Regras que quebrei por você
1 Capítulo 1 - Outra grande mudança
Notas iniciais
De Dani Tsubasa
Capítulo 1 – Outra grande mudança
Eles estavam comemorando nos últimos dias, saber que um grupo de pessoas descobrira uma cura, que já estava circulando, e que os sobreviventes só precisavam continuar sobrevivendo até ela se espalhar pelo mundo através do ar, podia ser perfeitamente definido como milagre. Parecia já estar se espalhando pela região onde estavam, dado a pouca quantidade de zumbis em atividade que tinham encontrado. Mas nenhum dos membros da família de cinco pessoas que eles haviam criado queria acreditar no possível azar que poderia os estar acometendo quando Wichita correu para vomitar num dos vasos sanitários do banheiro do shopping onde estavam coletando suprimentos naquela manhã. Mesmo que o sistema de esgoto não funcionasse mais há tempos, ainda era melhor do que vomitar no chão e fazer algum deles escorregar acidentalmente nisso, especialmente se houvesse zumbis por perto de repente.
Todos se entreolharam com medo e tristeza quando o membro feminino mais feroz de sua equipe começou a ficar estranha e se sentir mal pela manhã, justamente horas depois de terem se deparado com alguns zumbis no fim do dia anterior, ainda que fossem da categoria Homer, e todos tivessem certeza que ninguém havia sido mordido.
Lágrimas cintilavam nos olhos de Little Rock com a possibilidade, e Tallahassee não conseguiu deixar de abraçar a filha adotiva enquanto Columbus corria para o banheiro atrás da esposa. Do lado de fora, o mais velho da equipe viu sua própria esposa preparar a arma, ficando a postos e atenta à entrada do banheiro, preparando-se para reunir a frieza necessária caso o que saísse dali não fossem mais Columbus e Wichita. A tristeza também tomava seus olhos quando ela trocou um rápido olhar com o marido. Nenhum deles queria acreditar no que achavam que estava acontecendo.
— Querida... – Columbus chamou a esposa enquanto esfregava suas costas, não precisando afastar seus cabelos do rosto, uma vez que já estavam presos num rabo de cavalo.
Ele puxou mais um lenço de papel do bolso, já tendo se preparado para isso, e a ajudou a limpar os lábios, deixando-a ter seu tempo ajoelhada na frente dele enquanto se recuperava, respirando profundamente. Então o olhou parecendo indignada.
— Você por acaso é louco?! Por que está aqui? E cadê sua arma?
— Por que eu te amo. Não é isso que as pessoas que se amam fazem? Cuidam uma da outra – respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mas ainda com carinho.
— Mas eu... Eu... Eu não sei como isso pode ter acontecido. Eu tinha certeza!
Ele a puxou para seus braços quando ela finalmente se permitiu chorar. Wichita tentou empurrá-lo, mas ele a segurou com mais força.
— Krista... – ele sussurrou, e instantaneamente ela parou de resistir – Não temos certeza. E não acha que tá demorando muito? Se você fosse virar, já teria acontecido. Todos os que vimos se transformarem, já foi na primeira vez que começaram a vomitar e em questão de segundos.
— Pode ser uma nova mutação.
— Não sabemos ainda. E você não tem febre, não tem sinais de vermelhidão ou deformidade no rosto. Pode só estar doente. Tipo... Doente. Como qualquer pessoa ficava de vez em quando antes de tudo isso. Talvez não tenhamos verificado bem o estado de algum item que encontramos. Vamos revisar isso.
Ela parecia mais calma, e sua respiração mais lenta quando ele se afastou, apenas o suficiente para vê-la. Dessa vez ela não reclamou sobre sua ocasional obsessão por empurrar seu cabelo para trás da orelha quando ele o fez, porque era tão fofo, e ela queria esse consolo agora, por mais que demonstrasse ser a mais durona dos cinco o tempo quase todo. Wichita não queria morrer, especialmente agora que a humanidade tinha uma esperança, e a certeza disso queimou e se firmou como uma tatuagem em seu coração quando o marido beijou sua testa. Mas se afastou quando ele tentou beijar seus lábios.
