Reencontro

1 Capítulo Único


A estação de trem estava envolta por uma névoa suave naquela manhã, como se até o clima quisesse amaciar o coração acelerado de Helena. O lenço que ela segurava entre os dedos era o mesmo que ele, Daniel, lhe dera antes de partir, cinco anos antes, quando deixara a pequena cidade para estudar Direito na capital.

Cinco anos.

Tempo demais para quem ama, mas necessário para quem precisa construir o futuro.

Durante todo esse tempo, as cartas foram seu fio de esperança. Eram palavras carregadas de saudade, de promessas, de sonhos compartilhados. Nas primeiras páginas, a empolgação do início da jornada, nas últimas, a pressa em voltar para casa, para ela. Helena guardava cada envelope como quem coleciona pedaços de eternidade.

Não houve um único dia em que não sentisse a falta dele.

Não houve um único dia em que seu pai não lhe dissesse que sua esperança era vã, e que Daniel não iria voltar.

O apito distante do trem fez seu coração tropeçar.

Ela respirou fundo, tentando manter a compostura, mas suas mãos tremiam, denunciando a ansiedade de quem esperou tempo demais. O trem desacelerou, rangendo contra os trilhos, até finalmente parar. A multidão começou a descer: rostos desconhecidos, viajantes apressados, famílias, comerciantes... Mas não ele.

“E se ele mudou?”, um sopro de insegurança tocou sua mente. “E se o tempo afastou o que o amor uniu?”

Mas quando pensou em recuar, ouviu.

— Helena?

A voz, ainda que mais madura, permaneceu a mesma, aquela que ecoava em suas lembranças, que embalou suas noites de saudade. Ela se virou e o viu. Daniel estava ali, parado a poucos passos, a mala em uma mão, e na outra, a última carta que ela havia enviado.

Ele parecia diferente: mais alto, mais seguro, o semblante moldado pela vida adulta. Mas os olhos… Ah, os olhos continuavam sendo seus portos favoritos.

Helena sentiu o peito se apertar. Não pensou, não hesitou. Correu até ele.

Daniel largou a mala no chão no mesmo instante, abrindo os braços para recebê-la. O impacto do abraço foi quase uma confissão: todo o amor contido, todos os dias acumulados, todas as noites de espera se encontraram ali, naquele instante eterno.

— Você voltou…! – ela sussurrou, com a voz embargada.

— Eu prometi, lembra? – Daniel não perde tempo em dizer, afundando o rosto no cabelo dela. — “Termino os estudos e volto para você.” Não houve um dia em que eu não pensasse nesse momento.

Ela se afastou apenas o suficiente para olhar o rosto dele. Havia lágrimas nos olhos dele também.

— E agora? – pergunta Helena, ainda com medo de parecer sonhadora demais.

— Agora, Helena. – Daniel segura seu rosto com ternura – Eu quero cumprir todas as promessas que te fiz. Uma por uma. Começando pelo nosso futuro juntos.

O som do trem partindo ao fundo parecia selar o capítulo que se encerrava. Helena sorriu, finalmente em paz.

Ali, na mesma estação onde se despediram cinco anos atrás, eles se reencontravam não como quem volta ao passado, mas como quem, finalmente, alcança o futuro que esperou com fé.

De mãos dadas, caminharam para fora da estação, deixando para trás apenas a névoa, porque, diante deles, o caminho estava claro. E era um caminho que seguiriam juntos.


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