Reencarnação

18 Se preparando para o teste


Notas iniciais
Oi, gente, desculpinha minha demora. Dessa vez confesso que relaxei mesmo, por isso demorei um pouco mais a escrever. Sem falar que minha prima vai se casar mês que vem na praia, e eu estava esta semana (e a anterior!) à procura de um vestido, isso acabou me tomando tempo =3=/ E ainda não comprei o bendito! Enfim, eu queria ter postado mais cedo, mas eu tive que ir na casa do meu pai, e na volta eu quis assistir o episódio novo de Tokyo Ghoul (e ter feels ouvindo a voz do Ayato -que é a mesma do Eren ♥), então... só agora mesmo pude postar. =w= Espero que curtam esse capitulo ♥ Boa leitura, amores

Eren

Dei mais umas duas colheradas até finalmente limpar todo meu prato. Lambi os lábios terminando de apreciar a divindade do sabor da comida caseira. Ainda mais quando é feito por uma cozinheira de primeira. Dei uma espreguiçada. Sempre após o almoço dá um sono...

— Ahh... Estava ótimo como sempre, mãe!

A bela e típica dona de casa ainda terminava de lavar a louça, mas não hesitou em se virar para me lançar um doce sorriso.

— Oh, que bom, Eren. – Ela deu uma ajeitada em seus longos cabelos presos por um folgado rabo-de-cavalo. – Bem, espero que ainda tenha espaço para a sobremesa...! – Ela fez um ar de mistério, logo indo até o forno já com as luvas colocadas. Retirou dali uma travessa com um bolo de fubá quentinho, colocando-o sobre a mesa à minha frente.

— Waah, caramba!– Senti o aroma característico do fubá já despertando minha gula. – Que horas você preparou isto? Eu nem vi!

— Haha, sou uma chef discreta, simplesmente. – Ainda fazendo seu jeitinho de mistério, ela buscou por dois pratos e garfos de sobremesa. Retirou seu avental e também se acomodou à mesa comigo. – Espero que esteja tão bom quanto o almoço, faz um bom tempo que não preparo esta receita. – Ela riu.

— Ah, mãe... Vindo de você tenho certeza que estará bom. – Eu sempre a elogiava, afinal nas outras vezes que nos encontramos eu fui meio birrento. Agora só a trataria bem, que é o tratamento que ela merece.

— Oh, querido. – Ela deu um leve apertão em minha bochecha. – Prove um pedaço. – Ela me entregou uma fatia já no prato. Eu não perdi tempo, dei uma boa garfada.

— Humm... – Realmente estava bom. Sentia aquela parte mais molhadinha que dá um toque saboroso à massa. – Está ótimo, mãe!

— Huhu, que bom. – Ela também começara a degustar de sua fatia. – E então? O que anda acontecendo com você ultimamente?

— Hum... Várias coisas... Coisas boas e ruins.

— Ruins? – Ela me olhou torto.

— É... Na escola, sabe?

Minha mãe apenas deu um sorriso e logo deu uma ajeitada na minha franja, separando-a mais certinho no meio.

— Eren, não ligue para o que garotos dizem de você. Eles não sabem de nada do que acontece. – Ela acarinhou meu rosto. – Vão seguir apenas o senso comum e fazer julgamentos, não levo-os a sério.

— Hum... Ok... – Cortei mais um pedaço do bolo para mim. Estava mesmo muito bom. – Er... e desculpe. Eu ainda arrumo brigas... Eu tento evitar, mas é que eu não aguento, mãe... Eu me irrito muito fácil.

— Huhu... Eu sei, Eren. – Ela apoiou o queixo sobre sua mão. – Sei que vai parar de brigar logo... e também sei que adolescentes podem ser mais maldosos do que adultos. Isto é uma tentação muito grande para afrontas, não é? Mas... – Ela sorriu de novo. – Estou vendo que já está amadurecendo aos poucos, filho.

— Hehe – Ri sem graça. – Será mesmo, mãe...?

— Mas não dê importância às coisas ruins. Dê mais importância às coisas boas. – Ela mordeu o último pedacinho do bolo em seu prato. – E então...? Que coisas boas têm acontecido? – Ela inclinou o rosto para me fitar melhor.

— Er... Ah, você já deve saber, não é? – Nesse momento sentim-me acanhado. – Você sempre sabe de tudo...

— Hihi. Sim... Sei sim.

— Hm... E v-você concorda que eu faça... fique... er... seja assim...?

— Eren... – Ela segurou minha mão, roçando de leve com as suas. – Não importa suas preferências, o que vale é que você ainda é um garoto bom, gentil, correto... e com muitos amigos que te adoram. – Ela alargou o sorriso. – E eu digo que... existe um motivo de eu ter escolhido ele para cuidar de você. E parece que está indo tudo como eu esperava...

— Mãe...

— Mas me conte mesmo assim, Eren. Gosto de ouvir você dizer.

— Hum... – Meu rosto esquentou mais ainda, era meio embaraçoso falar desse tipo de coisa, ainda mais se for para a mãe. – Eu falei pra ele que eu o amo...

Ela deu um discreto riso, aparentemente não estava achando estranho toda esta coisa acontecendo entre eu e ele...

— Oww... Ele tem cuidado bem de você, não é?

— É... M-mais ou menos... – Revirei os olhos. – Às vezes ele é meio bruto comigo, mas tem vezes que é muito adorável também... – Minha mãe apoiou-se mais à mesa, me olhava toda interessada nas minhas falas. – E ele é bem complicado por não ser muito expressivo... mas, de um tempo pra cá, aprendi a lê-lo melhor. Mas mesmo assim... Ele nem me respondeu quando eu disse pela primeira vez que o amo...

— Huhu, eu sei que parece meio difícil. É um rapazinho carrancudo, mas se você prestar atenção, ele pode ser mais transparente do que você imagina.

— É...?

— Uhum, acredite na mãe, Eren... Vá prestando mais atenção. Vocês já são bem familiarizados, não é? – Ela deu um toque na ponta de meu nariz. – Lembre-se, não é só você que precisa dele... Ele também precisa de você.

— Sério?

Ela fez que sim com a cabeça de forma graciosa, deu mais um amoroso sorriso antes de se levantar e recolher os pratos da mesa.

— Ah, mãe! Eu ia comer mais! – Reclamei apontando o bolo.

— Hunf. Não coma tudo de uma vez, ou não sobrará nada para o papai. – Ela sempre fazia um tom brincalhão mesmo quando ia dar um sermão. Eu olhei para o bolo... ainda tinha a travessa inteira. Daria para o papai e eu repetirmos umas dez vezes.

