Regis Um Menino do Planeta Terra
5 Um peixinho susteriano
Mês de março, muito calor, a água estava muito quente e convidativa. Arthur não pensou muito, saltando para o alto e caindo como um verdadeiro peixinho sobre as águas, indo até aos quase três metros de profundidade daquela grande piscina azul e retornando à sua margem rapidamente, fazendo gestos para que eu não perdesse tempo.
Imediatamente também saltei na água e passamos a nos divertir juntos, rindo muito e falando muito pouco, pelo motivo já conhecido.
Embora eu também nadasse muito bem, pois piscina sempre fôra meu brinquedo favorito e constantemente visitava tal clube, não chegava nem aos pés de meu recém-chegado irmão, que era realmente um exímio nadador, parecendo até que era habituado a viver tanto na terra como na água.
O danado do menino, saltava, fazia piruetas, nadava com muita velocidade, inclusive, atravessando toda a extensão dos cinquenta metros da piscina, por baixo da água, me deixando a ver navios, sentindo até um pouquinho de inveja, de suas peripécias acrobáticas.
Ele nadava rapidamente, atravessava a piscina, saía da água, tomava distância, corria e tornava a saltar, virando uma... duas e até três piruetas, antes de cair forte sobre as águas.
E assim, em uma de suas saídas da piscina, para tomar distância, correr e saltar novamente, se deparou com um homem de seus quarenta anos de idade, que o interrompendo, lhe elogiou:
— Você é um verdadeiro peixinho na água. Parabéns!
Arthur deu leve sorriso e, não entendendo o elogio, simplesmente não disse nada.
— Faz tempo que você nada? — Questionou o homem, agradavelmente.
O menino balançou os ombros e saiu correndo, saltando graciosamente nas águas.
Eu, percebendo o enrosco, já teria saído da piscina e me aproximado do homem, lhe disse:
— Ele não entende o senhor.
— Como não? — Se espantou o homem.
— Ele não fala Português.
— Ele não é seu irmão?
— É meu irmão! Mas não fala Português!
— Não mora no Brasil?
— Agora mora.
Arthur tornou a sair da piscina e ao se aproximar o homem lhe perguntou:
— Do you speak English?
— Ele também não fala inglês — neguei sério.
— Que idioma ele fala? — Questionou-me o homem.
— Ruhtra! — Brinquei.
— Crayuoskithi — balbuciou Arthur, rindo.
— Russo? — Se espantou o homem.
— Por aí! — Confirmei rindo — Nem eu entendo sua linguagem horrorosa.
— Snitherfanny — balbuciou Arthur.
— Se fosse sniff, eu diria que era chorar na língua dos gibis — ri zombeteiro. — Dá licença moço, pois a única linguagem que eu e meu maninho entendemos um do outro é a piscina.
Saltamos juntos na água e desafiei-o no nado livre. Foi meu maior vexame: ele me deixou cinco quilômetros para trás.
Era em torno de uma hora da tarde, quando seguimos para o banho nos chuveiros quente do vestiário masculino.
Cinco minutos depois, nos despimos, nos enxugamos e vestimos nossas roupas secas: eu vesti uma bermuda azul, com listas amarelas e camiseta azul escura com a palavra “Kawelebay” escrita em branco; Arthur colocou seu aparelhinho tradutor e vestiu uma bermuda preta, com listas brancas e a palavra “inside” também em branco e uma camiseta vermelha com as palavras em branco, “Football is life the rest is just details”.
— O que está escrito aí? — Perguntou-me Arthur, esfregando o dedo indicador em meu peito.
— Sei lá! — Neguei rindo. — Kawelebay! Parece até que veio de seu planeta!
— E na minha? — Forçou sua camiseta.
— Futebol é vida, o resto é apenas detalhes. Não está escrito em meu idioma. Este idioma é do povo que fica quase do outro lado do planeta. Na bermuda está escrito inside, também em inglês. Em Português quer dizer dentro.
— Aqui existem duas linguagens diferentes? — Se admirou ele — Em Suster é apenas uma.
— Duas! — Ri — Ao redor de nossa bola azul, dizem que são faladas quase sete mil linguagens diferentes[1]!
— Pra que tudo isso? — Se espantou.
— Sei lá! Invenção terráquea.
Guardei as roupas e toalhas molhadas na mochila e passei a pentear os cabelos, seguido por Arthur, ainda conversando:
— Como você sabe nadar tão bem? — Questionei-o.