— Me desculpa... Eu amo beijar você – ela sorriu – Mas até termos certeza do que tá acontecendo comigo...
Ele sorriu enquanto assentia, e beijava agora sua bochecha.
— Certo – Columbus concordou baixinho, acariciando o rosto da esposa com as mãos – Eu não quero acreditar nisso... Mas pra descartarmos as possibilidades, vamos revisar nossos estoques, e vamos olhar você em casa, ver se por acaso você pode ter sido mordida em algum lugar que passou despercebido, só eu e você – falou tentando manter o controle que o momento pedia, mas não sendo capaz disso quando sua voz falhou.
Agora era Wichita que afagava sua bochecha e o olhava com um misto de tristeza e amor. Ela beijou sua testa como ele fizera com ela antes de falar.
— Eu te amo, e caso siga sua vida sozinho...
— Wichita...
— Caso siga sua vida sozinho, mesmo que não pra sempre, eu quero que você nunca se esqueça disso. E eu terei ido feliz por amar você.
Ela o abraçou quando ele finalmente cedeu, desistindo de congelar suas emoções para evitar as possibilidades ruins, e chorando no ombro dela. Sentiu a esposa beijar seus cabelos, e os dois levaram mais alguns minutos até se recomporem e saírem juntos do banheiro.
O trio que os esperava arregalou os olhos em medo e expectativa, apenas respirando fundo quando os olharam bem e os viram de mãos dadas, notando que a vermelhidão em seus olhos era apenas de choro. Tallahassee foi gentil o suficiente dessa vez para não tirar sarro de Columbus por isso, não querendo deixá-lo nervoso.
— Vocês estão bem? – Nevada perguntou, sendo sempre tão maternal quanto Tallahassee era paternal, quando não estava sendo um matador de zumbis ou uma criança grande.
Columbus assentiu.
— Pelo menos por enquanto... Vamos verificar nossos estoques. Talvez tenha algo que não serve mais pra consumir e que nenhum de nós notou. Nada aconteceu até agora. Pode ser só isso.
— Você quer ir pra casa? Descansar... – Little Rock perguntou à irmã.
— Não. Vamos terminar o que viemos fazer. Ainda precisamos de roupas.
— E remédios – Nevada sugeriu – É bom manter o estoque. E quem sabe encontrar algo pra seu enjoo.
— Seria bom – Wichita agradeceu com um pequeno sorriso.
Eles acabaram se dividindo quando deram a sorte de encontrar uma farmácia bem ao lado de uma loja de roupas, após constatarem a falta de zumbis em ambos os lugares. Tallahassee e Nevada estavam procurando os suprimentos médicos, enquanto os três mais jovens coletavam algumas peças de roupas novas.
Rapidamente estavam todos de volta à segurança do carro, todos os suprimentos seguros no porta malas do veículo. O casal mais velho na frente com Little Rock, o casal mais jovem atrás, como havia sido logo depois que se casaram. Wichita cochilou contra o ombro de Columbus. Ele queria mantê-la acordada, especialmente pelo trauma adquirido com a garota 406, o primeiro zumbi que ele conheceu, numa cena semelhante. Mas como poderia? Sua esposa estava doente e cansada, e isso lhe deu a força emocional necessária para deixá-la fechar os olhos enquanto ele acariciava seu cabelo.
Nevada anunciou a chegada deles à cabana distante que estavam tratando como casa, pelo menos por enquanto, e quando Wichita abriu os olhos, para o alívio de todos, continuavam sendo apenas seus lindos olhos verdes claros. Os cinco carregaram os suprimentos para dentro e os organizaram em seus devidos lugares. Tallahassee e Nevada ficaram conversando na cozinha e verificando seus estoques enquanto Little Rock se mantinha em vigília na sala, não conseguindo tirar os olhos do quarto onde a irmã estava com o marido, procurando por alguma mordida que ela poderia ter perdido.