Dei outra olhada para a mulher de vestido longo, amarrando seu avental, bem de frente com a pia, se preparando para enxugar a louça. A claridade vinda da janela ofuscava um pouco a visão da silhueta dela. Não sei porquê mas... meus lábios começaram a tremer. Fiquei olhando-a... Ela estava bem ali.

— Mãe... – Minha voz saiu um pouco mais fraca. Ela logo me olhou torto, vendo que agora eu mudara minha expressão.

— O que foi...?

Eu fiquei alguns breves segundos tentando segurar, mas não consegui. Dei umas soluçadas e logo deixei as lágrimas escorrem. Escondi meus olhos com uma das mãos. Eu não queria chorar... Não agora. Quando eu estava com ela, queria estar só alegre.

— Eren...? – Ela deixou o prato sobre o escorredor e me olhou preocupada. Eu rapidamente levantei-me da cadeira e corri até ela, abraçando-a bem apertado. – Eren... – Mesmo ela se surpreendeu com essa minha atitude. Não demorou muito para ela também abraçar-me de volta. Foi um ato reflexo meu. Queria apenas abraçá-la, sentir que ela estava ali, mas ainda não parecia muito real...

— Eu... Eu queria... Queria tanto você e o papai com a gente, mãe... Junto comigo e com o Levi. Eu só queria isso...! – Fui derramando mais e mais lágrimas em seu ombro. Como eu já não era criança, de pé, ficava um pouco mais alto do que ela. Ela teve que ficar levemente apoiada na ponta dos pés para falar em meu ouvido...

— Ouça... Eu e o papai sempre estaremos com você, filho. Sempre... – Não via seu rosto agora, mas eu sabia que ela ainda sorria... Ela nunca parava de sorrir. – E você vai estar com o Levi... Ame-o e respeite-o, ok? Ele está fazendo vários papéis em sua vida... inclusive o meu e o do papai...

— Uhum... Eu vou! Eu prometo! – Eu ainda soluçava durante a fala. – Eu te amo, mãe...!

— Huhu... Eu também te amo, Eren... Desculpe não poder estar com você...

~*~

Desta vez eu acordei sozinho, sem a ajuda do despertador. Mas meus olhos não estavam tão secos como nas outras manhãs em que eu dormia até mais tarde, pelo contrário, estavam tão marejados que escorriam várias e várias gotas pelo meu rosto.

— Mãe... – Dei uma murmurada ainda tendo últimos resquícios de meu sonho desta noite. Dava leves soluços... Mas aos pouquinhos, como todos os seres humanos, o sonho foi sendo esquecido até tomarmos consciência de que foi apenas um sonho. Mas coisas ainda ficavam na memória... o sorriso de minha mãe era uma delas. Penso eu que... ela deve sorrir bastante quando me encontra justamente para que eu não esquecesse depois de acordar.

Enxuguei as últimas lágrimas que escorriam, voltando agora para minha realidade. Pus-me sentado na cama e me espreguicei. Tenho que estar mais animado. Hoje é feriado! Pude acordar tarde e Levi também.

Levantei-me aos bocejos, indo em direção à porta. Dei aquela minha puxadinha na minha boxer lá atrás... Pois, de novo, quando eu acordava, ela sempre estava meio enfiada.

Saindo de meu quarto, já vi a porta do banheiro aberta e Levi ali dentro, se olhando no espelho. Dei um suspiro enquanto o olhava. Às vezes eu não ficava parando muito para pensar, mas... É bem aconchegante a sensação de se levantar de manhã e vê-lo ali em casa, fazendo alguma tarefa doméstica ou simplesmente sentado em algum lugar relaxando. Isso mostrava que ali era o seu lugar e que não sairia tão facilmente, pensar isso era confortante.

Bem, já que tínhamos apenas um banheiro, usaria com ele. Não havia problemas, não é? Afinal, como eu mesmo já havia dito, não tínhamos nada a esconder um do outro.

Bati à porta do banheiro, chamando sua atenção. Levi, que estava em pé de frente para o espelho, logo olhou para mim.

— Oh... Bom dia, pirralho. – Ele disse, continuando o que fazia.

— Bom dia, Levi! – Vi que seu rosto estava cheio de espuma. Ele passava sua lâmina com bastante lentidão e cuidado sobre o contorno de seu queixo. – Ué... Está se barbeando por quê? Não tem nada aí! – Tirei sarro.

— Hunf. É claro que tem... Minha barba é bem falhada, mas ela existe e cresce de vez em quando. E esse pouco já está me incomodando... – Ele terminava de passar a lâmina em pontos próximo ao queixo e abaixo do nariz. Eu ri e logo dei uma empurrada nele de lado com o quadril para que pudesse ver o espelho também.

— Ok, só deixa eu usar rapidinho aqui, sim?

— Oe! – Ele já ficou irritado. – Espere a sua vez, eu estava aqui antes. – Ele me empurrou também com o quadril tomando seu espaço de volta.

— Mas eu vou só escovar os dentes, Levi, é rapidinho... – Empurrei-o de novo. – Você demora quando se barbeia!

— Demoro nada. – Mesmo no pequeno espaço do banheiro, ele passou uma rasteira num de meus pés, fazendo-me ajoelhar. – Senta aí e espere eu terminar.

— Ei! Isso não é justo!

— A vida é injusta, Eren. Aprenda isso.

— Hunf... – Fiz uma careta para ele, que passou despercebido. Eu só queria metade do espelho. Levi era muito egoísta às vezes.

Eu fiquei ainda olhando-o. O meu carrancudo Levi... não mudava mesmo. Podia ter seus momentos em que agia mais suavemente, mas na maioria das vezes era tão sério. Inexpressivo... Não pude deixar de reparar que ele estava sem camisa... Eis que me surgiu uma vontade... Levantei-me e fui até atrás dele, por mais atrevida que seja a atitude, não pensei duas vezes em abraçá-lo passando as mãos pelo seu peito e abdômen. Isso o pegou de surpresa.

— Que é isso, moleque?!

Não. Desta vez não foi um toque com intenções maliciosas... Eu abracei-o para senti-lo. Apenas isto. Confirmar que ele estava mesmo ali, vivia ali, e ali permaneceria... Como estava sem camisa, notava seu calor mais intenso e, mesmo eu estando de camisa, sentia-o sendo passado para mim através do abraço. Por fim, afundei meu rosto em seu ombro e assim fiquei. Levi permaneceu em silêncio, fitando-me pelo espelho.

— Ei, o que foi...? – Ele percebeu que eu agia mais estranhamente.

Senti a vontade de chorar de novo, por isso resolvi não falar sobre o sonho com a minha mãe... Mas foi meio inevitável algumas poucas lágrimas começaram a escorrer, pingando sobre seu ombro e ele logo sentiu.

