Regina
1 Regina
Homens velhos como eu costumam se vangloriar de suas histórias da juventude, como se qualquer mera aventura fosse grande coisa digna de atenção. Já vi homens contando apaixonadamente sobre como integraram bandos de corsários, como assaltaram bancos, como violaram mulheres inocentes e tudo mais. Seus feitos ficaram gravados na memória, mas não passariam de uma pequena nota de um jornal de circulação local. Não há um só homem neste Império que não tenha passado por grandes bocados, desde que tenha vivido na Era Revolucionária.
A história que relatarei aqui, no entanto, não é sobre mim ou sobre minhas virtudes de jovem. Pessoalmente, nunca fui um indivíduo muito digno de ser notado. Entretanto, ganhei de Deus a oportunidade de viver décadas da minha vida à sombra de uma pessoa especialmente memorável, alguém que ficará gravada para sempre nos livros de História. Meu testemunho, portanto, não é como desses velhos homens que costumam falar por horas sobre que já fizeram ou que regras transgrediram. É sobre uma mulher. Ou melhor, uma Rainha. A Rainha mais importante que já existiu deste lado do Oceano.
Nasci como Kaplán Montez, um remanescente do distante povo asteca. Meus pais morreram quando eu era ainda jovem demais para me lembrar deles, provavelmente em consequência de alguma doença ou conflito por terras com os colonizadores. Fui então adotado por um convento de frades, onde recebi o nome cristão de Tomás Rosa Arquiero, fui educado no Espanhol e no Latim, e também aprendi o ofício de copeiro, quando perceberam que eu era fraco demais para cuidar dos estábulos e distraído demais para ser copista. Mas por que falo tanto sobre mim¿ Por que minha história, ao menos no início, se assemelha à daquela que pretendo contar aqui.
Johanna von Habsburg-Lothringen, este foi o nome citado em seu casamento e em sua coroação. Também era o nome que ela assinava em todos os documentos oficiais que acabavam por cair sob sua responsabilidade, quando o Imperador estava ocupado demais com suas caçadas ou viagens pela Europa. Tenho certeza de que não foi ela quem escolheu tal denominação, porque esses cristãos não costumam dar liberdade de escolha a ninguém. A Imperatriz Johanna, assim como este que vos escreve, nasceu indígena. Seu nome era Rhani Tihuacán, e era a filha mais velha de uma família aristocrática dos astecas. Mesmo povo, castas diferentes. Por esta curiosa coincidência, ela se tornou Imperatriz de todo o México, e eu me tornei um mero copeiro.
O início desta história é de amplo conhecimento, pois está registrado em todos os livros escolares deste país. Por isso, serei sucinto. O México, após conquistar sua independência em relação ao Reino de Espanha, tornou-se uma república independente. Uma das primeiras das Américas. Entretanto, esta república era um verdadeiro caos. Não havia liderança que durasse mais de um biênio no poder, e de todos os lados surgiam constantes conspirações e golpes de Estado. A anomia era tamanha que o território ficou enfraquecido, e acabamos perdendo boas faixas de terra para a invejável República dos Estados Unidos.
Além dos anglo-americanos, no entanto, também havia outra grande potência que nos assolava ao norte: a enorme Província Francesa da Louisiana. Não confundam com a atual Louisiana, um mero estado sulista dos Estados Unidos. Naquele tempo, o estado em questão rasgava a América do Norte no sentido longitudinal, formando uma colônia em proporções continentais a oeste dos EUA. Do ponto de vista econômico, a Louisiana não representava muita coisa além de um bando de terras agricultáveis ao longo do Rio Mississipi, mas, politicamente, simbolizada o poderio do Império Francês sobre a região. E foi justamente neste ponto que os franceses passaram a cobiçar a anárquica República do México.
Estes franceses cismaram com a ideia de que a anarquia do México somente poderia ser resolvida com a imposição de um regime monárquico sobre o país. Mas quem seria o imperador, se o México nunca tivera uma Família Real¿
A Monarquia é um vício europeu que foi imposto a nós americanos. Cheguei a esta conclusão depois de anos de estudos de História, e depois de ouvir muitos discursos de nossa Imperatriz. O fato é que, por milhares de anos, os reinos europeus tiveram o hábito de emprestar príncipes para que reinassem sobre nações diferentes, porque, para eles, importava mais haver um rei do que haver um governo soberano. O rei da Grécia é dinamarquês, o rei da Espanha é francês e o rei da Inglaterra é de ascendência holandesa. Para os nacionalistas mexicanos que haviam feito a Revolução, este intercâmbio de chefes de Estado era totalmente absurdo. Para a elite francesa que governava a Louisiana, entretanto, era uma estratégia totalmente comum.
Decidiram então apelar para a maior família imperial da Europa. Reinantes sobre os povos teutônicos há mais de mil anos, os Habsburgos eram o clã numericamente mais poderoso do mundo. Até mesmo um dos reis da Espanha, o famoso Carlos V, era na verdade um Habsburgo nascido na Áustria. Atualmente, a família tinha em seu poder apenas um trono: de Imperador da Áustria-Hungria. Mas o número de pretendentes era potencialmente infinito. Um dos muitos príncipes daquela Casa (que, por alguma razão, os austríacos preferem chamar de Arquiduques) foi então convidado pelos franceses para se tornar o monarca do México.
