Reencontro
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Relembrando o final do capítulo anterior: Kurt se agarrou à ela como quem precisa disso para manter-se vivo. Ela aspirou o ar querendo desfrutar daquele abraço tanto quanto ele. Foi então que um cheiro famíliar lhe trouxe de volta para uma triste realidade: o cheiro de Nas. Kurt cheirava assim porque precisava ser afastado dela. Ela estava morrendo. Roman estava morto. O bebê foi uma ilusão. A dor não era um sonho.
A última coisa que ela ouviu, foi a voz de Kurt parecendo infinitamente distante:
— Você está tremendo, honey?
A sequência que se seguiu foi rápida a pavorosa. De repente, Jane estava no chão e seu corpo convulsionava enquanto Kurt gritava por ajuda.
Patterson e Rich correram para perto dos dois tentando ajudar a imobilizá-la para evitar ferimentos enquanto Reade pediu ajuda médica. O socorro foi rápido e, em minutos, todos aguardavam o parecer médico no andar hospitalar do NYO.
Kurt, parado de frente para a parede, apoiava a testa contra o concreto frio, com os olhos fechados, tentando se controlar. Não seria o fim, não podia ser o fim. Era cedo demais. O ZIP não podia ter agido tão rápido. Eles ainda teriam tempo para encontrar a cura senão Roman teria facilitado o caminho para os drivers.
Enquanto sua mente encadeava as poucas justificativas que tinha para sustentar sua esperança, seu coração elevava uma súplica aos céus, as últimas gotas de sua antiga fé. Ele tinha que fazer tudo que podia por ela.
Ninguém ousava dizer nada. Todos só desejavam que aquela espera angustiante terminasse e que desfecho fosse favorável.
Madeline observava a situação de forma mais fria, avaliando o envolvimento emocional de todos ali. Grande parte de sua atenção estava sobre Kurt. Seu garotinho bravo e corajoso, disposto a enfrentar os adultos na busca por justiça tinha se tornado um homem. Cresceu com ele o jeito fechado de lidar com todos à sua volta. Ele parecia zangado com a vida o tempo todo. Também era um líder nato, todos ali esperavam por sua opinião, até mesmo Reade. Ele parecia uma fortaleza impenetrável e invencível... mas apenas quando o assunto não era Jane Doe. Diante dela, ele ruía. Com certeza seu filho amava essa mulher em proporções que ela jamais acreditou que os traumas dele lhe permitiriam. “Como ela conseguiu?”_ Madeline pensava. Suas pesquisas com o ZIP começaram por um motivo nobre, mas o reconhecimento que a comunidade científica lhe dariam tinham sido decisivos para Madeline aceitar o caso de Roman. Os irmãos seriam a escada da sua promoção pessoal, mesmo que não sobrevivessem, os avanços na pesquisa era tudo que ela queria. Mas agora, olhando a família que ela deixou para trás, a vida de Jane parecia a ponte de reconciliação com o passado. Havia alguma chance de sucesso pra ela agora? Ela suspirou e se aproximou do filho:
— Tente se acalmar. Ela é forte. Quer um café ou uma água?
Lentamente ele abriu os olhos e se voltou para ela, com a raiva fulminando nas palavras que disse:
— O que você fez com ela?
Madeline respirou fundo e tentou responder de forma calma:
— Eu não fiz nada que possa ter desencadeado essa convulsão, Kurt. Isso foi da própria evolução do caso. As substâncias que estava ministrando no soro eram eletrólitos associados à elementos químicos seguros que já provaram ser eficazes no tratamento dos efeitos colaterais do ZIP. Funcionaram em Roman, amenizando os sintomas. Estou aqui para ajudá-la. Você precisa confiar em mim.
— Confiar em você... Eu confiava em você para me ajudar a proteger Sarah. E o que você fez? Foi embora nos deixando sozinhos com aquele monstro.
