Regis Um Menino do Planeta Terra
1 Eu e eu
Notas iniciais
Esta terá apenas quinze capítulos.
Devido ter permanecido durante muitos anos sequestrado, vivendo em Suster, outro planeta da Via Láctea, porém fora do sistema solar, eu, agora, de volta à Terra; embora culto, formado em medicina pediátrica, tinha a aparência física e atitudes, de um menininho de apenas nove anos de idade.
Devido sempre ter o dia lotado com atividades, de certa forma profissionais e depois, brincadeiras com outros meninos de minha faixa etária “aparente”, adquiri um costume em dormir muito cedo; portanto, às nove horas da noite, resolvi deitar um pouco, antes de seguir para a festa de debutantes de Letícia, a filha de Elizabeth. Festa esta, que com certeza, duraria a noite toda.
Dez minutos depois, já estava cochilando, quando alguém bateu na porta e mamãe a abriu:
— Regis! — Disse ela surpresa — Pensei que já estivesse na cama!
O que será que meu sobrinho viera fazer em casa àquela hora? Pensei. Ele, que ganhara meu nome, de seu pai Paulinho, em minha homenagem, realmente, por morar próximo, vinha constantemente, mas sempre de dia. A não ser que ele fosse à festa de Letícia comigo! Não tinha me dito nada, mas ele também contava seus quinze anos de idade e também fôra[1] convidado.
— Onde arranjou esta roupa? — Insistiu mamãe.
E por que será que ele permanecia calado? Ele sempre foi um menino hiperativo e falava mais... do que como dizem, o homem da cobra.
Levantei-me, indo de encontro a ele e mamãe, tendo uma grande surpresa e calafrio ao mesmo tempo. Na porta de entrada de casa, parado em silêncio e apesar do calor que se faz no mês de março, trajando blusa amarela e preta, calça jeans, tênis branco e azul de marca desconhecida, um relógio dourado no pulso direito, estava eu... Mas como eu? Acho que já teria dormido e estava sonhando...
— Oh, owh! — Me surpreendi.
Aproximei-me devagar e mamãe se apavorou, ao perceber que estava diante de dois Regis, idênticos.
— Você veio ficar conosco? — Perguntei-lhe segurando sua mão.
— Não! — Negou o outro Regis.
— Então... o que está fazendo aqui?
— Vim apenas fazer-lhe uma visita!
Não era possível. Regis, com aquela aparência de menininho de nove anos de idade, assim como eu, era nada mais, do que um clone de meu DNA, criado no planeta Suster, para que aquele povo pudesse se sentir feliz novamente, ao lado de um rostinho infantil. Estávamos no ano de dois mil e nove aqui na Terra e eu, apesar de meu jeitinho criancinha, estava então com meus trinta e oito anos de idade, se fossemos medir por uma pessoa da Terra. Mas eu, embora soubesse de sua existência, não conhecia este outro menininho idêntico a mim, com mesmo rosto, tamanho, corpo, fisionomia e jeito criança mimada.
— Por que esta tal visita, se você nem mesmo me conhece? — Insinuei duvidoso.
— Por isso mesmo! — O alegou, rindo — Durante muitos anos, sempre quis vir até aqui, mas o senhor Frene nunca permitiu.
— Vieste sozinho? — Perguntou-lhe mamãe.
— Não! Um amigo me trouxe!
Naquele instante, na entrada da porta, surgiu Erick, meu amigo terráqueo, que estava em Suster a mais de vinte anos e embora, também já estivesse com seus quase quarenta anos de idade, aparentava um jovenzinho de dezessete, ou seja: com a mesma aparência de quando deixou nosso mundo, em troca de viver em um local a oitenta e sete anos luz, considerado planeta imortal, dominado por uma raça humana, mais avançada do que o nosso povo da Terra.
— Erick! — Gritei admirado, abraçando-o — Você não mudou nada! Continua uma criança!
— Você continua uma criança! — Ironizou ele — Eu já passei dessa fase.
— O que vieram fazer aqui? — Questionei-lhes, duvidoso de suas amáveis intenções.
— Apenas matar minha saudade e curiosidade de seu irmão gêmeo.
— Onde está a aeronave?
— Escondida da curiosidade humana! — Riu Erick.
— Onde?
— Não está na Terra! — Negou meu sósia.
— Onde puseram?
— A algumas dezenas de quilômetros no espaço — explicou Erick, fazendo gesto — Acima da mesosfera.
— Como vocês a puseram lá?
— Passe de mágica! — Ironizou meu sósia, fazendo gestos com as mãos e boca.
