Notas iniciais
Espero que gostem.

“Dorian,” he said, “my letter—don’t be frightened—was to tell you that Sibyl Vane is dead.”

Reflexões de Sibyl Vane

Seu rosto, seus braços, seus olhos. Sua boca perfeita colada na minha.

Dorian Gray era o príncipe encantado dos contos de fada que minha mãe contava à mim e meu irmão quando éramos criança. O cavaleiro de armadura brilhante que me salvaria da pobreza e que me levaria ao seu lindo castelo. Eu me imaginava formando uma família com ele; sentados juntos na varanda vendo nossos filhos brincarem no jardim. Envelheceríamos juntos e seríamos felizes para sempre.

Nunca soube como Dorian pôde se interessar por mim. Nenhum rapaz rico cortejaria uma garota como eu. A não ser que fosse louco, ou se tivesse segundas intenções. Mas ele se mostrou um verdadeiro cavalheiro, que me amava de verdade e não se importava com as normas bobas da sociedade.

Ele me visitava todos os dias e me cobria de presentes caros, vestidos e jóias que faziam uma pobretona do subúrbio de Londres parecer uma dama. Meus colegas de trabalho me invejavam por isso, e reclamavam sobre como minha relação com Dorian afetava minha atuação e me impedia de ser uma boa atriz. Eu passava mais tempo com ele do que treinando minhas falas, e faltava aos ensaios para passear pela cidade em seus braços.

Mas eu estava tão cega de amor e adoração que não percebia o que estava acontecendo comigo. Então, me entreguei de corpo e alma à ele, sem pensar nas conseqüências do que estava fazendo. E sabia que me arrependeria.

Ao que os dias passavam, pude perceber que Dorian cultivava uma adoração por Lord Henry. Eu já tinha ouvido seu nome pela cidade, e sabia que não era uma boa pessoa. Não me importava que fossem amigos, mas ouvir suas palavras calculistas sendo repetidas pelo meu amado me alarmou. E assim, levado mais uma vez pela persuasão de seu amigo repugnante, Dorian concordou em levá-lo para me assistir.

E finalmente percebi que talvez os outros tivessem razão sobre minha falta de ensaio. Não fui uma boa Julieta aquela noite. Não esqueci nenhuma fala, nem tropecei nas palavras; foi a falta de sentimento que condenou a peça. O homem atuando ao meu lado não era meu verdadeiro Romeu. Assim, não consegui transmitir o amor que o público esperava. E decepcionei meu principal espectador.

Tivemos nossa primeira briga: nunca havia visto Dorian tão furioso. Ele gritava sobre como eu o envergonhara na frente de seus colegas e o que havia de errado comigo aquela noite. Fiquei arrasada quando o vi partir, sabendo que ele não voltaria.

Quando me vi abandonada, não soube o que fazer. Eu sabia que devia ter comentado sobre os enjôos e dores de cabeça que tinha sentido nas últimas semanas. Se eu contasse que estava de fato grávida, talvez ele mudasse de idéia e voltasse para os meus braços. Casaríamos e seríamos uma família feliz, como nos contos de fadas. Mas contos de fadas não existem.

Quando percebi a situação que me encontrava, já era tarde demais. Mamãe me expulsaria de casa se soubesse da criança que carregava, e meu irmão James ficaria cheio de desgosto por minha falta de cuidado.

Assim, estudei minhas opções: dar à luz ao meu filho ou filha, e ser vista como a ovelha negra da família; fugir e começar uma vida nova ou implorar a Dorian que me aceitasse como sua esposa. Nada parecia certo. Então uma idéia surgiu em minha mente. Era repugnante, mas meu desespero falou mais alto do que meu bom senso.

Atrás do teatro haviam sido plantadas algumas árvores, que ultimamente estavam sendo atacadas por vários insetos. A substância que usavam para matá-los, em boa quantidade, devia ser o suficiente para impedir essa criança de se desenvolver. Era errado, e me sentia suja, como se estivesse prestes a cometer um assassinato (o que de certa forma, era verdade). Mas eu sabia que não suportaria saber que meu querido bebê teria os traços dele.

Olhei para a garrafa em minha mão e suspirei. Já tinha me decidido. Deixei o líquido penetrar minha garganta e esperei. Não senti nada no primeiro instante. Comecei a chorar, pensando que meu plano não funcionara e que continuava carregando um fardo dentro de mim. E, de repente, senti a dor mais terrível de minha vida.

Era como se eu tivesse sido atirada em uma fogueira, mas as chamas ardiam dentro de mim. Não conseguia respirar, e caí no chão me contorcendo em agonia. Cada pedaço do meu corpo latejava, criando a sensação de que eu estava derretendo. E naquele sofrimento, por mais incrível que pareça, encontrei paz, ao fechar os olhos e lembrar-me do maior e mais belo erro que cometi.

Dorian Gray foi a razão de minha vida, e o motivo de minha morte.

Notas finais
Eu sei que o livro não comenta nada sobre uma gravidez, mas achei combinava com a história. Além disso, trouxe um pouco mais de drama, coisa que eu adoro.
A "substância" que a Sibyl usou é ácido prússico, também conhecido como ácido cianídrico. Um trecho do livro mostra o Lord Henry comentando que talvez ela tivesse engolido isso por acidente.
Enfim, espero que tenham se divertido com a leitura. Não esqueçam das reviews! Beijos, Mari.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!