Reflexo
1 Meu espelho
Notas iniciais
Não era para aquilo estar acontecendo. Não é possível que o universo seja tão cruel. Não é possível que essa divindade que fornece milagres, bondade e justiça tenha deixado acontecer isso com ele.
Senti a brisa suave em meu rosto e suspirei pesadamente. Virei-me devagar para o quarto, fechando a janela. O quarto não era como antes. As coisas estavam no mesmo lugar, entretando a cama que fora retirada dali comprovava que nada estava igual. Senti um torpor tomar conta do meu corpo quando olhei para o grande espelho que ficava ao lado da parede da cama.
Ele era tão parecido comigo, praticamente podia vê-lo enquanto observava o reflexo cruel que espelho fornecia. Via os mesmos cabelos tão escuros refletidos, a mesma pele branca, o mesmo nariz fino e a mesma boca em formato de coração. Mas o que mais me causava dor no reflexo eram os olhos: azuis como o céu em um dia de verão. A única e dolorosa diferença era que os meus não brilhavam, não mostravam uma luz de felicidade e tenho certeza que não funcionavam como um “espelho próprio”, sim, eu conseguiria ver o meu reflexo se observasse com atenção os olhos dele. Meu espelho preferido.
Acontece que meu espelho quebrou.
Meu irmão era a única coisa que me alegrava, minha imagem melhorada mil vezes. Ele era gentil, fofo, alegre, lindo, divertido, e tinha a incrível habilidade de me fazer sorrir mesmo quando estava deprimida. Às vezes eu acreditava que ele era o motivo pelo qual eu vivia. Que era por ele que eu levantava todos os dias.
Onde está a justiça de que todos falam? Onde está a beleza na vida de que todos falam?
Perdi todas as crenças quando aconteceu; estávamos passeando, xeretando na rua como duas criancinhas sapecas (de fato ele era uma criança sapeca, só tinha sete anos!).
Flashes invadiram minha mente, quando finalmente tirei os olhos do maldito espelho. O dia do acidente voltou como um trem-bala, rápido e potente.
Corríamos pelo parque alegremente, o risinho doce de Henry chegava aos meus ouvidos como uma melodia. Ele parecia tão feliz, tenho certeza que nenhuma pessoa tinha um espelho como o meu.
— Comporte-se, Henry! — Minha voz soou, parecia tão alegre. — Não te trago mais ao parque se você aprontar. — A repreensão parecia boba, só a fiz porque ele se distanciou um pouco em direção à rua.
— Você é chata, Lily! Deixa eu brincar. — Apesar de tentar parecer emburrado, seus olhos brilharam mais que o normal e ele não conseguiu conter o sorriso.
Deixei.
Observei distraída enquanto ele tentava subir em uma árvore, mas era baixo demais para isso, então dava pulos e esticava as pernas desesperadamente tentando subir. Parecia um macaco com dor.Quando esticou a perna demais para frente ela bateu com força na árvore e ele escorregou, pude ver seus olhos se arregalando de susto e seu traseiro batendo com força no chão. Ele ficou lá, parado no chão, respirando descompassadamente enquanto eu andava até ele, com um surto de gargalhadas.
— Eu falei para se comportar —, disse a ele, colocando a mão sobre a boca para abafar o riso. Henry me lançava um olhar muito irritado e um pouco magoado. Espelhinho emburrado!
— Tá bem — ele murmurou, levantando-se e correndo para a árvore de novo. Um macaco com dor persistente.
— Olha, Lily! — ele disse algum tempo depois, após ter desistido da árvore “insubível” e nós estarmos caminhando de volta para casa. — Você parece uma baleia! — Segui seu braço esticado em direção ao outro lado da rua, onde um espelho que distorcia imagens estava como vitrine de uma loja de conveniência.
Eu estava estranhamente rechonchuda no reflexo, meu quadril estava muito largo e minha cintura parecia que ia explodir, minha cabeça parecia um balão. Henry estava mais baixo que o normal, gordo, com uma cabeça de amendoim enorme. Ri da animação dele com o espelho e mal notei sua mão escorregando da minha.
— Vou ver como fica mais de perto!
Eu levei um tremendo susto quando percebi que ele estava a cinco metros de mim, correndo em direção ao espelho e atravessando a rua. Mal notou quando uma picape em alta velocidade veio em sua direção.
Lágrimas cruéis escorreram pelo meu rosto enquanto eu abria os olhos e voltava novamente minha mente para o carro que o atropelou e para o maldito espelho.
A impotência te domina,
Oh, doce menina,
Se a alma permite,
O corpo não resiste,
Se o coração chora,
O desespero não vai embora,
Se o espelho reflete,
Não é preciso uma enquete,
A verdade está por ali,
Bem na sua frente, aí.