— Se for isso... Eu quero que você me ajude – Wichita disse quando trancaram a porta, e ambos encarnaram a arma carregada em cima da cômoda – Eu quero partir sã. Não como um deles.
— Não me pede isso ainda, por favor...
— Desculpe... – foi a única coisa que ela conseguiu pensar em responder, mas sentindo-se acolhida quando Columbus beijou sua têmpora.
— Quando você quiser – ele disse baixinho.
Wichita assentiu e respirou fundo, removendo sua jaqueta e suas botas, junto com as meias, e transformando seu rabo de cavalo num coque. Depois puxou sua camisa pela cabeça, em seguida se livrando do restante de suas roupas. Columbus também tinha fechado as cortinas para deixá-la confortável. Sendo manhã, ainda havia luz suficiente para que pudessem ver bem sem precisar de iluminação artificial ou de velas.
Ele beijou os dedos de sua mão, onde estava o anel dourado, igual ao dele, que usavam desde que os tinham encontrado em uma loja destruída tempos atrás, e também retirou a peça, deixando-a em cima da cômoda, depois verificando a pele da esposa junto com ela, ajudando-a no que ela mesma não conseguia enxergar.
— Você sente frio? – Ele perguntou enquanto verificava suas costas – A 406 sentiu...
— Não.
— Bom.
Os dois ficaram mais alguns minutos nisso, só sua preocupação com a esposa impedindo-o de se concentrar em sua beleza e em outros pensamentos.
— Não sei se você quer ouvir isso agora – ele falou enquanto a ajudava a se vestir novamente, depois de não encontrarem qualquer evidência de mordidas – Mas você é incrivelmente linda.
O olhar dela e o sorriso em seu rosto o fizeram ganhar o dia.
— Obrigada – ela respondeu ao beijá-lo na bochecha.
Por fim os dois se sentaram na cama, olhando para a arma na cômoda com uma sensação de alívio enquanto entrelaçavam seus dedos.
— Não fui mordida... – Wichita falou como se ainda estivesse absorvendo a informação.
— Não, não foi...
— Então o que...?
— O que eu disse. Você pode só estar doente – Columbus sorriu – Vamos cuidar de você.
Wichita o encarou. Seus encantadores olhos claros cheios de lágrimas, e um sorriso surgindo em seus lábios. Mas ela desviou novamente quando ele tentou beijá-la, e Columbus apenas inclinou a cabeça, num gesto interrogativo. Céus, ele era fofo, e tão calmo com ela, mesmo quando ela aprontava algo para provocá-lo, o que não era bem o caso agora.
— Ainda não sabemos o que é. Não precisamos de dois de nós doentes.
Ele assentiu.
— Então vamos investigar – Columbus falou, feliz em poder beijar seus cabelos, que ela havia soltado para também verificarem seu couro cabeludo, apesar da imensa improbabilidade de que ela não perceberia se fosse ferida na cabeça.
— Ei... – ela sussurrou para si mesma de repente, ficando com um olhar alerta e respirando fundo.
— Wichita, o que foi? Se sente mal outra vez? – Perguntou ao ver rosto da esposa se tornar pálido de repente.
Ela negou, e de repente correu para onde ficava a parte das malas que eles nunca costumavam desfazer, vasculhando em suas coisas até encontrar um caderno parecido com o dele, onde fazia anotações pessoais, geralmente sobre a quantidade de armas e suprimentos, ou notas importantes sobre zumbis e lugares, ao invés de regras de sobrevivência como o dele. Wichita folheou as páginas até o fim do caderno, olhando para os calendários antigos e rabiscados presos ali. Eles não tinham mais certeza total sobre datas já tinha anos, a menos quando encontravam celulares ainda funcionando ou calendários produzidos para muito tempo em alguns lugares, mas ter um calendário ainda ajudava a contar os dias para algumas coisas, mesmo sendo antigo.
