Reencontro
9 "... e hoje vou cuidar dessas crianças"
Notas iniciais
No dia que todos nós estávamos voltando para casa no dia das compras, Hinata disse que quando chegasse o baile ela iria passar na minha casa com o Kiba para me levar, de carro é claro. Mas para minha surpresa esse dia não demorou muito para chegar. Eu sabia que no dia, só daria para respirar quando eu chegasse sã e salva no salão de festas. E isso realmente aconteceu.
No sábado de manhã, acordei como se uma bomba fosse explodir em cinco segundos. Depois de tomar meu nutritivo café da manhã, com frutas e geléia, vesti uma roupa qualquer e fui para o salão fazer o cabelo. Hinata não pôde me acompanhar, dizendo que teria muitas coisas para fazer antes da hora do baile chegar. Minha única opção foi vir com o Sai, que não tem paciência de esperar a cabeleireira chegar.
Estou esperando há horas e nada dela aparecer, como se não bastasse para o meu dia piorar.
- Sakura, quando ela vai chegar? – insistia Sai, mexendo no pente para se distrair.
-Já disse que não sei. – respondi pela décima vez desde que chegamos.
Pra dizer a verdade, fiquei muito assustada quando adestrei as portas desse local que insistem em chamar de Salão de cabeleireiro . Acho que aqui não é frequentado por pessoas normais, nem quem trabalhe aqui é normal. A primeira coisa que vi quando entrei era um local todo colorido com várias plumas e coisas “cheguei”. Quando se entra em um salão a coisa que se espera são mulheres andando pra lá e pra cá com tocas e produtos na cabeça. Mas aqui onde estou ninguém precisa andar, só as moças que realmente trabalhão aqui; pra levar as clientes de um lugar á outro, elas empurram a cadeira com rodas para o local desejado, tipo quando crianças brincam. Eu acho isso uma loucura já que nunca entrei em um lugar assim, mas era divertido.
Eu também achei que as cabeleireiras fossem loucas e inexperientes. As roupas que elas usavam chamavam muita atenção e seus serviços também. Era espuma no chão e nas paredes, pessoas saltitando ou apostando corrida nas cadeiras com rodinhas. Estava muito incomodada naquele lugar.
- As aranhas vão criar suas teias em cima de mim daqui a pouco.
-Você pode ficar quieto um instante pelo menos? – perguntei, o olhando feio.
-É culpa sua eu estar aqui. Nem deveria ter indo. – disse Sai.
-É culpa sua eu estar aqui. Nem deveria ter vindo. – disse, imitando sua voz. – Não seja idiota. Ficar aqui no meio das pessoas é bem melhor do que ficar em casa vendo tevê.
-Como se ficar esperando fosse bom. – disse ele, deixando o pente de lado. – Já estou me sentindo mal por estar aqui.
-Não é diferente comigo. – cruzei os braços. – Esse lugar está me dando arrepios.
-Eu vou embora. Quando acabar me liga. – disse colocando o celular no meu colo e se levantando. Mas duas garotas passaram em sua frente, uma loira e outra ruiva. – Bom... Ficar em um lugar com muitas mulheres não é tão mal assim. – E partiu atrás delas.
Enquanto eu olhava aquela cena ridícula, uma garota de mais ou menos a minha idade sentou-se ao meu lado e disse:
-Anda, ande! Quero que meu cabelo fique de bem comigo de novo. Quero que fique um brilho para amanhã. Acho até que nem vou dormir, só para não bagunçar. – a garota mexia freneticamente na raiz de seus cabelos. – Ele acordou de mal comigo hoje, mas não a nada que um corte não resolva.
No começo eu pensei que ela estaria falando sozinha, pelo fato de não ter ninguém ali para atendê-la, mas fiquei incrédula quando ela virou-se para mim e continuou:
-O que está fazendo aí sentada? Preciso de um trato agora, não tenho o dia todo! – dito isso, a garota apontou pra mim e continuou: — Você, levante e faça seu melhor nesse ninho de pássaros que está o meu cabelo.
-Você falou comigo? – perguntei, confusa.
-Mas é claro. Qual a única preguiçosa que deveria estar mexendo no meu cabelo mas está aí sentada?
-Desculpa, mas eu não trabalho aqui.
-Ah sim, já deveria saber. O que importa nas cabeleireiras é o cabelo, e o seu queridinha, é terrível.
Antes que um palavrão saltasse da minha boca, uma mulher com uma aparência nada agradável veio saltitando até mim. E não estou brincando, era saltitando mesmo. Achei meio estranho ela estar em um salão já que a metade do cabelo dela era um coque despenteado que tinha menos que um metro, e mais que trinta centímetros; e a outra metade do cabelo era cacheado apenas até o ombro. Essa imagem espantosa amorteceu minha vista quando olhei para suas roupas, que eram longas e espalhafatosas. Quando chegou perto, a mulher girou a cadeira de rodinhas que eu estava, me fazendo rodar e falou claramente:
- Querida, querida, desculpa a demora! Não queria te fazer esperar por muito tempo, mas você sabe como são coisas, né? Não, você não sabe. – disse a mulher, soltando uma gargalhada assustadora e, no segundo depois, me olhou assustada. – Por que está girando tanto, queridinha? Isso não é uma cadeira de balanço. — Ela parou a cadeira e pegou pela raiz do meu cabelo, balançando minha cabeça para frente e para trás, fazendo com que eu encostasse o queixo no colo. – Aonde você queria ir balançando daquele jeito?
