Refém da Paixão
36 Epílogo
Notas iniciais
—Bella! – Edward me chamou com a voz urgente e, assustada, sai correndo pelas escadas da nossa bela casa em Miami, me preparando para o pior. Mas, ao chegar na sala, meu desespero se desfez num sorriso.
—Acho que vai acontecer! – explicou em tom mais baixo mantendo o corpo inclinado e os braços eretos, ambos estáticos.
Contive a risada ao observar toda a cena. O chão da sala de TV estava um caos de brinquedos espalhados, e apoiada no andador, Aurora se esticava toda para alcançar um brinquedo em forma de borboleta que estava na estante.
Edward estava atrás da nossa filha, temeroso que ela caísse e se machucasse, mantinha os braços próximos o suficiente para lhe segurar se fosse preciso.
Ainda contendo o riso perante aquela cena já corriqueira em nossas vidas, me sentei no sofá e esperei a missão chegar ao fim. Não demorou muito, bastou Aurora alcançar o bichinho de pelúcia para voltar a se sentar no tapete de pelos.
—O que? – Edward pareceu inconformado ao encarar a bebê de quase um ano que apertava o ursinho com seus dedos curtos e gordinhos. —Ela estava pronta para andar! – justificou, me encarando com certa perplexidade.
Não consegui mais controlar a risada diante sua face expressiva.
—Ela sempre faz isso, amor. – disse tranquilamente me levantando do sofá para sentar no chão, ao lado deles. Corri os dedos pelo cabelo escuro de Aurora e me deliciei com a macies daqueles fios de chocolate. —Mas tenho certeza que não vai demorar a andar. – continuei e o sorriso aumentou na minha boca assim que ela se virou para me encarar. Os sorrisos incessantes para ela eram constantes. De ambos.
Mas era impossível não ficar encantado com aquela bebê gordinha, de bochechas grandes e nariz arrebitado. Além de linda, Aurora era a bebê mais sorridente do mundo, qualquer coisa lhe arrancava um sorriso largo, e depois que dois dentinhos nasceram na parte de baixo da sua gengiva, seu sorriso ficara ainda mais lindo.
Ela era linda por completa, aliás!
A começar pelos olhos que tinham a mesma raridade do pai e da irmã. Aurora também tinha heterocromia e seus orbes eram um de cada cor. O direito era azul claríssimo, e o esquerdo castanho esverdeado. O nariz fininho e os lábios grossos eram o complemento perfeito... Ela era toda perfeita!
O amor da minha vida todinha!
O toque do celular de Edward rompeu meu estado de devoção, com um suspiro profundo desviei os olhos de Aurora para fita-lo.
—É a Victória. – informou antes de se levantar e se afastar alguns passos para atender a ligação.
—Acho que a sua irmã logo, logo vai chegar. – voltei a encarar Aurora que estava alheia a qualquer coisa que não fosse aquele bichinho colorido em formato de borboleta que ela tanto amava. —Vamos tomar um banho para esperar a Melissa?
Aurora ergueu a cabeça assim que ouviu o nome pronunciado. O riso saiu livre por minha garganta quando a vi procurar a irmã pela sala. Era sempre assim, bastava ouvir o nome de Melissa para que ela ficasse alvoroçada.
As duas se amavam de um jeito inexplicável. Melissa conseguia arrancar as melhores risadas de Aurora, e as duas não se separavam nem para dormir. Era lindo de observar a conexão que as minhas meninas tinham!
—Vem meu amor, vamos tomar banho. – me levantei do chão e peguei minha bebê gordinha nos braços apreciando aquele perfume angelical que só ela tinha.
Não contive o ímpeto de beijá-la e abraça-la apertado como sempre fazia. Tirava todas as casquinhas que podia, tentava aproveitar ao máximo todos os momentos com ela, porque já havia percebido o quanto o tempo passava rápido!
Aurora havia completado onze meses na última semana, os preparativos para o seu primeiro aniversário estavam uma loucura, e apesar de não ser o tipo de mulher que ama um evento, estava muito animada para comemorar o primeiro ano da minha bebê!
Olhando-a dentro da banheira, mal conseguia acreditar que aquela bebê maravilhosa havia nascido de mim!
Não contive o suspiro enquanto lavava seu corpinho. Não sabia se era a proximidade do seu primeiro aniversário, mas me estava me sentindo um tanto quanto nostálgica nos últimos dias.
Um ano passara tão rápido... Ainda tinha vivo em mim todos os sentimentos que me dominaram durante o longo, mas lindo, parto natural.
Foram mais de vinte horas de trabalho de parto após a rotura da bolsa. As contrações me levaram a loucura, a dor era inexplicável, e quando estava pensando em desistir da ideia de parir minha filha na banheira e correr para o hospital, Aurora nascera.
As cinco e cinquenta, juntamente com o sol, pesando pouco mais de três quilos e com menos de cinquenta centímetros. Quando a doula me entregou aquele serzinho sujo de sangue e que chorava desesperadamente, o mundo parou para mim.