Maximilian Ferdinand von Habsburg-Lothringen parecia, ao menos para os monarquistas, uma boa escolha. Era de um ramo secundário de sua Casa na Áustria, e, portanto, não herdaria nada de significativo. Nas Américas, porém, poderia ser Imperador, e ainda havia a vantagem de ser primo em primeiro grau do Imperador do Brasil, o velho Pedro II de Bragança. O próprio Maximilian relutou em aceitar a oferta, mas, convencido de que as tropas francesas o ajudariam a restaurar e manter a ordem, acabou por acatar o convite e se mudar para as Américas.
Seu governo, no entanto, foi um fracasso completo. Não podia ser absolutista, como seus primos distantes da Rússia, pois o Ocidente então abominava este regime. Mas também não podia ser parlamentarista, como os ingleses, pois qualquer parlamento eleito pelos mexicanos acabaria por destrona-lo. Tentou imitar o regime híbrido de seu primo brasileiro, mas também fracassou: era simplesmente impossível conciliar os interesses da elite local mexicana com os da elite francesa que o mantinha no poder.
O reinado de Maximilian começou, aos trancos e barrancos, em 1864. Eu então era apenas uma criança, mas era capaz de compreender a insatisfação dos meus compatriotas com aquela coroação tosca em Teotihuacán. Um imperador austríaco, pau mandado dos franceses, querendo reinar sobre o México¿ Ora, isso era inaceitável. Em menos de três anos, os nacionalistas – aqueles mesmos que haviam feito uma revolução para separar o México da Espanha quarenta anos antes – já tinham um plano muito bem arquitetado para destronar e fuzilar o ilegítimo imperador.
Entretanto, menos de um mês antes da deflagração do plano, uma maldição (que logo se tornaria uma bênção) recaiu sobre a Família Imperial. A Imperatriz Charlotte, uma princesa belga que se tornara consorte do imperador Maximilian, faleceu devido a complicações em sua segunda gestação. Era uma mulher frágil, a pobre Charlotte. Tivera dois abortos, e agora o terceiro tirara sua vida. O Imperador rapidamente arranjou um grande funeral de Estado que comoveu toda a nação. Ninguém gosta de monarcas estrangeiros, mas todos têm compaixão por uma jovem gestante morta.
Os revolucionários tiveram que arrefecer seus ânimos neste momento. Não seria nada bem visto fuzilar o imperador recém viúvo. Rapidamente, a ala moderada tomou conta do movimento republicano do México, e eles decidiram negociar.
Manter a monarquia, mas sem ferir o orgulho nacionalista mexicano. Este era o objetivo. Mas como¿ Os europeus tinham o costume milenar de resolver qualquer tipo de querela por meio de casamentos, mas agora isso não parecia ser possível. Não haveria uma princesa mexicana com quem Maximilian pudesse se casar e assim fazer as pazes com seu povo nacionalista... ou haveria¿
A ideia – e este episódio eu tive o privilégio de testemunhar em primeira pessoa, pois tinha sido recém-admitido como copeiro na Corte Imperial – veio de um líder revolucionário chamado Gusmán de La Sierra, até então não muito relevante entre os mexicanos, porém altamente engenhoso, apesar da pouca idade Era baixo e rechonchudo, mas tinha um belo rosto, uma barba loura e farta e cabelos encaracolados como de um filho de espanhóis. Foi ele quem sugeriu a loucura de casar um imperador da casa Habsburgo com... uma princesa asteca.
“Asteca¿ Este povo ainda existe¿”, foi a primeira resposta do Imperador, enquanto fazia uma expressão que misturava incredulidade com ironia. Entretanto, conforme Gusmán falava e maiores lideranças concordavam, a ideia passou a ser cada vez mais palatável. O Imperador não desfez a expressão de desagrado em nenhum momento, mas, vendo-se encurralado pela reunião daquele parlamento improvisado de homens que poderiam resolver fuzilá-lo a qualquer momento, decidiu aceitar.
Johanna, do Hebraico, significa Graciosa. O nome não poderia ser mais adequado para a jovem escolhida para se casar com o Imperador. Era o mais próximo de uma princesa que restara no povo asteca. Era razoavelmente bem educada – sabia ler e escrever em Espanhol e Latim -, mas a característica que mais chamava atenção era, sem dúvida, sua beleza física.
A princesa tinha apenas dezesseis anos, mas seu corpo era tão bem desenvolvido quanto de uma mulher adulta. Suas pernas eram torneadas e fortes, como de alguém que anda quilômetros todos os dias. Os glúteos – Deus me perdoe por comentar sobre isso – eram invejáveis para qualquer mulher deste planeta. Ela tinha quadris perfeitos, como que feitos para serem acariciados. Sua mera presença já inspirava os instintos sexuais de qualquer observador, mas a sensualidade da mulher não parava por aí.