— Na minha casa... em Suster, não tinha muito o que se fazer... Ficava a maior parte de meu tempo ocioso, na piscina.
— Quem ficava com você? Leandra?
— Às vezes sim! Outras vezes, Erick... Mas ele não gostava muito. A maioria das vezes, eu ficava mesmo era sozinho.
— Tinha graça, brincar sozinho?
— Eu criava amigos imaginários. Até imaginava você... Não era nada difícil. Era só imaginar outro eu.
— Nunca brincou com os outros “eu” de lá?
— Já lhe disse: quase nunca os encontrava.
— Mas em Malderran não tem outros? Como nas outras cidades.
— Deve ter pelo menos uns dez!
— Nenhum deles vive com você e o senhor Frene?
— Não! — Fez careta — Não gosto de falar sobre isso!
— Parece que você não gosta deles.
— Nem os conheço praticamente — negou ele, deixando claro que queria mudar de assunto.
— Você era um menino arteiro?
— Não muito! — Riu levemente ele — Só o necessário.
Já tínhamos acabados de pentear os curtos cabelos castanhos e saíamos do vestiário, caminhando em direção às bicicletas e na sequência, de volta à nossas casa.
— Apanhava muito?
— Não muito — balançou os ombros.
— Que arte você fazia?
— Um dia, fui à cozinha de Leandra e troquei o sal com o açúcar. Tadinha... — Ria ele — Todo o almoço, ficou meio agridoce. Teve que fazer tudo de novo.
— E ela ficou brava?
”Quando ela experimentou um pouco, simplesmente insinuou: Ah não! Fez tremenda careta e gritou”:
— Réeeeegis!
“É claro que escutei lá do meu quarto, assistindo televisão. E é claro que fingi não ser comigo. Cinco segundos depois, abriu a porta correndo e era ela, que me olhou com os olhos cheio de lágrimas e gritou muito nervosa”:
— Seu pestinha safado! Por que você faz estas coisas comigo?
“Fiquei assustado, mas neguei”:
— Não fiz nada!
— Não! Quem fez? Seu capetinha fez?
— Pode ser o Erick!
— Nunca mais entre na minha cozinha!
“Passou-se vários dias sem que ela tivesse esquecido. Toda vez que eu ameaçava me aproximar, ela simplesmente gritava brava”:
— Suma daqui!
“Já arrependido, me aproximei dela e tentando abraçá-la lhe pedi”:
— Me desculpe Leandra. Nunca mais faço isso.
— Não desculpo nada! — Insistiu ela brava — Cai fora da cozinha!
— Não me ama mais? — Pedi com jeitinho humilde.
— Sempre vou te amar, mas vou demorar pra te desculpar.
“Então fiz aquilo que ela não conseguiria resistir a me dar seu perdão: meti-lhe um beijo demorado na face.”
Pedalando devagar, já estávamos descendo o forte declive da rodovia:
— E o senhor Frene? — Questionei. — Não te castigou por isso?
— Ele nem ficou sabendo. Você conhece a pobrezinha da Leandra: Cheia de mimo comigo, jamais me denunciaria ao senhor Frene. O tanto que ela te amava, transferiu tudo pra mim. Aliás, ela me acha você. Quando você fugiu de lá e eu apareci, ela acreditou, ou fez de conta que acreditou que você teria voltado. Assim é até hoje.
Paramos, descemos da bicicleta e sentamos juntos, no patamar da ponte sobre o rio Maria Chica, na Rua Mato Grosso.
— Qual foi a pior travessura que você já fez? — Questionei-o.
Ele pensou um pouco, colocando a mão direita no queixo, dizendo:
— Deixe-me ver! Eu não era de fazer muitas travessuras.
Pensou mais um pouco e lembrou:
— Já sei! Lembra que a Leandra sempre levava um chá completo pro senhor Frene, em sua sala?
— Claro! Mas pô... Tinha que fazer traquinagens com a Leandra novamente?
— Não! — Negou ele — Não foi com ela!