— Querida... – Columbus chamou, ajoelhando-se ao lado dela.
Wichita o olhou de forma perplexa, seus dedos deslizando nervosamente pelo calendário, enquanto ela negava algo que ele não sabia o que podia ser, e seu olhar ficava em pânico.
— Não, não...
— Krista...
Ela o olhou imediatamente, como sempre fazia nas raras vezes que ele a chamava por seu nome verdadeiro. E era mais raro ainda que isso acontecesse duas vezes num único dia.
— Período muito forte? Você não precisa ter vergonha de falar disso comigo depois de treze anos...
Ela enterrou o rosto nas mãos por um longo tempo antes de olhar para ele mais uma vez.
— Antes fosse isso mesmo...
— Me diga qual é o problema. Nós vamos resolver.
— É que... Eu acho que tô grávida.
— O que?! Tem certeza?
— Não. Mas eu acho... Eu tô atrasada, vomitando, nervosa, não fui mordida. Cometemos algum erro sem perceber. O que vamos fazer? Esse não é um mundo pra bebês! – Ela disse, começando a perder o controle de suas emoções, e odiando isso.
— Ei, ei... Wichita – Columbus a puxou para um abraço, beijando o topo de sua cabeça – Métodos contraceptivos falham mesmo às vezes, já falhavam antes disso tudo começar, e tem muito tempo que tudo que temos foi fabricado, então... Mas não acha melhor pensar que isso aconteceu no melhor momento? Seria muito mais difícil um ano atrás. Há uma cura agora. É só esperar.
— Nem sabemos se é verdade, e até quando precisamos esperar por isso.
— Eu sei, eu sei. Também tô com medo. Mas temos chances. Nosso bebê vai ficar bem. Eu tinha certeza que ia morrer nos primeiros dias quando isso começou. Mas estamos juntos há anos. E uma hora atrás estávamos morrendo de medo de perder você, mas agora nós temos um filho.
— Você quer o bebê? Não tá dizendo isso só pra me consolar?
— Pra você me fazer dormir no sofá quando descobrisse? Não, obrigado.
Ele sentiu o coração leve ao ouvi-la rir.
— Eu quero. Eu quero nosso bebê. Eu quero ficar com vocês pra sempre. É tudo que eu ia querer nesse mundo, no de antes, ou em qualquer que seja o que tivermos no futuro.
— Por que isso soa tão brega, mas com você soa tão fofo?
— Por que você me ama?
Ela riu outra vez.
— E se não for isso?
— Então vamos cuidar de você até melhorar.
— Se eu tivesse pensado nisso antes podia ter pegado um teste na farmácia.
— Voltamos lá pra pegar na próxima vez que sairmos.
Ela assentiu.
— Eu também tô aterrorizado, só pra você saber. Mas vamos fazer isso. Não é a primeira vez que quebro uma das minhas regras por você.
— Qual delas?
— Ser prudente com as consequências.
Wichita o puxou para mais perto, intensificando o abraço.
— Posso te beijar agora?
— Quando tivermos certeza.
— Então temos que fazer outro tour pela cidade logo.
Ela riu antes de beijar a bochecha do marido e começar a se levantar, secando a umidade de seus olhos e sentindo as mãos de Columbus repousarem em seus ombros enquanto ele beijava sua testa.
Do lado de fora, Tallahassee, Nevada e Little Rock encaravam a porta com suas armas em mãos, temerosos pelo longo tempo em que o casal estava em silêncio lá dentro. Nenhum tiro havia sido disparado, eles ouviriam. Ou quem sabe Wichita arrancara a proteção reforçada da janela para fugir, e Columbus estava indo atrás dela sem sequer terem percebido.
— Eu tô começando é a achar que eles dois... – Tallahassee dizia quando o barulho da porta se abrindo deu um susto em todos os três, que prepararam suas armas para o pior.
