Notas iniciais
Não sei o que dizer. Apenas que deixe, por favor, sua opinião sobre essa loucura. Obrigada.

E mais uma noite. Mais uma noite que resolvi passar em claro naquele banco de pedra que já sentiu muita ventania. Tudo por causa das benditas estrelas, que — felizmente — resolveram brilhar mais hoje. Provavelmente porque hoje o meu vizinho não está bêbado e não tem nenhuma garota com ele. O pobre garoto só está esparramado no outro banco.

Preferiria poder ficar aqui sem mais ninguém. Somente eu e minha luneta. Mas tenho que partilhar o vento, as estrelas e — ocasionalmente — o banco, com o porteiro e demonstrar alguma simpatia por responder suas perguntas. Nem sempre é ruim. Às vezes posso contar sobre coisas que ninguém, em posição de me julgar, pode saber. Como, por exemplo, que semana passada roubei a chave do zelador da escola e peguei suas garrafas de vodka que estavam escondidas na gaveta de fundo falso.

Também que almocei somente com a minha pessoa por quase dois meses, até que fizesse algumas amizades. Não me ajudou em muita coisa. Aquelas pessoas não são nem de longe uma boa influência. Mas meus pais não precisam necessariamente saber disso. Só o porteiro. O velho porteiro que me deseja bom dia mas nunca soube o meu nome.

Hoje é sexta-feira e eu poderia estar na festa de um dos caras populares da escola. Nem sei como recebi um convite para isso. Não sou exatamente o tipo de pessoa que curte barulho alto e uma multidão se roçando em mim. Talvez o pretexto para beber fosse o suficiente para enganar meus pais e escapulir para lá. Mas é sexta-feira. É dia de sair de casa na madrugada para observar as estrelas com a luneta enferrujada e sentir o vento zunir em meus ouvidos. E conversar com o porteiro.

Talvez hoje seja uma sexta-feira diferente. Escapei de casa por um motivo menos poético. Vou observar as estrelas, mas não só com a minha companhia. Tudo por um erro de olhar que cometi algumas semanas atrás. Encarei tempo demais alguém bem mais alto do que eu. E agora posso abraçá-lo.

Deveria contar essa história pelo menos para o caderno. Não foi uma causa muito nobre, pelo menos ainda sinto um pouco de culpa. Ele tinha uma namorada bonita que fazia parte do grêmio escolar e sempre se sentava com ela alguns metros à frente de onde eu ficava. Eu só almoçava com as mesmas pessoas de sempre em uma mesa de pedra na clareira perto dos laboratórios químicos.

Na verdade, nunca me percebi olhando para ele. Sempre foi uma característica típica minha, olhar para o nada enquanto as outras pessoas conversam. Nunca reparei que ele me olhava de volta, enquanto sua namorada dizia coisas sobre unhas e cabelos da moda. Só me dei conta do que fiz por quase um mês quando estava sentada sozinha — em um dia em que minhas 'queridas' amigas resolveram cabular aula para fumar maconha e tomar vodka de avião — e ele terminou com ela, ali, na frente de todos. E depois foi caminhando em minha direção. Perguntou se tinha alguém sentado ao meu lado, e tirei minha mochila de lá, negando com a cabeça.

E, quando finalmente o ar estava denso e tenso o suficiente para que eu me encorajasse para levantar dali, ele segurou meu braço. Disse que me seguiria até a em casa depois da aula e que me convenceria a abrir a janela quando tacasse pedras de piche nela. Sorriu. E me deixou ir.

Agora posso abraçá-lo todos os dias. No campo onde passa a pista de corrida, onde ninguém preocupante passa- só alguns caras que já venderam neurônios o suficiente para sua idolatrada cannabis sativa. E nas madrugadas de sexta-feira, como hoje, em que espero meus pais e minha irmã dormirem para que eu possa sorrateiramente sair pela porta e voltar alguns minutos antes da típica ida ao banheiro de meu pai, que inclui uma inspeção em mim e em minha irmã.

Neste momento, por exemplo, Peter já chegou e está descansando sua cabeça em meu pescoço e eu posso sentir sua respiração quente, enquanto ele sorri para cada palavra que escrevo. Ou agora, em que fica mudando as mãos de posição enquanto me abraça, o que faz cócegas em minha barriga.

Isso me faz lembrar das histórias que conto para a pequena garotinha loira de oito anos que dorme no quarto ao lado do meu. Histórias em que princesas são sempre abraçadas e erguidas por príncipes ou cavalheiros em armaduras reluzentes. Reluzentes como o brilho dos olhos dela quando entreguei sua pulseira de irmandade. Espero que não cresça para ser como eu.

Provavelmente eu deva sofrer algum tipo de psicopatia invertida. Onde as pessoas normais são loucas para comigo. Ou talvez o mundo só seja mesmo cruel e a estrada de tijolos amarelos para a minha sanidade esteja precisando de reparos. Não consigo pensar para escrever. Há muitos beijos sendo desferidos nos meus ombros.

Talvez nem exista uma diferença entre sanidade e loucura. Depende da estática que há no lugar vazio onde seu imaginário se esconde. Depende da eletricidade que seu corpo comporta ao esquecer o sentido da vida e ganhar um novo. Depende da pouco modesta narradora dessas palavras patéticas, que são escritas por uma pessoa que veste pijama de raios neste momento.

A maioria das pessoas não está propensa a viver como vivo. Com bebidas, alguns cigarros ocasionalmente, um garoto mais velho que vai para a faculdade daqui a alguns meses, e uma família que pouco sabe disso. Ou talvez saiba. E só finja não saber para brigarmos um pouco menos.

Por isso Sarah, digo, minha irmã, deve crescer e ser diferente de mim. E que ela não estrague essa idade como eu provavelmente estraguei. E não tenha um porteiro velho para a ouvir, mas que confie em sua família, ou em mim.

Me esqueci o que realmente gostaria de dizer. O velho porteiro está olhando para mim e Peter ocasionalmente, talvez só agindo como adultos agem.

Pessoas não estão supostas a saírem no meio da noite para encontrarem outras pessoas. Ou para observar as estrelas e decorar suas posições a cada estação. Ou para sentir frio e ter seus cabelos embaraçados pelo vento. Ou para serem dogmáticas, como eu.

Daqui a algumas horas meus pais vão se levantar e levar minha irmã para um parque de diversões e comemorar seu primeiro prêmio de ballet por sua apresentação no final de semana passado. Então Peter vai dormir comigo essa madrugada. Vamos ouvir músicas que lembrem lobos uivando e cantá-las em sussurros no ouvido um do outro. E na inspeção de meu pai, ele vai estar escondido debaixo do meu edredom vermelho tamanho família, enquanto atrapalha a minha imitação de voz de sono dizendo que está tudo bem.

E mais uma noite. Em que sinto falta da minha inocência roubada. Em que as estrelas brilham fervorosamente acima de mim. Em que a luneta enferrujada — que um marujo deu para minha avó quando tinha a minha idade — me lembra da velhinha que me criou e agora deu o brilho de seus olhos para mais uma bola de nitrogênio queimar lá no espaço.

Em que eu continuo sendo pragmaticamente cética. Em que Peter me abraça, se esconde em meu cabelo, enquanto cresce, e me convida conscientemente — com um sorriso contido — a cometer algo imoral. Em que o mundo não faz sentido. E em que, finalmente, a lua relata tudo e sorri minguante, prometendo guardar todos os segredos que um dia surgiram comigo.

Mais uma noite em que somos esquecidos.

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