“Ela deixou a bandeja de vidro com um bule cromado, cheio de chá quente na mesa do senhor Frene. Junto tinha uma xícara grande, poucos talheres e um pequeno açucareiro cheio. Assim que ela saiu, eu entrei no local, apanhei o bule e corri até o banheiro, joguei a metade do chá na pia, baixei meu short e fiz xixi, acabando de encher o bule. Retornei à sala, coloquei o bule na bandeja, como se ninguém tivesse mexido, acionei a tecla no computador central, que aciona os controles da espaçonave e corri para lá. Entrei em sua cabine, liguei o monitor, sentei na poltrona giratória do lado esquerdo, ficando próximo do monitor e fiquei aguardando para ver as consequências de minha brincadeira. Não se passou nem dois minutos e o senhor Frene retornou à sala, onde, mesmo de pé, encheu a xícara com aquele delicioso chá morno, adicionou um bom tanto de açúcar, mexeu e levou à boca, tomando um belo trago... Quer dizer: tentou tomar, mas ao perceber a mistura, cuspiu tudo de novo na xícara, colocou-a sobre a travessa e saindo da sala, gritou”:
— Réeeegis! Seu pivete safado!
“Correu até meu quarto, abriu a porta e não me encontrando, seguiu até o quarto de Erick, abrindo a porta e o encontrando deitado sobre a cama”:
— Cadê o Regis? — Perguntou o homem, soltando faíscas pelas ventas.
“Erick surpreso balançou os ombros negativamente”.
— Vá procurá-lo — gritou o homem. — Grude em suas orelhas e traga-o para mim.
“Ambos saíram do quarto. Erick em sentido ao pátio e o senhor Frene em sentido à cozinha, onde encontrou Leandra”:
— Cadê aquele pestinha? — especulou ele.
— Quem? — Se espantou Leandra — Regis?
— Quantos moleques arteiros têm nesta casa? Só pode ser ele!
— O que ele fez agora? — Perguntou Leandra preocupada.
“O senhor Frene não respondeu. Saiu para o pátio, atravessou pelo jardim e foi até a piscina, onde reencontrou Erick”.
— Ele não está na piscina — negou o rapazinho.
— Procure-o e traga-o para mim!
“A procura demorou mais de meia hora, até que, nem sei por qual motivo, Erick resolveu seguir até a nave, onde, lógico, me encontrou, já com o monitor desligado”.
— Touchê! — Exclamei, me sentindo derrotado.
— O que você fez dessa vez? — Perguntou-me ele, com sarcasmo.
— Eu?! — Fingi indiferença, girando a poltrona — Não fiz nadinha de nada!
— O senhor Frene está soltando faísca por tudo quanto é buraco e quer que você vá lá.
— Não vou lá! — Neguei, confesso, muito assustado — Não fiz nada!
— Conte pra ele! — Gracejou Erick.
— Não fiz nada! — Senti as lágrimas brotando devagar no canto dos olhos.
— Tudo bem! Não precisa provar pra mim.
“Com o coração querendo sair fora do peito, lentamente o acompanhei até a saída da nave e depois, caminhando bem devagar, rumo à grande residência”.
— Afinal de contas, o que você aprontou dessa vez? — Insistiu meu carrasquinho — Com certeza, fez algo! E grave!
“Não respondi. Apenas continuei o acompanhando assustado”.
“Ao longe, o senhor Frene já havia me visto se aproximando devagar; retornou à sua sala, voltando a seguir para o pátio com a xícara cheinha de seu chá de xixi. Quando me aproximei, ele colocou a mão esquerda sobre minhas costas e disse em metáfora”:
— Que tal experimentar meu chá predileto?
— Não gosto de chá! — Neguei sério.
— Este aqui, preparado por você mesmo, com muito carinho, tenho certeza de que gosta!
— Não preparei nenhum chá! — Neguei prontamente — A Leandra faz chá.
— Tome tudo — mandou-me ele, com sorriso zangado.
— Não vou tomar! — Neguei nervoso.
— Vai sim senhor!
“Apesar de eu manter os dentes cerrados, ele forçou a xícara em minha boca, insistindo para que todo aquele líquido amarelo entrasse por minha goela abaixo. No entanto, tentando evitar, eu chorando, forçava fechar a boca e aquele chá misturado, se derramava por minha camisa, short e chão, me deixando completamente molhado”.
“Ao final de todo o líquido, eu continuava chorando com raiva e ele, também nervoso ainda insistiu”:
— Ta gostoso? Venha em minha sala que tem mais!
“Arrastou-me até sua sala, tornou a encher a xícara com aquilo e mesmo sem açúcar, voltou a enfiar tudo em minha boca, onde, devido minha raiva, tentava fechar a garganta e travar os dentes, fazendo com que a metade caísse sobre meu corpo e chão”.