Mas Columbus abriu a porta tranquilo como em qualquer manhã que não acordavam assustados com algum barulho, seguido de Wichita, que parecia muito mais calma, apesar de seus olhos ainda estarem um pouco vermelhos.
— Abaixem as armas, ninguém vai virar zumbi aqui – Columbus pediu – Ela não tem mordidas.
— É, não tenho. Verificamos até se tinha alguma escondida no meu cabelo.
Os três respiraram aliviados, voltando a guardar as armas.
— Certeza? – Little Rock perguntou, recebendo um aceno positivo da irmã, e indo até ela para abraçá-la.
— Então qual é o problema? – Tallahassee perguntou como se fosse a resposta mais simples do mundo.
— Não temos certeza ainda, mas... – Columbus começou.
— Nós verificamos os estoques que já tínhamos. Não tem nada estragado, mesmo o que já tá fora da validade. E nós também consumimos, também teríamos ficado doentes – Little Rock falou depois de soltar a irmã.
— Não acho que seja isso – Wichita respondeu, seu olhar voltando a ficar apreensivo e angustiado quando ela sentou no sofá.
— Parece que você sabe o que é – Nevada aprontou, sendo um dos membros mais espertos dos cinco – Diga pra podermos te ajudar.
Columbus sentou ao lado da esposa, segurando sua mão em apoio. Little Rock observou os dois com preocupação.
— Eu acho... – Wichita começou – Que eu tô esperando um bebê – falou sem ter coragem de levantar seus olhos do chão.
Os três que estavam em pé arregalaram os olhos em surpresa por vários segundos.
— O que?! – Little Rock perguntou sorrindo, se de alegria, ironia ou nervosismo, não sabiam dizer.
Tallahassee apontou para Columbus, com uma expressão ainda surpresa, olhando dele para sua própria esposa, abrindo a boca algumas vezes para falar, mas sem saber o que dizer.
— Eu sei que isso vai dificultar as coisas pra todos nós – Wichita falou.
— Querida, não se culpe por isso, eu já disse. Ninguém vai deixar você sozinha, especialmente eu – Columbus falou – Como você mesma disse, eu tenho minha participação nisso também.
— Esse moleque é um frouxo – Tallahassee disse – Mas merece minha admiração. E ele está certo. Esse é o pior mundo pra bebês, enquanto a cura não nos alcança. Mas não vamos deixar vocês por isso. Cometemos esse erro vezes suficientes por dez anos.
Nevada sorriu ao notar o quanto seu marido vinha crescendo emocionalmente. Ele jamais diria isso um ano atrás.
— Faço minhas as palavras dele. Estamos aqui uns pra os outros. Fugir pela manhã por causa de desentendimentos bobos, fugir das discussões sérias... Todos nós estamos aprendendo a fazer diferente disso, e vamos continuar agora.
— Então é verdade mesmo? – Little Rock perguntou, ainda incrédula.
Wichita assentiu, e a mais nova abriu um sorriso enorme, correndo para sentar ao lado da irmã e abraçá-la novamente.
— Nós sobrevivemos por dez anos com esses dois burros fazendo barulho, desperdiçando munição e tudo mais que não deveriam pra evitar os zumbis, especialmente com o Columbus sendo tão frouxo – ela disse, recebendo olhares indignados dos dois homens, e fazendo Nevada e Wichita rirem – Podemos sobreviver a isso também. E se a cura for real... Foi o melhor momento. É incrível que vocês tenham conseguido evitar isso por dez anos.
— Eu tô com medo – Wichita admitiu – Além de... Tudo... Se algo der errado? No nascimento ou antes?
— Infelizmente não estamos livres dessa possibilidade – Nevada falou – Mas ficar se apavorando com ela não vai ajudar. Você precisa ficar bem.
— Eu nem tenho certeza total ainda. Se tivesse pensado nisso antes podia ter pegado um teste na farmácia.