— Kurt, são situações diferentes. Conviver com Bill estava me matando... Mas não é hora para discutirmos o passado.
— Não, não é. Então vamos falar do presente: se você roubar sequer um minuto da vida que resta a Jane, eu não sei do que sou capaz.
Reade, Patterson e Rich se aproximaram para tentar acalmar Kurt, mas a porta da sala de emergência se abriu e um médico finalmente se aproximou do grupo:
— Kurt Weller? – o médico perguntou se aproximando do grupo.
— Sou eu. – a voz firme de Kurt escondia a instabilidade dentro dele.
— Conseguimos estabilizá-la usando doses moderadas de anti convulsivos. Ela está consciente e foi levada para o quarto. Se quiser vê-la, já liberei sua entrada.
— Obrigado. _ o aperto de mão de Kurt foi rápido porque sua necessidade de ver Jane era urgente.
Reade e Rich desceram de volta ao SIOC. Madeline e Patterson aguardaram do lado de fora do quarto.
Kurt entrou sozinho, se aproximou da cama e já tomou a mão da esposa entre as suas e depositou um beijo reverente.
— Hei, Honey, está tudo bem agora.
Ela não respondeu. Sua cabeça latejava. Era impossível articular palavras. O toque quente das mãos dele parecia uma surreal gota de alívio em meio aos pequenos choques que disparavam de forma intermitente por seu corpo. Ela não queria que ele percebesse que não estava bem, não seria capaz de ver a dor nos olhos dele. Então, apenas virou o rosto para o outro lado e fechou os olhos.
— Janie, vamos resolver isso, eu prometo. Decifraremos os drivers e logo tudo isso será apenas passado._ ele apertou suavemente a mão dela, mas não houve retribuição. Ele não se deu por vencido_ Vamos passar por isso juntos._ e passou o dedo suavemente no rosto dela.
Ela queria apertar a mão dele de volta, mas seu corpo não respondia. Mais pontadas na sua cabeça, mais choques... As convulsões estariam voltando? Ela estaria partindo? Ela só tinha certeza de uma coisa, precisava tirar Kurt dali.
— Sai _ a voz dela estava estranha e muito cansada, mas essa palavra curta penetrou o coração de Kurt como um punhal.
_ Remi... _ ele começou, mas as palavras desapareceram.
Por mais que ele desejasse permanecer ali e mais, até puxá-la para seus braços para sentir que ela realmente estava viva após vê-la convulsionando minutos atrás, a relação deles sempre se assentou no respeito ao tempo e espaço que o outro ponto precisava. Observando como a respiração dela estava mais pesada e o quanto ela parecia distante, decidiu não insistir:
— Ok. Fique bem... _ a voz dele estava embargada pela tristeza.
Sentir as mãos dele se afastarem foi uma das coisas mais difíceis que ela já viveu. Assim que a porta do quarto se fechou, ela se entregou às dores que sentia, cansada demais de lutar para ficar bem.
Kurt saiu do quarto visivelmente abalado. Passou entre Patterson e Madeline e foi se sentar nas cadeiras do corredor, deixando a cabeça cair entre as mãos. As duas mulheres se aproximaram e a loira levou a mão ao ombro do amigo.
— Hei, está tudo bem?
— Eu acho que sim... Ela só não me quer por perto
— Precisamos manter a calma. Vamos encontrar a cura. É só trabalharmos mais. Venha, você precisa de um café._ Patterson disse precisando que aquelas palavras trouxessem algum alívio para Kurt e também para ela mesma. E com um toque convidou o amigo a segui-la pelo corredor.
Assim que os dois se afastaram, Madeline entrou no quarto de Jane.
— Olá, Jane. Seus dias são sempre assim?_ disse tentando começar a conversa._ Precisamos que tudo entre nós esteja claro e determinado. Então, vim para conversarmos...
