem. – saiu da janela e se sentou melhor no banco. Sabia que Gray era bom apenas em dirigir em linha reta, manobras e coisas do gênero não eram seu forte. Não em caminhões gigantes que ele só havia dirigido uma vez, não quando ele ainda estava um pouco alterado pela bebida.
– Que merda é essa? – ele encarava o retrovisor incrédulo e então colocou o rosto para fora.
Lucy fez o mesmo, mas preferia não ter feito. O máximo de mortos-vivos que havia visto em um mesmo espaço eram dez sendo que todos tinham uma distancia segura dela. Mas saindo da escola tinha uma centena no mínimo e todos estavam se encaminhando na sua direção.
– Não dá para voltar não é? – era a ideia inicial deles, mas ela sabia que seria possível. Mesmo que fosse Gajeel no volante, passar por cima de tantos corpos seria estupidez e perigoso. Um suicídio.
– Vou bater o caminhão nesse ônibus. – o moreno tragou seu cigarro e então o apagou na lataria, guardando o restante do fumo no bolso.
– Mas... Isso é perigoso. — o ônibus era grande, velho e uma parte estava mais alta, talvez em cima de algum local.
– É a única opção. — explicou, os olhos presos no lado de fora.
Lucy ficou em siléncio, o medo fazendo o coração bater forte. Independente se estragasse muito o caminhão, ao menos iriam conseguir fazer com que se afastassem da horda de mortos-vivos. As demais opções consistiam na morte quase certa. Mesmo assim, se Gajeel não havia feito antes, deveria ter um motivo forte, o lutador não era do tipo cauteloso. Não importava, se lembrou, não tinham opções.
– Meu Deus! – pulou quando o som de algo batendo na lataria do caminhão ocorreu próximo ao local em que estava sentada.
– É o Sting avisando que precisamos ir. – Gray explicou tentando acalmar a loira enquanto ligava o motor, contudo os olhos projetados dele mostravam que também havia se assustado.
– Anda logo. – Sting gritou batendo novamente na lataria e mais uma vez Lucy deu um pulo de susto.
– Ele tem que parar com isso! – os olhos arregalados e a voz histérica fizeram com que Gray desse um sorriso de lado enquanto acelerava o caminhão. Lucy não se incomodou com isso, apenas ficou satisfeita em ver que estavam se afastando da horda de zumbis.
Seus olhos se voltaram para a frente. Deveriam ter retirado ao menos a carreta que tinha a chave, era obvio que não havia espaço para que um caminhão passar. A loira não se lembrava de ter sofrido uma única batida de carro em sua vida, então era normal que tenha ficado tão apreensiva. A voz de Gajeel gritando algo sem sentido na traseira, apenas a deixava mais nervosa. As mãos se seguraram na poltrona com força e então o retrovisor do seu lado foi arrancado no momento em que se chocou contra a carroceria da carreta.
Fechou os olhos com força, Gray parecia estar acelerando mais ainda e o som de metal rangendo chegava a ser uma espécie de tortura. Lucy tinha certeza que teria problemas em andar em outro caminhão novamente. Não demorou mais do que alguns segundos para que o automóvel sacolejasse e então a garota já não tinha muita noção do que estava ocorrendo.
Sua visão girou e por alguns instantes pensou que o mundo havia perdido a gravidade. Seria possível voar? Sabia que não. E para provar isso ela logo sentiu um peso absurdo em seu lado esquerdo. O som de algo se arrastado no chão e o peso sobre si aumentou a prensando contra a lataria do caminhão.
Foi rápido, mas a sensação era tão angustiante que ela sentiu como se tivesse passado horas e mais horas, prensada contra a porta, sendo machucada e completamente apavorada. A cabeça contra a lataria parecia ter batido centenas de vezes em poucos segundos, batidas não muito fortes, mas que pela quantidade tiveram um efeito arrasador confundindo sua mente completamente.
