Regis em busca de si mesmo
4 Reconstruindo um passado.
Notas iniciais
De jeito apressado, caminhamos juntos por uma trilha praticamente coberta por densa vegetação, daquele campo de pouso de aeronaves terrestres. Depois de pelo menos trezentos metros, atravessamos por uma cerca de arame farpado e continuamos seguindo por uma bela estrada com grossa camada de areia em tom rosado, virando em outra rua de chão batido e assim, pouco mais de mil metros depois, paramos em uma casa simples, com muro baixo.
— Eis sua casa! — Alegou meu irmão.
Embora não reconhecesse o lugar e sabendo das peraltices de Arthur, correndo o risco de que ele me entregasse a uma casa de estranhos, confiei nele e bati palmas diante de velho portão de madeira. Quer dizer: fui interrompido por ele que alegou gesticulando:
— Não se bate palmas na própria casa!
Compreendendo, abri o portão e entrei.
Ele sorriu, disse tchau e antes que eu correspondesse se virou, saindo em disparada, indo embora, talvez para sempre. Apesar de que prometeu me visitar... no futuro.
Entrei na sala daquela casa humilde, de onde ouvia o tagarelar de outras crianças. Segui para a copa, onde os vi sentados ao lado da mesa, almoçando.
Eram cinco crianças, apenas uma delas era menina. Seriam meus irmãos, com todos seus traços semelhantes à minha fisionomia; inclusive o menorzinho, de talvez seis anos de idade, sendo tão semelhante, que eu diria ser Arthur. Sabia que eram meus traços, mas não os reconheci.
Eles me viram passando pela copa, de um jeito lento e surpreso, mas nem se manifestaram.
Chegando à cozinha, vi uma mulher à beira da pia, lavando alguns pratos. De imediato a considerei muito bonita e sabia que era minha mãe, porém, do mesmo modo de que com as crianças, não a reconheci.
— Mãe! — Chamei-a cautelosamente.
— Oi, Regis! — Respondeu-me, virando-se à mim, com sorriso bonito — Você demorou um pouco.
“Trinta anos”. Pensei.
— Troque de roupas — pediu ela. — não foi à escola de uniforme por quê? Cadê seu material escolar?
Dei de ombros. Nem me tocara a este respeito.
— A professora deixou você entrar na aula sem uniforme? — estranhou ela.
Um tanto que perdido, acenei que sim.
— E onde você deixou o uniforme? Eu deixei sobre a cama, mas não está lá, pois estendi os lençóis e não vi.
— Acho que eu guardei.
— E que roupas são estas que está usando? Não são suas? São?
— Claro que são, mãe! — ri disfarçadamente.
— Não me lembro de que tenhas roupas coloridas assim — foi incisiva ela. — Nunca vi estes tênis antes.
— Não se preocupe, mãe. É meu.
— Você ganhou estas coisas, daquele casal e não me mostrou. Foi isso?
Os ombros falaram por mim.
Não sabia à qual casal ela se referia e ao me vestir assim, não me ostentara para o fato de que aquelas roupas eram da moda no ano dois mil e nove e sequer existiam nos anos oitenta.
— Vá se trocar! — Ordenou-me um tanto surpresa.
— Onde?
— Como onde? — A estranhou, apontando para o primeiro quarto, com porta para a copa — Em seu quarto!
Claro que não sabia! Fui salvo por seu dedo indicador.
Dirigi-me lentamente a tal quarto e me despi. Abri a porta do guarda roupas e diante de aglomerado de vestimentas bem organizadas, tive sorte, pois separados por grupinhos, encontrei tais uniformes da minha escola. Não me esquecera dela, pois era sempre comentada em conversas sem nexo com meu clone.
Já estava vestindo um short surrado, quando, ao levantar os olhos, percebi diante da porta de entrada, a mulher... que me olhava atenta.
— Me desculpe por ontem, tá! — Pediu-me séria.
— Ãh? — Não entendi.
— Sei que foi o Fabinho quem mexeu com você.
Continuei sem entender.
Ela se aproximou e observando meu peito nu, segurou meu aparelhinho tradutor, sem, contudo, ser dar conta do que ele realmente era e insinuou:
— Ainda bem que não ficaram marcas.
Abraçou-me, acariciando e beijando meus curtos cabelos castanhos.
Aquele abraço, apesar de sentir como o de uma pessoa estranha, me trouxe tanta paz e alegria, que eu não queria que ela me deixasse.
Correspondi com o mesmo carinho, a abraçando forte e permaneci assim em silêncio. Não queria que terminasse nunca, ou que durasse ao menos um dia inteiro, porque eu esperei por aquele abraço e por aquele carinho de mãe, por mais de trinta anos.
Meu cérebro não a reconheceu, Mas meu coração saudoso, pulsando de um jeito diferente sim.
Isto mesmo: um coração feito de saudades jamais se engana a respeito de alguém que ama. Como poderia se esquecer, daquela que o carregou no ventre por longo período, daquela que lhe deu seu sangue, através do leite materno...
Quando ela me deixou, olhei firme em seus olhos silenciosos e ela pode perceber os meus... Cheio de lágrimas. Mas eram lágrimas de felicidades e eu sabia, que agora, apesar de ter que me reaproximar e reconhecer todos meus entes e amigos estava mesmo onde sempre implorei ao homem que alterou este destino: de volta à minha verdadeira infância.
Minha mãe, enxugando minhas lágrimas com ambas as mãos, talvez imaginasse que aquilo era fruto do que me ocorrera “pra ela” no dia anterior: uma briga boba com um menino vizinho e uma punição severa que ela aplicara, me deixando com o corpo inteiro cheio de vergões.
