Reencontro em Montreal
1 Capítulo único - Reencontro Em Montreal
Notas iniciais

Quando a gente é adolescente, tudo que a gente quer é curtir (Bom na maioria das vezes), mas no meu caso é diferente. Na minha adolescência tudo que eu queria era um amor de verdade, queria não ter que sofrer tanto por amor, queria não ter o coração despedaçado milhões de vezes. Nem venha você me falar que nunca teve o coração partido porque todos nós já tivemos o coração partido pelo menos uma vez. E essa é a história de como eu tive meu coração partido pela terceira vez, e pra ser sincera foi uma das vezes que mais me doeu.
12 de agosto de 2008
Era uma manhã de agosto e já fazia um ano que eu e meu namorado estávamos namorando. Charlie, esse era seu nome. Charlie sempre foi um cara encantador e era um ano mais velho do que eu. Lembro-me que a gente se conheceu através de uma rede social e começamos a conversar. Conversa vai, conversa vem e a gente decidiu se encontrar. Marcamos em um lugar movimentado: uma pracinha que tinha bem no centro da pequena cidade onde nós morávamos City Villa. Quando eu o vi pela primeira vez eu pensei que eu iria dar um treco de tanto nervosismo. Eu sempre fui muito tímida e quando eu fui te ver pela primeira vez não podia estar diferente. Tudo que eu conseguia pensar era se você ia gostar de mim ou se ia ficar decepcionado quando me visse.
E todas as minhas dúvidas se foram quando eu vi o enorme e lindo sorriso que você lançou em minha direção quando eu te vi. Um menino de pele morena, alto, magro, cabelos em um corte descolado e com gel, bermuda, chinelo uma camiseta larga. Não posso esquecer-me daquela espinha imensa do seu nariz que eu ri assim que a percebi ainda por cima e bem abusada, te zoei porque eu nunca tinha dado uma espinha. Lembro que eu estava tão tímida quando a gente se sentou que eu sentia um frio na barriga, daí você veio e passou seus longos braços pela minha cintura me puxando pra mais perto de você e me deu um beijo no rosto. Juro que nesse momento eu me esqueci de como respirava e eu juro que meu coração faltou pouco sair pela minha boca.
Depois daquele dia a gente foi se entendendo cada vez mais e eu fui me apaixonando cada vez mais e mais por você. Passaram-se alguns meses que a gente estava ficando e em um dia ensolarado que a gente saiu para se encontrar e você disse que tinha uma surpresa pra mim. A gente foi pra mesma pracinha que a gente se encontrou pela primeira vez. Quando nos sentamos você começou a falar umas coisas tão lindas que eu pensei que ia explodir em lágrimas de tanta felicidade, aí do nada você perguntou se eu queria ser sua namorada e eu não podia dizer outra coisa a não ser que sim.
Nosso namoro sempre foi muito conturbado porque meus pais nunca te aceitaram bem e eles sempre falaram que eu estava muito nova pra namorar porque eu tinha apenas quinze anos e não estava pronta pra isso ainda. Mas nós dois muito teimosos insistimos tanto que mesmo eles não querendo deixaram.
Estávamos indo bem até que começamos a brigar por coisas tão fúteis e sem importância. Você sempre foi muito ciumento e explosivo, mas nunca me tratara mau o que eu agradecia, até porque eu vivia rodeada por meus amigos que por um acaso eram todos homens. Mas de uns meses pra cá você vinha tendo muito ciúmes de mim e muitas dessas vezes eram sem motivo. Tudo que eu fazia era motivo pra você falar e brigar comigo, como daquela vez que eu ia na sua casa finalmente conhecer o seus pais. Eu me arrumei pra ir e vesti um shortinho (porque estava tão calor naquele dia que eu achava que ia derreter) e uma blusa larguinha, calcei meu tênis preferido e quando você me viu eu pensei que você ia dizer que eu estava linda e que seus pais me amariam, mas tudo que você disse foi “Você ainda não arrumou?”. E eu fiquei sem entender aquilo e apenas disse que eu estava pronta. Daí você surtou e disse que não me levaria pra sua casa vestida daquele jeito e que eu estava parecendo uma oferecida naquelas roupas e que não queria que eu usasse aquelas roupas nunca mais. Eu não aguentei você falando comigo daquele jeito e gritei com você falando pra você ir embora e sair da minha casa que eu não queria te ver nem pintado de ouro e você foi.
Meu coração ficou estilhaçado naquele dia. Lembro-me que chorei, chorei, chorei e chorei. Minha mãe ficou super preocupada comigo porque eu não quis comer e não parava de chorar. Ela não sabia o que fazia comigo. Lembro-me de que quando meu pai chegou ela pediu que ele falasse comigo já que eu era a xodó dele. E ele veio, ele não disse nada, apenas se sentou ao lado de mim na minha e me fez um cafuné até eu pegar no sono.
Passou-se uma semana sem que eu falasse com você, as suas palavras realmente me machucaram, foi como se você tivesse me batido com as palavras. Mesmo magoada com você eu resolvi fazer uma surpresa já que era nosso aniversário de um ano de namoro. Eu comprei o seu chocolate preferido, fiz a lasanha que você tanto amava e te liguei falando que queria que você viesse aqui em casa e você me disse que não poderia, pois estava muito ocupado. Eu pensei que você estava falando isso porque queria me fazer uma surpresa pra mim, mas me enganei você nem sequer se lembrou.
Quando eu pensei que nosso relacionamento não poderia ficar pior eu te peguei no flagra ficando com uma garota bem na esquina da minha casa. Eu gritei chorando e você se afastou da menina em um pulo e depois veio pedindo perdão, disse que foi apenas um escorregão e que me amava. Você me implorava perdão e tudo que eu consegui fazer foi pedir pra você ficar o mais longe de mim possível.