“Ao final, apanhou o bule, tirou-lhe a tampa e despejou todo o resto do líquido quase quente, sobre minha cabeça, depois me soltou, dizendo com sarcasmo”:
— Gostou?
“Eu estava chorando, com muito ódio”.
— O dia que quiser mais é só preparar outro igualzinho! — Insinuou ele.
“Já ia me retirando de sua sala, quando ele ainda ordenou”:
— Não é pra tomar banho agora! Quero te ver lindinho desse jeito daqui à uma hora. Se estiver um pouco diferente, vou repetir a dose. E desta vez, quem vai preparar o chá serei eu!
“Fui para meu quarto, onde, ainda muito nervoso e chorando, resolvi por vingança, deitar daquele jeito em minha cama limpinha e perfumada, me rolando muito sobre ela, ao mesmo tempo em que planejava uma vingança contra o pobre Erick, julgando-o como delator”.
“Uma hora depois... Sabia que uma hora demora demais para passar. Enfim, voltei daquele jeito à sala do senhor Frene. Quando ele me viu entrando pela porta, acho que já sentiu meu fedor de urina de pivete, então ordenou”:
— Pode parar por aí mesmo!
“Parei e com cara de ódio, permaneci calado. Ele prosseguiu”:
— Espero que tenha gostado de minha cortesia. Pode ir tomar banho.
"Voltei à meu quarto, arranquei toda aquela roupa imunda, jogando-as no meio do quarto e corri ao banheiro, onde tomei um demorado banho”.
“A princípio, parecia que aquele fedor forte, de urina velha, misturada ao chá e meu suor, ficara impregnada em mim, não querendo sair. Mas alguns minutos depois, à base de muito sabão líquido, acabei me esquecendo do ocorrido e passei a fazer muita bagunça com a água, por mais de quinze minutos (susterianos)”.
“Quando saí do banho, enrolado na toalha retornei ao quarto e quando já apanhava uma cueca limpa na gaveta do guarda roupas, entrou o “todo poderoso”, que vendo minha roupa suja, jogada no chão e pior, minha cama toda molhada e bagunçada, acho que ele teve mais uma grande desilusão com esta sua cria amada; fez tremenda careta de desgosto e questionou-me”:
— Será que você não vai mesmo aprender?
“Claro que me assustei e me arrependi. Mas embora quisesse, não consegui pronunciar nenhuma palavra”.
“Ele decidiu”:
— Você vai vestir a mesma roupa em que estava usando e vai dormir nesta cama, com a mesma roupa que ela está usando.
“Só para encurtar minha história, tenho certeza de que aquela foi minha pior travessura e também meu maior castigo. Tive que vestir a mesma roupa, embora na sua ausência, procurei ficar apenas de cueca e também tive que revirar o máximo minha cama, procurando um pedacinho mais seco e confortável. Mas como confortável? Se o fedor de urina, quanto mais tempo passava, pior era, tanto que, apenas enrolado na toalha, resolvi dormir no chão acarpetado, mas de muito pouco resolveu, pois o quarto todo estava infectado.”
— Serviu de lição? — Questionei-o.
Ele balançou as mãos e rindo disse:
— Mais ou menos.
— E pra tirar o fedor do quarto?
— Tive que ajudar a Leandra. Apesar de muitos produtos perfumados, o fedor da urina ficou impregnado por mais de dez dias.
Descemos da ponte de concreto, apanhamos nossas bicicletas e subimos a rua, empurrando-as.
— E a vingança contra o Erick? — Insisti — Você fez?
“Dois dias depois, entrei em seu quarto e o encontrei dormindo, então peguei a chave da porta e a tranquei por fora, desaparecendo com tal prova. Quando ele acordou, talvez duas horas depois, tentou abri-la e não conseguindo, começou a esmurrá-la e gritar por ajuda. Eu permaneci calado em meu quarto, como se não soubesse de nada. Poucos segundos depois, o senhor Frene e Leandra, ouvindo o tropel, apareceram em seu socorro, forçando a porta que não se abria. A primeira atitude do senhor Frene foi gritar forte”:
— Réeegis!
“Fingindo não saber de nada, abri a porta de meu quarto e me aproximei”.
— Onde está a chave deste quarto? — Gritou ele.
Fingindo ser o menino mais inocente do universo, balancei os ombros como a perguntar: “Como vou saber?”
— Vá buscá-la agora! Se não quiser levar a maior surra de sua vida! — Ameaçou meu criador.