O rosto era perfeito e simétrico como se fosse esculpido cuidadosamente pelos deuses astecas. Os olhos eram escuros e impactantes, como se tivessem o poder de vasculhar o fundo da sua alma e descobrir seus pensamentos mais profundos. Logo após uma rápida troca de olhares, Johanna esboçava um leve sorriso. Fosse qualquer outra princesa, poder-se-ia dizer que era um mero sorriso educado, como um comprimento, mas, naqueles lábios carnudos e sensuais, aquele movimento dava a entender que ela se apoderava de sua alma.
O olhar e o sorriso eram sua verdadeira demonstração de poder. Muito antes que se casasse e se tornasse imperatriz, que começasse a dar ordens em criados e políticos e que ganhasse experiência nos círculos da política, Johanna já dominava os homens com um simples movimento de rosto. Com o olhar ela lia sua alma, com o sorriso ela demonstrava a própria satisfação em fazê-lo. Estava feito, e, de maneira irreversível, o homem estaria ligado a ela.
Eles se casaram em 22 de janeiro de 1868. A cerimônia foi bela e exótica, tão eclética quanto um casamento de um Habsburgo com uma asteca poderia ser. Ao fim da cerimônia, lá estava o casal, o fraco imperador e sua consorte. Consorte esta que, na esperança de todos, serviria como uma ponte entre a elite europeia e o povo mexicano.
O casamento com a princesa asteca, naturalmente, não foi a única cláusula do acordo entre os mexicanos e os monarquistas. Outra reivindicação importante foi a formação de um Parlamento democrático, como o britânico, que representasse os interesses nacionalistas na política nacional. Também foi exigido que todas as sessões desde Parlamento fossem presididas por ambos, Imperador e Imperatriz, para que ficasse claro que o Estado era dirigido pelas duas forças presentes.
Se funcionou¿ Obviamente que não. Estamos no México, a terra onde nada que é europeu funciona. Nem mesmo o idioma Espanhol nós falamos direito, quem dirá um sistema de monarquia parlamentarista. Oh, não. O Parlamento Mexicano foi um fracasso completo. Na terceira sessão, por exemplo, o deputado Gusmán de La Sierra entrou em um bate-boca com o deputado francês Jean-Claude Lyon e terminou por sacar uma pistola em sua direção. O susto foi tamanho que o próprio Imperador sacou sua espada cerimonial para tentar impor algum tipo de ordem, mas um tiro para o teto vindo de algum lugar levou os guardas imperiais a arrastarem o monarca e sua consorte para fora do recinto, por segurança.
Depois deste episódio, o recém-nascido Parlamento foi fechado, sob a promessa de que seria reaberto após algumas negociações entre os grupos políticos. Na prática, no entanto, o governo voltou a ser como era no início: o Imperador austríaco ouvia seus conselheiros franceses e governava conforme a vontade deles. Os franceses tinham a pompa e a moral para se impor no governo, mas seu poderio militar ficava mais frágil a cada dia. Napoleão III, imperador da França, vinha convocando seus exércitos da Louisiana para lutar por ele em revoltas internas em seu país, e assim os nacionalistas mexicanos se viram em posição de armar mais uma tentativa revolucionária contra aquela monarquia.
Entretanto, o conhecidamente explosivo Gusmán de La Sierra resolveu dar o passo cauteloso da vez. A Corte Imperial já não era exclusivamente europeia: graças à influência da Imperatriz Johanna, diversos mexicanos nativos já ocupavam cargos importantes, seja na criadagem, seja nos seus Conselhos.
Já era então 1870, e fazia quatorze meses que o Parlamento estava fechado. Do lado dos nacionalistas mexicanos, a ala revolucionária e sanguinolenta retomara o poder, e os planos de fuzilar a família real estavam novamente em voga. Gusmán de La Sierra, no entanto, saiu em defesa de sua Imperatriz. Ele a conhecera pessoalmente alguns anos antes, pois fora um dos designados pela comissão de escolha da princesa asteca, e sabia que a jovem não era apenas um rosto bonito. Ela tinha sua capacidade de ajudar.
O líder nacionalista não contava com muitos apoios, mas foi até o Palácio na calada da noite para pedir uma reunião privada com a imperatriz. Não era nada protocolar, mas ela aceitou o pedido. Naquela reunião, da qual eu pude ouvir apenas trechos enquanto entrava e saía com taças de vinho, Gusmán expôs os violentos planos dos nacionalistas e o desespero de seu povo diante daquela situação. Por fim, suplicou à monarca que mediasse aquele conflito, usando sua influência para conter os ânimos de um lado e abrir espaço ao diálogo do outro.
Johanna von Habsburg decidiu então que iria pessoalmente conversar com os revolucionários. Gusmán de La Sierra se opôs imediatamente, alegando o quanto isso era perigoso, mas a mulher impetuosa não quis saber daquelas opiniões. Antes que o dia amanhecesse, ela vestiu um grande capuz, montou um cavalo e partiu com o líder nacionalista em direção ao covil dos revolucionários.
No Palácio, as criadas foram orientadas a dizer que sua monarca estava indisposta e por isso não conseguia sair da cama. Era o álibi perfeito para a situação. Naquele dia, Johanna se revelou diante de seus declarados inimigos e, com toda a coragem e postura dignas de uma imperatriz, sentou-se com eles e se dispôs a ouvi-los.