Jane não virou o rosto em direção de sua interlocutora. A presença de Madeline trouxe a ela uma necessidade urgente, para a qual ela reuniu todas as forças que lhe restavam:
— Kurt...
— Sim, temos que falar sobre Kurt.
— Não o magoe...
— Preocupação interessante, Jane. Acho que ela deveria valer para nós duas, não? _ Madeline continuou já se aproximando da cama por ter estranhado a voz de Jane. _ Você está bem?
Sem receber resposta, Madeline puxou o rosto de Jane para fazer contato visual, mas Jane manteve os olhos fechados. Então, a mulher pegou em sua mão e exigiu:
— Jane, aperte a minha mão.
Nada.
— Você consegue me entender?_ Jane moveu levemente a cabeça em concordância. _ Então aperte a minha mão, vamos!_ sem qualquer reação da morena, Madeline desabafou _ Droga! Você não pode ir ainda. Preciso de você e Kurt também. _ disse enquanto acionava o botão de emergência.
No balcão de café, não muito longe dali
Kurt e Patterson se sentaram no balcão. Ele parecia destruído. Ela respirou algumas vezes antes de tomar coragem para falar:
— Tem alguma coisa que ainda não sei e seja bom você desabafar agora?
Foi a vez de Kurt procurar coragem antes de falar. Levando a mão na testa, disse:
— Recuperar a memória parece ter matado o amor que ela sentia por mim. Ela simplesmente quer me afastar e não quero sufocá-la obrigando-a a ficar comigo.
Patterson respirou e pensou em como dizer tudo que queria sem ser mal interpretada ou acabar piorando toda a situação:
— Antes disso, você acredita que ela te amava?
— Não foi apenas uma ilusão minha, se é nisso que você quer chegar. Vivemos esse sentimento juntos, Patterson.
— Não. Não quis dizer isso. Eu também estou totalmente certa de que Jane te amava. E ainda te ama. Um sentimento assim não desaparece tão rápido, Kurt. Todos os outros valores que ela adquiriu após ter a memória apagada continuam intactos. E o amor que ela sente por você foi o principal fundamento que sustentou toda a mudança.
— Eu não sei mais o que pensar, como agir...
— Kurt, o ZIP está envenenando todo o sistema neurológico dela. Suas ações não estão dissociadas disso. Estive pensando muito em Roman nos últimos dias. Ele estava obcecado com Jane, decidido a não dividi-la com você. O ZIP parece afetar de forma decisiva a forma como eles tentam proteger as pessoas que mais amam.
— Você tem uma boa teoria. Mesmo assim, romper a distância que ela impõe me parece injusto com ela e com tudo que sempre foi a base da nossa relação.
— Acredite, o melhor para ela agora é você ainda insistir em ficar ao seu lado.
Um fio de esperança brotou no olhar de Kurt. Patterson colocou a mão em seu ombro:
— Precisamos acrescentar na nossa nova agenda de trabalho provar à Jane que é inútil tentar afastar as pessoas que ama porque não desistiremos dela._ e deu suaves tapinhas nas costas do amigo.
Kurt deu um leve sorriso.
— Poderia ser bem simples que não fosse a Jane...É como domar uma fera.
— Estamos com você nisso. Mas vou repetir o que você acabou de dizer pra ela depois que isso tudo passar, Weller.
A ameaça reforçava o sonho de um futuro para Jane e isso fez Kurt se encher de determinação sobre como agir. Os dois terminaram o café e tomaram a direção do quarto.
Ao se aproximarem, viram Madeline do lado de fora, inquieta. A equipe médica entrava e saía do quarto.
— O que aconteceu? Você fez alguma coisa com ela?_ Kurt exigiu aflito.
— Entrei no quarto para falar com Jane. Percebi que as convulsões não tinham parado por completo, seguiam numa sequência de espasmos menores. Os olhos dela tinham um leve tremor e ela sequer foi capaz de apertar minha mão quando pedi. Então, acionei os médicos.
