Refém da Paixão
12 Acidente
Notas iniciais
O carro deu um rangido quando girei a chave e liguei o motor. Respirei fundo encarando a entrada da pequena casa de repouso pelo retrovisor uma última vez antes de sair com o carro.
Tudo continuava igual ali, a porta de vidro marcada por digitais das pessoas que iam e vinham, a pintura branca com algumas manchas, a grama verde e rasteira.
O mesmo cheiro de hospital, salas frias e brancas ligadas por corredores extensos.
Não chegava nem perto de ser um lugar agradável, pelo contrário, era tudo triste e pesado, contudo, era ali que estava parte da minha vida.
Maneei a cabeça ao parar no sinal vermelho tentando me desapegar daquela energia estranha que sempre me preenchia quando ia até lá.
O celular vibrou no banco do carona e aproveitei os últimos instantes parada para aceitar a ligação de Alice e colocá-la no viva-voz.
—E aí, já está vindo?
—Acabei de sair de lá. – respondi de olhos no trânsito. —Devo chegar em uma hora, mais ou menos.
—Ainda? – soou desapontada. —Desse jeito não vamos ter tempo de arrumar nada.
Soltei o ar pela boca dobrando a esquina.
—Eu sei, mas precisava vir aqui. Você sabe...
—É, eu te entendo. – murmurou após refletir por alguns segundos. —Bom, venha logo, estou te esperando.
—Já, já, estou aí! Até mais.
—Até mais. – Alice cantarolou antes de encerrar a ligação.
Soltei o ar me sentindo um pouco mais leve. Falar com Alice, mesmo que fosse por alguns minutinhos, sempre melhorava meu humor.
E estava animada para curtir nosso fim se semana de folga, o primeiro depois de vinte dias corridos.
Por mais que eu negasse com todas as minhas forças, era estranho sair daquele disfarce, daquele personagem, daquela vida.
E no fundo eu sabia o motivo: as coisas estavam mais reais do que o planejado. Edward e eu estávamos aprendendo a conviver com nossas diferenças, que acabavam sempre que íamos para a cama. E até que estávamos nos dando bem. Ele era um homem incrível quando não estava sendo um babaca machista, e eu adorava ver sua versão ‘pai’.
Melissa o dominava por completo, bastava abrir aquele sorrisinho meigo e piscar os olhinhos brilhosos, que Edward se derretia. E eu não o julgava, era impossível não se apaixonar por ela. E ela havia roubado meu coração, assim como fazia com todos que a conhecia.
Em todos aqueles vinte dias eu havia visto muito pouco a família de Edward, principalmente seus irmãos. Rosalie não era fã do nosso “namoro" e Jasper vivia ocupado em suas festas.
Tudo estava bastante calmo. Edward não recebera mais nenhuma ameaça, Emmet não encontrara nenhum perigo no único suspeito apontado, e então, ele resolveu nos presentear com dois dia de folga.
Voltar a ser a Isabella Swan, a que não desenhava joias, ou que era exorbitantemente rica, e nem namorava o poderoso Edward Cullen, me causou algumas sensações diferentes. A maioria inesperada.
—Achei que tivesse se perdido! – Alice zombou assim que entrei em seu apartamento.
Foi impossível evitar a careta ao ver as pilhas de caixa de papelão espalhadas por toda a sala.
—Meu Deus, que bagunça! – deixei as chaves e o celular sobre o aparador ficando cansada só de pensar no trabalho que teria para arrumar tudo aquilo. Se é que ia caber tudo aquilo naquele apartamento. —Eu não fazia ideia de que eu tinha tanta coisa.
—Pois é! – concordou limpando o suor da testa com a mão. —Mas vamos conseguir arrumar tudo, tenho certeza.
A encarei e sorri verdadeiramente agradecida.
O que seria de mim sem Alice?
—Sei que pediu para eu parar de agradecer, mas obrigada por tudo o que está fazendo por mim.
Ela soltou o ar pela boca e rolou os olhos.