— Está chorando...?

Fiz que não com a cabeça, sem olhá-lo.

— Ah, pare com isso... – Ele se soltou de meus braços e se virou de frente para mim. – Por que está assim?

— N-não é nada... – Fiz um sorriso meio tremido, mas espontâneo.

— Se não é nada, não precisa chorar. – Ele ficou na ponta dos pés até fazer seus lábios tocarem os meus num breve selinho. Um pouco da espuma restante de seu rosto ficou em mim também.

— Hehe, tá bom. – Corei. Sempre me encabulava quando ele deixava de agir de forma carrancuda para ser mais afetuoso.

Ele logo voltou a se barbear. E abriu um espaço para mim ao seu lado, para que pudesse usar o espelho também. Eu sorri, enxugando minhas lágrimas, e enfim peguei minha escova de dentes para começar minha higiene matinal.

— Hunf. Francamente... Já vem com essas crises de emo logo de manhã... – Levi falava agora com descaso.

Olhei-o indignado com a escova de dente na boca. Era incrível como Levi voltava rapidinho a ser carrancudo.

— Hoje é feriado. Você devia estar com a cabeça mais fria... – Ele agora enxaguava seu rosto, finalizando sua seção de barbeiro.

— S-sim! Er... Mais tarde vamos treinar muay thai, não é? – Perguntei voltando à minha animação costumeira.

— Claro. Afinal... Quando você disse que é o seu teste?

— Amanhã!

— Exatamente. Temos hoje para repassarmos todos os macetes. – Ele foi saindo do banheiro enxugando seu rosto. – É bom você estar pronto.

— Já estou!

~*~

Bem, hoje, um belo feriado numa quarta-feira. Se bem que, quando caída quarta não era tão legal assim, pois não emendavam. Eu pensava que, como a “distância” de quarta-feira até o fim de semana era o mesmo para os dois lados, podiam já emendar a semana toda sem aula. Hehe, se bem que... até que eu queria as aulas desta vez, pois amanhã, quinta-feira, Mikasa conseguiu um teste para mim e para o Jean de entrada na equipe de muay thai do colégio. Sendo assim, estava bem empolgado.

Eu e Levi ficamos na quadra do prédio, treinando apenas lutas mesmo. Combates corporais mais sérios. E ele não estava pegando leve, aparentemente. Era do estilo dele usar mais as pernas do que os punhos para golpear. Confesso que era difícil defender chutes, eu tinha que usar as pernas também para isto.

Mesmo em uma semana, já fiquei melhor ao menos em me desviar. Claro que eu era atingido ainda, mas bem menos do que antes. Por outro lado, eu tentava acertá-lo usando apenas os punhos. Levi desviava tão facilmente que me frustrava.

— Eren, não perca o foco. – Alertou no meio dos golpes.

— Eu estou prestando atenção!

— Não está não. Tô notando que está meio distraído. – Eu fiquei um pouco sem graça depois dessa fala. Espero que ele não tenha percebido com o quê exatamente eu estava me distraindo... Mas não é só minha culpa! Levi resolveu treinar comigo sem camisa e com um short um pouco mais curto do que de costume. Sem falar que dependendo dos chutes que ele dava, seu short subia. Não tinha como eu não olhar isso!

— D-desculpe. – Dei dois tapinhas em meu rosto e tentei me focar em desviar ou bloquear seus ataques. E claro, tentando também achar uma brecha para golpeá-lo. Mas Levi não era fácil. Por mais que eu gostasse de treinar com ele, sempre acabava me frustrando por não conseguir ganhar nem uma vezinha. Aí, eu fazia birra.

Entretanto, numa última partida, uma brecha me foi concedida e consegui chegar por trás e fechar o braço em torno de seu pescoço, num mata-leão. Minhas pernas também se fecharam em torno de seu quadril e ambos fomos para o chão. Ele já me pegou várias vezes nesse mesmo golpe, agora pude dar-lhe o troco.

Levi resistiu por um tempo, tentando se soltar, mas eu estava em melhor posição e não era atingido com facilidade. Continuei a apertar seu pescoço até Levi amolecer seus movimentos. Sim... ele relaxou o corpo, o quer dizer que se deu por vencido!

Rapidamente soltei-o, deixando ele sentado no chão. Eu abri um largo sorriso, ofegante, de orelha a orelha, e corri para algum canto da quadra, feliz da vida.

— Yeeeeaah!! Eu venci o Levi!! Eu venci o Levi Ackerman!! – Ao fim da corrida, joguei-me de joelhos no chão, com os braços estendidos para cima. – Eu sou muito bom!! Quem que é o dominante aqui agora, hein?! – Fui me empolgando até demais, tanto que nem percebi o próprio Levi atrás de mim.

— Oe.

— Haa! – Virei-me para ele e dei um sorriso mais largo ainda. – Há!!! Na sua cara!! Eu ganhei! Haha, eu ganhei! – Comecei a fazer uma dancinha de comemoração em sua frente. Levi apenas ficou de braços cruzados, me olhando.

— Hunf. Muito bem, garoto. Fiquei impressionado com a velocidade. – Disse. – Na próxima eu posso pegar pesado, então.

— Hã?! – Parei a dancinha. – O quê? Como assim? V-você não estava fazendo seu melhor? – Fiquei indignado. – Levi!! Era pra você vir com tudo!

— Hunf. Eren, você só teve uma semana de treino para este teste. Você ainda é novato, claro que eu não pegaria pesado, ou você não amadureceria. – Explicou. – Veja, você conseguiu me imobilizar. Já é uma grande vitória. – Fiz um tom de orgulho para ele.

— Ah... M-mas...

— Olha, tenho certeza que os garotos da sua idade vão estar mais ou menos nesse nível de habilidade. Notei que você tem dificuldade com oponentes que usam mais as pernas para lutar...

— É...?

— Uhum, sei que a maioria dos jovens usam apenas os punhos. Se seu teste for lutar com um deles, você já está preparado.

— Hm... Tudo bem então. – Sorri, mais animado. Dei uma leve encolhida ao sentir um vento forte soprar por nós.

~*~

Levi

Preparei um chá de noite e fui até o sofá me sentar. O tempo estava muito doido esses dias. Às vezes chovia o dia todo, no dia seguinte fazia sol, agora estava ficou frio. Estava um clima fresco, até poucas horas atrás, mas agora já estava ventando. Enrolei-me numa coberta e me mantive encolhido ali no espaçoso estofado. Fui tomando meu chá enquanto assistia a um programa de músicas orquestradas. Eu gostava de ouvi-las, ainda mais à noite. Era bem relaxante...

