Refletida
4 Eles
Notas iniciais
P.O.V Alexa
Acho que Lucy não entendeu direito qual era o objetivo daquilo. Jude não parecia muito feliz, mas eram raras as vezes que ela realmente parecia feliz. Liam não está falando comigo, mas parece disposto a participar daquele plano maluco e absurdo. Melissa está inconsolável.
Às vezes olho para o meu passado e meu presente e percebo o quão insana estou sendo. Como posso estar querendo largar tudo por conta de um cara considerado louco e que se suicidou? Um cara que era meu pai. Ainda que tudo parecesse muito lógico, era tudo muito insano. Eu me via perdida em uma coisa tão complexa... um paradoxo bem maior do que meu cérebro era capaz de suportar.
No dia seguinte, Lucy aparece em minha casa com três grandes malas cor de rosa. Acho que ela pensa que vai para alguma espécie de acampamento, não para uma suposta guerra entre espécies intergaláticas. Tá certo. Dito desse modo, a coisa parece bem absurda, mas acredito com todas as minhas forças que não pirei. Ainda.
Melissa estava com duas mochilas pequenas pretas. Jude e Liam foram para casa assim que elas chegaram e pegaram algumas roupas também. Estou arrumando minhas malas nesse momento.
Me pergunto quando foi que ficou subentendido que íamos embora.
Duas horas depois estamos todos reunidos em minha cozinha. Jude obrigou Lucy a diminuir suas três enormes malas a uma só, mas Lucy não ficou muito feliz com isso. Jude carregava uma bolsa velha e surrada. Ela gostava de fazer o estilo “roqueira”, rebelde, desleixada, mas a verdade é que era somente uma garota fingindo ser durona para se proteger.
Ela vem de uma família rica, com tudo do bom e do melhor, menos uma coisa: o afeto. A única pessoa de sua família que ela realmente considerava da família era sua irmã mais velha, mas ela morreu em um acidente de carro há alguns anos, desde então ela não era a mesma.
Enquanto isso, Lucy era seu extremo oposto. Apesar de também vir de uma família rica, Lucy era extremamente mimada e seu cérebro parecia ser feito de mingau. Não é uma ofensa, apesar de ser. Amo muito ela, ela é muito minha amiga, mas ela é tão... tapada, às vezes.
Melissa vinha de uma família não tão rica, mas confortável, financeiramente falando. Ela também era meio mimada e parecia não ter nada onde nós temos o cérebro, às vezes, mas ela mostrava seu verdadeiro eu, se assim posso chamar, em algumas poucas situações. Ela conseguia levar a sério coisas sérias, ao contrário de Lucy, que parecia ser tudo uma imensa e ridícula brincadeira de criança.
Liam era um rapaz engraçado, divertido, um amor de pessoa, o amigo que todas as garotas sonham e não, ele não era gay. Ele também é rico, na verdade, a única pessoa não rica em nossa restrito círculo de amizades era eu. Apesar de tudo, ele era desapegado, não como Jude, mas de um jeito melhor, de um jeito saudável. Além de tudo, ele era lindo. O namorado que todas as mulheres pediram a Deus. Menos eu, aparentemente.
E Jude. Jude é “durona” demais para se interessar por Liam.
Liam e Melissa conversam num canto. Melissa está toda sorridente, sua queda por Liam está mais evidente que nunca.
Lucy, Jude e eu estamos conversando sobre o que devemos comprar para “nossa fuga impossível”. Na verdade, só eu e Jude estamos conversando. Lucy, no auge da futilidade adolescente está tirando selfies repetidas vezes. Ainda não acredito em tudo isso. Parece tão infantil. Tão bobo. Tão surreal. Minha vida num momento era uma coisa sólida, todos os meus objetivos, metas e desejos definidos, prestes a serem alcançados. No momento seguinte, meu pai morre e eu começo a acreditar em suas loucuras.
Começo a achar que talvez ele não esteja certo. Começo a duvidar de mim mesma, dele, do meu julgamento sobre as coisas. Seria tão mais simples se eu nunca tivesse acreditado nele e em suas baboseiras malucas. E quando digo nunca, não falo somente daquela carta. Falo desde o princípio, desde os pequenos “surtos”, as pequenas histórias e supostas inverdades.
Talvez, se eu não fosse tão parecida com ele – se eu tivesse tido uma mãe outra pessoa para admirar e tomar como exemplo –, eu não acreditasse nele e nada disso estaria acontecendo.
Mas também me questiono se tudo isso for realmente verdade. Se a Terra realmente foi invadida por ETs parasitas que precisam de nosso corpo para sobreviver e que eles estão chegando ao Brasil. Que eles estão detonando tudo. Que as escondidas, todos os que conhecíamos estão sendo substituídos. Parece até um roteiro de um filme de Hollywood. Ou de um livro de aventura e ficção científica. Queria eu.
Mas todas as evidências parecem apontar para isso. Que papai está certo. Que ele não está louco. Que ele passou todos aqueles anos preso naquele lugar infernal, longe de mim, em vão. Que ele morreu em vão.
Uma lágrima rebelde e inútil escapa e escorre pela minha bochecha. Afasto-me das garotas e apresso-me em limpá-la. Não queria que percebessem o quanto estava fragilizada.
– Então, gente linda do meu Brasil. – chama Jude, toda sorridente e feliz. Me pergunto o quanto disso é forçado. – Prontos para fazermos compras?
Vejo Melissa se encolher um pouco pela visão periférica, sei que isso deve ser mais difícil para ela quê para nós. Imagino que, apesar de seus pais agora serem supostamente Almas alienígenas do mal, ela ainda deve amá-los.
Jude, no entanto, não liga para isso, como ela bem disse mais de uma vez, está “se fudendo” para seus pais. E agora que seu irmão fugiu para os EUA e a abandonou, sua mágoa impede de pensar nele.
Lucy, como eu já disse, ainda não acordou para entender o que está acontecendo. Mas, talvez, nem ligue em abandonar os pais, ela é muito... cabeça oca.
Liam e eu perdemos nossas mães muito cedo, e como uma versão masculina – e melhorada, devo acrescentar – ele logo veio perder o pai, não sem antes o dito cujo se casar com uma megera total enviada pelo Cão para atazaná-lo.
– Compras? – Lucy pergunta, diversão tingindo sua voz de amarelo e rosa neon. – Eu adoro compras! – ela exclama e começa – novamente – a pular no sofá como uma criança pequena. Às vezes me pergunto por quê eu ainda ando com ela...
Todos – principalmente Melissa, o que me choca, já que normalmente ela é a mais compreensiva – lhe lançamos um olhar de raiva e impaciência.
Olho para Jude. “Essa guria tá me tirando do sério.” quase posso ouvir sua voz quando ela me diz isso com os olhos e rio. Jude e Lucy, extremos opostos, nunca se deram bem. Aquela coisa de Yin e Yang nunca funcionou com elas.
– Bom. Acho que estão. – ela murmura, pega sua mochila, põe no ombro e sai da casa, fechando a porta com um pequeno estrondo.
“No que eu fui me meter?”, é a última coisa que penso antes de entrar no carro e dirigir para o supermercado.
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