Eu sussurrava os versos, porque eles eram perfeitos no momento e minha mente queria se torturar, maldita. Lembrei do tempo em que eu gostava de escrever poemas, mas não conseguia fazer isso há semanas. Não era a mesma coisa, não conseguia me concentrar na folha de papel. Minhas notas escolares despencaram, meu quarto estava uma bagunça.
Maldito espelho.
Por que espelhos existem? Se não fossem por eles meu irmãozinho ainda estaria vivo! Um espelho acabou com o meu próprio espelho. Não conseguia compreender de onde vinham tantos pensamentos sem sentido, simplesmente não podia controlá-los.
Hoje faz um mês que Henry morreu, na hora, sem chance de sobreviver.
Maldito espelho.
MALDITO ESPELHO!
Minha mente gritou enquanto lançava o abajur em direção ao grande maldito do quarto. Os cacos se despedaçaram por todo o chão, do abajur e do espelho.De certa forma aquilo me proporcionou paz, por um momento. Depois minha mente insistiu em lembrar-se de Henry e senti como se o tivesse quebrado.
— Mas eu o quebrei —, sussurrei para o vento, sem ninguém para ouvir.
Se eu não tivesse levado ao parque, se eu não tivesse soltado sua mão, se eu tivesse sido mais atenta. Se aquele espelho não estivesse lá!
Não conseguia parar de pensar em espelhos.
Espelho, espelhos, espelhinhos, espelhão.
Todos culpados, todos! Eles tiraram minha vida, meu espelho.
Saí do quarto praticamente correndo, desci as escadas e logo cheguei à pequena cozinha, da pequena casa. Minha mãe, uma mulher morena de olhos claros e embriagados, estava sentada na mesa da cozinha com um copo de uísque em mãos. Ela era uma bêbada, negligente ao extremo, deve ter ficado assim depois que meu pai morreu, cinco anos atrás, eu tinha dez anos e Henry dois. Eu tive que cuidar dele, pois ela não fazia seu papel de mãe. Ela reagiu de jeito monótono a morte dele. Eu era mais mãe do que ela. Henry era meu irmão, praticamente meu filho.
Saí porta afora sem nem ao menos falar com ela, e corri pela rua rapidamente. Enquanto minhas longas pernas trabalhavam, minha mente também agia. Pensava no modo em que a morte de Henry fora tratada, as autoridades não deram muita bola, o motorista alegou que a culpa fora de Henry e acreditaram, suspeitava de que elas tivessem sido subornadas, o cara parecia bem rico. Torci para que ele visse um monstro no espelho.
O sepultamento e enterro foram simples, com alguns amiguinhos chorosos de Henry e seus pais que não paravam de me encarar com pena. Não queria a pena deles, mas era digna dela.
Eu sabia que ele merecia mais que aquilo, e me chateava muito com o modo que ele recebeu muito menos do que merecia. A chateação virava raiva. A raiva virava ira. A ira beirava a loucura.
Senti-me mesmo louca quando parei em frente ao espelho da loja de conveniência, tentando ao máximo não olhar para a rua, onde ele morreu. Peguei uma pedra de tamanho considerável no chão e me distanciei um pouco para a beira da grande calçada. Uma força bem-vinda caiu sobre meus braços quando lancei a pedra na vitrine, no espelho que motivou meu Henry a atravessar a rua. Assisti com prazer enquanto o espelho se despedaçava.
Dois espelhos quebrados em um dia, quatorze anos de azar? Não me importava.
Não fazia sentido ter um espelho na vitrine, já que os clientes não iriam ver o interior da loja, mas sim só a si mesmos, o dono da loja que compre um vidro decente para a vitrine e me deixe com minha vingança.
Sorri amargamente enquanto lágrimas caíam de meus olhos. Um pouco de alívio encheu meu peito e lembrei-me de todos os momentos bons que meu irmão me proporcionou. Saí correndo pela rua, ofegante, antes que alguém visse o que fiz.
Virei de maneira desajeitada uma esquina e senti meu corpo bater em algo e ir em direção do chão. A tontura me deixou incapaz de levantar.
— Ôpa! Foi mal. —Uma voz rouca e grave exclamou. —Me desculpe! — Uma mão se estendeu em minha direção e ajudou-me a levantar, já que eu fui incapaz de fazê-lo sozinha.
— Tudo bem —, respondi, levantando os olhos devagar e vendo o contorno de um garoto loiro de uns dezesseis anos. Apenas um ano mais velho do que eu. — Não tem proble...
Meus olhos finalmente encararam os seus.
Eram de um azul muito escuro, mais escuro que os meus e que os espelhos de Henry, meu eterno Henry. O que me deixou extremamente sem palavras foi um vislumbre meu que tive dentro de seus olhos expressivos.
Oh, espelho.
Maldito e traiçoeiro espelho.
Lindo espelho.
Mais um espelho.
Mais um espelho meu.
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