Quando tudo parou o corpo e mente de Lucy ainda continuaram a funcionar. A cabeça girava e o corpo tremia, ela não parecia muito capaz de se mover, mas de alguma forma tinha a sensação que isso se devia mais por sua confusão mental do que alguma dificuldade física. Piscou os olhos várias vezes tentando se acalmar e se ordenou a realizar algum movimento. Qualquer que fosse.
Ergueu a cabeça, não sentia nenhuma dor. A adrenalina corria em suas veias com tanta força que tudo o que ela sentia era o corpo tremer, tirando toda e qualquer estabilidade e controle que pudesse vir a ter.
– Droga! — o resmungo cheio de dor mais pareceu um gemido e então Lucy se concentrou na imagem de Gray. Não conseguia distinguir muito, mas notou que parte da pressão que ela sentia era causada por ele que estava sobre seu corpo.
– Gray. – murmurou tentando se erguer. O corpo dele parecia mole e ela se sentia fraca para conseguir completar o ato, então apenas se afastou dele. – Você esta bem? – o encarou a procura de qualquer ferida.
– Não. – gemeu se erguendo sozinho, o braço direito em direção ao esquerdo e Lucy observou que a camisa social estava manchada e rasgada. Piscou os olhos tentando imaginar o motivo. Olhou em volta, mas não conseguia juntas as peças do que havia ocorrido. A cabeça parecia não servir mais para pensar.
– Santo cristo! – arregalou os olhos. Do ombro ate o antebraço à blusa estava em farrapos e era possível ver a pele branca manchada de sangue e cortes. Muitos cortes, algumas partes do braço não possuíam mais nenhum resquício de pele.
– Temos que sair daqui. – Gray não parecia em muita condição de sair de algum local. O braço esquerdo estava dependurado como se ele nem mesmo conseguisse mover, Lucy o achava sensacional por não estar gritando de dor. Ela quase sentia a dor por ele.
Olhou em volta respirando fundo, só então notou o motivo da estranheza que sentia no local. De alguma forma o caminhão havia virado e Gray sido jogado em cima do seu corpo. Tremeu mais um pouco. Havia sofrido um acidente no qual o seu automóvel virava e não havia ambulância e nem bombeiros para prestar assistência. A quem iriam recorrer?
– Espere aí. – pediu erguendo a mão direita. Arregalou os olhos ao notar que as mesmas feridas que Gray tinha no braço direito, ela tinha na mão. A unha do dedo mindinho havia sido completamente arrancada como grande parte de sua pele da lateral e da palma. – Eu... – engoliu seco apavorada, ainda não conseguia sentir a dor, talvez ocorresse o mesmo com Gray. – Vou abrir a porta. – estava quase se ordenando.
Respirou pela boca e apoiou o pé na poltrona para se erguer, normalmente iria doer, ainda não estava recuperada do ferimento que havia sofrido a menos de dez dias, contudo não sentiu nenhuma dor e por isso utilizando uma força que não sabia que possuía e ate mesmo a sua mão machucada, empurrou a porta a abrindo e se colocou para fora.
O sol bateu em seu rosto com força. Ainda não passava de dez horas da manhã, não era um horário o qual imaginava sofrer um acidente assim. Por algum motivo relacionava acidentes com noite ou chuva, de preferência uma noite chuvosa.
– Gray. – chamou se virando para dentro. O garoto havia se movido, mas não parecia estar saindo. — Consegue sair sozinho? – não sabia o que faria se a resposta fosse negativa.
– Vou tentar. – ele falou se erguendo, parecia ter machucado a perna porque fez uma careta ao usar a poltrona como apoio.
– Vamos, eu te ajudo. — ergueu a mão boa para o auxiliar, mas sendo mais inteligente, Gray se apoiou nos ombros de Lucy e ela segurou na lataria do caminhão tentando ser mais firme. Pareceu ter tido sucesso, porque ele conseguiu sair. Não facilmente, mas conseguiu.
– Como você esta? – ele a encarou preocupado.
– Melhor que você. – garantiu observando que o sangue pingava do braço do garoto, era muito sangue saindo, impossível não se alarmasse.
