“Então este é o fim? Enfrentei tudo para ser morta por um motorista embriagado, sem ao menos ter tempo de citar as famosas últimas palavras? ” Sua cabeça estava completamente caótica, difícil de exemplificar seu sentimento agonizante, e este era o pensamento predominante na cabeça da pequena.

Um carro esportivo se dirigia à um encontro fatal com a pobre menina, que após correr metros opostos ao seu destino, ainda era perseguida por um motorista desconhecido. Era trabalhoso descobrir se o condutor do veículo queria atropelá-la ou apenas não possuía mais controle da situação.

Porém a salvação era possível, se conseguisse correr aproximadamente vinte metros, atravessaria a linha do trem da cidade. Transporte que, por coincidência, se aproximava cada vez mais. Se fosse capaz de atravessá-la antes do trem chegar ao seu alcance, os condutos se chocariam, e ela estaria salva do outro lado da rua.

Suas pernas não aguentavam mais seu corpo, o suor escorria pela testa e seus punhos fechados se contorciam freneticamente. Quase não entrava ar em seus pulmões, e para piorar seu cabelo solto dançava com vento e bloqueava boa parte da visão, embaçada pelo nervosismo. Várias pessoas gritavam e entravam em suas residências para se esconderem do acidente. Algumas tentavam conduzir a garota, porém não se arriscavam por ela.

Por mais que se esticasse, ela estava a cada segundo mais longe de sua velhice pois o carro se aproximara em um curto período de tempo. O choro da pobre alma intensificou quando viu o trem passando em sua frente à alguns passos de distância.

De repente sua vida era mais valiosa que seus pertences. Tudo que conquistou em seus melhores anos não fazia mais sentido, afinal, morreria apenas com um par de sapatilhas, uma blusa fina e short jeans, nem ao menos seu celular a acompanharia pela passagem. A encontrariam com seu corpo largado em um asfalto antigo, e com o cabelo embaraçado e molhado de suor, devido à corrida repentina ao vento forte.

Quando olhou para trás, o sanguinário estava tão perto que era possível se ver no reflexo do capô preto. Subitamente, lembrara que em toda a sua vida agiu como covarde, uma pessoa fraca, incapaz de se defender de outras crianças e adolescentes; sempre fugiu de seus medos, e por isso, ainda possuía pavores de quando era criança. Seu orgulho e corpo, já fraco, esvaeceram.

Fechou os olhos, cerrou os dentes, e expirou o ar que lhe restava em seus pulmões. No momento em que relaxou seus músculos, seus pensamentos voaram pelo céu, e inesperadamente, sentiu uma brisa refrescante percorrer todo o seu corpo.

A garota abriu os olhos e se viu caindo da cadeira de sua escrivaninha, ainda sem entender o que aconteceu permaneceu imóvel uns segundos, tentando decifrar se o que passou foi apenas um sonho. Olhou para seu corpo e percebeu que estava com outras roupas, em seu quarto e com a janela aberta, permitindo a entrada do murmúrio das árvores de seu quintal.

Levantou-se e viu que acima de sua escrivaninha havia seus resumos que estudava para a prova de química. Compreendeu que pegara no sono enquanto lia os papéis à noite, seus pensamentos se acalmaram e sua respiração tornou-se menos fatigante. Verificou o horário em seu celular e se apressou para um banho quente, no qual ela tinha esperança que a acalmasse.

Antes de tirar a roupa, acabou se olhando no espelho, e o modo como seus olhos, castanhos claros, brilhavam causavam temor, estavam inchados e vermelhos; seu cabelo, castanho escuro, estava opaco e eriçado; a pele clara ainda continuava a voltar para o tom natural.

Por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar no sonho que tivera, não pelo fato de ter sido atropelada, mas pelo rumo que seus pensamentos tomaram. “E se realmente for verdade? Não conquistei nada que realmente valesse a pena, tudo que tenho não servirá como um legado respeitável. Por mais que eu tenha mudado, ainda sou fraca, solitária e triste. ” Julgava.

Após o banho, que não foi tão relaxante como esperado, a protagonista Natalie voltou ao quarto para arrumar seu material pois faltava uma hora para começar a prova de matemática em sua escola.

Enquanto descia as escadas, meio desajeitada, a pequena conseguia ouvir sua família rindo durante o café da manhã. Logo estampou um sorriso quando viu a cena. Começou a sentir medo de não poder presenciar aquela reunião todos os dias... E se aquele sonho fosse verdadeiro? Morreria com poucas memórias felizes como esta, e todas, apenas com sua família e poucos amigos que tinha.

A partir daquele momento ela prometeu a si mesma, que mudaria seu interior e faria seu máximo para alcançar seus sonhos. Até porque o máximo que aconteceria seria conquistar algo diferente do que planejou, não tinha nada a perder. O aprendizado do sonho era claro:

O que você fez da sua vida até hoje? O que conquistou? Algumas dessas conquistas incluem memórias, laços afetivos e um legado honrável? Se a resposta for não, presumo que já sabe o que fazer!

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