A princípio, pouco se falou. Estavam intimidados, em parte por sua Imperial presença, em parte por estarem entregando seus planos ao inimigo. Mas as palavras da Imperatriz mudaram rapidamente a postura daqueles homens:
“Venho aqui até vós, não como Johanna von Habsburg, a Imperatriz do México, mas sim como Rhani Tihuacán, a Senhora de todos os astecas. Não tenho nenhum amor pelos hábitos dos austríacos ou pelas bajulações daqueles franceses fedorentos. Tenho amor pelo meu povo e pelo meu país, o México. E venho até aqui não como sua inimiga, mas como sua líder. Portanto digam, homens, o que lhes torna insatisfeitos. Digam-me e agirei em seu favor. Não pelo nome de uma Casa Imperial ou de um regime tipicamente europeu, mas em nome do povo mexicano, do qual eu sou parte e o qual vocês dizem representar.”
Sua voz era bela, mas também firme como rocha. Ela falava com a segurança de quem tem um exército de mil homens por trás de si, mesmo estando absolutamente sozinha naquela situação. Após aquele breve, porém inflamado discurso, seguiu-se um momento de silêncio e contemplação, até que alguns homens começaram a se levantar e falar.
— Queremos menos impostos! – Gritou alguém em algum lugar.
— Sim! E que se corte os privilégios desta aristocracia europeia! – Gritou mais um anônimo, mas com a anuência de centenas de companheiros de reunião.
As reivindicações continuaram, e a Imperatriz a todos ouvia, mas ainda sem esboçar nenhuma reação significativa. Os homens comuns começaram a ficar incomodados com aquela aparente indiferença, mas os líderes mais velhos a compreenderam: aquele era o momento de descarregar as raivas, de gritar suas indignações. Era o tempo de deixar as crianças chorarem. Após cerca de duas horas de gritaria, Gusmán de La Sierra deixou a presença da monarca e passou a caminhar entre os homens, sussurrando algo aos ouvidos de cada grande líder ali presente. Todos que ouviam anuíam com a cabeça e começavam a se movimentar. Era o momento de os adultos conversaram privadamente.
Os líderes revolucionários mandaram que seus soldados retornassem aos seus afazeres, e então, educadamente, quase que como se fossem nobres europeus, convidaram a Imperatriz para uma reunião privada em uma grande tenda central. Era quase meio-dia, então foi servida para eles uma refeição: milho e carne, somente. A comida poderia não ter o gosto mais refinado do mundo, mas era simbólica para os astecas.
A reunião era um tanto irônica, ao menos do ponto de vista racial. Havia trinta e poucos líderes nacionalistas ali, todos brancos de bochechas rosadas. Todos filhos puros de espanhóis que tinham crescido em boas condições de vida, quase todos falantes de francês e espanhol. E todos se propunham a representar o México, terra histórica dos astecas. Johanna, a Imperatriz, era a mais mexicana de todos eles. Sua pele era escura como de todos os nativos das Américas, seus cabelos eram negros e pesados, e suas maçãs do rosto eram salientes e delicadas. Mas era ela que representava a Europa contra aqueles senhores brancos das Américas.
Neste momento, iniciaram-se as negociações reais. A Imperatriz expôs o ponto de vista dos monarcas a respeito dos franceses que dominavam a aristocracia do país: fortes demais, exigentes demais e controladores demais. Não era algo que o Império pudesse combater. Eram, na realidade, sua base de sustentação.
— Então não há saída senão derrubar a Monarquia. – Comentou Emiliano Pinzón, um dos líderes idosos que lá se encontravam.
— Derrubar para quê¿ — Questionou a Imperatriz. – Isso atrairia o ódio da Europa contra nós, além de dar brecha para um novo período de completa anarquia para o México.
Os homens se entreolharam, contrariados, mas não tiveram como discordar. Eram senhores de idade, a maioria com mais de cinquenta anos, mas nenhum era capaz de refutar o conhecimento daquela jovem indígena que tinha menos de vinte.
— Então o que fazer, majestade¿ — Perguntou um dos generais impacientes, dando ênfase no tom irônico do título monárquico.
— Ao que me parece, — respondeu ela, após um meneio de sobrancelhas. – Urge para todos nós expurgar os franceses e toda esta aristocracia europeia, mas também é essencial manter o regime monárquico.
— Para que a monarquia¿ — insistiu o homem. – Uma instituição retrógrada e estrangeira, liderada por...
— Por mim. — Interrompeu a imperatriz. – Por todos nós. Pelos mexicanos.
O silêncio mais uma vez irrompeu sobre o salão. O que ela estaria querendo dizer¿ A monarca, como se ouvisse os pensamentos de todos, prosseguiu explicando.
— O Parlamento Mexicano pode funcionar, mas somente se for de facto mexicano. Concordo com vocês. Precisamos expurgar esta aristocracia francesa daqui. Precisamos expurgar a elite europeia que domina este país. Precisamos ser nós mesmos os nossos líderes.
