Reflexos Oblíquos

23 23. Maioridade (existencial/desilusão)


Primeiro me apresentaram nuvens de algodão doce,

me mostraram estradas de tijolos amarelos.

Me disseram que se andasse debaixo do sol, não haveria lobos à espreita.



Mas o sol logo se foi

e a estrada dourada se tornou um beco escuro.

O caminho terminou ‘ao pé de uma parede sem porta’.

Não havia como seguir...

E a escuridão me impedia de voltar.

O sol não nasceu de novo e se nasceu não percebi.



Sentei e esperei e perdi a conta dos dias,

até que chegaram com lanternas gritantes aos olhos,

em questão de minutos pintaram portas nas paredes,

e me disseram ser o meu ponto de partida...

Mas logo vi que eram apenas portas partidas,

partidas portas pintadas,

e que a parede nunca fora quebrada,

embora fosse feito do que de quebrado em mim havia.



Mesmo assim encarei e subi o muro

e do outro lado vi um quadro preto e branco mofado.

Um mundo mumificado, embalsamado, mas morto,

pessoas partidas pintadas simetricamente

como se Rafael fosse deus.

E como um pingo indesejado de tinta

caí sem querer e me fiz o defeito do quadro,

eu e mais tantos outros respingados na limpeza do pincel.

Um mal necessário à pintura,

não digno de interpretações.



E é como se eles soubessem,

mas insistem em apresentar

parafernálias pintadas,

espelhos que não refletem,

tecidos sem cor.



Insistem

e quanto mais insistem a bruma se adensa,

a escuridão fica mais gritante

e minha parede cada vez maior.


(10/09/2005 a 14/10/2005)