Foi de longe o momento mais lindo da minha vida. E partilhei com as duas pessoas que mais amava no mundo: Edward, que estivera do meu lado o tempo todo, e Melissa que entrara no quarto para cortar o cordão umbilical.
Por mais que tenha sido dolorido, voltaria para aquela madrugada sem pensar duas vezes e reviveria aquelas sensações tranquilamente.
—O que as mulheres da minha vida estão fazendo? – Edward questionou ao entrar no quarto de Aurora, todo decorado em tons rosados e motivos florais.
Ela notou a presença do pai antes mesmo de ele se aproximar da cama de babá, onde eu terminava de vesti-la com o body azul bebê de manguinhas curtas e bufantes. Com os olhos arregalados, sorriu ao ver Edward se aproximar. Aurora era completamente apaixonada pelo pai... E Edward, obviamente, se derretia por ela.
—Como você está cheirosa, minha princesa. – ele se deliciou ao pegá-la no colo, correu o nariz pelo pescocinho pouco visto da nossa filha e a apertou nos braços ao beijá-la estaladamente na bochecha.
—A Mel já está vindo? – perguntei ao colocar com certa dificuldade a faixa azul na cabeça de Aurora. Ela não gostava muito de adereços na cabeça, mas ficava incrivelmente fofa com aqueles laços enormes. Não conseguia evitar em vê-la daquela maneira.
—Sim, já deve estar chegando.
—Mel? – Aurora perguntou varrendo o ambiente com os olhinhos peculiares atentos. Edward e eu rimos juntos diante o interesse dela.
O nome da irmã era a primeira e única palavra que Aurora pronunciava, e era a coisa mais linda de se ver.
—É a Mel, meu amor. – respondi beijando seu rostinho. —Já, já ela está chegando.
—Ela não pode ouvir o nome da Melissa, não é? – Edward olhou rindo suavemente, completamente apaixonado.
—Elas se amam. – suspirei. —E acho que um pouco é saudade.
Edward maneou a cabeça em consentimento enquanto seguíamos para fora do quarto. Já tinha duas semanas que não víamos Melissa, e finalmente, ela estava vindo para ficar quinze dias conosco.
Quando ela não estava presente, nossa família ficava incompleta!
O dia estava começando a ir embora, o sol já se despedia no horizonte quase se fundindo ao mar, nos contemplando com uma vista maravilhosa.
—Que horas vamos sair? – Edward perguntou ao se sentar ao meu lado no sofá da área externa.
—O jantar é oito. – o lembrei entregando o celular de brinquedo para Aurora. —Alice pediu, ou melhor, ordenou para que não nos atrasássemos.
Edward soltou uma risada diante minha fala e concordou com um aceno de cabeça. A noite era especial, ela iria ficar noiva e como os primeiros padrinhos convidados, nossa presença era fundamental.
Aurora estava começando a se irritar por ficar no colo quando Melissa chegou, e a felicidade reinou novamente. Mais uma vez me encantei ao ver as duas juntas... Cada reencontro me deixava emocionada como na primeira vez em que vi minhas meninas juntas.
—Que saudade eu estava de você! – falei apertando-a nos braços.
—Eu também estava com muita saudade, titia. – me olhou sorrindo, exibindo a janelinha que a falta dos dentes de baixo lhe proporcionou.
Ela tinha crescido tanto no ultimo ano. Seu rostinho havia perdido os traços de bebê, e agora, com quase sete anos, Melissa já não se interessava muito por contos de fadas ou desenhos muito infantis..., Mas independe da idade, ela sempre seria a minha princesinha.
—Eu não vou ganhar nenhum beijo? – Edward perguntou fingindo-se de sentido. Melissa abriu um largo sorriso e se jogou nos braços do pai, tomando o devido cuidado de não esbarrar em Aurora. —Como você está? – ele perguntou verdadeiramente interessado.
Edward era o pai mais coruja de todos. Tinha uma dedicação espantosa. Dava banho, cantava músicas de ninar, trocava as fraldas mais assustadoras sem uma palavra de protesto. A única concessão que ele fazia — mas relutante — era a presença de uma babá à noite.
De sete da manhã às sete da noite, a filha, era toda dele. Além dos muitos beijos de boa-noite. E dos horários de dar-lhe mamadeira durante a noite. Ele adorava todos os momentos, até mesmo, às três da manhã, quando Aurora acordava aos berros na época em que era acometida por cólicas.
E com Melissa a preocupação era dobrada. Seu maior medo era que ela se sentisse menos amada, ou menos importante... Então ele se esforçava em dobro para fazer com que Mel nunca duvidasse do quanto ele a amava. E eu o apoiava completamente naquilo.
—Eu estou bem. – sorriu. —Com muita saudade da minha nenenzinha. – Melissa afinou mais a voz quando se dirigiu a irmã.