—Eu não estou fazendo nada demais. Já te disse que é um prazer voltar a dividir o apartamento com você. – esticou o espanador que segurava e o chacoalhou sobre minha cara. —Comecei a organizar o quarto, mas acho melhor você arrumar suas roupas.
—Essa é a parte mais fácil. Não tenho muitas roupas.
Alice riu alto sem deixar de concordar comigo.
—É verdade. Vou pedir para o Emmet te doar o guarda-roupas da elegantíssima designer de joias. – zombou me seguindo até o quarto de hóspedes. —É cada roupa linda, hein?
—Sim. E toda semana chega mais. É até difícil escolher o que vestir. – sentei na cama macia relembrando daquele closet imenso.
—Você está sendo muito mimada. Depois que essa missão acabar vai sentir falta.
Ah, isso eu certamente iria!
Não sentiria falta das roupas, dos sapatos ou do luxo. Sabia exatamente do que sentiria falta. Ou melhor, de quem.
—E como foi lá? – Alice mudou de assunto enquanto me ajudava a tirar as roupas das malas e dobrar as peças.
—Ah, difícil como sempre. – soltei o ar pela boca relembrando da minha passagem pela casa de repouso. —Acho que está só piorando com tempo...
—Se quiser da próxima vez vou com você.
—Obrigada, Alie. Você é um anjo. – só eu sabia o quão verdadeiras eram aquelas palavras.
Alice estava do meu lado em todos os momentos. Era a que dava o gritinhos de felicidade quando algo bom acontecia, e a que me amparava quando precisava de um ombro para chorar.
—Mudando de assunto... Você falou com seu namorado hoje? – vi a malícia delinear seus traços delicados.
—Ele não é meu namorado. – fiz questão de lembrá-la, enquanto tentava não esquecer os motivos que me fizeram lhe contar sobre Edward e eu. —E sim, nós nos falamos.
—Hmmm... – soltou ao pendurar mais uma blusa no cabide. —Está com saudades?
—Porque eu estaria?
—Ah, Bella, qual é? – se virou para me encarar visivelmente frustrada. —Qual sua dificuldade em assumir que está mais envolvida do que queria, hein?
Entreabri os lábios enquanto meu cérebro buscava a resposta certa para lhe dar.
—Não estou. – dei de ombros vendo-a bufar alto. Foi impossível conter o riso diante sua cara de impaciência.
—Pode tentar mentir para mim, mas jamais vai conseguir mentir para você. – jogou uma das suas frases de efeito e se colocou de pé. —Vamos buscar umas cervejas ali no mercado? Faz tanto tempo que não bebo!
Eu concordaria com qualquer coisa que ela propôs-se tudo para mudar de assunto. Falar sobre minha relação com Edward me fazia pensar sobre tudo o que eu estava sentindo e, no momento, não queria lidar com tudo aquilo.
—Hoje nós vamos beber para afogar as mágoas! – Alice declarou assim que voltamos com as cervejas.
Deixei as sacolas plásticas sobre a mesa e a encarei.
—Que mágoas você tem?
—Algumas. – deu de ombros abrindo a garrafa com o abridor. —Ângela é uma delas.
Soltei um riso alto aceitando a cerveja gelada. Tomei goles grandes aproveitando a deliciosa sensação que o líquido provocava ao descer pela garganta.
—Achei que estavam se dando melhor.
—Eu também, mas acho que ela é bipolar. Uma hora é a pessoa mais simpática do mundo, na outra vira o cão. – rolou os olhos levando a garrafa de cerveja a boca. —Depois que essa missão acabar vou pedir para o Emmer adiantar minhas férias. Podemos ir viajar juntas. – seus olhinho brilharam em expectativa.
—Tenho tanta coisa para resolver, Alie, que viajar não está nos planos. – só de pensar na bagunça que estava minha vida me dava vontade de me trancar no quarto e não sair mais.
—O que você tem para resolver? – questionou com os olhos cerrados.
—Tanta coisa... E mais fácil perguntar o que eu não tenho para resolver. – Alice rolou os olhos veementemente.
—Está exagerando...
