Notas iniciais
Eu espero que tenham gostado da história. Eis o último capítulo da mesma. Muito obrigada a quem acompanhou até aqui!

—Ah! Eu nem sabia que esse era o nome dele... Pode começar.

—Só espero que você não tenha repulsa de mim depois disso... Algumas pessoas da escola me detestam pelo que aconteceu.

—Nem ligo. –cheguei mais perto ainda e ele segurou o riso.

—Bem, tudo começou quando eu vim pro Brasil. Na escola, só me identifiquei com Wendy por ele ser da mesma religião que eu e com Jamal por ser amigo de Wendy. Mesmo assim, eu não me encaixava muito no grupo deles. Enquanto eles falavam de livros, vídeo games, HQs e essas coisas, eu tinha duas paixões...

—Quem?

—Não, não! Não tem nada a ver com meninas! Pra ser sincero, eu achava as meninas daqui meio sem graças até te conhecer... É que lá fora eles ficam falando de meninas brasileiras e tudo mais... Só que eu não ligava muito pra isso...

—Entendi... Sorte sua.

—Achei que eu fosse o ciumento da relação.

—E você é! Quem disse que eu fico com ciúmes de você?!

—E quem disse o contrário? –ele disse sorrindo e eu amarrei a cara. –Haha! Pois é. Bem, as duas paixões eram música e fotografias... O Yamada já tocava teclado nessa época, mas não era um dos seus assuntos preferidos. Eu gostava de escrever letras de música bilíngue. Eu só não costumava escrever em francês.

—Hm... Mas o que isso tem a ver com o Folk?

—Tudo. Eu tinha só uns catorze anos nessa época e, como ele era mais velho por dois anos, estava dois anos na minha frente na escola.

—Ele não havia repetido ainda?

—Eh... Ele aprontava muito e era bem egocêntrico...

—Sei, assim como hoje em dia.

—Não... Ele era um pouco menos, tanto que ele passava no colégio por pouco. Richard é inteligente, só que ele não gosta muito de estudar, sabe? Prestar atenção na aula era o suficiente pra ser aprovado.

—O que aconteceu com ele então? –estranhei.

—Eu vou chegar nessa parte... –Hebrom parecia triste. Será que eu fiz certo em perguntar? –Um dia, ele estava de castigo e teve que levar um monte de papelada da fotocópia até a secretaria. Eu estava na fotocópia também, queria escanear meus poemas pra mostrar às professoras de português e de inglês. Sem que eu percebesse, o Folker pegou alguns que deixei sobre o balcão. Não senti falta deles na hora.

—Por que ele pegou?

—Ele tinha ficado interessado nas minhas letras, porque os amigos dele faziam parte da banda de heavy metal que a Judith gosta e que ele mesmo bancava com o dinheiro do pai. Ela foi formada aqui nessa cidade. –eu preferi não comentar, porque depois de tudo o que aconteceu, eu já não ia com a cara dessa banda. –Richard foi até a casa de Sandres, que era o guitarrista e mostrou. Ele gostou bastante do que escrevi e disse pra Folker me procurar.

—Eles quiseram você na banda, né?

—Eh. Exatamente. O nome da banda é Paganus. Eles queriam ser diferentes da maioria das bandas de rock, mesmo que não fizessem um sucesso grande: Todos os integrantes tinham o cabelo pintado de colorido e um apelido de um deus pagão que parece na Bíblia. Por exemplo, Sandres tinha cabelo azul e o chamavam de Moloque...

—Eu acho difícil imaginar você numa banda assim...

—Eu não precisava de apelido e nem precisava pintar o cabelo, porque eu nem sequer aparecia nos shows que eles arrumavam. Eu sabia que não era legal estar no meio deles... Eles se drogavam e ficavam desrespeitando o cristianismo, mesmo que eles evitassem fazer isso na minha frente. O Folker não inalava diretamente e nem fumava nada, mas ele bebia álcool de vez em quando.

—Por que você foi se meter nisso, garoto?! –briguei com ele.

—Porque eu achei que fosse minha chance de me dar bem com as pessoas fazendo o que eu gosto. Não fala assim comigo, não é como se eu me orgulhasse... Eu não cheguei a fazer essas coisas, mas se eu continuasse lá, provavelmente começaria, porque eu estava sendo muito influenciado por eles...