— E de que forma sugere que se faça isso¿ — indagou Gusmán de La Sierra. – A senhora acabou de deixar claro para nós que o Estado Mexicano não se sustentaria sem a Monarquia. Eu concordo, para o bem ou para o mal. Sua popularidade como imperatriz nos traz paz, mas a estrutura que sustenta este Império é quem nos tira a paz. Como nos livramos dos pés da monarquia sem abolir o regime por completo¿
Um momento de pausa se seguiu, enquanto a imperatriz olhava para algum ponto desconhecido. Ela parecia indecisa, mas não a nível grave. Estava indecisa como alguém que não sabe se porá mais pimenta no prato. Após este momento de silêncio, um sorriso se abriu. Não era um sorriso comum, como aqueles usados para cumprimentar. Mas também não parecia ser de satisfação pessoal. Era um sorriso inédito, que misturava alívio com expectativa, e talvez um pouco de curiosidade. Ao perceber a apreensão dos homens que a rodeavam, ela se apressou em quebrar o silêncio.
— Meus senhores mexicanos, vocês devem fazer exatamente o que pretendiam fazer antes que eu viesse até aqui.
Sussurros se espalharam rapidamente, o que a levou a abrir a boca para continuar explicando. Mas Gusmán de La Sierra já captara a mensagem e decidiu tomar os louros da ideia para si.
— Devemos então prosseguir com o plano revolucionário, expurgar os franceses com força militar e destronar o Imperador..., mas não destronar a senhora, nossa Imperatriz.
Os sussurros se transformaram em um burburinho mais alto enquanto todos observavam a rainha e o líder nacionalista se entreolharem com um sorriso de compreensão mútua.
— É extremamente arriscado! — Gritou alguém dentre as lideranças.
— Os riscos são baixos, senhores. – Informou a Rainha calmamente. As forças francesas aqui presentes são irrisórias, nada próximo do poderio que vossas forças revolucionárias têm. E o Exército Imperial é financiado também pela França, que está cada dia mais quebrada. Não sustentariam um só mês de guerra civil.
— E que garantias teríamos de que esta estratégia traria um bom resultado¿ — Perguntou outro senhor. – Nós tiramos o rei, mas mantemos a rainha. Ainda é uma monarquia, regime típico de privilégios.
— A Monarquia se manterá, sim. – Johanna disse com firmeza. – Sem Monarquia não há México, então, senhores, será melhor que se mudem para o Norte e façam seus passaportes estadunidenses.
Esta última parte constrangeu os nacionalistas. Sentiu-se um leve clima de fúria no ar, mas todos sabiam que a monarca estava certa.
— Quanto aos privilégios, — ela prosseguiu – são parte de qualquer cultura. Todo Estado privilegia uns em relação a outros, a menos que vivamos na utopia de Jean-Jacques Rousseau.
Alguns homens riram, captando a referência. Eram homens cultos, ela sabia. Mas eles não sabiam o quão culta ela era, o que lhe dava uma vantagem para surpreendê-los a cada momento. A rainha continuou sua fala:
— No meu reinado, isso vocês podem anotar e me cobrar futuramente, não haverá aumento de impostos para sustentar a vida fútil da nobreza. Este é um costume francês desprezível que abolirei no meu primeiro dia de governo. Em seu lugar, adotarei o estilo do primo de meu marido, o imperador brasileiro Pedro de Bragança. O homem recebe um ordenado do Estado e vive somente às custas desta renda, sem tirar um centavo a mais dos cofres públicos. No Brasil, só se nomeia um nobre perante alto mérito ou alta indenização ao Estado. Ou seja, são um ganho, não um custo. É esta a política de privilégios que pretendo adotar aqui.
— E quem serão estes nobres¿ — quis saber um dos líderes. – E quanto terão de pagar para entrar em vossa Corte¿
— São detalhes a se pensar na Assembleia Constituinte, meu caro cidadão mexicano. – Ela respondeu com um sorriso contagiante.
O homem que perguntara sorriu imediatamente em resposta, e um clima alegre se espalhou entre aqueles senhores. Assembleia Constituinte¿ Isso era tudo o que as lideranças revolucionárias queriam. Uma Constituição livre, nacionalista, tipicamente mexicana.
— E quem comporia esta Constituinte, minha senhora¿ — Gusmán de La Sierra indagou.
— Representantes eleitos pelo povo, como é feito no Reino Unido e nas Repúblicas. – Johanna prontamente respondeu. – Onde o povo não for capaz de eleger um representante, o Supremo Conselho, que será formado pelas presentes lideranças, deverá designar alguém que sirva a esta função.
A segunda parte da fala era fundamental, e os senhores ali presidentes concordaram imediatamente com meneios de cabeça. Era um fato claro, apesar de nunca dito, que não era uma democracia real aquilo que os revolucionários buscavam. Queriam uma república, sim..., mas não uma república como a dos Estados Unidos, em que cada povo de cada localidade se autogoverna. Queriam uma república governada por eles, os grandes oligarcas do México.