Aurora abriu ainda mais o sorriso, e se jogou em direção a Melissa, que se sentou no chão e estendeu os braços para ela.
Edward colocou Aurora entre as pernas de Melissa, e as duas mergulharam naquela bolha única e exclusiva delas.
—A gente tem tanta sorte.
—Muita mesmo. – concordei, deitando a cabeça em seu ombro e apreciando a linda união das nossas filhas.
—Algumas crianças não têm a sorte de nascerem com a saúde e as condições das nossa filhas... – ele me olhou com um ar grave ao se afastar um pouco no sofá. —Não sente vontade de ajudá-las?
—Quem?
—Não sei. – Edward deu de ombros. —Crianças que sofrem abusos, bebês que não têm qualquer ajuda.
Aquela conversa não era típica de Edward, e duvidava muito que ele de repente se tornara uma pessoa preocupada com caridades. Percebi rapidamente que ele estava fuxicando onde não devia.
—Você andou lendo meus e-mails?
—Só um. – deu de ombros após refletir por alguns segundos. —Mas foi por acaso.
—Por favor! – rolei os olhos encarando-o com ar de deboche. Mas mesmo que estivesse certa e que ele tivesse invadido minha privacidade, fui eu quem me senti envergonhada, ruborizando. Como se tivesse sido flagrada fazendo algo errado. Me senti um pouco culpada de ter escondido de Edward o que estava planejando nos últimos dias.
—Tem algo para me contar? – sua voz saiu tão amena quanto seus olhos peculiares estavam.
— Ofereceram-me um trabalho, quer dizer, me convidaram para um cargo. – falei rápido em um único fôlego. —Emmet me ligou há uns dois dias para ver se eu estava interessada. É só meio período. – continuei em um suspiro. —Só iria começar daqui a uns seis meses. É para ser inspetora da unidade de proteção às crianças.
Edward mordeu o lábio inferior em um ato extremamente sexy, e teria o puxado para beijá-lo se o assunto não fosse tão sério. Já havíamos brigado muito por aquilo, e não queria acabar com a nossa paz, não queria trazer problemas para a nossa família.
—Você precisa trabalhar, não é? – Edward sorriu e, pela milésima vez, fui surpreendida por ele.
—É verdade, mas me sinto péssima de ter de deixar a Aurora. Ao mesmo tempo é um trabalho incrível, Edward. E muito mais seguro do que costumava fazer. – expliquei entregando toda a verdade.
Não queria deixar minha filha aos cuidados de terceiros, mas Aurora acordava depois das dez, passava uma hora tendo aula de natação, e seria apenas cinquenta minutos com a babá...
—Sem armas? – Edward checou e confirmei com a cabeça.
—Não tem nada a ver com o que era antes, Edward. Em alguns casos, vai existir arma. Você vê nos jornais, sabe como é. Mas eu não vou estar usando nenhuma.
—Mesmo assim, ainda pode ser perigoso. – sua voz não escondeu o temor que sentia.
—Claro que pode. – negar aquilo era inevitável. —Mas, provavelmente, dos trabalhos que me interessam é um dos mais seguros. Além disso, no final das contas...
—Nem recomece com essa história de que você pode ser atropelada por um ônibus. – ele me interrompeu, e olhando dentro dos meus olhos voltou a perguntar. —Você precisa disso, não é?
— Preciso. – admiti. Não me senti mal em dizer, mas tampouco me senti bem. Era a verdade.
Sempre amei meu trabalho, e mais, sempre amei me sentir útil, ter meu próprio salário e independência.
—Mas só posso aceitar se tiver certeza de que você me apoia inteiramente. Precisa saber que teremos de fazer alguns sacrifícios...
—Hei, eu também trabalho, esqueceu? – ele me olhou com um olhar cheio de compreensão e carinho. —Sei exatamente que às vezes é difícil. Não precisa me explicar nada disso.
Edward tocou meu rosto, acariciando-o ternamente.
—Sei que a gente não precisa do dinheiro e também sei que vai haver dias que vou odiar meu trabalho, mais que qualquer outra coisa. Mas isso não significa que vou querer ouvi-lo dizer que devo desistir, que eu não preciso trabalhar lá...
—Vá em frente, então. – Edward sorriu.
—Tem certeza? – senti meu coração bater mais rápido naquele momento.
—Tenho. – fez que sim com a cabeça, mas uma pequena ruga se formou na testa. —Mas há uma condição.
—Qual? – estreitei os olhos.
—Nada de horas extras à noite.
—Combinado! – exclamei aceitando sua condição. —Bem, se é só isso que preciso fazer para poder voltar ao trabalho...
—É só isso. – respondeu voltando a me abraçar, dessa vez seus braços passaram por minha cintura. —As noites... — disse ele, beijando meu pescoço e fazendo com que um longo arrepio corresse por meu corpo. —Você é só minha.
Fale com o autor