Eu ouvia também o som abafado do secador ligado lá no banheiro. Melhor mesmo que Eren seque bem seus cabelos agora, ainda mais nesse frio, pois poderia pegar uma gripe.

Terminado meu chá, deixei a caneca sobre a mesa ao lado e me cobri mais com o cobertor, quase até as orelhas, e mantive-me abraçado aos joelhos. Eren logo apareceu de forma espevitada, jogando-se ao meu lado no sofá. Juro que devo ter subido uns cinco centímetros com esse pulo.

— Oi, Levi!

— Oi... – Notei que ele estava de camiseta de manga curta... – Não está com frio?

— Hu? Não. Tá mó calor. – Ele disse. Bem, ele acabara de tomar um banho quente de derreter a pele, claro que não estaria com frio agora. Espere só daqui a pouco... Já, já ele vai estar tremendo mais que gelatina. Eu permaneci enrolado em meu cobertor.

Eren chegou mais perto e começou a roçar o topo de sua cabeça em meu ombro. Eu olhei-o interrogativo.

— Que foi...?

— Olha como meu cabelo tá macio! Vou secar com secador sempre! – Ele fazia jeito para que eu passasse a mão em sua cabeça. Vendo-o assim, resolvi fazer... Pior é que estava mais macio mesmo.

— Oh... nada mal. – Falei voltando rapidamente meu braço pra dentro da coberta. Eren ergueu a cabeça com um olhar estranho... Logo ele pegou minha mão e levou-a novamente até sua cabeça.

— F-faz mais.

— Hã? – Fiz uma cara torta. Ele estava querendo que o acariciasse mais? – O que é isso...? Você é um cachorro agora? – Comentei sarcasticamente enquanto roçava os dedos em sua cabeça, com suavidade. Eren até fechou os olhos para aproveitar a sensação. Era mesmo um cachorrinho.

Depois de um breve momento, Eren começou a tremer, provavelmente sentindo mais frio. Hunf, como eu esperava.

— Huhu... Agora tá com frio, né?

— N-não. Frio é psicológico! – Ele falou sério, achava isso mesmo.

— Oh... Então não está com frio...

— Claro que não! – Ele respondeu tremendo, o que contradizia sua fala.

— Que pena... – Dei um sorriso sacana. – Se estivesse... eu ia deixá-lo se aquecer comigo aqui no cobertor... – Ele arregalou os olhos na hora. – Mas já que você não está...

— Na verdade...!! Er... bem... – Ele começou a brincar com os dedos. – Talvez eu esteja sentindo um pouco de frio... s-só um pouquinho. – Ele revirou os olhos.

Eu pendi a cabeça de lado, olhando-o. Ele era mesmo facilmente manipulável. Penso se isso era bom ou ruim...? Bem, resolvi abrir a coberta que me enrolava, convidando-o a se juntar a mim. Ele sorriu corado, engatinhando até aninhar-se comigo. Envolvi a nós com a coberta e ali ficamos, prestando atenção à apresentação do grupo de orquestra na TV.

Passado uns minutos naquele silêncio de nossas vozes, ouvindo apenas os sons da televisão, Eren foi se entediando... Deitou a cabeça em meu ombro e ficou olhando para os lados. Provavelmente estava cansado de assistir qualquer programa, mas não queria sair dali por estar quentinho.

É nessa situação que ele começa a ficar irritante...

Ele começou a se remexer, tentando encontrar uma posição melhor para se sentar. Virou de um lado para o outro, se espreguiçava, ficava esbarrando em mim direto. Aquela veia em minha testa já dava indícios de pulsação.

— Eren, fica quieto aí! Parece um peixe fora da água.

— Hum... Estou entediado...

— Você quer assistir o quê?

— Não quero assistir nada...

— Então vá para a cama. Você tem aula amanhã, não tem? Fora seu teste...

— Eu sei, mas... Ahh... Vamos conversar um pouco. – Sugeriu.

— Conversar? Conversar sobre o quê...?

— Hum... Sei lá... Sobre a vida... – Vi que ele estava sem assunto, mas sei que ele fez um tom de quem queria alguma conversa semelhante à que tivemos na praça do lago. Ele mostrou ter gostado de falar de coisas sobre a nossa relação... Tanto é que me impressionou ele não ter vergonha de tocar no assunto. Pelo contrário, ele mostrava até mais interesse do que eu.

— Bem, então comece... – Dei a deixa, afinal, eu via que ele já tinha alguma pergunta engasgada pra me fazer.

— Er... – Ele começou a brincar com os dedos. – Quem foi seu primeiro beijo, Levi...?

Confesso que essa me pegou de surpresa. Ele mostrava-se constrangido, mas também muito curioso sobre o assunto. Sendo assim, respirei fundo antes de responder.

— O primeiro de todos da minha vida... né?

— Sim! – Ele fez uma carinha mais atenta, esperando pela resposta.

— Você pode achar meio estranho, mas... Foi com alguém que você conhece muito bem, sabe? – Falei em tom de mistério.

— É?! Quem?! Queem?!

— Tente adivinhar...

— Hum... – Ele ficou pensando por um tempo até ter um palpite. – É uma garota, não é?

— É claro, Eren! – Dei um tapinha em sua cabeça. Que pergunta idiota!

— E... Não me diga que ela... usa óculos...

— Ela mesma. – Confirmei e ele ficou todo boquiaberto.

— Mas hein?? Hanji??! Como que isso aconteceu?! – Perguntou curioso.

— Hum... Foi da forma mais inesperada que poderia ter acontecido...

~Flashback~

Terminava meu lanche ainda no começo do intervalo. Como sempre, me mantive em silêncio, mesmo em meio à rodinha de amigos. Todos estávamos sentados no telhado do colégio, vários grupinhos subiam para lanchar lá, especialmente em dias ensolarados como hoje.

Meu grupo de amigos estava, como sempre, um barulho só. Especialmente por causa da doida de óculos. Cada assunto estranho que surgia... Eu ainda era meio tímido, não conversava muito. Fiz amizade com eles há pouco tempo, ainda estava me familiarizando... Sem falar que eles todos eram mais velhos que eu.

Eu me senti meio deslocado com a conversa hoje, o assunto do dia foi o primeiro beijo deles... Todos contavam como é que foi e com quem. Hanji disse que foi com um rapaz do primário, de nome Moblit, que nós não conhecíamos. Mike disse que o dele foi com a Nanaba, a garotinha loira que andava conosco também... mas que eu confundia seriamente com um menino... Erwin disse que havia ficado com uma garota de um nome estranho na festa de formatura do primário. Nanaba disse que, no caso, o dela também fora com Mike.

Foi aí que todos se viraram para mim. Eu fiz uma cara de paisagem, olhando para o outro lado.