Johanna compreendia muito bem esta situação, então tratou imediatamente de colocar aqueles líderes na posição de novos aristocratas. Ela lera Maquiavel e sabia que não existia vácuo de poder. Existia somente a troca de um tirano por outro. Naquele momento, parecia bem claro, os tiranos seriam os nacionalistas mexicanos. Ela só precisaria se impor como sua líder para organizar a nova ordem.
— Minha senhora... – Gusmán de La Sierra a tocou no ombro, expressando um olhar preocupado, após se passarem alguns segundos de euforia entre os homens ali presentes. – Uma Revolução é algo perigoso. Saber de seu envolvimento nestes planos pode atrair a fúria do Imperador contra si... E, honestamente, não podemos prever o futuro desta guerrilha.
— Prenderemos os dois nas masmorras! – Gritou um senhor idoso, talvez o mais idoso ali presente. Sua exclamação atraiu olhares assustados no início, mas a Imperatriz não se abalou. – Que seja a primeira atitude a ser tomada. Protejam a Senhora lá embaixo e não deixem que ninguém a toque. Depois, que comece o banho de sangue contra os franceses.
Murmúrios de concordância se espalharam no local, mas Gusmán ainda parecia preocupado.
— Concorda com isso, Majestade¿
— Sim, concordo. – Ela respondeu resiliente. – Se meu papel tiver que ser de vítima no início, que seja. Porém, — levantou-se antes de terminar a fala. – Que fique claro para todos os seus soldados que esta Revolução não anulará o Império do México. E que sua Imperatriz continuará no cargo, como Conciliadora e Mãe da Nação.
Mais homens tentaram falar, mas Johanna simplesmente se levantou e saiu da tenda. Já eram então três horas da tarde, e ela precisava dar alguma satisfação ao seu marido. Gusmán a acompanhou, fazendo uma saudação breve aos seus companheiros revolucionários.
De volta ao palácio, a imperatriz se virou para o nacionalista que a acompanhara:
— Consegue lidera-los nesta Revolução¿ Você é o único que me parece confiável.
— Minha senhora...- Gusmán titubeou. – Meus irmãos de guerrilha me respeitam, mas há uma grande briga de egos naquele Conselho. Não é tão simples que eu tome as rédeas de tudo num instante.
— E de que maneira isso se tornaria mais fácil¿
— Se nossa Soberana me nomeasse General do Exército Revolucionário previamente. – Ele respondeu de forma tímida.
— Isso não é possível, seria um contrassenso. – Johanna comentou. – Não posso aparecer como líder oficial da revolução.
— Neste caso... – Gusmán tentou abrir a boca como se tivesse alguma ideia por sair, mas não proferiu nada.
— Já sei o que fazer. – Johanna finalmente resolveu. Encontre-me amanhã de manhã cedo, antes das cinco horas. Entregar-lhe-ei um documento de teor altamente secreto, para ser aberto apenas diante das forças revolucionárias e do futuro Parlamento.
— O que haverá neste documento, majes... – ele ia indagar, mas a imperatriz tinha pressa.
— Volte amanhã e estará tudo resolvido. Até lá, entretenha seus homens e faça o melhor para convencê-los de que você seria o líder mais indicado.
A Imperatriz irrompeu em seus aposentos como um relâmpago naquela tarde. Eu estava lá dentro, pacientemente passando o dia a enrolar qualquer fidalgo eu viesse perguntar como sua monarca estaria. “Está indisposta, dormindo, milorde”, era o que eu respondera nas últimas dez horas. Mas a mulher que entrou naquele quarto parecia o extremo oposto de indisposta. Suas mãos suavam, seus olhos tremiam e sua boca segurava um contido sorriso. Como uma criança que resolve um problema de matemática muito difícil pela primeira vez, ela parecia eufórica.
— Tomás – ela me chamou, e eu prontamente me dispus a ajudá-la. – Traga para mim aquela bebida dos colombianos, por favor... aquele chá que nos torna mais alertas.
— O chá de coca, senhora¿ — Perguntei.
— Sim, este mesmo. – Ela respondeu impaciente. Traga duas xícaras. Ou melhor, três. Não. Traga uma jarra.
Fui até a cozinha e encomendei o chá, que demorou um tanto para ficar pronto. Uma jarra de já de coca¿ Aquilo parecia um tanto preocupante para mim. Qualquer um que consumisse uma quantidade tão grande de coca certamente sofreria de males físicos imprevisíveis..., mas quem era eu, um médico ou o mero copeiro¿ Apesar de minha preocupação, sentei-me ao lado de minha imperatriz e servi sua xícara com o chá dos colombianos. E, xícara após xícara, ela começou a falar e a escrever.
Contou-me sobre tudo o que acontecera naquele dia, e também sobre o que ela estudara a respeito da situação interna do México nos últimos tempos. Eu sempre fora um servo de confiança da Imperatriz, mas, naquele momento, tão inebriada pela coca e pela euforia jovem, ela me tornou seu confidente.
E não posso negar que também não me animei. Os planos pareciam ótimos, a solução final para a crise do México. Eu mesmo nunca gostara daqueles estrangeiros, mas tinha muito medo dos revolucionários nacionalistas. A solução da rainha me pareceu absolutamente genial. Ao cair da noite, percebendo meu sono, Johanna me ofereceu alguns goles de coca. Em questão de horas, éramos duas corujas frenéticas conversando sobre o maior segredo de Estado da história do México.