O toque alto do meu celular interrompeu a fala de Alice. Soltei o ar pela boca ao deixar a garrafa sobre a mesa, o nome de Emmet piscou na tela e senti um frio no estômago.
—Oi, Emmet...
—Bella, onde você está? – sua voz soou aflita.
—Na casa da Alice... Porque? – meu coração começou a bater mais forte, sabia que algo havia acontecido. —Aconteceu alguma coisa?
—Vou pedir para um carro ir te buscar, se arrume de acordo com o disfarce.
—Emmet o que aconteceu? – refiz a pergunta sentindo calafrios percorrerem todo meu corpo.
—Edward sofreu um acidente de carro. Preciso de você aqui no hospital.
Aquelas palavras ecoaram dentro da minha cabeça em um loop sem fim.
Edward sofreu um acidente.
Um gosto amargo preencheu minha boca e por longos segundos minha vista ficou preta.
Aquilo não podia estar acontecendo.
—O que aconteceu? – Alice perguntou assim que saltei da cadeira e corri para o quarto.
—Edward sofreu um acidente, está no hospital... – minha voz estava tão trêmula quanto minhas pernas. —Emmet vai mandar um carro vir me buscar...
Puxei a mala com roupas que havia trago da casa de Edward e a joguei sobre a cama. As peças estavam um pouco amarrotadas, mas não perderia tempo passando roupa.
—Acidente? Como assim acidente? Será que foi mais uma tentativa..?
—Ele não entrou em detalhes, Alice. – tirei a regata que eu vestia e a abandonei no chão. —Só disse que foi um acidente de carro.
—Puta que pariu! – a vi esfregar as mãos no rosto ao me sentar para vestir o macacão branco.
Me arrumei o mais rápido que consegui, aceitando a ajuda de Alice na hora da maquiagem. Eu jamais conseguiria me maquiar daquele jeito.
O sol começava a se pôr quando Liam chegou para me buscar, e sentada no banco de trás do blindado branco, ouvi atentamente a história que deveria contar.
Viajem rápida para encontrar alguns clientes.
O caminho até o hospital onde Edward estava pareceu durar horas. Soltei um suspiro impaciente assim que entrei no elevador de acesso a portaria.
Porque tudo estava demorando horrores?
—Com licença, será que você pode me ajudar? – apoiei as mãos no balcão de pedra, a recepcionista tirou os olhos do computador e sorriu ao concordar com a cabeça. —Meu namorado sofreu um acidente de carro, e trouxeram ele para cá, sabe me dizer para qual o andar, sala...?
—Qual o nome do seu namorado, senhorita?
—Edward Cullen. – ela até tentou disfarçar a surpresa, mas não obteve muito êxito.
Seus dedos digitação rápido no teclado, mas a informação estava demorando demais para vir.
—Bella? – virei o corpo para procurar a voz conhecida, e soltei um suspiro aliviado ao reconhecer Jasper. —Chegou agora?
—Sim, acabei de chegar. Estava aqui esperando a informação de onde Edward está. – ele se aproximou e vi a preocupação delineada em sua face.
—Edward nos deu um susto...
—Nem me fale. – corri a mão pelo cabelo colocando-o atrás da orelha. —Que andar ele está?
—Vem eu te acompanho.
Agradeci a ajuda da recepcionista antes de seguir com Jasper até o elevador. O mundo parecia estar funcionando em câmera lenta só para aumentar a tortura.
—Como ele está?
—Os resultados do exame ainda não saíram, mas o médico acha que não houve nenhum ferimentos sério.
Soltei o ar pela boca verdadeiramente aliviada por ter ouvido aquilo. Estava pronta para fazer mais perguntas a Jasper, contudo a porta do elevador finalmente se abriu.
Jasper me acompanhou até a sala de espera destinada a família, e estavam ali, Rosalie, Emmet e Victória.
Meu corpo trabalhava em um frenesi angustiante, era difícil controlar as ações e os atos naquele momento. Tudo o que eu queria era passar direto e entrar no quarto de Edward.
—O que aconteceu? – foi a primeira coisa que perguntei após os devidos cumprimentos.