Kurt se viu novamente dentro de um pesadelo.
— Eu não devia tê-la deixado sozinha. Muito menos perto de você.
Madeline tentou se aproximar:
— Eu só estava tentando ajudar, Kurt. Temos que continuar os testes, é a única chance que ela tem.
Kurt deixou seu corpo cair na cadeira e apoiou a cabeça entre as mãos, lutando contra as possibilidades que não lhe agradavam.
— Ela está morrendo, Kurt. Não temos escolha... _ Patterson concluiu.
Ele assentiu sentindo o peso de sua decisão. Madeline se aproximou:
— Ela me disse para não te magoar. Fez isso com toda a força que lhe restava porque você é muito importante para ela, filho. Vou rever todos os cálculos e todas as pesquisas para encontrar uma forma de ajudá-la. Eu prometo! _ depois disso, ela voltou para seu laboratório.
Pareceram horas até o fluxo dentro do quarto diminuir e um médico aparecer com informações. Infelizmente quantidade e a potência da medicação usada para conter as convulsões manteriam Jane sedada.
— Fique com ela. Nós vamos decifrar aquele driver ainda hoje._ Patterson disse com determinação.
Em algum lugar da Holanda
Zapata estava trabalhando a confiança de Blake há semanas. A loira foi muito receptiva no início, mas manteve sigilo em diversos assuntos que muito interessavam à latina.
Naquele dia mesmo, ela ficou sozinha enquanto Blake participava de outra reunião sigilosa. À noite, a loira chegou parecendo cansada, atravessou o quarto de Tasha e se atirou na cama:
— Tédio não define meu estado de espírito hoje, Tasha. Vamos sair. Preciso curtir Amsterdã. Comida de alto padrão, bebidas fortes e, se os deuses nórdicos deixaram seus genes por aí, um cara agradável para o resto da noite.
Tasha bufou e sequer olhou para ela.
— Nunca te disseram que seu mau humor é desagradável? _ Blake foi ríspida.
A frase a transportou para diversos momentos com Rich a alfinetando. No passado, ele foi seu inferno astral. Agora, Blake a fazia entender que Rich foi só mais uma pessoa que ela amava e provavelmente perdeu para sempre. Cansada desse jogo que se arrastava, Tasha decidiu forçar o avanço na organização.
— Você espera que eu me agrade com você me tratando como uma ama de companhia? Eu não fiz o que fiz pela alegria da sua companhia, Blake.
— A sua posição nessa organização está definida. Você tem tudo o que há de melhor aqui. É mais do que ofertaria para qualquer outra pessoa.
— Minha proposta foi clara: poder. Nós lideraríamos isso juntas! Mas parece que me equivoquei no julgamento que fiz de você. Bajulação é o que você prefere, não importa se a falsidade e a traição te rondarem. Sem mim, tudo o que você teria agora seria as acomodações de algum black site para onde seu precioso Tom Jackman te conduziria.
Tocar no nome de Tom sempre perturbava Blake por mais que ela tentasse disfarçar.
— Você fala como se eu tivesse deixado todas as portas abertas para o Tom entrar. Eu e papai o testamos diversas vezes. O sequestro no Brasil, por exemplo.
— E falharam em todas elas.
— Ele era bom. Sinal que nossos métodos de treinamento nos orfanatos são eficazes.
— Mas também era uma cobra pronta para dar um bote fatal. É isso que você quer? Continue. Seu fim será igual ao do seu pai.
— Ele me amava. Eu teria virado o jogo. Fui misericordiosa demais ao matá-lo. Foi uma última reverência aos sentimentos dele por mim. Não se brinca com um Crawford. O correto era esfolá-lo vivo. Foi uma pena eliminá-lo, ele era muito bom na cama.