— E você, Levi? Quem foi seu primeiro beijo? – Perguntou Hanji.

— Hm... Não é da sua conta...

— Ai, seu grosso.

— Está com vergonha? Pode contar para nós. – Erwin em seu jeito calmo, tentou me fazer ficar mais à vontade. – Não vamos zombar...

— Hum... Ninguém. — Respondi.

— Hu? – Os quatro fizeram uma careta diante da minha resposta, aparentemente não entendendo o que eu falei, pois minha voz saiu bem baixa.

— Com quem? – Perguntou Nanaba. Eu mordi o lábio e juntei as sobrancelhas antes de responder.

— Com ninguém...

— Oh... – Todos fizeram uma cara de surpresos.

— Ué, mas você é tão charmoso... Como nunca beijou ninguém? – Perguntou Nanaba, meio retoricamente. No fundo eu não ligava para esse tipo de coisa tão irrelevante que era o tão polêmico “primeiro beijo” entre os adolescentes. Não ligava mesmo, estava mais focado em outras coisas, tal como estudar para passar na faculdade e conseguir finalmente fazer a minha vida sozinho aqui na cidade grande... Mas ver que eu era o único que não tinha feito esta mísera ação, fez-me sentir excluído...

— Hunf. Tanto faz... Vamos mudar de assunto. – Já fui cortando.

— Você tem vontade de perder sua virgindade dos lábios, Levi? – Hanji perguntou.

— Humm... Não! Só... É horrível como colocam pressão para isso. É como se... Se você não fizer, vão te marcar para sempre... – Fui falando meio impensadamente, mas quando eu menos esperava, Hanji segurou meu rosto com as duas mãos e selou sua boca com a minha, pior que foi no meio da minha fala, então ela pegou minha boca aberta. Depois disso, Hanji separou e deu um sorriso de alguém que acabara de fazer uma boa ação.

— Pronto, problema resolvido! Você não é mais BV! Livre de pressões sociais! – Hanji continuou comento seu lanche normalmente. Vi que os outros estavam com os olhos arregalados diante da atitude repentina dela... inclusive eu. É a primeira vez que sinto a boca de outra pessoa... Foi meio estranho. Nanaba deu uma cadernada em Hanji.

— Zoe!! O que pensa que fez? E se ele estivesse guardando para alguém especial?! – Perguntou a loira, indignada.

— Ué, mas o primeiro beijo a gente nem sente direito por ser tudo muito novo! Tenho certeza que o segundo dele valerá mais a pena. – Hanji falava como se fizesse o maior sentido.

— Nanaba... – Resolvi me pronunciar. – Não se preocupe, não ligo para essas coisas melosas de “guardar para alguém especial” – Falei. – Simplesmente já serviu para ver como é... Hum, valeu, quatro-olhos... eu acho...

— Haha, não há de quê!

— Levi... – Erwin chamou minha atenção. – E então...? Agora que já experimentou... O que achou da sensação do beijo? – Notei que ele estava era querendo ver se eu ficava constrangido.

— Hum... É macio...

~Flashback off~

Eren ria diante da minha história.

— Pare de rir!

— D-desculpe, Levi... M-mas isso foi muito engraçado. – Ele ainda ria. Mas eu logo faria seu sorrisinho parar rapidinho. – É bem a cara da Hanji fazer uma coisa dessas...! – Me chamou atenção ele não sentir um pingo de ciúme da Hanji. Ele demonstrou ciúme a vida inteira quando eu aparecia com qualquer outra garota... Bem, estou certo também que ele tem a segurança de que eu não ficaria com a Hanji. Primeiro por ela ser uma figura já muito familiar para ele. E também, ela é muito “amiga” para isso... Sem falar que agora me apareciam outras preferências...

Com o intuito de fazer o Eren agora ficar constrangido, já lancei minha pergunta também.

— E você, Eren? – Dei um sorrisinho de canto. – Quem foi seu primeiro beijo?

— Eh?! – Ele olhou-me de forma torta, pego totalmente desprevenido. – C-como é...?

— Eu quero saber quem foi seu primeiro beijo. – Continuei com minha expressão indiferente, olhando-o sem piscar. Isso fazia uma certa pressão.

— Er... Bem, eu... É que... Q-qual foi a pergunta?

— Oe, não era você quem queria conversar sobre alguma coisa? Então, estou dando continuidade à nossa conversa. – Falei simplesmente. – Quem foi seu primeiro beijo...? Comigo é que não foi, já percebi isso na hora...

— Er... Bem... – Ele começou novamente a brincar com os indicadores. – N-não fique bravo...!

— Não acredito... Foi com a Mikasa?!

— Não! Nãão!! Não foi com ela!

— Ahh... Então quem? Eu conheço? – Não mostrava muito, mas eu estava curioso há um bom tempo para saber disso. Desde que beijamos a primeira vez, já logo notei que não fui sua primeira experiência... Isso me deixou com a pulga atrás da orelha.

— É... Você conhece... Inclusive a mãe dele... – Eren olhava para os lados, menos para mim.

— Espere! “Dele”? Você beijou um rapaz? – Arqueei a sobrancelha e fiz minha cara de indignação.

— Er... Foi. Mas foi sem querer!!

— Não me diga que... está falando do filho da senhora Kir...

— É... Ele mesmo... O Jean.

— Eren... – Me senti mais nervoso depois desta.

— Espere! Acabei de falar que foi um acidente!

— Como conseguiu beijar um rapaz por acidente?!

— E-eu... Eu estava correndo pelo corredor... E... Estava muito cheio. Eu não enxergava direito...! Então não vi a escada na minha frente... aí o Jean tava ali e não saiu da frente! E também deixaram uma casca de banana ali...

— Hunf. – Fui olhando seu jeitinho desesperado contando o causo. Pelo tom de sua voz, pude confirmar que dizia a verdade. Mas que foi uma ocorrência bem rara, ridícula aliás.

Apenas dei um suspiro e cruzei os braços, olhando para o lado oposto. Eren logo entrou em certo desespero.

— Desculpa, Levi! Desculpa, desculpa, desculpa...! – Ele abraçou-se à minha cintura, afundando seu rosto em minha barriga. Fazia uma voz meio chorosa, típica de quando via uma possível chance de eu ficar bravo com ele. – Eu juro que não foi por querer...! V-você não precisa ficar bravo assim... foi só um acidente!

— Ahh... – Dei outro suspiro. – Ouça, Eren... Como você se sentiria se eu dissesse algo do tipo?

— Oi? – Ele me olhou interrogativo.

— E se eu dissesse que já beijei o Erwin antes de você? Como iria se sentir?

Ele ficou paralisado por um momento.

— B-beijou o Erwin?!