—O motorista do Edward perdeu o controle do carro e acabou batendo em uma van. – Emmet me contou, seus olhos eram sérios e eu sabia que havia algo por trás.
—E o Edward? Eu posso ver ele...
—Meus pais estão lá com ele. – Rosalie me interrompeu em toda sua pose antipática.
—É só avisar que a Bella está aqui e eles saem para ela entrar. – Victória rolou os olhos ao se levantar da poltrona onde estava sentada.
—Eu vou avisar eles. – Jasper se prontificou e o agradeci com um sorriso.
Emmet e eu trocamos um rápido olhar antes dele se aproximar de Rosalie, que deixava claro o quão insatisfeita estava com minha presença.
—Não ligue para a Rose. Ela é assim mesmo. Levou um tempo até que gostasse de mim. – Victória me disse baixinho. —Ela acha que todas as mulheres que se aproximam do Edward estão interessadas no dinheiro dele.
—Ai meu Deus! – bufei alto, mais incomodada com a demora de Jasper do que com a informação dada por Victória.
—Eu sei, é ridículo! – chacoalhou a mão e respirou fundo. —Mas logo ela se acostuma com você.
—Espero que seja logo mesmo...
Parei de falar no instante em que Jasper reapareceu na sala de espera, dessa vez acompanhado dos pais.
Esme estava verdadeiramente abatida, e com toda razão. Carlisle mantinha a mesma postura firme de sempre, mas as expressões em seu rosto não escondiam a preocupação.
—Eu vou ir ver ele, depois conversamos. – disse após lhes cumprimentar com um rápido abraço.
Meus passos pelo corredor foram rápidos, e assim que abri a porta do quarto o avistei sentado na maca.
Sua atenção saiu da TV ligada e veio para mim. Estava bastante pálido, e havia um curativo consideravelmente grande na parte esquerda de sua cabeça.
Soltei o ar pela boca ao fechar a porta, agradecendo por não ter acontecido o pior.
—Como você está? – era a primeira coisa que eu precisava saber.
Seus olhos tão peculiares me estudaram por longos segundos, e então um sorriso nasceu no canto dos seus lábios.
—Eu estou bem, não precisa se preocupar. – rolei os olhos diante suas palavras. —Por mim já teria ido embora...
—Ido embora? Edward, você está péssimo. – dessa vez foram os seus olhos que deram um giro de trezentos e sessenta graus. —O que aconteceu?
—Brady perdeu o controle do carro, foi tudo muito rápido, quando vi já tínhamos colidido com a van... – contou visível confuso. —Eu só bati a cabeça na janela e acabei cortando a testa, mas ele estava desacordado quando chamaram o socorro.
—Meu Deus! – um arrepio correu por meu corpo. Eu só conseguia pensar nos filhos e na esposa de Brady, caso alguma coisa grave acontecesse com ele.
—Emmet acha que pode ter sido... Você sabe. — contraiu os lábios e tomou fôlego pela boca.
—Mas recebeu as flores? – ele negou com a cabeça e fez uma careta de dor logo em seguida. —Onde estava indo? Que horas foi isso?
—Era quase duas da tarde, estava voltando da casa do Emmet.
—Se mexeram no carro vamos descobrir. Eu tenho certeza que logo vamos pegar esse infeliz. – proferi entredentes.
Quando descobríssemos quem era a pessoa que estava por trás disso eu mesma a mataria.
—Mas diante as possibilidades do que poderia ter acontecido, eu estou bem. – ele tinha razão, eu sabia muito bem o que poderia ter acontecido e somente o mero pensamento me deixou com o estômago frio. —Só estou preocupado com Brady.
—Tenho certeza que ele vai ficar bem. –garanti agarrando sua mão no impulso.
Edward abaixou os olhos até nossos dedos e então os entrelaçou. Respirei fundo me aproximando mais um pouco dele.
—Me afasto por um dia e você vem parar no hospital.
Ele soltou um risinho ao concordar com a cabeça.