Blake se levantou irritada e caminhou até a porta com passos firmes e postura superior, reforçando seu descontentamento com Zapata. O coração da latina pulou uma batida diante do pensamento de que sua ousadia podia ter arruinado seu real objetivo ali. Antes de alcançar a maçaneta, a loira se virou para ela:
— Não quero que pense que não sou grata _ disse olhando a latina de cima. _ Só estava te poupando da parte chata disso tudo.
— Pessoas desagradáveis precisam da parte chata.
A loira respirou em desagrado.
— Amanhã seu acesso no sistema será ampliado e poderá me acompanhará nas próximas reuniões. Mas só amanhã.
— Isso é algum tipo de teste pra me fazer sair com você hoje à noite? Esqueça!
— Você é insuportável.
Tasha sorriu e deu uma piscadinha para Blake:
— Nossa semelhança nos atrai.
Assim que Blake deixou o quarto, Tasha respirou aliviada. O acesso ao novo nível da organização teria que ser suficiente para ela obter as informações que precisava.
Laboratório de Patterson
Rich e Patterson trabalharam num ritmo alucinado até muito após o fim do expediente. Madrugada adentro, a dupla seguiu determinada. De repente, Rich impulsionou sua cadeira para longe do terminal onde trabalhava, transpondo o laboratório dançando.
— O que foi? Você conseguiu? _ Patterson perguntou aflita.
— Nada. Mas Reade conseguiu. Ele esteve aqui e disse que estávamos cansados demais para achar o que procuramos mesmo que estivesse óbvio.
— Como assim?
— Roman quer salvar Remi. Foi por isso que ele deixou esses drivers. Não pode ser tão difícil decifrar assim. E... ele sempre nos forneceu a chave para decifrarmos o enigma. A chave está aqui.
Patterson bufou.
— E eu esperando algo que ainda não soubesse. A questão é qual é a chave e tudo que tentamos falhou.
— Vamos usar combinações do nome dela, de todos os nomes dela para tentar quebrar a senha de acesso ao driver. Jane Doe, Alice Kruger, Remi Brigs, Jane Weller.
Feitas as tentativas, o driver abriu para uma outra tela com as palavras “RETORNO” + “MENTIRA”= “DECEPÇÃO”. “UMA CHANCE. TRÊS LETRAS”
— Não... é uma clara alusão de algo que os dois viveram. Beauty and Beast, você poderia ter considerado que Jane podia não estar em condições de nos ajudar nesse momento.
— Não temos Jane, Rich. Mas temos alguém pra quem ela deve ter contado tudo: Weller._ Patterson falou já digitando a mensagem para Kurt.
— Weller decifrando um quebra-cabeças de Roman... Pobre Jane...
— Acredite, ele é bom em quebra-cabeças. Ainda mais quando se trata de Jane.
A mensagem veio de volta em segundos:
“NAS. Tenho certeza. Foi ela quem nos procurou e promoveu o retorno de Jane ao team. Também foi ela quem sugeriu à Jane mentir sobre o ZIP para Roman o que desencadeou todo o desentendimento entre os dois.”
— A Iron Lady. Você se importa de digitar a senha? Eu prefiro não ser o executor.
— Você é sempre um lorde quando o assunto é se esquivar da responsabilidade._ a loira disse enquanto digitava as três letras _ Vamos lá. _ e apertou o enter.
A tela se abriu apresentando vários arquivos. O primeiro deles que piscava chamando a atenção da dupla dizia. Radiogardase/Ferrocianeto – ASN.
— Acho que a Iron Lady está escondendo alguma coisa de nós. Melhor convidá-la pra festa.
— Weller está descendo. Ele quer uma reunião antes de entrarmos em contato com Nas.
Uma hora de intensas discussões e estratégias entre o team se desenrolou. Pouco depois, Nas entrava no SIOC e encontrava Patterson, Rich, Reade e Weller à sua espera. Com o sorriso inatingível de sempre, cumprimentou à todos.