-Mas foi você que...
-Esquece, esquece queridinha. Eu preciso dar um bom trato no seu cabelo. Venha aqui. Isso vai ser demorado, querida, vai sim.
Em um instante ela rodou novamente a cadeira e empurrou-a até o lavador, desviando de várias pessoas. Chegando lá, ela “estacionou” a cadeira e jogou meu cabelo para trás, lavando-o.
-A cor do seu cabelo é bem... criativa, querida. Odeio admitir isso, mas você é um poder explosivo. Não tento quanto eu, é claro, mas parece que você é uma menina que tem muito jeito em... hum... Com que você tem jeito mesmo? – disse ela, lavando o meu cabelo com uma ducha.
Eu, é claro, estava achando aquele papo muito estranho e, antes que eu pudesse dizer algo, ela jogou água no meu rosto com a ducha e depois de olhar meu rosto todo molhado, disse:
-Querida, você está toda molhada. Pode pegar um resfriado com essa roupa pingando. – ela pegou uma toalha de rosto que estava do lado dela e jogou em mim, acertando meu rosto. – Tome essa toalha e se seque. Você vai precisar.
Nem me atrevi a disser nada. Não queria que aquela loucura piorasse. E além do mais, ela não me dava chance de dizer uma palavra. Parecia um rádio que não precisava de pilhas.
Ela pegou na cadeira que eu estava e voltou a me empurrar ao lugar de antes, onde a garota loira mexia freneticamente nos cabelos, parecendo estar acostumada com aquela loucura.
No caminho da “corrida”, aproveitei para secar meu rosto e um pedaço da minha blusa, que estavam encharcados.
-Ah, vocês estão aí. – disse a garota loira, quando chegamos.
-É, estamos aqui. – disse, um pouco irritada.
A garota pôs-se a olhar-me e quando o fez, arregalou os olhos.
-Nossa, dessa vez você exagerou hein? – e, estendeu a mão fazendo com a cabeleireira a tocasse.
-Você pode ser um pouco mais rápida? – perguntei rispidamente.
Eu não queria ser grossa com ninguém, só queria que esse dia ficasse perfeito, já que tudo até agora estava dando errado.
-Tudo bem, tudo bem! Não se estresse – disse ela – O meu nome é Garlette e hoje vou cuidar dessas crianças – e mexeu no meu cabelo.
Garlette não é o tipo de cabeleireira que é apropriada pra cortar meu cabelo nessa situação. Ela nem se quer parecia ter diploma.
-Querida-queridinha, sei bem o que você deve estar pensando. Se olhar bem para aquela parede. – disse Garlette, apontando para parede e falando perto da minha nuca. – verá que tem um diploma bem ali.
-E como você...
-Eu sei sobre meus clientes. – interrompeu-me com uma voz séria e um sorriso no canto dos lábios. – Mas então, vamos começar?
O tempo passou tão depressa que eu nem acreditei que ela tivesse feito algo que eu pudesse aprovar. Acho que foi porque eu fiquei distraída demais vendo todas aquelas pessoas loucas e ouvindo a conversa de Garlette e da menina loira, que conversavam sobre assuntos estranhos. E também, eu não peguei uma revista sequer. Todas falavam sobra apenas um assunto: evolução da tecnologia. Eu até pensei que fosse legal e peguei uma para ler um trecho da primeira página. Falava sobre robôs e os futuros carros que poderão voar. Lembrei instantaneamente de uma amiga minha que estudou comigo por uns anos. Ela saiu da escola na sexta série quando os pais tiveram que se mudar, prometendo voltar em breve, mas até agora não deu as caras.
Após me levantar para procurar Sai e irmos embora, Garlette afastou a cadeira e disse:
-Bem, agora você já pode ir.
-Tudo bem, mas posso pedir uma coisa antes?
-Se não for dinheiro, tudo bem. – disse ela.
-É – concordou a menina loira que ainda estava do lado. – dinheiro não pode.
-Não, não é isso. Eu só queria me ver. Onde tem espelho? Queria ver como ficou o seu trabalho aqui – disse, segurando os cabelos e sorrindo.
-Espelho? –ela perguntou dando uma gargalhada alta e engraçada – Não queridinha, não. Você verá quando chegar a hora.
-Quando chegar á sua casa. – disse a garota loira.
Eu iria questionar, mas depois de ver as horas em um relógio colorido e com ponteiros engraçados, decidi que era melhor buscar o Sai e ir embora antes que eu enlouquecesse.
