Reencarnação
2 Decisão imprudente
Notas iniciais
Levi
A quatro-olhos arregalou os olhos diante da minha fala, totalmente perplexa.
– O que você disse? – Ela perguntava desacreditada.
– Exatamente o que ouviu. Vou entregar o Eren...
– Não! Enlouqueceu?
– Pelo contrario! Agora sim estou lúcido. – Falei firme a olhando nos olhos. – Eu achei no começo que conseguiria cuidar desta criança, mas...
– Mas... a Carla confiou o Eren a você! Ela passou a responsabilidade dele a você antes mesmo do parto, lembra?
– Foi imprudência dela, Hanji! Olhe para mim! Olhe minha situação! – Chamei sua atenção, não parando de amamentar o garoto. Foi aí que ela parou de falar para me ouvir. – Quatro-olhos... Eu sou só um adolescente. Moro sozinho. Eu queria ir pra faculdade... mas se ele estiver aqui... – Olhei para o pequeno em meu colo, com certa tristeza. – Eu não tenho condição alguma de cuidar dele.
– E vai deixa-lo com estranhos?
– Não são estranhos. São pessoas bem mais preparadas e com melhores condições do que eu para assumir tal responsabilidade. Vão saber exatamente o que fazer com ele... Aliás era para onde ele teria sido mandando automaticamente se a Carla não tivesse feito aquele documento.
Hanji me olhava com desaprovação, seus lábios fazendo um leve bico e sua sobrancelha arqueada. Mesmo com todos os meus bons argumentos, ela ainda parecia querer que eu ficasse com o Eren. Ela ajeitou os óculos antes de falar.
– Então, essa é a sua decisão final? Ignorar o último pedido da Carla?
– É. – Falei firme. – Levarei o quanto antes. Pensa comigo, Hanji, estou fazendo o melhor pra ele. – Argumentei retirando um pouco a mamadeira da boca do bebê, vendo que esta já se encontrava vazia. Ele parecia bem relaxado agora.
Hanji deu um sorriso triste com minha resposta, logo voltou sua atenção ao Eren.
– Hm... Posso carrega-lo? – Ela pedia voltando ao seu estado afável. Não sei bem se ela tentava esconder seu desapontamento ou apenas aceitou que eu deixaria de ser o responsável pelo Eren. Eu então coloquei o garoto em seus braços e ela já foi conversando com ele. – Ei, mocinho! Bem melhor agora de barriguinha cheia, não? – Ela fazia novamente aquele tom infantil. Eren fazia um olhar bem cansado. Nas duas semanas que fiquei com ele, apenas abria os olhos bem de vez em quando. Na maioria das vezes, mantinha-os fechados, mesmo estando acordado. E não estava diferente agora, mesmo com Hanji brincando com ele, só continuava tranquilinho e encolhido.
Como a nossa conversa chegou a um clima meio depressivo, resolvi mudar o assunto.
– E você? Não tinha entrado em uma faculdade? – Perguntei.
– Ah... Ainda não, lembra? Eu queria enfermagem numa universidade pública, parece que a concorrência aumentou. Por seis pontos eu não pegava a vaga. – Ela falou e apesar da situação não parecia frustrada.
– E a segunda chamada?
– Ainda estou esperando. Mas penso que já consegui. – Ela argumentou e eu apenas assentia. – E você? Ainda quer prestar pra direito? Numa federal? A concorrência está maior do que nunca ainda mais pra esse curso.
– Eu sei. Mas eu encaro. – Falei confiante. – É o curso que eu foquei desde que cheguei à cidade.
– Hm, entendo. E aí você finalmente pode sair de perto do Nile, não é? – Assim que ela falou sarrista, dei um suspiro.
– É... estou de saco cheio de vê-lo todo dia. Cara chato... Foi arrumar um trabalho logo junto comigo. – Falava com descaso. Eu nunca fui com a cara de Nile, sem falar que ele e Erwin tem uma rixa. Não sabia exatamente o motivo, mas Hanji havia me dito que era por causa de uma garota do colégio. Hunf. Motivos irrelevantes para mim.
– Haha, eu sei, lembro-me das implicações que ele fazia com o Erwin por causa da Mary. Era bem engraçado.
Conversamos mais um pouco de nosso tempo de colégio. Eu não era da sala de nenhum deles. Claro, sou digamos o caçula do nosso grupo. Hanji e Mike eram dois anos mais velhos que eu. Erwin e Nile eram cinco anos de diferença de mim.
Nos intervalos das aulas, eu sempre ficava em um canto sozinho do refeitório. Preferia ficar assim, eu não era muito sociável. E só minha cara de carrancudo já fazia as pessoas se afastarem. A única que veio ali me importunar por iniciativa própria foi Hanji. Ela conversava com quase todos do colégio e sempre me chamava para me enturmar e sentar com ela e seus colegas, acabei por conhecer Mike, Nanaba e Erwin, este parecia já conhecer a quatro-olhos há tempos.