Ao longo de todas aquelas horas de conversa, ela se mantinha debruçada sobre um longo rolo de pergaminho, onde rabiscava alguma coisa com uma bela caligrafia. Eu não entendi bem o que era aquilo até que ela me mostrasse, mas, por ser escrito em tecido e não em papel, estava claro que era importante. Por fim, fui autorizado a ler o conteúdo do documento:
Carta Régia Nº 0001, da Imperatriz Johanna Rhani Tihuacán von Habsburg.
Venho por meio desta, como Soberana de todo o Império do México, decretar a fundação deste novo Estado.
Expurgue-se toda a aristocracia vigente e todo nobre ou militar francês que aqui habite.
A nova Casa Reinante chamar-se-á Tihuacán von Habsburg, será eternamente mexicana e não deverá satisfações a nenhuma casa real europeia.
Está deposto para sempre o antigo imperador, que deverá ser enviado novamente para a Áustria.
O Império do México se dispõe a manter suas alianças com as nações amigas e a negociar termos com as nações beligerantes.
Seja nomeado Gusmán de La Sierra como Generalíssimo do Exército Imperial Mexicano, Duque de Teotihuacán e meu Primeiro-Ministro e Conselheiro Mor.
Forme-se, por nomeação do Duque Gusmán de La Sierra, o Conselho de Estado do México, que deverá ser composto pelas principais lideranças revolucionárias do México. Conceda-se o título de Conde a todos os integrantes deste Conselho.
Forme-se, por eleição livre do Povo Mexicano, o Parlamento Constituinte, que deverá ditar as normas do nosso futuro Estado.
Maldita seja qualquer nação europeia que ousar infringir a soberania deste Império ou a integridade de sua Imperatriz, que está grávida do Arquiduque Maximilian von Habsburg e carrega em seu ventre o legitimo herdeiro do Império do México.
— Então é assim que se funda um Estado. – Foi tudo o que pude dizer, atônito como estava diante daquela demonstração de autoridade.
— É uma das possíveis formas, sim. – A Imperatriz soltou uma risada, enquanto batia no meu peito de forma leve. Parecia uma risada sincera desta vez. Não demonstrava poder ou satisfação. Somente o deleite comum de uma jovem diante de uma situação simples. Era um belíssimo sorriso.
— Majestade... – eu comentei assustado com minha distração. – Não sabia que a senhora estava grávida. Meus parabéns. – Concluí com um sorriso constrangido.
— Ah, obrigada. – Ela respondeu olhando para o chão. – Mas não é verdade. Não ainda.
— Como assim, minha senhora¿ — Perguntei.
— Estarei grávida quando esta carta passar a vigorar, mas Deus me livre de o pai ser Maximilian. Não é um homem feio, mas é.... europeu demais. Ah, sim. O herdeiro deste Império deve ser asteca, como eu. Este é o sentido do nosso novo Estado.
Os fatos que se seguiram a esta noite também são de amplo conhecimento, pois está em todos os livros que as crianças leem nas escolas. Uma briga pessoal entre um soldado francês bêbado e um revolucionário mexicano nos arredores de Teotihuacán desencadeou um pequeno tiroteio, e daí a coisa degringolou para o inevitável.
O governo francês, ocupado em guerras intermináveis contra a Prússia, estava quebrado demais para enviar ajuda, e os estadunidenses preferiram não se meter desta vez, principalmente porque estavam recém se recuperando de uma violenta guerra. Os nacionalistas mexicanos tiveram uma vitória razoavelmente fácil, e, quarenta dias depois do primeiro tiroteio, os soldados revolucionários ocuparam o prédio do Parlamento e aclamaram Gusmán de La Sierra como seu grande líder... O homem poderia ter se agarrado àquela chance para se tornar mais um ditador, mas foi sábio o bastante para prosseguir com os planos combinados com sua rainha.
O casal Imperial foi trazido ao púlpito do Parlamento, como que para ser julgado pelo povo. O “povo”, naturalmente, se constituía somente de uma miríade de soldados milicianos. Mas era o que havia naquele momento.
— Este é Maximilian von Habsburg! – Berrou Gusmán de La Sierra perante seu público eufórico. – Um estrangeiro que trouxe uma turba de franceses para oprimir o povo mexicano. Que destino deve ele ter¿
— A morte! – Gritavam todos. – Enforque! Fuzile!
Aquilo já era esperado. Não estava nos planos oficiais matar o Imperador, mas era preciso deixar as crianças gritarem por um momento. Por fim, Gusmán iniciou seu grande momento.
— Esta é nossa Imperatriz, Johanna Rhani Tihuacán! Ela nos ajudou a derrubar este governo ilegítimo, ela nos permitiu tomar este palácio e a expulsar os europeus! Ela é a responsável, meus senhores, pelo sucesso desta revolução! Que destino deve ela ter¿
— Rainha! Nossa Rainha! – O povo gritava com uma euforia ainda maior. Era incrível observar como uma multidão apaixonada era facilmente manipulável.