—Isso é um sinal de que você não pode ficar longe de mim. – respondeu olhando dentro dos meus olhos.
Meu coração assumiu um compasso acelerado e eu até quis lhe responder, mas não vinha nenhuma palavra coerente na minha boca.
—Com licença... – a voz seguiu as batidas na porta, e não sabia se ficava feliz ou triste pela interrupção. —Saíram os resultados do seu exame, Edward.
O médico entrou na sala acompanhado de Esme e Carlisle, ele era mais jovem do que pensei e tinha uma pele negra brilhante.
Santa melanina!
—Você é a namorada? – supôs ao me encarar.
—Sim. – concordei rapidamente. —Isabella Swan. – me apresentei ao aceitar seu aperto de mão.
—Laurent Hill. – se apresentou abrindo um sorriso grande. —Voltando aos resultados, podem ficar tranquilos, não houve nenhum dano sério.
Nós suspiramos aliviados. Tudo o que precisávamos era a palavra do médico garantindo que estava tudo bem.
—A tomografia não acusou traumatismo craniano ou qualquer outra lesão mais séria.
—Posso ir embora? – Edward o interrompeu visivelmente impaciente.
—Não. A pancada na cabeça foi forte, acho melhor passar a noite em observação.
—Mas qual a necessidade?
—Edward, se ele está dizendo que é melhor, é porque é melhor. – Carlisle se pronunciou firmemente.
—É isso aí! Vai ficar e pronto! – Esme foi tão sólida quanto o marido.
Edward bufou alto sem esconder sua irritação. Parecia um menininho emburrado.
—Amanhã cedo nós repetimos os exames e se continuar tudo bem, você será liberado. – Edward continuou de bico mesmo diante a fala do médico. —Vou pedir para virem te medicar, logo sua cabeça vai voltar a doer. Se é que já não está...
—Estou bem. – Edward resmungou com os lábios curvados em um biquinho fofo.
—Certo. – Laurent soltou uma risadinha. —Acho bom vocês irem descansar. Ele vai apagar assim que tomar os remédios. – seus olhos negros intercalaram entre Carlisle, Esme e eu.
—Eu quero ficar com ele. – falei rápido. Não havia a menor possibilidade de deixá-lo sozinho ali a noite toda.
—Bom... Ele vai dormir a noite toda. Não prefere voltar amanhã?
—Não, eu quero ficar com ele. – repeti vendo de soslaio Edward sorrir com o canto dos lábios.
Laurent não se opôs a um acompanhante, mas pediu que o resto da família fosse embora para evitar que Edward se agitasse muito.
O ambiente hospitalar me causava calafrios, tudo era tão frio!
As batidas na porta antecederam a entrada de Emmet. Ele estava visivelmente preocupado e um tanto quanto irritado também.
—Preciso ser breve, ninguém sabe que subi até aqui. Há detetives espalhados por todo o andar. Estamos vigiando cada centímetro ali fora.... – ele fez uma rápida pausa e me encarou. —Aqui dentro é com você, Bella.
—Eu sei. Pode deixar, ficarei de olhos abertos a noite toda.
—Eu sei que estava de folga, mas...
—Não tem problema, Emmet. – garanti firmemente. Se eu soubesse que aquele acidente iria acontecer, jamais teria aceitado aquele fim de semana de folga.
—Já sabe se foi algo planejado? – Edward mudou de assunto e seu tom de voz exibiu verdadeira inquietação.
As coisas estavam ficando sérias, ele sabia disso.
—Estão inspecionando o carro. Ainda não recebi uma posição sobre, mas tenho certeza que sim.
Apertei os lábios prendendo o ar no pulmão. A pessoa que estava por trás disso era muito esperta, e perigosa.
A porta do quarto de Edward fora aberta novamente sobressaltando a nós três.
—Vim medicá-lo, senhor Cullen... – a enfermeira parou de falar no instante em que viu Emmet no quarto. —Me desculpe, mas não pode ficar aqui. O doutor permitiu apenas um acompanhante.
