Reflexo

1 Capítulo único.


Olhava-se no espelho. Espelho simples, de suíte de hotel barato, as bordas estavam desgastadas e não refletiam mais nada além de manchas negras.

Tentou limpar o suor da testa, suor frio, mas o que conseguiu foi espalhar mais ainda o sangue esparramado na sua cara. Pelo reflexo do espelho velho podia-se ver o sangue pingando entre os dedos de um corpo estirado na cama e caindo no chão, gota a gota.

Automaticamente, levou a mão à toalha desbotada, mas parou no meio do ato. Não podia haver digitais, fios de cabelo, saliva e o diabo a quatro das pistas que sempre levavam o criminoso a prisão nos seriados de investigação.

Já recuperado do choque, levou as mãos respingadas de sangue aos seus óculos. Novamente se observou no espelho. Não tinha cara de assassino, ninguém iria suspeitar dele. Era apenas um gerente, recém-separado, sem filhos, hospedado numa suíte de hotel de quinta categoria. Tentou esboçar um sorriso, mas o que conseguiu foi entortar os finos lábios. Respirou fundo.

“Hora de limpar a sujeira”

O corpo era de uma mulher, devia ter seus quarenta anos. Estava seminua e o sangue a cobria quase completamente até o abdômen. Havia um rasgo de aproximadamente dez centímetros em sua garganta. Os cabelos cacheados e curtos, também estavam empapuçados de sangue. A arma do crime, uma faca de cozinha, estava largada ao lado da defunta.

Quando olhou para a mulher, conseguiu esboçar um sorriso. Não sabia mais o que sentia, não sabia mais se sentia, não sabia de mais nada.

“Como você pode ser tão burra? Eu te dei tudo o que queria, tudo o que podia dar, mas mesmo assim...”

Não completou o pensamento. A cena de outro homem por cima dela, e os dois gostando da situação lhe veio a mente. A traição.

Ela não sabia falar em público, era tímida, desajeitada, não gostava de eventos sociais, tinha poucas amigas e se limitava a manter contato com elas pelo telefone. Ele se garantiu demais, pensando que, por essas características, ela jamais pensaria em traí-lo com outro homem.

“Qual homem a desejaria afinal? Casada, sem estudos, com mais de quarenta anos... é... é fora dos padrões!”

A imagem de uma criança qualquer lhe ocorreu. Ela tem vários brinquedos, mas só brinca com um deles. Quando alguém tenta retirar um dos brinquedos abandonados, a criança chora, esperneia, geme, rola pelo chão, implorando pelo seu brinquedo, antes esquecido e agora essencial.

Ele não lhe dava atenção. Ela não despertava seus sentimentos. O amor esfriara.

Não lia livros, mas lembrou-se da poesia (cujo autor esquecera o nome) em que dizia que "Amor não deve ser mantido em banho-maria”. Talvez esse verso representasse bem a relação do ex-casal. O amor ardente na juventude, ainda quente nos primeiros meses de casamento e morno no final.

Quando chegou em casa e tornou-se voyeur da cena de infidelidade da esposa, ficou paralisado, gritou algo que fez o amante levantar-se rapidamente e, ainda nu e com roupas amarrotadas na mão, sair correndo pela porta a cozinha. A traidora ficou enrolada com os lençóis, gemendo de dor, não dor física, mas a dor da consciência.

“Você era só minha... e agora é minha e dele, não posso aceitar.”

Acariciou o rosto ensanguentado da mulher e fechou seus olhos com a ponta dos dedos. Mesmo morta e coberta de sangue, continuava bonita.

Compraria uma serra e a cortaria em pequenos pedaços, colocaria em sacolas e depois no porta-malas do carro. Mas antes limparia o local.

Mudou-se para um hotel barato, não iria conviver com a adúltera até a separação sair oficialmente. Ela lhe telefonara mil vezes, queria conversar, se desculpar. Mas o frio, inflexível e traído gerente de uma loja de móveis jamais permitiria.

“Não quero falar com você!”

“Só quero conversar!”

“Vou desligar o telefone.”

“Quero metade da nossa casa, já falei com advogado. Não vou sair com uma mão na frente e outra atrás.”

“Hoje, às dezenove...”

O pretexto da casa funcionara. Na verdade, estava se danando para os bens materiais.

“A casa era da minha mãe, não vou te dar...”
“Que se foda a casa, eu quero é você, nosso casamento! Nossa vida! Existe maior bem que esse?”

A voz doce da esposa tornou-o mais quente, flexível, porém quando estavam na cama se agarrando, se despindo... lembrou-se que fora traído. A companheira mordia-lhe o pescoço, tentando reviver a chama da paixão já apagada, arranhava suas costas, e apertava suas coxas contra as dele.

O azar da mulher foi o marido ter olhado para o espelho velho na suíte. O espelho refletia a imagem dos dois, quase inteiramente nus, se agarrando na cama que rangia. O espelho se tornara voyeur da cena, assim como o marido naquela noite. O maldito espelho o fez sentir aquela dor, o desespero, o ódio que só os traídos já sentiram.

A faca estava pousada, no pequeno móvel ao lado de um abajur que não funcionava. Ela nem gritou, o único ruído foi de alguém que parecia estar engasgando ou fazendo gargarejo. O sangue sujara quase tudo no raio de dois metros.

Agora lá estava ele, o traído e, agora, vingado, cortando a mulher e depositando os pedaços em enormes sacolas pretas.

Ligou a TV e aumentou o volume, para abafar o som da serra, passava o noticiário das oito. Era um noticiário sensacionalista em que um senhor baixinho e gorducho gritava diante das câmeras, reclamando de políticos corruptos, burgueses arrogantes e assaltantes de loterias.

“Olha só, esse aqui espancou a avó porque ela negou dar cinquenta reais? Sabe por que ele queria os cinqüenta reais, hein, hein?! Pra comprar drogas, minha gente!”

A enxurrada de desgraças do dia era jogada sobre o assassino que terminava de multilar a ex-companheira. Limpou o quarto com o que tinha e levou as sacolas para o porta-malas do carro, no estacionamento ao lado do hotel.

Queria fazer algo a altura de filmes de suspense. Pensou em enviar o coração da defunta para o amante, porém desistiu. Nos tais seriados de investigação, o criminoso enigmático que deixava pistas sempre era preso. Contentou-se em enterrar os restos mortais da mulher em uma mata numa pequena cidade próxima, lá era ficaria em paz e esquecida.

Tentou levar a vida como pode, não teve problemas com a polícia embora tenha sido considerado suspeito em relação ao desaparecimento. Jogou a culpa no amante.

“Aquele filho da puta que se resolva caso a polícia o encontre.”

Retirou todos os espelhos da casa. Quando olhava em um deles, não via seu reflexo e sim um casal transando em cima de uma cama, provavelmente em um hotel barato, e alguns segundos depois, o homem cortava a garganta da mulher. A mesma cena era repetida várias vezes, até nas vitrines das lojas, nos vidros dos carros. Era um constante observador de uma cena de sexo seguido de morte.

Aquele era o fantasma que ele teria que aprender a conviver pelo resto a sua vida. O reflexo delator, as lembranças de um traído assassino de uma adúltera brutalmente assassinada e enterrada. Era o reflexo da sua alma, do seu pecado e de seu coração traído.

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