Reencontros

2 Capitulo 2


Essa noite havia sido rápido fazer com que as meninas ficassem quietas, finalmente prontas para dormir. Geralmente as duas conversavam demais, queriam fazer outras coisas antes de relaxarem e Rosa demorava para sair do quarto. Dessa vez, havia sido tranquilo.

Rosa fechou a porta do quarto delas e seguiu para o seu logo em frente. Podia ouvir o barulho do chuveiro no banheiro do quarto. Sentou em sua cama, tirou o relógio do pulso e o colocou na cabeceira. Deitou na cama, respirou fundo e fechou os olhos. Quando soltou o ar pode sentir seu corpo finalmente relaxar. Abriu os olhos e manteve o olhar no teto. Pensou na nova rotina de férias das crianças que começariam amanhã, sábado. O tique nervoso começou a tomar conta de uma das pernas. Preciso conversar com Helena, lembrou. Fechou novamente os olhos com certa agonia crescendo dentro dela.

Os pensamentos foram cortados pelo toque de seu celular.

Estendeu a mão rapidamente na cabeceira, pegou o aparelho, olhou a tela e viu um número desconhecido. Sentou na cama, hesitou um pouco antes de atender.

— Alo? Quem fala?

— Rosa?

Engoliu em seco. A voz do outro lado do telefone lhe era tão familiar que seu coração bateu forte. A voz que lhe era intima desde o útero.

— Mãe?

Houve um silêncio de alguns segundos antes da resposta da outra mulher.

— Sou eu, minha filha. Como vai?

Rosa respirou fundo ainda surpresa pela ligação da mãe àquela hora da noite. Logo foi tomada por preocupações. Deve ter acontecido alguma coisa, alguém deve ter morrido ou...

— Mãe, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

— Não querida, não. Nada aconteceu. Só liguei para saber como você está.

— Ham... estou bem, mãe. Estamos bem. – Rosa por um momento não acreditou que ligou apenas para isso. Apesar da voz da mãe transparecer calma. A filha não conseguiu identificar alguma emoção no tom.

— Que bom, querida! Desculpe te ligar a essa hora...

— Desculpe, mãe. Mas como conseguiu esse meu número?

— Seu irmão me passou.

— Ah, claro. Não o vejo faz meses.

Silêncio.

— Ele está bem?

— Esta sim, Rosa. O verei ele esse final de semana.

Se ajeitou na cama, se perguntou onde a mãe estaria e como assim Rodrigo a veria no final de semana?

— Mãe... você está onde?

Ouviu a mãe limpar a garganta do outro lado antes de responder.

— Então querida, esse é o motivo pelo qual estou ligando. Queria te convidar para a festa de mamãe aqui em Minas. 90 anos.

— Você está em minas?

— Isso, querida. Uma longa história.

— Vovó dará uma festa? Quer que eu vá?

— Isso.

— Mãe, você sabe que me convidando você convida a minha família também, não é?

Rosa queria deixar tudo as claras quanto a esse convite que a pegou de surpresa totalmente. Não via sua mãe já tem quase quatro anos. Ela ligar do nada a convidando para uma festa da matriarca da família, que a ignorou como neta desde quando se assumiu homossexual para família aos 19 anos de idade, antes de sair de lá para cursar a faculdade de Letras, é um tanto como chocante. A possibilidade de voltar a cidade da família depois de 13 anos e encarar todos como a mulher que virou, era excitante e assustador ao mesmo tempo. Sem contar que reencontrar sua mãe iria ser... na verdade, ela não fazia ideia.

Dona Susana Garcia da Silva era uma mulher inconstante, imprevisível e intensa. Sempre foi a ovelha negra da família. Saiu de Minas logo após que Rosa foi embora para o Rio de Janeiro fazer faculdade. Susana gostava de viajar e então foi pegar a estrada com seu companheiro na época. Morou em Recife, Piauí, São Paulo e o mais recente Goiânia. A última vez que viu a mãe foi no nascimento de Maria Flor, onde ficou no Rio por cinco meses e depois foi embora. As coisas não estavam dando certo em casa com Helena, o puerpério e a bebê recém-nascida. Susana gostava de interver em coisas que não agradavam as mães de primeira viagem, Rosa e Helena.