— Hum... – Revirei os olhos. – Quem sabe... Talvez. – Fiz uma cara sarcástica.

— Não acredito nisso! – Eren voou em cima de mim, fazendo-me deitar no sofá, e logo deitou seu rosto sobre meu peito, dando murmúrios. – Bem... Na verdade... acredito sim... Vocês são tão próximos... – Sua voz saiu bem mais baixa agora. Ele passava seus dedos na palma de minha mão. Agora sim mostrava um pouco de ciúme, ainda mais do Erwin, quem ele nunca teve esse tipo de sentimento. – Como aconteceu...?

— Bem... Pra começar, foi na primeira vez na vida que eu bebi... muito!

— Sério? Levi bêbado?!

— Foi bem estranho... Estávamos numa excursão de acampamento.

~Flashback~

— Erwin!! – A quatro-olhos gritou bem alto, chamando pelo loiro, que rapidamente abriu a porta de seu dormitório.

— O que houve Hanji? – Rapidamente, ele me viu apoiado nos ombros dela. Posso dizer que eu não estava no meu melhor momento... Eu havia bebido muito na festa.

— Levi exagerou na vodca com morango, hehe. – Falava, rindo sem graça. Levantei minha cabeça para ver o Erwin... Porque até agora só estava olhando para os pés dele.

— Caramba... Você é tão alto, Erwin, eu te odeio por isso... – Dei uma soluçada. Não me sentia muito bem. Minha visão rodava um pouco.

— E você deixou ele beber assim? Hanji, sabe que ele não é de beber nada com álcool... – Erwin deu um sermão na quatro-olhos que logo tentou se safar de culpas.

— Ah, mas quando eu o encontrei, ele já estava assim! Tinham me chamado pra tocar violão lá no palco! Não tinha como eu ficar de olho nele direto!

— Hunf... E o que pretende fazer agora? – Erwin me olhou com certa pena. Eu fiquei mais impaciente e irritado vendo que os dois ficavam papeando como se eu fosse uma criancinha precisando de babá. Sendo assim, separei-me da quatro-olhos e fui indo até a cama... – Oe, Levi!

— Ah, me deixa... Vocês dois me dão nos nervos... – Joguei-me numa das camas do dormitório e ali fiquei.

— O quê... Você pretende deixá-lo aqui comigo, Hanj...?

— Tchau, Erwin!! – Antes que o loiro completasse sua frase, a doida já deu no pé, correndo de volta para a festa do acampamento.

— Hanji! Hanji, volte aqui! Argh... – Erwin deu um suspiro, não tendo ideia do que fazer. Eu dei uma olhadinha de canto para ele.

— Ah, pode voltar pra boate... Eu vou ficar aqui... já tô no meu quarto mesmo... – Murmurei.

— Levi, este é o meu quarto, o seu está lá na frente, junto com o pessoal do ginásio!

— Ah, cale a boca, assim eu não consigo dormir...

— Levi!

— Me deixe ficar aqui. Odeio o povo da minha sala...

— Hm... – Erwin colocou as mãos na cintura, pensando no que fazer. – Tá, então durma aí. Pode usar este cobertor... – Ele logo abriu sua mochila e cobriu-me com uma manta fina. – Vou voltar lá com a Hanji... Quando se sentir melhor...

— Não... Fique aqui comigo. – Pedi.

— Han? Bem... então ficarei aqui até que pegue no sono, ok?

— Que bom... Eu quero que vá buscar mais vodca com morango para mim...

— Não. – Respondeu curto e grosso.

— Afe... É por isso que a Mary não quer ficar com você. É o loiro sobrancelhudo mais chato que eu já vi na vida...! – Erwin massageou as têmporas, provavelmente se controlando para não dar uma resposta atacativa.

— Como você foi ficar assim, Levi...? Você está horrível...

— Hm... Você não vai me trazer mais vodca, Erwin...? – Comecei a me contorcer na cama, fazendo manha. – Hein...? – Dava leves chutes em seu ombro, tentando chamar sua atenção. – Olha pra mim enquanto eu falo com você, seu ignorante.

— Não, Levi. – Ele, com muita paciência, levantou-se e inclinou sobre mim, ajeitando melhor minhas cobertas. – Você vai ficar bem aí e vai dormir, você está péssimo para continuar na festa... Seu dia acabou agora, Levi... – Não sei porquê, mas aproveitando sua aproximação... acabei dando um beijo na boca Erwin, que rapidamente se assustou e recuou. – Ei, o que deu em você?!

— Hum... É... Não é tão macio como uma garota... Que decepção... – Na verdade, eu fiquei com a estranha curiosidade de saber se beijo de homem era igual beijo de mulher... mas pelo que notei, não era.

— Mas hein? – Erwin fez uma cara indignada.

— Seus lábios são muito duros, Erwin. É por isso que a Mary não te quer... – Logo me virei de lado, finalmente me preparando pra adormecer.

— S-seu... Vou te pendurar lá no varal dos universitários!

~Flashback off~

Novamente, Eren não se aguentava de rir, mesmo que abafadamente.

— Meu Deus... Levi adolescente... e bêbado... Eu queria poder ver isso! – ele começou a fantasiar com sua imaginação fértil.

— Hunf. Você não verá uma situação decadente como essa nunca! – Falei.

— Mas Levi... – Ele fez um jeitinho todo encabulado de novo. – E-eu... M-meu beijo... é duro assim também...?

Diante da sua pergunta, dei uma olhada para o outro lado, coçando o pescoço.

— Não... – Abracei-o, fazendo com que deitasse sua cabeça em meu peito novamente. – Incrivelmente... O seu beijo é até mais macio do que o da Hanji...

~*~

Hoje, quinta-feira, eu já estava indo para a escola aos bocejos com o Eren. Acabávamos de passar pelo farol antes do colégio e, como sempre, passei do portão de entrada e parei o carro ao lado da guia. Rapidamente ele juntou suas coisas, colocou a mochila nas costas, pronto para sair do carro. Mas antes... ele deu um sorrisinho para mim, mostrando que esperava por algo.

— Hunf. Quer um beijo de despedida? – Perguntei direto.

— Er... Se você insiste...

— “Insiste”? – Arqueei a sobrancelha. – Você está gozando com a minha cara?

— Hã? “Gozando”...? – Ele não conseguiu segurar o riso. Dei um tapa em sua cabeça e ele rapidinho fechou o bico.

— Pare com essa palhaçada, moleque promíscuo...!

— Desculpe...!

— Ouça, eu sei que vai ficar até depois da aula por causa do teste... Então, só não volte muito tarde, ok? – Dei uma ajeitada em sua franja, que estava meio bagunçada. – Se já estiver de noite, me ligue. Eu venho te buscar.