A coroação foi feita às pressas, ali mesmo, pelas mãos do próprio Gusmán de La Sierra. Tal fato representou a transferência oficial do poder dos líderes revolucionários para a Monarquia. A Imperatriz foi aclamada e carregada pela cidade, enquanto o antigo imperador foi levado de volta para as masmorras. Posteriormente, a nova monarca fez um apelo ao povo por misericórdia, e então foi aceito que Maximilian não fosse morto, mas simplesmente deportado de volta para a Europa.
Johanna publicou oficialmente sua Primeira Carta Régia ainda naquele dia, e o Conselho de Estado se reuniu para deliberar sobre o futuro da nação. Naquela noite, que datava de 15 de abril de 1870, ficou clara a dúvida sobre quem lideraria aquele novo Estado.
Ora, sabia-se que não era nada simples uma mulher chefiar um Estado. Havia o exemplo da Rainha Vitória, da Inglaterra, mas ninguém sabia se a autoridade que ela exercia era de fato sua ou se estava sendo manipulada pela elite política. Talvez esta segunda hipótese fosse uma esperança dos líderes revolucionários que haviam se aliado à Imperatriz Johanna, mas tal tarefa se mostrou impraticável.
O Conselho de Estado era acéfalo, como descrevera o próprio Gusmán: uma eterna briga de egos. Não por outro motivo haviam demorado tanto para deflagrar sua Revolução. Na prática, apenas a autoridade suprema do Duque de La Sierra mantinha a ordem local. Mas toda esta autoridade, naturalmente, provinha de sua Soberana.
As eleições iam e vinham, mas o núcleo do poder continuou sendo sempre o mesmo. Com mão de ferro e inteligência negociadora, a Imperatriz Johanna impôs a ordem e governou o México com maestria ao longo de décadas. O Parlamento continuou sendo caótico, mas agora havia uma ordem imposta de cima para baixo – e uma ordem legitimada pelo povo.
A reação dos reinos europeus contra aquela Revolução foi, a princípio, negativa, mas, ao perceber que estavam lidando com um governo inteligente e eficaz, logo foram feitas as pazes – até mesmo com o Império Austro-Húngaro.
Em 1903, o Conselheiro-Mor Gusmán de La Sierra faleceu, então a Imperatriz nomeou seu único filho e herdeiro, Maximilian Kaplán, como novo líder do Conselho de Estado. Ele permaneceu no cargo até a morte da mãe, em 1921, quando se tornou o novo Imperador.
Um dos primeiros atos do novo monarca foi fazer um grande corte de gastos no governo, e isso envolveu demitir os funcionários da Corte que não eram mais tão produtivos. Do alto dos meus setenta e dois anos, estive entre os dispensados. Não estou abandonado, é claro. O Imperador nos concedeu uma boa pensão de aposentadoria, especialmente para mim, o criado de maior confiança de sua mãe.
Para ele, sou apenas isso. Um velho criado e amigo da grandiosa imperatriz. Não sei se devo me sentir grato por isso, mas o fato é que esta é a informação oficial. Ele é um Habsburg, e isso favorece suas relações com a Europa. Não poderia ser diferente.
É um belo homem, devo me orgulhar disso. Suas feições são perfeitamente astecas, conforme desejava sua mãe. Nos dias de hoje, já tem certa quantidade de cabelos brancos, mas ainda exibe o corpo forte que desenvolveu na juventude. Além disso, é detentor de uma erudição invejável. Foi servido pelos melhores tutores que o mundo ocidental tinha a oferecer. Certa vez, cheguei a me oferecer para a Imperatriz para ser um dos tutores do príncipe, dado minha formação religiosa e conhecimento do Latim, mas ela recusara. Não queria que a Corte me visse perto demais do menino. Foi uma decisão sensata, devo admitir.
A pedido de sua mãe, o herdeiro se casara com uma mulher asteca, e por isso temos a próxima geração de monarcas garantida para a nossa pura raça mexicana.
O Império do México segue firme e forte, apesar dos tempos. O Imperador Maximilian II governa com sabedoria, embora não seja mais necessário mandar de forma tão absoluta quanto sua mãe fazia. O Parlamento Mexicano finalmente foi educado, e hoje sabe trabalhar de forma semelhante aos europeus.
Nos livros de História, Johanna é exaltada como “A Rainha Vitória das Américas”. Não sou nenhum doutor em História britânica, mas honestamente considero a comparação um pouco injusta. Vitória foi uma grande rainha, mas Johanna foi nada menos que a mãe do México.
Homens velhos como eu costumam se vangloriar de suas histórias da juventude, como se qualquer mera aventura fosse grande coisa digna de atenção. Eu sou apenas um copeiro aposentado. Nunca fiz nada além do que me mandavam fazer, e não me vanglorio de nada. Apesar disso, sinto que minha história é mais valiosa do qualquer destes velhos corsários e soldados. Vivi ao lado da mulher mais gloriosa que já existiu, fui seu amigo e confidente, e muito mais.
Nunca houve nem nunca haverá na história deste mundo uma rainha tão magnífica quanto Johanna.
Fale com o autor