Desde então, só se falavam via celular. Susana não voltou mais ao Rio, nem no período em que Clarice veio ao mundo. Mas sempre cuidou de saber como estavam. Porém há quase 1 ano que Rosa não recebia ligações da mãe. Chegou a perguntar ao irmão mais velho, Rodrigo, se sabia de algo há alguns meses atrás. Ele disse que ela teve algum problema com sua conta de telefone, mas que estava bem. Rodrigo conhecia um amigo que morava perto dela na cidade de Goiânia o qual disse a ele sobre sua situação.

Com isso, não a procurou mais e vice-versa. Se algo acontecesse saberia por Rodrigo.

Sua perna voltou a se balançar de nervoso.

— Claro, querida. Quero ver minhas netinhas. Minha mãe também precisa conhecer antes de bater os pés.

— Mãe!

— Ah, desculpe Rosa. Enfim. Além disso irei passar mais um tempinho por aqui. E, bem... queria saber se vocês poderiam passar as férias aqui comigo, sabe?

— Passar as férias... – Rosa se encostou no travesseiro, incrédula.

— Sim, filha. Você, as meninas, Helena... Poderiam ficar na nossa casa mesmo. Fiz uma reforminha, pintei. Adoraria que viessem.

— Nossa... você me pegou de surpresa. Bem, ham, vou precisar ver com Helena...

— Ah querida! Por favor, e daí vocês já vem amanhã para a festa que acontecerá domingo! A família toda estará aqui. Não que isso seja reconfortante, mas ver vocês e Rodrigo já ficará melhor pra mim. O que acha?

Rosa sentiu que a mãe já começava a ficar aflita. E ela mais ainda.

A porta do banheiro se abriu e Helena saiu com a toalha envolta do corpo. Seu cabelo preso em um coque. Rosa a olhou a andar até o guarda roupa, pegar sua camisola e voltar ao banheiro. Teria que conversar com Helena e ainda tinha essa bomba do final de semana. Fechou os olhos tentando pensar na resposta que daria a mãe. Uma coisa de cada vez.

— E então, querida? – Susana parecia começar a ficar impaciente.

— Um momento, mãe. – Rosa pediu e tirou o celular do ouvido e encostou no meio do ombro.

Pensou nas filhas com os parentes. Na possibilidade deles a olharem estranho, tratarem elas de outra forma. A angústia começou a subir pelo peito, odiaria ter que lidar com esse tipo de gente, principalmente sendo da família. Mas o pedido da mãe era tão sincero e parecia realmente que ela queria ver todas elas. Sem nada em troca. E isso acabava com Rosa, seria mais fácil a mãe não querer nada disso.

Mas algo mudou. Rosa agora era mãe. Sabia o que era esse sentimento de amor imensurável pelas filhas e todo o cuidado que sempre irá desejar à elas. Se colocou no lugar da mãe. Apesar de conhece-la, saber do seu jeito único de viver e demonstrar sentimentos, ela era sua mãe. A intimidade que tinham era algo muito singular das duas desde que se viram pela primeira vez, ou até antes, quando dependia do corpo da genitora para crescer em seu útero. Agora tudo faz sentido: essa complexidade da maternidade, esse vínculo inexplicável.

Precisava abraçar a mãe tanto quanto a mãe precisava abraçar ela.

— Tudo bem, mãe. Iremos amanhã aí.

— Ah, ótimo minha filha!

Sentiu a alegria na voz dela.

— Vamos possivelmente de carro, ainda sei o endereço. Tudo certo então. Só me passe seu número, mãe.

Susana passou o número e Rosa anotou num bloco que tinha na cabeceira. Se despediram e se encerrou a ligação.

***

Helena se aproximou da cama, pegou seu óculos na cabeceira ao seu lado e os colocou. Se ajeitou na cama, pegou o celular e começou a movimentar o dedo na tela.

Rosa mais que nunca precisava conversar com sua esposa.

— Temos que conversar.

Helena demorou alguns segundos antes de olhar para Rosa.

— Sobre o quê?

— As meninas entraram de férias, Helena. – Rosa falava olhando pro teto.

— Sim, sei disso.