— Eu peguei alguns – Nevada faltou – Eu achava improvável. E não sabia como falar com vocês sobre isso. E estávamos todos um pouco aterrorizados... Mas...
Tallahassee olhou surpreso para a esposa, vendo-se numa situação tão cheia de surpresas que não sabia o que dizer, o que era muito raro.
— Eu vou ser avô? – Ele finalmente perguntou.
— Parece que sim – Little Rock sorriu – Eu vou ser tia!
— Não tão mesmo chateados? Vai ser mais difícil pra todos nós, em muita coisa.
— Krista – Tallahassee falou, num dos raros momentos que falava a sério sem tentar se esconder atrás de agressividade ou criancices – Como minha esposa acabou de dizer, estamos todos aqui tentando melhorar isso de confiança uns nos outros, o que claramente foi um problema grande pra nós, mesmo com dez anos juntos. E agora já faz treze anos da primeira vez que vocês nos roubaram e fugiram. Acho que já estabelecemos bem que somos uma família e ninguém mais vai ficar pra trás, a quantidade de zumbis finalmente tem diminuído, mesmo com os T700 e 800 por aí. E há rumores de uma cura que todos desejamos que seja real. Eu tenho sobrevivido sem meus Twinkies há um tempo... – ele fez uma pausa, vendo Little Rock revirar os olhos e Nevada e Columbus rirem – Então podemos sobreviver com um bebê. Somos quatro adultos e vamos cuidar dele ou dela, é um bebê de sorte. Eu nunca achei que esse frouxo fosse sobreviver tanto tempo, e agora ele vai ser pai. Eu mal posso acreditar que vivi pra ver isso, e me sinto orgulhoso.
Wichita o encarou por um tempo, seus olhos cheios de lágrimas de novo, e assentiu.
— Eu tô muito feliz em ouvir isso, mas já pode parar de me chamar de frouxo – Columbus falou.
— Obrigada – Wichita falou, sentindo novamente a irmã abraça-la e o marido beijar sua têmpora.
O casal também ganhou um abraço de Nevada e Tallahassee quando se levantaram, e Nevada deu a ela os cinco testes que tinha encontrado na farmácia, para que Wichita usasse ao longo das próximas semanas.
— Não sei se ainda vão funcionar tanto tempo depois de terem sido feitos, mas as embalagens estão em ótimo estado, então quem sabe?
— Obrigada – Wichita lhe disse com um sorriso.
— Quanto tempo você acha que está?
— Não sei ao certo... Talvez dois meses. Me desculpa perguntar, mas... Chegou a ter filhos? Você tem cara de mãe – Wichita falou, vendo a mais velha sorrir.
— Nunca cheguei a tê-los. Eu devia ser um pouco mais velha do que vocês agora quando isso começou. Eu tinha alguém, mas ele virou zumbi nos primeiros dias. Logo todas as chances de começar uma vida com alguém se foram. Eu não tinha irmãos ou muita família. Talvez por isso tenha sido mais fácil seguir em frente depois que também perdi meus pais pra os zumbis. Mas eu gostaria de ter vivido isso. Ficarei feliz em ser avó adotiva.
Wichita sorriu.
— Eu sinto muito.
— Já passou. E tenho outra vida agora.
— Quem sabe agora... Ou quando a cura se estabelecer... Vocês não são tão velhos assim – disse para a mais velha, estando as duas sozinhas na cozinha enquanto Tallahassee e Little Rock brincavam com Columbus na sala e imaginavam o futuro com o novo membro da família.
Nevada riu baixinho, um olhar emocionado e sonhador brincando em seu rosto.
— Quem sabe...? Você quer fazer sua primeira checagem agora? Sabe usar? Tem as instruções escritas de qualquer forma.
— Sei. Obrigada de novo.
******
Mais tarde Wichita e Columbus estavam deitados em seu quarto, após todos já terem feito a verificação diária anti zumbis e intrusos antes de dormir.