As marcas sumiram.
Depois de tanto tempo teria que sumir mesmo.
O que nunca sumiu. Ou, que só sumiu agora, foi a tristeza de um coração partido pela ausência.
— Venha almoçar — convidou-me ela.
— Mãe! Eu te amo!
Ela sorriu feliz e se abaixou diante de mim, me dando um beijo na face, sentindo nos lábios o gosto salgado das lágrimas que molhavam meu rosto. Talvez eu nunca tivesse dito esta pequena frase à ela.
— Também te amo muito!
— Onde está o pai?
— O que há com você? — A estranhou — Você sabe que ele foi trabalhar no sítio e só volta à tarde.
Sentei-me à mesa para almoço e sem saber direito como agir passei a me servir, sendo observado por cinco pares de olhos curiosos. Acho que eles estranhavam alguma coisa.
— O que foi? — Questionei-os.
— Não se usa mais roupas pra almoçar! — Reclamou o mais velho deles.
— Está calor! — Dei de ombros.
— Está calor, mas a mesa para o almoço é sagrada!
Levantei-me e retornei ao quarto, vesti uma velha camiseta e retornei.
Voltei a me servir, ainda sendo observado pelos cinco.
— O que foi agora? — Questionei-lhes balançando os ombros.
— Você nunca gostou de jiló! — Reclamou o pequenino.
— Ah! Isto aqui? — Aleguei, acrescentando outra pequena porção de tais legumes — é uma maravilha! Faz bem pra crescer forte e saudável!
— Quero ver! — Riu a menina.
Comecei a comer aquela simples, porém deliciosa refeição de minha mãe. Quer dizer: o arroz, feijão e tal carne com batatas, que fazia séculos que não apreciava, estavam uma delícia. O tal jiló: ao saborear o primeiro grande pedaço, quase engasguei. Meus irmãos tinham razão. Se eu não gostava no passado, continuaria detestando.
Continuei o almoço, deixando aquela porção em tom verde escuro, no canto do prato.
Minha irmã caçoou:
— Como é que é: não quer mais crescer forte e saudável?
— Iéco! Acho que não gosto!
— Se tivesse ficado na travessa, quem gosta comeria — Reclamou meu irmão mais velho.
Acabando de almoçar, voltei ao quarto e deitei para descansar um pouco.
O velho costume de sempre dormir após o almoço continuava em mim. Costume este, diferente de qualquer outra criança, que geralmente detestam dormir, de dia e de noite também. Acho que elas consideram dormir, uma verdadeira perda de tempo em sua curta infância.
©©©
Quando acordei, em torno de três horas daquela tarde, meu irmãozinho caçula estava deitado à meu lado, na mesma cama, brincando de fazer barulho com a boca e gesticulando com ambas as mãos, como se estivesse pilotando um grande avião de caça.
Apesar de ele me parecer um estranho, gostei de sua companhia e em silêncio fiquei observando sua brincadeira inocente. Entre todos, ele era o que mais se parecia comigo. Tinha todos meus traços, sendo assim, minha verdadeira miniatura.
— Por que você se deitou aqui comigo, Arthur?
— Quê? — Se espantou ele, fazendo careta.
— Por que você não se deitou em sua cama?
— Esta é a minha cama! A sua é a outra.
— Ah! Desculpe! — Me embaracei — Acho que estava cansado e nem reparei.
— E meu nome não é Arthur! — Tornou a fazer careta o pequenino.
— É! — sentei-me com as pernas cruzadas sobre a cama — Você sabe me dizer o nome de todos nossos irmãos?
— Claro! Quem não sabe?
— Será que sabe mesmo! — Agi com minha esperteza pra forçá-lo a me ajudar.
— Eu... — apontou para o próprio peito.
— Quero saber o nome! — Insisti — Eu não é nome!
—Paulinho, ué! — Gesticulou ele, sentando-se sobre a cama também, de frente comigo. — Será que eu não ia saber nem meu nome?
— Tudo bem! E a menina?
— Letícia!
— O mais velho?
— Luis!
— Depois?
— Henrique... e Leandro.
Ainda sobre a cama, com muito afeto, abracei aquele menininho, a fim de matar uma saudade, assim como a de minha mãe. Acho que meu cérebro não lembrava, mas meu coração precisava.
Ao deixá-lo, lhe disse com sinceridade:
— Sabe Paulinho, eu te amo.
— Quê? — Se espantou ele — Não sou menina não owh! Sou homem!
— E daí? Eu amo você, porque você é meu irmãozinho predileto.
— Acho que você tá biruta de vez!
— Você não gosta de mim?
— Claro! Você já sabe isso! Mas eu não te amo!
— Ama sim! O amor de irmão é diferente do amor que o pai sente pela mãe.
Ele franziu o nariz como a não entender. Então continuei:
— Existe o amor do filho para com a mãe. Você não ama a mãe?
— Claro!
— Mas não a beija na boca. Certo?
— Eu não! — esfregou as costas da mão direita nos lábios — Credo!
— Mas o pai a beija. É outro tipo de amor.
Fiz pequena pausa e emendei:
— O amor do filho com o pai.
Ele levantou os ombros franzindo os lábios.
— O amor do irmão... E o amor de namorados!
— Então você ama a Regina!
— Quem é Regina?
—Ih! Você tá é maluco memo! A Regina! Aí do lado! Que você brinca toda hora.
— Eu não amo ela! — Neguei sem sequer saber de quem o maninho falava — Ela é uma amiga... de brincar!
— E você ama a Beth?
— Quem é Beth?
— Regis, você anda no mundo da lua!
Que tal um tempinho para minha one-shot sobre um anjinho real?
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