– Vocês dois. – a voz de Erza surgiu, com um tom apavorado nada característico dela, mesmo assim foi um alivio para Lucy. A ruiva saberia o que fazer. – Como estão? – ela ainda não tinha chegado, o barulho que fazia correndo sobre a lataria do caminhão era muito alto. Ecoava como marteladas em sua mente.
– Ajuda o Gray. – a loira estava cada vez mais apavorada ao ver o sangue escorrendo do braço do moreno. — Ele esta todo machucado e...
– Calma Lucy, fique tranquila! — a ruiva segurou em seu ombro por alguns instantes e então correu ate o amigo, obviamente preocupada. Lucy se perguntou como ficar tranquila quando Gray estava tão ferido e Erza tinha o rosto coberto de sangue. Ela só queria chorar.
Olhou na direção onde Natsu, Sting e Gajeel vinham, o moreno segurava o ombro como se sentisse dor, mas não havia sinal de sangue em nenhum dos três. Ela quase se sentiu aliviada. Quase. Se sentiria, se não fosse o que vinha logo atrás deles. Mais perto do que o que qualquer um pensaria como recomendável, a horda de zumbis parecia uma multidão.
– Temos que sair daqui. – Gajeel falou o que ela iria dizer, se não estivesse tão apavorada.
– Alguém me ajude aqui com o Gray. – Erza gritou e rapidamente Natsu e Sting passaram correndo pela loira, indo na direção da ruiva.
– Vamos lá loirinha, ficar olhando não vai adiantar nada. Precisamos fugir daqui. — Gajeel falou e Lucy se fixou no pé de cabra em sua mão. Mesmo machucado ele não soltava o objeto. – Lucy? – chamou sem sucesso, ela parecia estar presa em outro mundo. – Lucy? – chamou mais alto e então o rosto estava preocupado de uma forma maior. Encostou levemente na garota.
– Desculpe, você... – balançou a cabeça sentindo tudo girar.
– Bateu a cabeça? — questionou.
– Estou bem, temos que ir e o Gray parece que se machucou de verdade. Vamos! – caminhou na direção em que Sting e Natsu ajudavam o moreno a descer do caminhão.
– Temos que achar alguma forma de estacar o sangue dele Lucy. – Erza tinha o rosto realmente preocupado enquanto observava o caminho de sangue que o moreno deixava ao ser carregado pelos amigos.
– Estamos em uma cidade, deve ter algo como um posto. — era o obvio, mas só se deu conta disso quando falou.
– Não tinha pensado nisso. – a ruiva concordou.
– Não tinha pensado porque precisamos fugir para não morrer. – Gajeel tinha a voz seria. — Andem logo antes que não consigamos chegar nem mesmo no posto.
Sem dizerem nenhuma palavra desceram do caminhão. Lucy acabou caindo, todo o senso de equilíbrio parecia ter se esvaído, e para piorar a situação o pé começava a voltar a doer e a mão ardia tanto que parecia queimar.
– Tirando o Gray, esta todo o mundo bem? – Natsu perguntou, era ele quem segurava o amigo, passando o braço não ferido do moreno em seus ombros.
– Lucy? – Gray a encarou fixamente. – Sua cabeça?! – ela sentia raiva dele se preocupar com ela quando estava debilitado, mas ainda assim sorriu.
– Tudo bem, só vamos embora. – falou confiante, mas a mão foi ate a cabeça. Não doía, ela mal a sentia na verdade, era como se tivessem trocado por outra ou desvinculado de seu corpo.
Caminharam o mais rápido que conseguiram pelas ruas do local. Não eram muitas. De um lado da BR havia apenas algumas casas e do outro três entradas para a vila e logo em seguida acabava. Entraram na primeira rua, se deparando com casas simples, pequenas e de aparência não tão antiga quanto imaginavam que seria.
Passaram por uma rua um pouco mais fina, ainda era de terra e tinha algumas plantas pelo meio demonstrando que não era utilizada com frequência. Isso se não observassem a quantidade quase alarmante de mortos-vivos que caminhavam na direção deles. Obviamente não tinham eles em si como objetivo, e sim o local de onde havia surgido o barulho. O caminhão.