Ele a abraçava contra o peito enquanto os dois olhavam para o teste que Columbus segurava com a mão livre, marcando duas linhas e indicando um resultado positivo.
— Pode ser falso positivo... Mas por enquanto é o que temos.
— Vamos saber logo, eu acho – Columbus falou – Agora fiquei ansioso pra isso – completou com um sorriso.
— Não sei... Se os zumbis mostrarem preferência por mim? Ou alguém mal intencionado que apareça de repente?
— Bem... Não demos o azar de encontrar muitas pessoas assim nesses treze anos, e conseguimos evitá-las bem e nos afastar rápido das poucas vezes que aconteceu. Quanto aos zumbis... Infelizmente não sei. Mas saímos pouco de qualquer forma. Agora que plantamos e pegamos itens pra passar muito tempo... Só Tallahassee não consegue ficar parado aqui. Pelo menos ele consegue informações sobre o que anda acontecendo quando sai com um de nós.
— Queria aproveitar melhor isso. Queria estar comemorando com você até agora, e pensando na aparência dele ou dela, ou nomes... Mas tudo que consigo pensar são nas possibilidades assustadoras de todos os meses que ainda virão. E depois.
— Então vamos fazer isso. Deixar o clima mais leve pra você – Columbus sorriu, com seu inesgotável otimismo e vontade de viver.
Wichita conseguiu sorrir.
— Menino ou menina primeiro?
Ele deu de ombros antes de olhá-la.
— Você vai fazer a parte mais difícil de tudo. Você escolhe.
— Já que todos nós temos codinomes peculiares... Minha mãe nasceu em Scottsdale. Podíamos chamar um menino de Scott. Ou de Dale.
— Eu gostei – ele sorriu, deixando-a saber que estava sendo sincero – Podíamos chamá-lo de Scott Dale. Sabia que dizem que pessoas chamadas Scott tem uma ligação forte com o amor e a família? E que Dale significa aquele que gosta de viver?
Wichita sorriu.
— Soa como você.
— Fico feliz em saber – ele sorriu de volta – Mais ideias?
— Por enquanto só tenho essa. Você tem ideias pra meninas?
— Nova.
— É fofo, mas por que esse?
— Meu pai nasceu em Nova Iorque.
— É mesmo... – ela disse ao se lembrar que ele já lhe contara isso – Também podíamos chamar uma menina de Angel.
— É lindo. Mas por que esse? – Ele perguntou.
— Lembra que morei em Los Angeles quando eu tinha 15 anos? Foi uma época boa.
— Ah, sim. Fico feliz que ainda tenhamos algo bom pra lembrar de antes disso. Mesmo doendo tanto às vezes.
Wichita concordou.
— Passei tanto tempo achando que a única filha que teria seria minha irmã.
— Eu achei que nunca teria algum depois que tudo isso começou. Eu não tinha irmãos e morava longe dos meus pais. Mas achava que talvez um dia... Se eu tivesse alguém, e tivéssemos filhos... Não que eu fosse querer que as crianças consertassem nossos erros do passado. Mas podiam abrir caminho pra um futuro novo.
— Eu amo a maneira feliz como você pensa em tudo.
Columbus a olhou.
— Tallahassee sempre disse que isso ia me matar.
Wichita riu.
— Que bom que ele tava errado.
— É... Muito bom. Espero que nosso filho não tenha medo de palhaços.
— Se tiver coragem pra enfrentar zumbis já será muito bom. Quando ele crescer e descobrir o que é um.
Ele assentiu.
— Quero tanto que a cura seja real...
— Eu também – Columbus respondeu – Mas você quer dormir agora? Acho que você deve.
— É verdade. Hoje foi estressante.
Ela se aconchegou melhor ao marido quando ele beijou sua testa.
— Boa noite, amor.
— Boa noite, querida.
Os dois se acomodaram abraçados até se encaixarem confortavelmente e caírem no sono.
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