Posso dizer que estes são meus amigos até hoje. Todos vieram me visitar quando trouxe o Eren para casa. Todos, exceto Hanji, também acharam meio estranho a senhora Jaeger ter deixado seu único filho comigo ao invés de algum parente de sangue. Se bem que, desde que os conheci aqui na cidade, o casal estava sozinho vivendo aqui, sem qualquer familiar.
Hanji ainda brincava com Eren, querendo vê-lo dar uma risadinha que for, coisa que ele não fez desde que chegou do hospital. Eu olhava meio preocupado de ela se apegar muito ao bebê e depois ficar depressiva quando eu entrega-lo ao orfanato... De repente, ela segurou o Eren na vertical sobre seu colo, sustentando seu traseiro com o braço, dando leves batidinhas em suas costas. Eu olhei aquilo e achei meio estranho.
– O que está fazendo? – Perguntei.
– Ele não arrotou ainda...
– Arrotar? Acha que ele precisa fazer isso?
– Você não sabia? – Ela me olhou meio surpresa e riu. – Sempre depois de mamar ele deve arrotar, Levi. Se não todo o ar que ele “engoliu” durante a mamada vai virar gases que o deixarão com cólicas. – Explicava ela. E eu fiquei bem surpreendido, até que ela entendia bem sobre essas coisas. Bem, o que mais esperar de alguém da área de biológicas?
Depois dessa, mais ainda percebi o quanto eu era inexperiente para criar o Eren sozinho. Eu definitivamente o entregaria ao orfanato da cidade.
Assim que Hanji estava de saída, esperando o elevador, ela deu um último olhar pedinte para mim.
– Levi, por favor, pense de novo com mais calma antes de fazer essa loucura. Lembre-se, você acompanhou toda a gravidez de Carla até o fim, não foi? Você ficou com o Eren essas duas semanas inteiras. Sei que parece ser bem difícil e pode mudar vários de seus planos, mas se quiser ajuda, eu, Mike e Erwin sempre estaremos aí. – Hanji falava em seu tom confortador e com um sorriso pedinte.
– Veremos... – Disse assim apenas para ela não insistir em me convencer. Mas eu já tomei minha decisão. Eu entregaria o Eren e provarei a ela que foi o melhor para ele.
~*~
Cheguei com o pequeno dormindo dentro do carrinho até o tal orfanato. Era meio longe do prédio que eu morava. Mas claro, fui a pé, não tinha como não achar longe. O que me fazia lembrar que tinha que entrar para a autoescola também o mais breve possível.
Confesso que fiquei surpreso com a aparência do local. Achei de boa estrutura e era tudo muito bem higienizado. A arquitetura do pequeno prédio era de design antigo, parecia uma mansão inglesa do século dezenove. Achei de bom gosto, eu me admirava com essa aparência clássica. Reforçou-me a ideia de que Eren estaria em boas mãos.
Assim que adentrei o local, uma moça veio ao meu encontro para me atender.
– Olá mocinho, posso ajuda-lo? – Perguntou simpática, não deixando de notar o bebê que eu trazia comigo. – Oww, que criança linda. – Ela elogiou toda encantada com o Eren, todos ficavam assim quando o viam. – É seu irmãozinho?
– Não. Moça, quero pedir-lhe. Posso deixa-lo aos cuidados de vocês? – Perguntei direto e sem ladainhas. Ela logo me olhou confusa.
– O quê? Onde estão seus pais?
– Eu moro sozinho. – Respondi, vendo que ela deve ter achado que eu tinha catorze anos, muita gente tinha essa primeira impressão, vendo meu rosto e altura. – E os pais do bebê faleceram... Não tenho condições de sustenta-lo. Queria ver o preciso fazer para deixa-lo aqui com vocês.
– Oh, os pai e a mãe dele... Por que você ficou com o bebê? – Ela perguntou ainda querendo entender a situação.
– Eu era amigo da mãe dele... Por algum motivo ela passou a guarda do bebê para o meu nome antes mesmo do parto. Até hoje não sei por quê. – Mostrei-lhe o documento que me foi entregue no hospital, mostrando a assinatura de Carla e meu nome logo abaixo com a mesma caligrafia.
– Oh... – Ela pegou o documento e o leu atentamente. – Bem, neste caso... Você é de maior, não é?
– Sou. – Mostrei meu RG a ela também. – Vocês tem vaga aí para ele na adoção, não?
– Temos sempre. Mas... tem certeza de que não consegue sustenta-lo? – Ela perguntava. Eu já começava a fica sem paciência.