Dei uma olhada em volta e não foi difícil encontra-lo. Estava sentado perto de uma mulher muito bonita e com um corpo que eu nunca terei.
-Sai, quem é ela? – disse, me aproximando.
Ele me olhou meio estranho. Talvez tenha percebido a mudança do meu cabelo. Mas ele olhava como se estivesse alface nos meus dentes. Fiquei constrangida.
-Uma nova amiguinha minha. – respondeu.
-Mas você sabe o nome dessa amiguinha? – perguntei, enquanto ela me olhava como se eu estivesse falando com outra pessoa.
-Iria ficar sabendo se você não chegasse.
Enquanto ele falava, peguei pelo seu braço e comecei a puxar, enquanto ele fazia força para continuar sentado.
-Vamos, Sai. Já podemos ir.
-E por quê? Deixe-me mais um pouco.
-Vá, Sai. Depois você me liga. – disse a mulher que se encontrava ao seu lado.
-Está bem. – ele se levantou. – Nos se falamos a noite.
-Com certeza. – disse ela acenando.
Nós caminhamos até a porta e saímos. Percebi que demorou porque estava tendo ventos um tanto que fortes. A próxima coisa para se fazer antes de cair o temporal, é pegar o ônibus até a loja para pegar o vestido. E foi isso que a gente fez, ao chegar no ponto de ônibus eu sentei em um banco próximo e disse:
-Pronto, agora é só esperar.
-Esperar o quê?
-O ônibus, seu besta.
-Espero que saiba o que está fazendo.
-Sei que essa é uma das primeiras vezes que ando de ônibus sozinha, mas eu sei me cuidar.
-Aposto que não.
-Cale a boca e veja.
O ônibus demorou um pouco. Acho que era o horário. Enquanto isso comprei um salgadinho e nesse período de tempo, perdemos um ônibus. Culpa do Sai. Mas depois dessa vacilada, fiquei de olho. Até que um ônibus chegou. Não tinha muita certeza se o ônibus passava onde eu queria, mas achei melhor não disser isso pro Sai.
Entramos no ônibus e sentamos na cadeira alta, lá atrás. O ônibus sacolejou um pouco no caminho, não sei como eu e o Sai conseguimos cochilar. Mas pra mim, já virou mania dormir no ônibus, pelo menos alguns minutos de descanso.
Acordei com os gritos de um moço. Abri os olhos e olhei para todos os lugares assustada e me deparei com o motorista em pé do meu lado. Ele viu que eu acordei e disse:
-Ah, que ótimo. Agora você já pode sair.
-Sair? Mas ainda não chegou o lugar que eu quero ficar.
-Desculpe, mas essa é a parada máxima aonde eu vou. Melhor vocês descerem.
Olhei para o lado e vi o Sai ainda roncando. Dei uma olhada na janela e vi uma placa no nome do lugar onde eu estava, e esse lugar era quilômetros do lugar que eu queria ficar realmente.
-Mas esse aqui não é o lugar onde eu devo ficar. Estou muito longe... SAI, ACORDE. NÓS ESTAMOS PERDIDOS... LEVANTA, OLHA SÓ. — dei vários tapinhas em seu rosto. Até que ele acordou assustado.
-Hã? ... O quê? ... Onde estamos?
-Não sei, mas não era esse lugar de deveríamos estar.
-Eu não tenho o dia todo. SAÍAM. – disse o moço, zangado.
-Tudo bem, tudo bem. – tentei manter a calma. – A gente desce liga pra mamãe e estará tudo resolvido.
Nós levantamos e saímos. O lugar parecia que estava sendo ajeitado para ser gravado em um filme de terror. Estava deserto.
-Pegue o celular e ligue agora mesmo.
-Certo. – disse.
Peguei o celular e digitei o número. Depois de um tempo bufei de raiva.
-O, o quê foi?
-Está fora de área. Está tudo acabado. Estamos mesmo perdidos.
-Calma e tenta de novo.
-Já tentei várias vezes, não dá. – apertava os botões com raiva enquanto ia falando.
-Parabéns Sakura, parabéns.
-Pára, eu vou tirar a gente dessa. – disse já com lágrimas nos olhos.
-Não, você não vai. Tudo isso é culpa sua.
-CALA A BOCA. – disse batendo em Sai.
-Nós estamos em um fim de mundo e é tudo culpa sua. – disse ele tentando se esquivar dos meus socos.
-EU JÁ SEI NÃO PRECISA JOGAR NA CARA.
-DÁ PRA PARÁR DE GRITAR? ISSO SÓ VAI PIORAR AS COISAS.
-COMO VAI PIORAR? NÃO DÁ PRA PIORAR.
-Você tem certeza? –disse Sai mais baixo do que o normal, olhando para frente. Segui os olhos dele e vi um velho barbudo que tinha roupas rasgadas. Ele nos olhava como se nós fossemos o seu jantar. Ele estava sentado com os olhos tão fixos em nós, que nem piscava. A sua expressão era de raiva.
-É... Você tem razão.
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