– Vamos mais rápido. – Gajeel murmurou fazendo Lucy, que era uma das ultimas olhar para trás, a horda já estava na rua de alguma forma haviam os seguido. Seria o cheiro de sangue?
– Para onde estamos indo? – Natsu questionou, ao seu lado Gray parecia mais pálido a cada segundo.
– Vamos para a maior construção. – Erza apontou para o que mais chamava a atenção na cidade. Uma construção branca com cerca de dois andares e realmente grande. Duvidava que fosse o hospital, povoados assim raramente tinham uma estrutura tão grande para algo importante como saúde.
Andaram mais alguns metros, cerca de cem com Lucy ficando cada vez mais para trás. O pé doía, a cabeça pesava e sua visão parecia embaçada. Além da mão arder tanto que ela sentia vontade de chorar de dor. Sabia que tinha que pedir ajuda e não seria o orgulho que a impediria, o que realmente impediu foi a falta de consciência de tempo e espaço ao seu redor.
Parou e encarou a horda atrás de si, os mortos-vivos que haviam saído da rua estavam bem mais próximos que o restante e alguns saiam das casas. Estavam tão próximos! Caminhou sem consegui distinguir muitas coisas ao seu redor e então apoiou a mão boa em uma porta qualquer que por estar aberta acabou fazendo a loira cair de joelhos.
– Lucy. – Gajeel gritou seu nome e então a loira piscou os olhos. Eles estavam próximos, ainda assim mais distantes que cerca de dez ou quinze seres. Tentou compreender o que estava fazendo e se ergueu de uma vez. A adrenalina pareceu ajudar um pouco a mente a compreender as coisas, mas também a deixou tonta e quando ela sentiu um gosto de ferro em sua boca sabia que estava com o nariz sangrando.
O som de algo batendo contra a porta chamou a sua atenção e ela deu um passo para trás no momento em que um morto-vivo que aparentava ter cerca de quarenta anos e tinha uma parte do rosto faltando, surgiu. A cada passo que o morto dava Lucy dava dois para trás, ate que se chocou contra um corpo. Em reflexo se jogou no chão e teve a impressão de ouvir os dentes do morto o qual havia se chocado baterem um contra o outro com força.
A sua visão estava embaçada, mas ela conseguia se ver cercada e não eram de amigos. Engatinhou ate a parede observando enquanto o grupo fazia uma roda ao seu redor. Pareciam saber como acabar com as chances dela fugir.
No desespero entrou na casa e fechou a porta com o pé a travando logo em seguida e então se escorando nela, contudo quando as batidas ficaram fortes e a porta começou a tremer, Lucy sabia que não iria demorar para que a porta cedesse. Não iriam demorar a entrar e quantos locais havia para se esconder?
Olhou em volta observando uma cozinha pequena e mal arrumada, um sofá velho e uma TV de 14 polegadas na sala. Havia uma janela, mas a saída era para o mesmo lado em que os mortos-vivos estavam. Respirou fundo, tinha que pensar, o desespero não a levaria em local nenhum. Tinha que pensar, mas estava tão apavorada que tudo o que queria era se encolher e chorar. Tão estúpida e inútil.
Avistou uma porta de madeira, era rustica e parecia ser maciça. Talvez segurasse os seres do lado de fora. Talvez fosse a sua salvação. Se existisse salvação para a loira. O que a mente teimava em gritar que não. Que era o fim da linha.
Caminhou ate a porta, ou tentou. A tonteira tomou conta de si e enquanto ela observava algumas mãos aparecerem, já tendo despedaçado parte da porta de metal fino, começou a ver diversos pontos negros que iam crescendo e retirando a sua visão. Gray obviamente estava certo em se preocupar com sua cabeça.
Sentiu o corpo perder a força e tentou se jogar no sofá ao menos. Não conseguiu. O impacto contra o chão causou um dor que logo foi amenizada pela consciência que ia se esvaindo. Tudo o que a loira pensou era que teria sorte de não sentir quando fosse devorada.
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