– Tenho, moça. Se eu achasse que conseguiria não o teria trazido até aqui. Ele nem tomou as vacinas, não o levei ao pediatra e meu salário não é o suficiente pra tudo isso. – Argumentei. – É preferível para mim que ele fique aqui. – A moça, olhava para mim e para o Eren com um olhar triste.
– Bem, se essa é sua decisão final. – Notei que ela falava como Hanji. A própria responsável dali... parecia não querer que eu o colocasse para a adoção. Mas ele é recém-nascido, seria adotado por um casal com condições muito melhores para seu desenvolvimento. Será que só eu estava lúcido?
– Dona, acha que estou fazendo algo errado?
– Não é isso, é que, bem é a primeira vez que vejo uma situação em que a própria mãe passa a guarda do filho a alguém que não seja um familiar... Só achei que poderia ter um motivo especial. – Ela falava enquanto pegava uns documentos na gaveta do balcão. – Bem, mas podemos deixa-lo aqui, se tem a certeza de que não pode cria-lo.
– Ah, obrigado, moça. – Falei mais aliviado de ela ter aceitado.
– Por favor, assine estes papeis e me entregue os documentos do bebê com a certidão de nascimento. Com isso, você já passa a responsabilidade sobre... hã... – Ela ajeitava os óculos para ler. – Eren Jaeger para o orfanato.
– Só isso? – Achei meio... simples demais o processo. – Certo... – Assim que peguei a caneta pronto para assinar, dei uma olhadinha de canto para o Eren, que ainda dormia todo encolhidinho no carrinho. Me doía um pouco me dar conta de que estava entregando o tesouro de Carla e Grisha a uma instituição de pessoas que sequer conheciam o casal... Mas chacoalhei a cabeça, não querendo pensar demais. Sei que estava fazendo a coisa certa para o Eren. Assinei os papéis e lhe entreguei todos os documentos do garoto, totalmente decidido e logo deixei uma grande mochila de costas com as coisas do garoto sobre sua mesa. – Aqui moça, tudo que o Eren precisará está aqui. Se estiverem em falta de um berço, a mãe dele deixou em sua antiga casa...
– Oh, não será necessário, temos tudo aqui. – Ela respondeu. – Bem, você mencionou que ele ainda não tomou as vacinas, não é? Talvez tenhamos a visita do pediatra amanhã, então penso que ele poderá ser vacinado logo.
– Ótimo. Muito obrigado. – Agradeci formalmente. – Antes... – Virei-me para o bebê, ainda adormecido. Com cuidado peguei-o em meu colo, vendo seu rostinho despertando aos pouquinhos. Ele dava leves espreguiçadas até finalmente abrir os olhinhos, mostrando aquela cor verde que chamava bastante atenção, a moça ao meu lado se encantou na hora. – Eren... vou te deixar aqui, ok? – Conversava com ele, com se ele fosse entender algo. – Um casal bem bacana vai cuidar bem de você, ok? – Inconscientemente dei-lhe um beijo na testa. Como forma de despedida. Logo entreguei-o no colo da moça que me atendeu. Eren ainda não parava de me olhar com seus olhos agora bem abertos.
A moça se despediu de mim com um sorriso ainda meio triste, segurando firme o bebê em seus braços. Quando Eren me viu afastando, começou a dar murmúrios e logo chorou. Mas desta vez, notei que foi um choro diferente, mais agudo que o normal. Dei uma última olhada de canto, notando que ele se contorcia nos braços da moça e não parava de me olhar. Ouvir e ver aquilo me doeu mais ainda, resolvi sair logo daquele lugar sem olhar pra trás.
~*~
Já era mais de seis horas da tarde, e eu havia parado em uma cafeteria do centro antes de ir ao mercado. Sentei-me no balcão e pedi um café expresso. Eu ainda estava um pouco descreditado no que tinha feito.
Já fazia três dias que deixei o bem mais precioso de Carla e Grisha Jaeger nas mãos de pessoas que eles nem conheciam... Mas eles são muito bem treinados exatamente para isso, cuidarão bem de Eren... E se ele for adotado por um casal ruim e que não lhe darão o cuidado devido... Bem, isso não poderia acontecer, quem trataria mal uma criança? E o próprio orfanato não o tratar bem...?
Chacoalhei a cabeça, espanando quaisquer pensamentos ruins, no dia que o deixei no orfanato, passei a noite em claro. Na cama, virava pra cá, virava pra lá e nada do sono vir. Não parava de pensar no Eren. Ainda sentia uma preocupação.
A moça que preparou meu café colocou-o em minha frente sobre o balcão, junto de uma colher e uns saquinhos de açúcar, de brinde veio um chocolatinho com menta. Adocei a bebida e misturei, vendo os redemoinhos que a colher fazia. Dei uma assoprada antes de dar a primeira golada.