—Tá, mas volta. O que aconteceu depois de Folker te procurar?

—Ah... A partir desse momento, eu me afastei e muito de Andreas e Yamada. E principalmente de Deus... Fiquei muito amigo do Richard e passei a andar só com ele pra todos os lados. Por causa dele eu fiquei “famoso” no colégio. Sempre abaixo dele, mas conhecido. Nessa época, não era uma fama ruim... Eu comecei a me encontrar com o pessoal da banda dele e sair mais com ele. Eu me divertia, mas era um tipo de diversão meio estranha...

—Como assim, Brom?

—Eu ria muito com eles, a gente zoava junto quanto eu tirava fotos deles, um fazia pegadinha com o outro...

—O que tem de mais nisso? Você achava graça, não? Era seu novo grupo de amigos.

—É, pode ser, mas a cada encontro, quando acabava, eu me sentia mal e triste, como se tivesse faltando alguma coisa. Cada momento sozinho era uma dor de cabeça. Muitas vezes eu passei a madrugada chorando enquanto olhava pro teto e sem entender exatamente a razão... Nem o Folker sabia que isso estava acontecendo comigo. Esses meus sentimentos estranhos começaram a afetar o meu jeito de escrever as letras das músicas deles.

—Eles não perceberam que você estava mal?

—Na verdade, não. Eles até gostaram do meu novo jeito de escrever... Especialmente o Cristiano, que sempre gostou de Black metal.

—Quem é?

—Ele é o vocalista. Agora é o novo namorado da Judith... O de moicano cor-de-rosa.

—Só sei quem é por causa do moicano... Enfim, eu tenho um rascunho velho que achei jogado no armário no mês passado. Tá aqui no meu bolso pra você ter noção de como ficavam as letras quando eu estava frustrado e com raiva, você quer ver?

—Hebrom com raiva... Haha! Eu aceito.

No papel, estava escrito...

“Dos meus olhos escorrem sangue,

Porque eu já não sei o que é ser triste.

A dor me tomou por inteiro, me vejo no espelho...

Estranho foi meu pai ter dito que monstro não existe.

Eu fui enganado e dizimado,

Enganado e dizimado por todos vocês.

Fui pisado, mas agora é minha vez.

Eu vou gritar para o mundo e destruir cada um,

Cada um que me humilhou pelo meu jeito incomum.

Ver a sua sepultura será a maior alegria

Dessa minha maldita alma vazia.

Eu não quero mais viver!

Eu não quero mais viver!

Mas já que estou aqui,

Vim me vingar de você.”

Eu tentei não fazer careta enquanto lia, mas eu não consegui. Eu olhei pro Hebrom... Olhei pro papel... Olhei pro Hebrom... Pro papel de novo... Pra ele... Eu não acreditei.

—Tá brincando que foi você que escreveu essa desgraça, né?

Salamander começou a rir como um cavalinho e respondeu:

—Não! Eu escrevi isso numa noite que passei na casa do Folker. Assistimos a um filme sobre bullying que me deixou muito irritado. Ao invés de conversar com o Rich, eu comecei a escrever. Era sobre um o garoto que mata os colegas de classe que riem da cara dele no dia anterior.

—Você via esse tipo de filme? –fiz cara de quem não estava conseguindo engolir a história.

—Sim...

—O que aconteceu com você? –apertei aquele rosto pálido.

—Ah, todo mundo esquece que pessoas são pessoas, não coisas. Coisas não mudam, pessoas sim. –ele falou com a voz estranha por eu estar imprensando suas bochechas. Soltei-as, pra que continuasse contando. –Eles chamavam isso de talento, mas era horrível pra mim. Eu me sentia mal e estava transmitindo isso às pessoas que ouviam aquelas músicas. Eu estava contaminando os outros ao invés de pedir ajuda a Deus. Mais da metade das músicas do segundo álbum deles fui eu quem escrevi... No primeiro, eu escrevi só algumas.

—Os seus pais não sabiam que você estava assim por andar com eles?