— Não precisa, Levi. Vou voltar ainda de tarde com Mikasa e Armin, vai ficar tudo bem. – Disse com um sorriso confiante. Eu nada respondi. Só deixei claro que queria que ele voltasse enquanto o céu ainda estivesse claro. Eu ainda estava com receios... Pode até não ter aparecido mais, mas eu ainda me lembro do tal vulto e da pegada atrás do arbusto... Não sei se era apenas coincidência ou se tinha mesmo alguém nos seguindo naqueles dias, mas seja como for, melhor se precaver...

— Certo... Acho bom você passar no teste, ouviu? – Falei num tom imperativo.

— Sim, senhor! Pode deixar! – Ele bateu continência.

Eu dei um sorriso discreto, simultaneamente segurando sua nuca e o trazendo até seu beijo de despedida. Como sempre, apenas um selinho. Agora ele não tinha mais vergonha alguma quando fazíamos isso, já se acostumou... Porque antes... Vish... Ele ficava vermelho até as orelhas. Eu gostava de ver essas reações...

Mas eu também não tinha nada contra suas reações de agora. Ele não ficava encabulado, mas mostrava felicidade e satisfação após esse mísero selinho. Para ele significava muito!

Bem... para mim também...

— Eren, se você passar no teste de muay thai... Eu vou te dar uma recompensa muito boa. – Falei tudo com um ar misterioso e convidativo, afinal, eu sei que ele se saía melhor em seus desafios quando tinha algo como prêmio.

— Recompensa...? – Ele olhou-me curioso. – Que tipo de recompensa?

— Oh, isso é surpresa... – Fiz cara de paisagem. – Mas é algo que você quer muito. – Dei um sorriso provocador que o atiçou mais ainda.

— E-eu vou conseguir!! Com certeza eu vou!!! Pode escrever!! – Ele rapidamente saiu do carro e correu rumo à entrada do colégio. Como eu pensei... Ele deve ter entendido o que eu quis dizer. Agora estava super motivado. Só não sei se... era uma boa dar esse tipo de recompensa a ele... Afinal, eu ainda estava com o peso da culpa, mas sentia vontade de fazer de novo... o que aumentava a culpa mais ainda.

~*~

Eren

As aulas acabaram numa lentidão... Eu não via a hora de poder finalmente fazer meu teste para a equipe de muay thai! Como Mikasa já era do grupo, obviamente ficaria comigo até o teste acabar. Armin, por querer dar seu apoio, também ficou depois da aula, ele conseguiu permissão para assistir ao teste. Marco também resolveu se juntar à turma, dizendo que queria dar seu apoio ao Jean.

Sim, eu e Jean lutávamos por nossas vagas e disputávamos entre nós mesmos inconscientemente, para ver quem era o melhor.

Já no vestiário da escola, nós dois nos trocávamos. Era para usar uma bermuda especial, que o próprio treinador havia dado, para fazer o teste. Fiquei olhando ao redor, faz tempo que eu não vinha para aquele vestiário. Para nos trocarmos na aula de educação física, costumamos usar um outro maior. Vi muitos armários por aqui, além de luvas penduradas e sacos de pancada apoiadas nos cantos.

— Hunf, prepare-se pra apanhar muito, Jaeger! – Jean falou com deboche.

— Hã? – Arqueei uma sobrancelha para ele. – Do que está falando?

— Ao que eu julgo de testes como este, acredito que o treinador fará nós dois lutarmos um com o outro e avaliar qual de nós merece a vaga.

— O quê?! Não foi isso que eu ouvi!

— Ah, cai na real, Eren. Acha mesmo que ele pode admitir a nós dois? Claro que ele escolheria apenas um!

— Hunf, nesse caso então já ganhei a partida... – Debochei, confiante.

— Vai sonhando!

Eu e Jean assim começamos uma nova discussão infantil. Era sempre assim. Se nos deixassem sozinhos por muito tempo era possível acabarmos nos matando. Mas ele era muito insuportável, gostava de pegar no meu pé. Assim como eu no dele... pois só de olhar sua cara já me irritava!

Ambos continuamos falando ameaças e baboseiras enquanto nos trocávamos. Um de costas para o outro, não querendo nos entreolhar até sairmos do vestiário. Retirei todas as minhas roupas, até sobrar apenas a boxer. Olhei para a bermuda que o treinador me deu e achei diferente... Com “diferente” quero dizer “estranho”... O cós era tão largo e apertado, quase achei que não serviria... e não serviu mesmo! Quando fui vesti-lo ele parou no meio das minhas coxas e não subia mais do que isso. Era pequeno demais! Dei uma inclinada pra frente, fazendo força para que entrasse logo, mas não conseguia.

Era só o que faltava... O universo por acaso não quer mesmo que eu entre para o muay thai? Isso só podia ser conspiração pro meu lado. Nem a roupa do esporte eu estava conseguindo colocar!

Aquilo começava a prender meu sangue. Será que já fazia parte do teste do treinador? Será que era pra verificar como eu me saía em situações estranhas do tipo? Bem, tudo é possível nessa vida... Dei uma olhadinha de canto para Jean, pra ver se ele estava tendo o mesmo problema... só que não. Ele já estava pronto, com sua bermuda vestida. Rangi os dentes. O treinador tinha algum problema comigo então?

Dei uma pausa, respirando fundo e tentei novamente encaixar a roupa. Dei uma olhadinha discreta no Jean, analisando sua bermuda... Parecia normal. A minha é que estava pequena. Notei também que Jean era bem branco... Parece que nem saía de casa pra tomar um sol, em compensação era mais malhado do que eu... o que me deixou frustrado.

Voltei minha atenção à minha bermuda puxando-a até a cintura o máximo que deu, mas parou novamente ao chegar no meu traseiro... Dei uma suspirada funda e aproveitei para me constranger lembrando de Levi ter dito algo outro dia sobre minha bunda ter crescido um pouco... Cara! Isso só podia ser um teste! Não havia outra bermuda por ali não? Dei uma observada rápida por todo o vestiário à procura...

— Ei... O que está gemendo aí? – Jean olhou-me de forma interrogativa.

— Eu?! ...N-nada. – Falei meio sem graça.

— O que... Ainda não vestiu isso aí? Hunf, você não nasceu mesmo para lutar... – Jean fazia comentários sarcásticos.

— Isso é o que você pensa! E... E t-tá olhando o quê? – Questionei ao ver que ele olhava muito para o meu corpo.

— Hã? – Jean desviou o olhar. Suas bochechas estavam meio rosas... Rosas? Ele não era de ficar assim. A menos, é claro, que Mikasa estivesse por perto. Fiquei olhando-o torto depois dessa.

— Jean... V-você está fazendo uma cara estranha...