— Quem está com vocês? — Insisti preocupado.
— Desconhece os poderes de meu planeta? — Persistiu Regis de Suster.
— Não vieram buscar meu Regis! — Se preocupou mamãe — Vieram?
— Não! — Negou Erick — Garanto pra senhora!
— Se a nave está escondida no espaço, alguém está lá com ela — insisti. — O que querem de mim?
— Vamos visitar a nave! — Convidou-me Regis.
— Eu só pareço uma criança! — Ironizei — Não sou tão ingênuo.
— Como assim? — Se preocupou ele.
— O senhor Frene, lhes mandou pra me buscar!
— Que isso Regis! — Riu meu sósia — O senhor Frene não precisa mais de você!
— Ele não me ama?
— Um pai jamais deixa de amar a um filho — ironizou Regis de Suster. — Você continua sendo amado e especial à ele e a todos os susterianos, mas quanto a leva-lo de volta, só se você assim o preferir.
— Ele não vai! — Negou mamãe, assustada.
— Jamais! — Insinuei convicto — Já perdi muito de minha vida com esta história.
— Perdeu? — Ironizou o outro menino — Não vejo o que! Deves ser feliz igual a mim!
— Perdi a infância de meus irmãos, a juventude de meus pais e a menina que seria meu verdadeiro amor. Precisa mais?
— Não acha que ganhou uma vida eternamente jovem? — Riu Regis de Suster.
— Não! — Neguei — Ganhei uma vida cruelmente criança! Parece excelente e seria, se comigo, as pessoas à minha volta também tivessem ganhado. Estou condenado a assistir meus pais, irmãos e amigos a envelhecerem cruelmente e pior ainda: sei que os assistirei a morrerem, enquanto permanecerei por aqui, desamparado. Sabia que sou formado em medicina, com especialização em pediatria e infelizmente não posso exercer tal atividade, por ter um rostinho infantil?
— Não te deixam trabalhar, Regis? — Questionou-me Erick.
— Você deixaria um bebê sob a responsabilidade de outro, pouco mais do que um bebê?
— Quer ir conosco a um passeio em Suster? — Especulou-me Erick.
— Nada disso! — Neguei. — Sabia que isto era arte do senhor Frene.
— Não é — negou Erick. — Pode acreditar. Ele simplesmente nos permitiu que viéssemos lhe fazer uma visita e lhe mandou um grande abraço e mandou dizer que ainda o ama muito. Mas você não é mais necessário em nosso mundo. Você sabe disso.
— Realmente! Concordo que meu irmão sósia me substituiu. Os bilhões de pais que você tem por lá, lhe veem às vezes?
— Não sou único em meu mundo, Regis! — Negou meu sósia sério.
— Como assim? — Me surpreendi.
— Existe pelo menos um de nós, em cada cidade de Suster!
— Como assim?
— Eu fui criado a partir de seu de-ene-a. A partir de então, clonar outros idênticos foi apenas uma questão de dias.
— Como pode? — Me preocupei. — Suster tem mais de nove mil cidades! Seriam mais de nove mil iguais a nós dois!
— Em metrópoles como Malderran, Orington, Merlin e outras tantas, têm pelo menos dez iguais a nós dois.
— Não é possível! — Me entristeci — O senhor Frene está ficando louco! Isso vai contra os princípios de Deus!
— Ele está brincando de ser Deus — riu Erick.
— Há muitos anos que não é feito mais clonagens — negou meu sósia.
— Acho que viramos bonecos em Suster! — Ri meio que sem graça — O que você sente, estando com outros idênticos a você?
— Quase nunca tenho contato com nenhum deles — negou o outro menino — Vamos visitar nossa nave! Garanto-lhe que não sairemos da Terra!
— É melhor vocês ficarem por aqui — insistiu mamãe, se retirando da sala.
— Tenho uma festa de aniversário pra daqui à pouco — adverti-os.
— A qual você não poderá ir — riu o outro Regis.
— Por quê?
— Somos sua visita! Seria falta de educação, nos deixar sozinhos!
— Levo vocês comigo! — Fiz gesto com os braços.
— Vamos visitar a nave?
— Já lhe disse que não sou ingênuo — duvidei de sua intenção.
— Como não acredita em nós, eu fico aqui enquanto vocês dois visitam à nave — se prontificou Erick.
— Não sou burro Erick! — Neguei — Você fica aqui e eu vou parar nas garras do senhor Frene!