—É claro que sabiam... Eles até me proibiram, mas eu desobedecia e ia pra fora de casa. Eu também chantageava meu irmão, dizendo que queimaria a imagem dele com a Judith se contasse alguma coisa pra eles... Ei, você sabe que sou filho só da Crisbell, não sabe?

—O quê?!

—Sim... Eh... Ela traiu o Ramon no meio do casamento, mas ele continuou com ela. Eu sou o filho bastardo que ela sempre quis que fosse um santo... Mesmo ela nem sendo cristã e tudo mais. Ela vai à igreja de vez em quando por insistência do meu pai. Além de ser de adultério, eu era uma vergonha por não ser do jeito que ela queria. Ela sempre pegou mais no meu pé e me deu mais atenção. O Ramon tinha cuidado pra me tratar como se fosse um filho dele de sangue... Mas ele se preocupou até demais, tanto que parece que ele me prefere em relação ao Zacur. Meu irmão fica com ciúme disso...

—Mas você não acha que ela traiu seu... pai... só porque não era cristã, né?

—Não, claro que não. Mas eu acredito que ter valores influencia. E na época ela não tinha. Isso é mais do caráter da pessoa.

—Brom, você acabou desviando do assunto...

—Verdade, desculpa... Folker só percebeu que eu estava estranho quando a minha aparência mudou e eu comecei a tomar uns remédios sem prescrição médica... Que não deixam de ser um tipo de droga. Numa tarde, na escola, Jamal ficou me olhando de longe e percebeu que eu estava esquisito... Ele veio na minha direção e disse que Wendel estava levando ele à igreja. Eu disse “Que legal” sem muito entusiasmo... Foi aí que ele me convidou pra ir até lá.

—Você foi?

—Sim... E, estranhamente, tocou uma música que eu gostava muito... “Volta” do Leonardo Gonçalves. Já ouviu falar nesse cantor?

—Não...

—Enfim, a letra se encaixava perfeitamente na minha situação... Eu desabei em lágrimas naquela noite. Não porque isso seja sinônimo de presença do Espírito Santo ou algo assim, mas porque eu estava triste. Eu me lembrava de como havia sido feliz e de como estava mal agora... E realmente não importou a distância, porque naquele dia Ele me alcançou...

—Você aceitou Jesus?

—Sim. E isso era equivalente a decidir mudar o meu estilo de viver... Eu resolvi abandonar a Paganus... E é claro que eles não aceitaram isso fácil.

—Eu ia perguntar exatamente isso!

—Eles ficaram insistindo pra eu ficar, disseram que eu era importante e tudo mais... Folk disse que eu estava sendo ingrato até, mas não foi muito grosso na hora, porque ele sabia do lance dos remédios e acreditava que dava pra mudar minha cabeça ainda. Mas Cristiano, quer dizer, Dagom não aceitou tão fácil. Ele ficou furioso de imediato com aquilo, começou a me insultar e partiu pra cima de mim... Ele começou a me espancar na frente de todo mundo ali.

—Você ficou parado?

—Eh, eu não estava sentindo nada mesmo...

Olhei pra ele com aquela mesma cara de indignação:

—E aí você morreu, né?... Fala sério! Ninguém foi separar?

—Haha! O rapaz que detesta ser chamado de Cristiano pelo significado do nome tinha uns vinte anos na época. Era o mais velho da banda. Até tentaram segurá-lo, mas ele era bem forte. Folker foi me defender... Ele acabou todo esmurrado e de olho roxo. Mas eu só percebi isso depois que acordei no hospital.

A minha cara de indignação permaneceu.

—Você fica uma gracinha desse jeito! –ele começou a rir e me abraçou... Aparentemente ele não é tão afetado pelo passado. –No hospital, eu acordei, vi que tinha torcido meu tornozelo quando caí e fiquei lá sozinho por um tempo. Eu fiquei refletindo e conversando com Deus, coisa que eu não fazia havia tempo... Depois de meia hora o Richard apareceu... E eu contei pra ele que não queria fazer mais parte da banda e isso era definitivo. Mesmo depois do que aconteceu, ele implorou pra eu ficar e disse que poderia expulsar o Cristiano com o consentimento dos outros integrantes, porque era ele que bancava tudo...

—E aí?