— Não sei da chave! — Neguei — Eu não a peguei!
“Ele tirou seu cinturão, feito de nylon e mostrando-me o lado da fivela pesada de metal, afirmou”:
— Se essa chave não aparecer em minhas mãos em dois minutos, esse reio vai cantar bonitinho, na bunda pelada de alguém!
“Sentindo-me encurralado, saí devagar e fui até a piscina, onde tirei minha camiseta e short, permanecendo apenas de cueca e saltando rapidamente na água, em busca da tal chave”.
“Apesar de nadar até bem, como você viu, não foi nada fácil encontrar a chave no fundo de tal piscina profunda, mas enfim, acabei por encontrá-la. Com isto, de posse dela, saí da água e mesmo molhado, tornei a me vestir e voltei ao corredor da residência, deixando-o todo molhado, por onde eu passava pingando água, de encontro ao senhor Frene, entregando-lhe a prova de minha peraltice”.
“Ele libertou Erick imediatamente e olhando o relógio disse balançando o cinto”:
— Passaram-se mais de dois minutos. Tire a roupa.
— Hem! —Apavorei-me.
— Tudo bem — esboçou leve sorriso ele. — Desta vez vai passar.
“Então concluiu, tornando a colocar o cinturão”:
— Leandra, arranje um esfregão pra que Regis limpe todo este corredor molhado.
“E assim foi feito. O castigo de limpar o corredor não significava nada, pois era até divertido ter algo diferente para se fazer em lugar tão monótono”.
— Resumindo — ri — suas peraltices nunca deram bons resultados.
— E você? Qual foi a maior arte que você já fez?
— Na Terra ou em Suster?
Ele deu de ombros e insinuou:
— Sei lá! Com o senhor Frene.
— Não sei se foi a maior, mas a que ele me puniu com mais crueldade, foi quando tentei fugir de Suster, roubando-lhe uma nave.
— Fiquei sabendo disso. O que você fez?
— Tentei fugir de lá com a espaçonave, mas tive erro de cálculo e a nave caiu da altura de uns duzentos metros, se incendiando.
— E você não se feriu?
— Apenas uns arranhões no peito e no braço. O pior foi que o senhor Frene me surrou muito, com um cinto pesado — eu estava triste. — Mas o pior mesmo, foi ele me deixar amarrado em uma cama.
— É verdade que mesmo depois de passar por isso, você fugiu de novo?
— Verdade! Achei que conseguiria voltar para a Terra e acabei fugindo novamente. Desta outra vez deu certo a fuga, mas não fui feliz, acabei me perdendo no espaço e fui parar em um planeta de pessoas como nós, só que monstruosas.
— Como monstruosas? Feias?
— Não! Gigantes! Conheci uma menina, que deveria ter a nossa idade, mas que tinha pelo menos umas quatro vezes nosso tamanho.
— E quando você voltou pra Terra, foi mesmo por outra fuga? Luecy quem disse!
— Fiz uma aposta com ele e ele me trouxe. Mas foi fugindo do senhor Frene.
— E aqui na Terra, qual foi a sua maior peraltice?
Pensei um pouco:
— Deixe-me ver. Não sou assim muito arteiro.
Continuei pensando e insinuei:
— Não sei se foi a pior, mas a que até hoje me deixa arrependido, foi a de uma noite, quando meu irmão Leandro me perturbava muito, fazendo gozações, ter-lhe quebrado um pedaço de tijolo em sua cabeça. O sangue jorrou aos borbulhões, me deixando muito assustado. Papai e mamãe correram a socorrê-lo e eu fiquei ali num canto, sabendo que depois daquele socorro, com certeza viria a maior de todas as surras em que eu já tomara em toda a minha vida.
— E apanhou?
— Nem sei por quê! — Fiz careta — Mas nem papai e nem mamãe, nem sequer me chamaram a atenção.
— Jura!?
— Não sei por quê. Mas em minha casa, eu sempre fui o que menos apanhou de mamãe. Papai realmente nunca batia nas crianças, mas mamãe era uma faísca acesa: qualquer coisinha e a varinha verde cantava nas pernas pelada dos arteiros. Mas... Eu acho que tinha assim alguma espécie de anjo protetor. O senhor Frene disse que era ele quem me protegia, mas não acredito. Não seria possível, devido a tal distância.
[1] Há registros de seis mil novecentos e doze linguagens diferentes.
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