— O quê? Er... Eu estou é indignado que você ainda não terminou de... Afe, deixa que eu cuido disso! – Jean veio em minha direção com passos duros até agarrar o cós da minha bermuda.

— Ei!! Espera aí!! O que vai fazer?!!

Antes que pudesse dizer qualquer coisa mais, Jean puxou minha bermuda com tanta força... que a fez subir até o topo da minha barriga... Espremendo tudo lá em baixo.... Eu gritei tão alto que deve ter assustado o pessoal lá fora. Senti até o gosto do couro...

— Jean... – Falei praticamente sem voz. – Seu filho da puta... Eu... vou acabar com você...!

— É? – Ele riu de deboche. – Então vem, perdedor. Oh, e de nada. Sem mim, você não vestia esse negócio hoje! – Jean deu meia volta e foi saindo do vestiário, fazendo novamente seu jeito sarrista. Eu senti tanto ódio dele de novo... Esse maldito...

Saí atrás dele, meio torto e com as pernas juntas. Nunca senti tanta dor assim naquela região desde o último “cuecão” que levei no primário. Mikasa, assim que me viu adentrar a sala, veio correndo preocupada vendo meu andar estranho.

— Eren, o que houve? Tudo bem com você? Parece meio nocauteado... – Em parte eu estava sim. Mal sabe ela da dor que é sentir suas regiões baixas serem espremidas por um tecido meio grosso...

— Sim... T-tudo, Mikasa. Isso é só... ansiedade pela luta. – Ouvi Jean rir depois dessa minha fala.

— Oh... Se você diz... – Mikasa continuou ao meu lado.

O treinador começou, então, a dar as instruções do teste, aproveitou para fazer um breve discurso sobre suas exigências e o que esperava de cada membro ali. Foi bom, pois sua fala foi o tempo certo para eu me recuperar e logo prestar maior atenção.

— Muito bem! – O treinador foi para o centro do tatame. – Jean Kirschtein e Eren Jaeger. Um passo à frente. Eu e Jean demos uma última entreolhada até seguirmos a ordem dele. – Ok... Digo que eu tenho um bom olho. Vou fazer o teste de vocês simultaneamente.

Como Jean disse... Creio que lutaríamos um com o outro. Já logo dei uma estralada no pescoço, pronto para bater o máximo que der nele. Pelo visto, ele também me olhava sério, doido pra poder lutar comigo “dentro das normas do colégio”. Quer dizer que poderíamos dar tudo de nós.

— Mikasa Ackerman! – O treinador chamou. Nesse momento tanto Jean quanto eu ficamos confusos. – Venha para o centro! – Mikasa obedientemente foi, parando com os braços atrás das costas.

— Sim, treinador. – Ela fez sua saudação.

— Er... T-treinador... – Jean se pronunciou. – Por que a chamou até aqui? – Jean olhava Mikasa com certo receio.

— Ela será sua oponente, Kirschtein!

— O quê?! – Jean começou a suar. – M-mas... Vai misturar os gêneros assim?

— Ackerman é uma das melhores que tenho no grupo. Não importando se é uma garota, ela será um teste perfeito para você. Suas alturas são compatíveis.

— M-mas... – Jean deu um passo para trás.

— Em posição, já!

Dito isso, Jean, ainda tremendo, ficou em pose de combate. Respirou fundo e piscou algumas vezes, enfim aceitando sua oponente inesperada.

— Muito bem então, Mikasa... – Vi em seu rosto que, na verdade, ele não queria lutar com ela. Bem, só sei que isso me daria uma boa vantagem. Quer dizer que Jean não lutaria com tudo o que tinha, então agora só me resta ganhar de meu oponente. Mikasa logo retirou sua camisa, ficando apenas de top e short. A visão que tive foi meio inesperada... Ela... tem abdômen de tanquinho? Quando foi que ela conseguiu aquilo? Eu não me lembro dessa definição muscular tão saliente assim nela. – Caramba, Mikasa... – Jean ficou boquiaberto, assim com eu. Ela era mais definida até do que ele. Jean na hora corou, hipnotizado em ver o corpo dela com menos roupas... Bem, só sei que... Ela nessa aparência dava medo.

— Fique pronto, Jean. – Mikasa, já em posição de combate, se preparava mentalmente para a luta.

— B-bem. E eu, treinador? – Perguntei. O homem logo sorriu, parecia até que estava prestes a ver um belo show.

— Venha até o centro do tatame... – Ele olhou para o grupo de membros do muay thai todo amontoados juntos. – ...Annie Leonhardt!

— Annie?! – Eu novamente fui pego de surpresa. – O quê? E-ela é do grupo de muay thai também?? Mikasa! – Me virei para a mestiça. – Por que não me disse isso antes?

— Ué. Você nunca perguntou, Eren... – Ela fazia um olhar apreensivo.

Engoli seco ao ver a pequena figura da loira surgir do meio daquele monte de gente. Ela vestia suas luvas no meio do caminho... também usava top e um short. E ao que eu pude notar, de primeira, é que ela não tinha um tanquinho, como Mikasa. Seu abdômen era liso. Já suas pernas... elas podiam ser pequenas, mas eram mais bem definidas do que as da Mikasa... Isso queria dizer que ela treinava mais as pernas do que os braços? Essa não... Foi aí que me lembrei do que Levi me disse... A minha maior dificuldade era lutar com alguém que use estilos com pernas...

Engoli seco, vendo Annie se aproximando enquanto estalava os dedos.

— Hunf. Então você veio brincar, fedelho? Até que tem bastante coragem.

— Annie... – Suspirei alto, me pondo em posição também. Ela dava um pouco de medo agora... Mas eu não podia me deixar ser intimidado. Ela é pequena e é uma garota... Talvez se eu me focar nesses fatos, eu consiga vencê-la. – Vamos lá, então...

— Annie, se você machucar o Eren... – Mikasa já veio ameaçando-a.

— Só faço o que o treinador pedir. E agora, ele disse para não pegar leve. – Annie se colocou em posição e fez um olhar bem assustador. Ela tinha mesmo um ar de intimidação semelhante ao do Levi. Engoli seco.

— Pode vir então.

O treinador, posicionando-se atrás de nós para melhor visualização da luta, logo deu seu sinal.

— Comecem!

Notas finais
E aí, o que acharam? Eu sei que esse capitulo tá meio paradão também, mas é necessário! o/ Claro, sem falar em partes cômicas, quero manter ainda nessa atmosfera, pq depois, as coisas ficarão um pouco mais tensas na história de Eren e Levi =3=/ Mas por hora vamos aproveitar os momentos fofos deles ♥ Acho que é só. :3 Beijos da Nikki e até mais o/