—Eu disse que não precisava, porque havia me convertido e tomado uma decisão. Falei que não andaria mais com eles, porque isso estava afetando minha vida espiritual e consequentemente a minha vida como um todo... Ele ficou com muita raiva de mim, até pegou no meu colarinho, mas não chegou a me bater. Rich ficou muito chateado comigo, falou que eu estava desconsiderando tudo o que ele fez por mim... Mas não era bem isso.

—Pois é, eu sei que não. Às vezes as pessoas precisam ficar um tempo sozinhas.

—Folk disse que eu não sou e nem nunca fui alguém sem ele e que eu iria me arrepender daquele dia... Desde então ele me humilha e demonstra que minha vida seria melhor com a sua ajuda... No dia seguinte dessa discussão, ele pegou minha muleta no colégio e saiu correndo só pra rir da minha cara. Ele passou a espalhar boatos sobre mim na escola e todas as pessoas acreditam neles, porque ele sempre teve mais crédito do que eu por lá...

—Então quer dizer que ele te maltrata daquele jeito porque sente falta da sua amizade? Isso tudo pra mostrar que ele é importante pra você?!... Cara, esse garoto te ama e não sabe se expressar!

—Por aí... –ele olhou pra baixo. –Eu queria ser amigo dele sem que ele tentasse me fazer frequentar àquelas festas estranhas e aos bares que vai. Folk parou de ajudar a Paganus por terem defendido deixar Dagom, mas nem por isso a banda deixou de fazer sucesso.

—Você já pensou na possibilidade dele ter repetido o ano só pra te perturbar por mais tempo?

—Claro que já, até porque ele mesmo disse isso pra mim...

—O que eu não consegui entender até agora foi só o fato de você ter ficado com medo de eu ter repulsa de você. Por que eu teria? Você cometeu erros, grande coisa! Quem é que não comete? Você acha que tenho o direito de te julgar por você ter errado diferente de mim?

—Eu não tinha pensado dessa forma...

—Se você não quer que eu acredite no que as pessoas dizem sobre a minha aparência, você tem que me dar o exemplo e não acreditar no que elas dizem sobre as sua personalidade. Você escolheu o que fazia você e Deus felizes. –olhei fixamente para Hebrom. –Você não está machucando ninguém por acreditar, não deveria se preocupar com isso. Muito pelo contrário, você se esforça pra fazer do mundo um lugar melhor. Se é por causa dEle, você deveria até ficar feliz! Eu gosto de você do jeitinho que você é... No começo eu até te considerava bonzinho demais pra ser verdade... Mas depois que percebi que você é realmente assim, eu não tive como não me apaixonar... Você foi um presente que Deus mandou pra me dar forças pra aguentar a vida aqui... Você foi uma verdadeira luzinha pra mim.

—Obrigado por me ver bom assim... Ninguém nunca falou de mim dessa forma... Eu não sabia que tinha sido útil pra você em algum aspecto. –Salamander começou a chorar. –Eu não me sinto mais um imprestável quando estou perto de vocês dois, sinto que minha vida tem sentido. Eu só precisava dEle pra ficar bem e feliz, mas depois que pedi, Ele mandou você na hora certa... Eu estou tão feliz... –sorria e as lágrimas desciam do seu rosto copiosamente enquanto seus olhos estavam fechados.

—A gente te ama muito, Hebrom. –levantei seu queixo, fazendo com que olhasse pra mim. –Muito. E enquanto você tiver a opinião dEle, não vai precisar da de quem quer te colocar pra baixo. Você não é medíocre ou sem brilho... Você é mais do que um namorado pra mim e mais do que um servo pra Ele. Você é nosso amigo.

Nesse momento, Salamander segurou meu rosto rapidamente e fez seus lábios tocarem os meus de maneira bem intensa. Hebrom me invadiu de um jeito que eu não esperava e agora eu acho que sei o que ele quis dizer com beijo francês... Eu nunca me senti tão especial. Eu sabia que ele também gostava de mim... Fui beijada sob as estrelas enquanto estávamos assentados na rede... Esse é, com certeza, um registro que vou guardar pelo resto da minha vida com eles. Deus formulou coisas maravilhosas para nós e essa é uma confirmação de que, não, nós nãos somos ordinários.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!