Agora estava pensando na dona Carla. Peguei em minha carteira o documento que ela assinou passando a guarda de Eren para o meu nome. Juro que nem sabia que podia fazer isso sem que eu fosse um familiar, mas depois de pesquisar muito, vi que estava dentro da lei esse tipo de coisa.
Olhei bem a caligrafia de Carla, imaginando o motivo de ela ter feito esta imprudência. Ela sabia bem da minha situação e minha idade. Como pôde confiar seu filho a mim? Tá certo que nos encontrávamos quase sempre e já tínhamos certa intimidade, por isso já tinha uma confiança, mas não sabia que era tanta assim. Lembro que quando ela me conheceu já me olhou de forma amigável. Depois que contei que vivia sozinho, ela até me convidou a morar com ela e Grisha, mas eu recusei por orgulho. Quando cheguei à cidade grande estava decidido a construir minha vida por conta.
Como eu trabalhava há três anos no mercado do bairro, Carla passava quase todos os dias para suas pequenas comprinhas, e ela sempre fazia questão de passar suas compras no meu caixa. Muito faladora, conversava comigo direto, mesmo eu não respondendo sempre. Contava de tudo, como compraram a casa naquele bairro, sobre o trabalho no hospital de seu noivo, Dr. Grisha Jaeger. Até me convidaram para o casamento deles. Eu, sentindo-me honrado pelo convite, fui.
Logo eles conheceram também Hanji e Erwin através de mim. Quase toda vez que Carla vinha ao mercado, era a pé. Então ajudava-a sempre a levar as compras até sua casa.
Mas o momento que eu mais a vi mais alegre foi ao dar a notícia que havia engravidado. Pelo que notei na hora, sempre foi seu sonho ser mãe. Neste momento que ela comentou da gravidez ser de risco...
Bebi todo o restante de meu café, apoiando-o novamente no pires.
Lembrava-me também de como seu sorriso caloroso desapareceu com o falecimento repentino de Grisha, vítima de um infarto. Coisa que pegou a todos de surpresa inclusive eu... Ele pareceu sempre muito bem para mim, até brincava com a minha aparência mais jovem do que minha idade real. Ele me atendeu em seu consultório várias vezes. Para mim, parece que médicos nunca teriam qualquer problema de saúde... mas isso é só um estereótipo.
Mas aquele sorriso de Carla voltou assim que eu a vi na sala da maternidade, segurando o pequeno Eren em seu colo. Eu não vi o parto, eu recebi a notícia atrasado e o ônibus demorou a chegar no ponto. Por isso não vi também que ela havia assinado este documento que agora está em minhas mãos...
Assim que comi o chocolate com menta, guardei o papel no bolso, levantei-me do balcão e coloquei meu casaco, pronto para sair. Estávamos no outono, e ventava bastante. Retirei-me da cafeteria, rumo ao mercado.
~*~
Chegando ao lá, fui diretamente para a sessão de produtos de limpeza, era sempre o primeiro lugar que eu ia e também o que mais me agradava. Muitas coisas estavam em falta lá em casa. Fui tentando lembrar de cabeça. “Precisava, vejamos, de detergente, sabão em pó, desinfetante...”
Meus pensamentos foram interrompidos ao senti algo agarrar minha perna. Assim que olhei para baixo, vi uma criança, loirinha, segurando a barra da minha calça. Era uma garotinha de olhos bem azuis, parecia não ter nem um ano ainda por isso não falava nada, olhei pelo corredor e não vi ninguém ali. “Será que se perdeu?”
Por precaução, peguei a pequena no colo e fui procurar a mãe, ou o pai. Olhava para a carinha dela, mostrava-se curiosa, mexendo em meus cabelos e no meu nariz... Aquilo me fez doer o peito novamente lembrando do pequeno que agora não estava mais comigo...
– Ah, Annie! – Um homem suspirou aliviado atrás de mim. – Graças a Deus! – Ele correu ao meu encontro. Notei pela aparência que devia ser o pai dela. Eu logo entreguei a menina ao seu colo. – Muito obrigado rapaz. – Ele agradeceu. – Annie, não saia de perto de mim assim, está ouvindo? Me deixou preocupado. – Ele disse e ela apenas o abraçou. Eu ainda fiquei observando hipnotizado os dois se afastarem pelo corredor. A pequena loira, abraçada ao pescoço do pai, me olhou de volta e deu uma acenada com a mãozinha.
Aquela cena me fez sentir outro nó no peito... Todos os seus gestos me faziam lembrar do Eren...
Tentei desviar minha mente a outras coisas e continuei as compras. Naquele momento só queria sair logo do mercado, voltar para o meu apartamento e tentar dormir. Ainda bem que estava nas minhas “férias” do trabalho.
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