— Pra além disso, temos que conversar sobre como faremos. Eu tirei férias faz uma semana da escola... eu sozinha em casa, não conseguirei dar conta das meninas boa parte do tempo.

Percebeu, sem olha-la, que Helena deixou o celular de lado.

— Vamos ter que chamar a Carol...

Rosa encarou Helena. O tom mudou em sua voz.

— Não se trata de tapar buraco com a babá, Helena. É pra além das minhas férias e das meninas. Cadê você nisso tudo? De verdade, já não tá na hora de você pelo menos tirar férias e me ajudar aqui em casa com elas?

— Ah, esse assunto de novo não Rosa. – Helena tirou os óculos.

— Ah, esse assunto de novo sim! Conversamos sobre isso quando você ganhou essa promoção, Helena. Combinamos que você tentaria comparecer em casa.

Helena respirou fundo, passou a mão na testa e olhou para cima.

— Rosa, ainda não consegui, eu...

— Helena, está chegando em um limite aqui, sabe? Eu saio do trabalho as 13h, pego as meninas ás 14h da escola, passo a tarde inteira com elas e a noite... Você só aparece nos finais de semana, mas mesmo assim ainda me sinto sobrecarregada, Helena!

Rosa precisou der direta.

— Sim, sei disso...

— Desculpa Helena, mas parece que não. A realidade aqui tá me dando vários tapas na cara. Não sei em que mundo você vive.

— Sim, já entendi Rosa! Por favor! Vou dar um jeito, eu prometo!

Helena a olhou nos olhos. Rosa podia ver o brilho dos olhos azuis de Helena, lá no fundo conseguia ver certa angústia de sua esposa, não gostava de mergulhar assim em seu olhar. Não agora. Porém ela não deixava isso mexer mais com ela, a morena já havia dito isso outras vezes.

Tentou aproveitar o gancho.

— Se você promete, então amanhã sairemos para uma viagem. – Rosa disse pausadamente, controlando seu estresse que estava crescendo.

— Como assim viagem? – Perguntou confusa.

— Acabei de receber uma ligação de minha mãe, de Minas. Haverá uma festa para minha avó de 90 anos, domingo. Ela nos convidou para irmos.

Silêncio. Rosa percebia o quanto Helena ainda estava digerindo o que acabara de falar.

— E, pediu também que passemos o período de férias por lá na nossa antiga casa, que acabou de reformar. Pensei em uma ou duas semanas por lá.

— Peraí, Rosa. Você aceitou isso sem falar comigo?

— Ué, e você se importa?

Helena olhou-a boquiaberta. Rosa por um momento se arrependeu por ser tão dura com ela, mas Helena pedia por isso.

— Me importo sim, Rosa. Sou mãe delas também!

— Agora quando lhe convém, você também faz parte dessa família! – Rosa se exaltou.

Helena levantou da cama.

— Rosa, não queria discutir agora, por favor. Planejar uma viagem assim em cima da hora sem falar comigo...

— Ah, pára Helena! Isso aconteceu agora, quando você estava no banho e minha mãe ligou! Estou te falando agora! Desculpa, mas não achei que diria não a fazer essa viagem pelo menos nesse final de semana. Você pode ir ou não, mas irei sim com minhas filhas visitar a avó e bisavó delas.

— Ah, certo! Na família mais conservadora possível. Meu deus, Rosa! Pensa nas meninas!

— Ah, eu pensei sim Helena. Pensei no quanto a minha família é machista e homofóbica, e o quanto minhas filhas podem ser excluídas. Mas eu vou pela minha mãe, que realmente nos quer por lá. A gente já sofre tanto Helena nesse país, todo dia acontece uma desgraça. Você sabe. Preciso ir ao encontro de pessoas que me desejem realmente o bem, como minha mãe, meu irmão. O resto, que se explodam. A vida está sendo muito curta para ignorar abraços reconfortantes.

Rosa deixou e emoção subir, seus olhos já estavam marejados. Mas logo tratou de respirar fundo e engolir. Não queria que Helena a visse desse jeito.

Helena a observava de braços cruzados, com a feição cansada.

— Compreendo, Rosa. Tudo bem. Faça o que tiver vontade.

Helena saiu do quarto levando seu cobertor e travesseiro, deixando Rosa sozinha na cama.