Nunca fiquei tão mal como naquele dia.
Dias atuais
Acordei com o som do meu despertador tocando. Eu me tornei uma escritora e no momento eu estava fazendo um estágio que não tinha nada haver com escritora, eu estava trabalhando como ajudante da bibliotecária em uma das bibliotecas mais frequentadas do Canadá. Sim, depois que eu levei um pé na bunda eu me formei no Brasil e fui fazer intercambio no Canadá e acabei ficando na cidade de Montreal lá mesmo. Hoje faz exatamente seis anos que eu moro aqui e é uma das melhores cidades que eu já fiquei.
Levantei-me da cama e fui fazer minha higiene matinal. Voltei e fui escolher uma roupa levando em conta que o dia estava bem frio. Vesti uma calça jeans de cós alto, vesti uma blusa grande preta estampada, calcei meu amado tênis preto (sempre fui apaixonada por tênis), coloquei meu cordão que eu ganhei do meu pai antes de vir pra cá, coloquei meus brincos de argola que eram meus amigos inseparáveis, fiz um coque mais ou menos nos meus cabelos, passei um batom clarinho, e fiz um delineado em meus olhos, por ultimo mas não menos importante coloquei minha jaqueta de couro e peguei minha bolsa, celular e minhas chaves.
Saí de casa apressada, se eu não andasse logo não poderia passar na minha cafeteria preferida que ficava apenas algumas quadras da biblioteca. Quando eu estava passando esbarrei com alguém e caí de bunda no chão. Já ia xingar o ser que me derrubou, mas quando eu olhei para cima me deparei com uma mão estendida para mim.
— Mil desculpas moça, eu estava tão distraído que acabei nem te vendo entrar. – Ele disse assim que eu peguei em sua mão. – Você está bem moça?
— Estou sim. E tudo bem, já estou acostumada a cair.
— Uma moça tão bela quanto você acostumada a cair eu não creio nisso.
E foi quando eu olhei para cima, para o rosto do rapaz que eu o reconheci, e eu não pude acreditar que era ele ali. Ele estava mais forte, a barba por fazer, trajava uma calça jeans rasgada e colada, uma camisa cinza, uma jaqueta de couro preta por cima, um tênis preto com laranja. Ele estava mais bonito, mas o sorriso continuava o mesmo. Meu coração deu um pequeno pulo dentro do meu peito. Apesar de nove anos terem se passado, ele ainda tinha o mesmo efeito em mim.
— Charlie? – eu perguntei com a voz meio tremula.
— Kath? – Ele perguntou meio em dúvida.
Eu apenas balancei a cabeça concordando. Então ele fez o impensável, o improvável: ele me abraçou. No primeiro momento eu fiquei petrificada, mas no momento seguinte eu o abracei com força. Depois de um tempo nos separamos e ele me olhou com um brilho no olhar.
— Como você está mudada! Você está tão linda! – Ele disse entusiasmado.
— Você também mudou. Eu soube que você se formou em psicologia. Parabéns! – Eu disse ainda atordoada.
— Pois é me formei e montei um escritório. Mas a pouco tempo eu resolvi me mudar e consegui conseguir uma parceria com um amigo meu aqui em Montreal.
— Você se mudou para cá?
— Me mudei ontem e estou tentando me organizar. – Disse dando seu típico sorriso.
— Legal. – Disse baixo e quando me dei conta eu me lembrei do meu trabalho. – Me desculpa, mas eu vou ter que ir, já estou muito atrasada pro meu serviço.
— Oh, tudo bem. – Ele me dá outro abraço.
Eu lhe dou as costas e saio andando. Eu já estava quase virando a esquina pra chegar à biblioteca quando eu escuto meu nome sendo gritado. Viro-me para trás e encontro um Charlie correndo em minha direção. Ele para em minha frente ofegante e respira fundo.
— Eu sei que eu fui o maior cretino com você, e sei que você provavelmente ainda me odeia. Sei que você não vai acreditar no que eu vou te dizer, mas eu te amo. – Ele parou de falar suspirando novamente. – E se você me der uma segunda chance eu prometo que não vou falhar, eu prometo que vou te fazer muito feliz.
— Eu... eu não sei. – Eu disse meio gaguejando. – Você me feriu demais, e eu não sei se devo te dar uma chance. Não quero me machucar de novo.
— Tudo bem, eu te entendo. – Ele disse quase num sussurro. – Então, até um dia.
— Até.
Ele saiu andando cabisbaixo e andando devagar. Eu ainda o amava, mas será que valeria à pena eu arriscar tudo por ele? Ele já me feriu demais. Já suportei muitas coisas por ele. Será que dessa vez seria diferente.
E foi ai que eu fiz o impensável e improvável. Eu o Gritei. Corri em sua direção, pegando impulso e pulando em seus braços. No momento eu me encontrava com minhas pernas entrelaçadas em sua cintura, meus braços em volta de seu pescoço o apertando contra mim e seus braços em volta de minha cintura me segurando no colo.
— Eu não sei se vai valer à pena, nem sei se eu vou me magoar lá na frente, mas eu quero tentar. Se der errado pelo menos eu saberei que eu tentei. – Eu falei olhando em seus olhos. – Eu te amo, e sempre te amei.
— Eu te amo também. – Ele disse sincero e com os olhos brilhando.
Dito isso, ele me beijou e eu pude sentir todo o amor que nós tínhamos um pelo outro.
E ali, no meio de uma calçada, numa rua movimentada de Montreal no Canadá meu reencontro com o meu grande amor aconteceu. Não sei se nós vamos estar juntos no futuro e nem sei se nós vamos dar certo, mas no momento eu tenho uma única certeza: Nós nos amamos e estamos tentando, só que desta vez, pra valer.
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