— Bom dia, pelo menos acho que não vai demorar para o sol nascer. _ ela não teve respostas _ Sinto muito por Jane. Infelizmente, tudo que eu sabia é o que já informei. Essas substâncias são usadas no tratamento de contaminação por radiação. Geralmente utilizamos como precausão após a nosso sistema tecnológico de interrogatório quando se trata de pessoas que poderão ser requisitadas pelos governos de outros países. Não sei mais nada além disso.
— Então vocês descontaminam alguns interrogados. Mas não considerou fazer isso com Jane e Roman?_ Reade questionou
— Nenhum deles estava entre as pessoas cobertas pelo protocolo de segurança, Reade. Você sabe que seguimos regras. No caso deles, era dispensável. Também não apresentaram sintomas de contaminação.
— São vidas, Nas. Ela está morrendo agora porque você não a incluiu no seu protocolo de segurança. _ Patterson estava muito abalada.
— Eu gostaria realmente de poder ajudar mais. Só vim até aqui para provar o quanto todos são importantes para mim. Pela fisionomia de vocês, as duas substâncias não devem ter tido efeito sobre ela... logo, de nada adiantaria eu tê-la incluído no protocolo. O ZIP atrapalharia de qualquer forma. Sinto muito que estejam perdendo essa batalha.
— O ZIP deveria ter impedido todos vocês de usarem uma substância radioativa na minha deusa! Onde todos vocês estavam com a cabeça por deixarem isso acontecer? _ Rich desabafou e foi fulminado pelo olhar de Patterson e Reade. Weller já estava sofrendo demais sem essa acusação.
— E sim, Nas, uma descontaminação logo após seu interrogatório teria impedido o ZIP de se fixar nessas substâncias radioativas que foram injetadas em Jane potencializando o envenenamento que ela está sofrendo. _ Patterson desabafou.
— Nas,_a voz firme de Kurt quebrou o clima de tensão que se formava _ eu fiz questão que você viesse porque eu precisava..._ Kurt insistiu, mas foi interrompido pela paquistanesa.
— Eu entendo, Kurt. Estou aqui por você. E vou continuar ao seu lado mesmo depois dela partir.
Kurt sugou o ar e cerrou os punhos. Ele não aceitaria ninguém condenando Jane à morte.
— Não! Você sabe que não é esse o ponto, Nas. Roman colocou você e a ASN juntamente com o nome dessas duas substâncias num driver que é a chave para salvarmos a vida de Jane. E eu aprendi da pior forma possível a confiar no amor que Roman sentia por ela. Então, eu vou ser claro: se você realmente não tem informações a nos dar, DESCUBRA! É seu nome, sua agência e pistas sobre uma substância que vocês têm conhecimento e que pode ajudar a salvar a vida da minha esposa. FAÇA!
— Nas_ Reade continuou com um tom conciliador _ Nossa parceria sempre trouxe vantagens para os dois lados. Não vamos mudar isso agora. Seria horrível Omaha vir à público além de outras coisas questionáveis que Rich conseguiu documentar pela dark web.
Nas respirou fundo e pediu para fazer alguns telefonemas. Em menos de quinze minutos, uma terceira substância desenvolvida para descontaminação por radiação estava à caminho do SIOC. Madeline se debruçou sobre as pesquisas, buscando uma fórmula que associasse essa nova substância da ASN às outras que tiveram efeito positivo sobre Roman. Os próximos dois dias foram muito longos.
Quarto de Jane no andar hospitalar do NYO
Kurt permaneceu ao lado de Jane. O sono drogado parecia ter roubado grande parte da vida que fervilhava dentro dela. Algumas vezes, ele se sentiu egoísta demais por querer que ela ficasse, mesmo que fosse para continuar ali inerte, apenas mantendo acesa a fagulha de esperança dentro dele. Outras vezes, ele pensava que não tinha o direito de desistir enquanto ela continuava respirando porque ele jurou não abandoná-la.
