Registro Panorâmico
25 Pretérito nada perfeito
Notas iniciais
Fatos psíquicos de Quésia
Não consegui parar de pensar naquele livro... Se eu acreditar, eu não tenho nada a perder mesmo... E pelo que me parece, eu vou ter que ser uma pessoa melhor pra dizer que acredito em Deus de verdade. Me parece que todo mundo sai ganhando...
Uma menina de cabelo longo, verde, chegou na classe e uma outra de Chanel preto com uma mecha azul. Elas se abraçaram e começaram a conversar. A de cabelo verde ficou me mirando e veio ter comigo.
—Oi! Eu nunca tinha te visto aqui... Qual seu nome?
—Quésia...
—Você não me parece ter uma memória muito boa.
—Como é que é? –ela riu e me deu um abraço.
—Judi falando!
—Oi?! Mas que droga você fez com seu cabelo?
—Eu pintei, oras!
—Ah... Eu preferia a cor natural...
—Cor natural? Aquela não era a cor natural! Pirou?! –Barcelos riu ainda mais. –Enfim, o que você tá fazendo aqui? Conseguiu ser adotada?
—Sim...
—Ai, que ótimo! Vamos poder continuar sendo colegas!
Colegas... Uau. O Salamander ficou me olhando, como se pensasse “Entendi... Então o problema era eu...”. Me fez sentir culpada, eu poderia ter parado de pensar um pouco naquilo e ter dado um pouco de atenção a ele.
—Deixa eu te apresentar a Greta. –Judi trouxe a menina de cabelo preto.
—Prazer, Quésia. Olha, você merece um prêmio por ter aguentado a Judith, ela é MUITO insuportável!
Judith... Não sabia que esse era o nome dela.
—Para de graça! –minha “melhor amiga” empurrou a outra garota. Elas parecem se dar muito bem. Também parece que eu não fiz falta. Não, não é ciúme. Está mais para... decepção.
Elas ficaram conversando perto de mim, contando caso, mas mesmo assim parecia que minha presença nem fazia diferença nenhuma. Sabe quando você sente que tá sobrando? Se não sabe, você tem sorte, porque é horrível...
—Ah, Quésia, faz um desenho pra mim um dia desses? –Judi finalmente se dirigiu a mim diretamente.
—Tá... Claro.
—Ui, ela desenha mesmo? –a outra menina quis saber.
—Desenha muito, você tem que ver, Gre! É incrível.
Não, minha felicidade não é comprada com elogios. Eu realmente não estava querendo que a tal da Greta explodisse ou sei lá o quê. Eu só queria que “Judith” se mostrasse interessada pelo que aconteceu comigo. Ela nem perguntou se eu estava bem... Me incomodou. Não gosto dessas “pessoas-camaleão” que mudam pra agradar aos outros. Há um abismo de diferença entre ser simpático e ser falso. Estava bem na cara de que ela não era mais a mesma.
A aula de Artes começou... A professora trouxe várias tintas, pincéis e cartolinas grandes. Mandou todo mundo escolher duplas... E como era de se esperar, a Greta e a Judi já estavam abraçadas. Fiquei no vácuo bonito. Não tinha mais ninguém pra fazer dupla, então eu fui falar com a professora pra ver se ela me encaixava numa “dupla de três”.
—Oi! O que há de errado, querida? –ela me perguntou se balançando de um lado pro outro.
—Não sobrou ninguém pra fazer o trabalho comigo.
—Ah... Entendi. Só um segundo. –foi titubeando para trás de mim. –E você, rapazinho?
—É... A mesma coisa que ela.
—Uh! Problema resolvido! –a mulher, que parecia dopada, me jogou em cima de ninguém menos do que o Salamander.
—Achei que você fosse fazer com o Yamada ou com o Andreas. –comentei.
—Não. Eles são melhores amigos e eu também não gostaria de contestar alguma coisa assim. Mas foi um bom resultado, senão eu não poderia ficar com você...
Hebrom parecia muito nervoso. Talvez ele não quisesse que eu percebesse que tem poucos amigos... Não me surpreenderia se ele pensasse que eu ficaria com um pé atrás por parecer que sou a última opção dele. Esse garoto parece me conhecer faz tempo... Eu e essa minha transparência patética.
—Agora que todos têm sua dupla, podem começar a fazer o trabalho. É o seguinte... Quero cada par pegue uma cartolina e divida-a ao meio com uma linha. Depois cada um pinta um lado! Alguma pergunta?
—Pintar o quê? –perguntaram.
—O que você quiser! Isso é uma aula de Artes, expresse sua criatividade! Desde que não seja nada ilegal. –ela riu, meio tonta. Professora 4:20...
—Estou sem ideia nenhuma... Vai fazer o quê? –Salamander me perguntou, deitado no chão e encarando o papel.
—Coisas que eu gosto. –respondi.
—Ah! Ótima ideia! Posso copiar?
—Fica à vontade.
Pintei uma xícara de café, discos de vinil, chocolate, um livro... Parece que eu não gosto de muita coisa. Ficou muito vazio... e sem graça. Minha vida em si é sem graça mesmo, só que eu levar esse tapa na cara de um trabalho escolar foi meio tenso. Apaguei tudo.
—Por que fez isso? Estava bonito! –Salamander lamentou.
—Mas estava incompleto. Não sei o que desenhar.
—Me desenha!
Pra ser sincera, eu sempre ODIEI esse negócio de “Me desenha”. Mas eu resolvi fazer... Não tinha coisa menos pior... Acabou que os dois tempos terminaram e nenhum de nós conseguiu terminar. A professora disse que deveríamos revezar na hora de levar pra casa. O Hebrom deixou que eu levasse e foi falar alguma coisa com a professora.
O meu desenho estava ficando bom, queria chegar logo em casa pra acabar. Depois, aula de Matemática. Tédio eterno. Eu juro que estava tentando prestar atenção e fazer as páginas que o professor mandou, mas não dava. Era chato demais. Consegui sobreviver até dar o intervalo.
Judi e Greta quiseram me levar junto, tentei recusar, mas elas ficaram insistindo. Fui junto, mas sem muita animação.
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