— Vê lá! — Negou o rapazinho, fazendo careta — Eu é que não quero ficar na Terra! Não tenho ninguém aqui!
Sendo assim, saí para o fundo do quintal, acompanhando os dois visitantes do espaço. Em alguns segundos a grande nave dourada e preta, toda iluminada externamente, embora com luzes em azul e vermelho, fracas, se aproximou no espaço, levitando a pouco menos de dois metros do solo e então, como chumbo derretido, surgiu certa ranhura na sua parte inferior, caindo até a trinta centímetros do chão, uma escada com cinco degraus, em cor de níquel. Meu sósia, fazendo-me gestos, entrou em seu interior e eu o acompanhei, enquanto Erick tirou seu aparelhinho tradutor, o qual servia para a comunicação entre nossos dois idiomas tão complicados e me entregou, enquanto permanecia no chão.
— Pra quê? — Perguntei-lhe com dúvidas.
— Vai que você resolva falar com o senhor Frene.
Realmente muito bem lembrado. Sem aquele acessório seria impossível compreender a linguagem susteriana, apesar de que o senhor Frene teria aprendido meu idioma terráqueo, enquanto estudou comigo, meus primeiros anos da escola fundamental.
Segui meu sósia até a porta transparente da cabine, que se abriu sozinha e lá, observando os painéis de controle daquela gigantesca nave, estava Luecy, o robô susteriano, fabricado há quase trinta anos, em formato quase humano, com nome de batismo: Mark III e rebatizado depois por mim.
Quando ele percebeu nossa presença, se virou rapidamente e insinuou com tom de sarcasmo:
— Garoto Regis da Terra! Viemos lhe buscar para nadar peladão ao lado de Leandra!
— Quê? — Me espantei.
— Vim lhe buscar, para pagar a aposta perdida a quase trinta e dois anos, no passado!
— Que aposta? — Continuei perdido.
— Quem lhe trouxe de Suster naquela data? — Ironizou o robô.
— Viemos nesta mesma nave! — Respondi.
— Onde estava o comando computadorizado da nave?
Só então me lembrei: Para que eu não tentasse fuga do planeta do senhor Frene, ele teria tirado o comando que controla a nave, tornando assim, impossível uma fuga minha. Na época, acabei fazendo uma aposta com Luecy: Ele alegava que conseguiria trazer-me até a Terra e realmente venceu tal aposta.
— Jamais voltarei a seu planeta, Luecy! — Neguei convicto.
— Você é um homem, ou saco de batatas? — Ironizou ele.
— Sou o mais jovem homem da Terra! E é por aqui que ficarei!
— Que tal falarmos com o senhor Frene? — Insinuou meu sósia.
— Pra quê? — Questionei duvidoso.
— Ele adoraria falar com você! Matar a saudade!
— Em seu mundo, existem milhares de Regis, iguais a mim! Você disse isso!
— Nenhum é igual ao garoto da Terra — negou o robô. — Nem mesmo Regis Primeiro!
— Quem é Regis Primeiro?
— Eu! — Insinuou meu sósia. — Fui batizado assim, para que não me confundissem com os demais.
— Todos os demais se chamam Regis? — Especulei com jeito de desvalorização de meu nome sagrado (para mim).
— Regis Tadeu... — emendou Luecy. — Regis Ambrósio... Regis Francisco... Regis Moreira... Regis dos Santos... Regis Carvalho... Regis Gabriel...
— Basta Luecy — pediu meu sósia, rindo. — Não precisa repetir sua lista de dez mil nomes.
— Vinte e três mil oitocentos e trinta e dois nomes distintos de Regis — emendou Luecy.
— Credo! — Fiz careta. — O senhor Frene ridicularizou minha alma em seu mundo!
— Mais três mil seiscentos e doze nomes diferentes — concluiu ainda Luecy.
— Como assim?
— Gabriel... Josiel... Willian... Marciel... Natanael... Gustavo... Yuri... Henrique... Frank...
— Que loucura é essa? — Fiz careta.
— Acho que alguns pais estavam enjoados de tantos Regis — ironizou meu sósia.
— Milhares de meninos e nenhuma menina? — Reclamei. — O que há contra elas?
— Clone é cópia! Cópia é cópia! — Ironizou o robô.
[1]Na Língua Portuguesa não se acentua o verbo ir no singular do Pretérito Mais-Que-Perfeito, mas para que não seja confundida com o advérbio ou preposição fóra, que também não é acentuada, neste livro, preferi adotar o tal acento circunflexo em fora.
Notas finais
Através de um breve comentário. Mesmo que seja de uma linha.
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