Na manhã do terceiro dia, ele acabara de dar um beijo de bom dia na testa de Jane, quando Madeline entrou no quarto portando no rosto uma mistura de otimismo e medo.
— Temos uma fórmula e vamos testá-la em Jane. Não é a cura, mas deve amenizar os sintomas para que as convulsões deixem de ser um problema. Se funcionar, ela precisará de doses diárias até encontrarmos a cura definitiva.
Kurt assentiu sem dizer nada. As palavras sempre falharam quando ele as desejou e nesse momento não havia nele vontade de falar. Ele só queria concentrar suas forças em mais uma prece silenciosa pela vida de Jane.
Aos poucos a família chegou e completaram um círculo de força e fé ao redor dela. Numa difícil decisão, Kurt decidiu não informar Avery ainda, ele faria isso após o teste, independentemente do resultado.
À medida que a fórmula penetrava no organismo de Jane, todos tinham suas atenções voltadas às reações dela. Nada. Ela permaneceu inerte durante todo o procedimento. No silêncio do quarto, a constância nos sons dos aparelhos de monitoramento foram recebidos como bom sinal. Teriam que aguardar o tempo necessário para que a substância atingisse o nível sérico no organismo para iniciar a redução dos anti convulsivos. Só então saberiam se o efeito desejado foi alcançado contendo as convulsões.
As horas se arrastaram. O passo a passo do procedimento foi sendo seguido. Na etapa final, após a redução dos anticonvulsivos, a exaustão se misturava à expectativa. Os primeiros movimentos ainda lentos de Jane já arrancaram lágrimas discretas de Patterson.
Mais alguns minutos se passaram e os movimentos se intensificaram. Na luta para vencer o sono drogado, Jane se via presa ao momento em que não foi capaz de retribuir o toque carregado de comprometimento com o qual Kurt apertou sua mão. Desesperada com o vazio que sentiu quando ele soltou sua mão a pedido dela, ela arrasta a mão sobre o lençol, a respiração pesando, ainda sem conseguir abrir os olhos. Ele já teria deixado o quarto? Ela não podia deixá-lo sair. Reunindo todas as forças que tinha, ela tentou chamá-lo.
Não foi bem um som. Um balbucio é algo mais próximo para se descrever. Mesmo no silêncio do quarto, eles não ouviram ou decifraram. Mas Kurt ouviu. Para ele soou alto e claro. Seus olhos estavam acompanhando o discreto movimento que a mão dela descreveu sobre o lençol. Seu coração juntou as peças do quebra-cabeças: ela procurava por seu toque, ela queria sua mão de volta na dela. E ele foi rápido, uma mão cobriu a dela e já a levou até os lábios para o beijo, enquanto a outra alcançava seu rosto para um toque suave.
Senti-lo era como ter a própria vida reaquecendo sua alma. Foi o fôlego que ela precisava para abrir os olhos e encontrar os dele. Aquele momento era deles e dispensava a necessidade de palavras. Eles compreenderam completamente um ao outro.
Kurt sorriu para ela e disse:
— Eu ainda estou aqui e não vou embora._ disse olhando para ela com as sobrancelhas arqueadas colocando na sua expressão toda a integridade de sua lealdade e amor.
Jane sequer percebeu todas as outras pessoas ao seu redor por mais que todos estivessem comemorando o momento. Seus olhos permaneceram sobre ele, lutando para manter aquela conexão, enquanto ela sussurrou:
— Obrigada... Eu vou ficar bem..._ não era uma auto afirmação, mas o desejo profundo de retribuir todo o amor e lealdade dele na mesma moeda. Lutar por sua própria vida valia à pena por Kurt.
Roçando o polegar pela lateral dos olhos dela e percebendo o quanto ela lutava para manter os olhos abertos, ele continuou:
— Tome o tempo que for necessário para acordar.
Ela assentiu sorrindo e fechou os olhos sem afrouxar o aperto na mão dele.
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