—Claro, já estou de saída. Só vim me despedir. – Emmet abriu seu sorriso de covinhas extremamente cativante, o que deixou a mulher de meia idade encantada. —Você vai ficar bem, irmão. Nos vemos amanhã.
Emmet saiu do quarto e a enfermeira soltou um longo suspiro antes de preparar o remédio para aplicar no soro de Edward.
—Vai dormir a noite toda sem dor. – ela disse sorrindo.
—Eu não estou com dor. – ele respondeu bufando e rolando os olhos.
Contive o riso. Nem mesmo em momento de vulnerabilidade ele perdia aquela pose de durão.
—Eu odeio hospitais. – Edward soltou o ar pela boca visivelmente incomodado assim que voltamos a ficar a sós.
—Não é meu lugar favorito também.
Ele me olhou por alguns segundos, seus olhos peculiares estudaram meu rosto como se fosse a matéria mais interessante do mundo.
—Qual seu lugar favorito?
Sua pergunta me pegou de surpres, seu tom interessado era quase que infantil, e claro muito fofo.
—Não sei... – o riso escapou por minha garganta enquanto eu me aproximava da maca onde ele estava deitado. —Porque?
—Eu te conheço há quase um mês, mas não sei nada sobre você. – deu de ombros e não disfarçou a careta de dor.
Tomei fôlego pela boca ao repassar suas palavras mentalmente.
—Bom... Meu nome você já sabe, eu tenho vinte e nove anos, no momento estou me mudando para o apartamento da minha amiga porque meu ex era um babaca machista... – ele sorriu com o canto dos lábios diante minha última colocação. —Sou filha única de pais que se separaram há anos. E o meu lugar favorito...
Mordi os lábios enquanto pensava na resposta.
—Meu lugar favorito... Não sei, acho que não tenho.
Edward voltou a bufar, seus olhos começaram a mostrar sinais de cansaço.
—Todo mundo tem um lugar favorito. Você não está sendo honesta.
Entreabri os lábios com sua afirmação amargurada, foi impossível não sorrir. Estar com sono despertava o pior lado dele.
—Ah, é? – ele assentiu com a cabeça piscando com letargia. —Então me diga qual o seu lugar favorito.
Edward respirou fundo os olhos já perdiam a batalha para o sono. O remédio era realmente foda.
—Só vou te contar quando você me disser o seu.
Até pensei em contestá-lo, mas ele já estava se perdendo no mundo dos sonhos e precisava descansar.
Era impossível não ficar hipnotizada diante sua beleza. Adormecido, parecia um anjo.
Um anjinho com chifres, mas ainda sim um anjinho!
Passar a noite naquela poltrona desconfortável não foi fácil, e assim que os primeiros raios solares atravessaram a persiana clara, eu quis chorar de felicidade.
Edward continuava adormecido, mal havia se mexido durante a noite.
Meu corpo estava todo tenso por conta da poltrona desconfortável, nem mesmo a longa espreguiçada conseguiu alongar meus músculos.
Talvez, depois que tudo aquilo acabasse, eu também precisasse de uma dose daquele remédio que Edward tomara.
Me certifiquei de que Edward continuava dormindo antes de ir ao banheiro para lavar o rosto. Eu estava horrível. A maquiagem adormecida clamava para ser limpa, e havia grandes olheiras abaixo dos meus olhos.
Os maquiadores da designer de joias que lutassem para me transformar, porque eles iam ter trabalho!
Soltei meu cabelo do coque frouxo e voltei para o quarto, quase que instantaneamente a porta se abriu.
A enfermeira entrou sorridente, me desejou bom dia e disse alguma coisa sobre o dia estar lindo.
Mas não conseguia prestar atenção em nada, a não ser no arranjo de flores que ela trazia nos braços.
—Quem... Quem mandou essas flores?
—Deixaram na recepção e pediram para entregá-las ao senhor Cullen. São lindas, não são?
Engoli a saliva como se fosse uma grande porção de pregos. Meu coração batia descompassado no meu peito e o suor brotava na minha testa.
Eram as mesmas flores de sempre. Eram aqueles lírios malditos. De novo.
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