Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

16 Capítulo 15 Inako, A Raposa


Ela estava faminta. Estava há dias sem pôr comida decente no estômago e isso estava atrapalhando seu raciocínio, entorpecendo a sua mente. Já havia passado fome quando pequena durante a epidemia que se espalhou pelo país onde morava, mas nunca como agora.


“Tô morrendo de fome. Preciso comer alguma coisa, qualquer coisa serve!”


Avistou um punhado de cogumelos crescendo à sombra de uma árvore. Com chapéus brancos e carnudos, pontilhados de rosa, pareciam suculentos para ela à primeira vista.


_Ah! Cogumelos! Um bocadinho deles! Os deuses não me largaram! — Exclamou enquanto juntava as palmas e agradecia de olhos fechados.


A fome que sentia não sabia esperar mais do que isso. Apanhou todos os cogumelos do jeito que estavam e comeu com voracidade, estufando sua boca com eles.


_Hum, u gosthu é amarro, GLUP… mas é melhor do que nada.


Comeu até lamber os dedos, mas apesar da aparência, aqueles cogumelos estavam longe de serem o suficiente para aplacar a sua fome.


_Ahhh, acabou. Será que consigo encontrar mais por aqui?


Procurou em todas as árvores próximas, mas nada encontrou. Já estava desanimando novamente, quando algo chamou sua atenção,


_Pôxa, nenhunzinho que fosse. Se continuar assim, vou ficar sem forças e meu ki vai… o que é aquilo?


Avistou ao longe alguma coisa que se mexia. Ao se aproximar, viu que se tratava de um frango de cores laranja e preto que estava acocorado à sombra de uma árvore.


“Só posso tá sonhando! Um frango aqui na floresta? É uma bênção atrás de outra! Obrigado, Meus Deuses!”


Procurou por algoque servisse para abatê-lo, então avistando um pedaço de galho de árvore que parecia bem duro. Munido de sua arma, se aproximou lentamente por trás da árvore levantou o braço e o desceu sem demora..


“É agora!”


TUM!


O frango não teve qualquer chance. Caiu para o lado, desmaiado com a pancada certeira na cabeça. Ela pulou de alegria até mesmo se esquecendo de que estava quase sem forças.


_CONSEGUI! CONSEGUI! O almoço de hoje vai ser frango!


Não muito longe dali, na cidade de Bordeaux, o grupo de aventureiros Coeur de Lion estava tendo uma breve reunião com o chefe de guilda da cidade.


_E então, Henri. A que devo essa visita?


Henri, o jovem Cavaleiro que era questionado, sentou-se no sofá diante a mesa e cuidadosamente pôs sua espada sobre a mesa e se pôs a falar:


_Chefe Ferdinand, viemos aqui comunicar que algo estranho ocorreu na Floresta Alvernac hoje cedo.


O líder de guilda levantou uma sobrancelha e sentou-se em sua cadeira.


_Muito bem, continue.


_A caminho daqui, Jean e Axel pediram para descer da carroça em que pegamos carona dizendo que… bem, eles queriam urinar. Mas quando entraram na floresta, foram atacados por algo que eles descreveram como… um frango.


_Hã? Poderia repetir?


_Um frango, senhor.


_E você espera que eu acredite em uma baboseira dessa?


_Bem, senhor, tirando essa descrição maluca, é fato que algo os atacou com um tipo de explosão.


_Senhor Ferdinando, se me permite interromper, posso dar um pouco mais de detalhes sobre isso.


_Muito bem, Claire, tem permissão para falar.


_Obrigada. Segundo uma breve examinação minha, tudo leva a crer que esses dois foram atingidos por magia de vento de alta potência. A criatura se escondeu em um tronco de madeira e de lá de dentro disparou a magia que teve um forte impacto por conta do espaço reduzido.


_É algum tipo de monstro? Por favor, não me diga que é um frango.


_Não, senhor, não acredito de seja um fra... — Nessa hora Claire engasgou com a palavra — … um frango. Uma ave doméstica jamais seria capaz de utilizar mana, ainda mais naquela intensidade.


_Mas era um frango! Não é mentira nossa! Aquela maldita ave!- Disse Jean levantando-se do sofá, em seguida pondo as mãos na cabeça e esfregando furiosamente os dedos em seu cabelo raspado.


Axel, que até então estava calado, decidiu falar em defesa do amigo.


_Chefe Ferdinand, nós não estamos loucos. Aquele — parou por um instante para olhar Claire com olhar furioso lembrando do que ela prometera mais cedo — aquela ave realmente estava lá. Mas admito que nunca vi uma ave correndo tão rápido quanto aquela, quase me deixou comendo poeira!


_Realmente, é uma situação muito estranha e confio em suas habilidades, jovem. Essa criatura deixou alguma pista para trás?


_Na verdade, Chefe Ferdinand, não temos nada. Jean e Axel tinham sido feridos e estavam em estado de confusão após serem curados por Amélie. Achamos melhor trazê-los de volta conosco e comunicar ao senhor. Nos perdoe.


Após um breve momento fitando os olhos de todos, Ferdinand suspirou fundo e então voltou a falar.


_Está bem. Não posso e nem vou deixar essa criatura passar despercebida, pode ser algum tipo de monstro que ainda não conhecemos. Mandarei soldados para a floresta em busca de pistas dessa criatura. Mas…


_Mas?


_Esta é uma situação um tanto bizarra, então recomendo que este assunto não saia desta sala de forma alguma. A reputação da Coeur de Lion não pode ser manchada por um absurdo destes. Fui claro?


_SIM, SENHOR! — O grupo respondeu em um só tom sem falhar.


_Muito bem, estão dispensados por hoje. Vão e descansem.


Após o grupo deixar a sala, Ferdinand vai até a janela e observa a cidade.


_Um frango que usa magia. Era só o que me faltava.


TOC TOC.


_Entre.


Uma moça utilizando o uniforme da guilda entra na sala com uma carta nas mãos.

_Senhor Ferdinand. Desculpe interrompê-lo, mas esta carta chegou de DuPont. Tomei a liberdade de abrí-la.


_Ah, Lucille, é você. Se eu não confiar em minha secretária particular, em quem mais confiaria? O que diz na carta?


_Obrigada pela sua confiança, como sempre. É uma carta do informante Rémy. Parece que aquele grupo de mercadores ilegais de escravos esteve por lá com uma carga. Todas meninas Demi-Humanas.


_E para quem foram vendidas?


_Ele não sabe dizer. Mas é provável que estejam armando uma Feira Negra para breve.


_Uma Feira Negra? Faz sentido, afinal reúne os nobres tarados e esquisitos de todos os lugares nessa ocasião.


_Devemos intervir?


_Nós vamos intervir. Enviaremos aventureiros tão logo consiga mais detalhes da localização das meninas. Avise ao Rémy.


_Entendido, Senhor.


Voltando à floresta, Rikko finalmente retoma a consciência. Seus olhos se abrem e após sua visão se ajustar percebe que não está sozinho.


_Hummm… quem é essa pessoa?


A pessoa que viu era uma garota com orelhas e cauda brancas como a neve. Suas roupas pareciam um misto de roupas orientais e ocidentais e estava agachada manipulando uma fogueira. Parecia cantarolar algo alegremente.


Hoje é um dia feliz,

Acendam a fogueira.


Hoje estou feliz,

Vou ter a barriga cheia.


Batatas, tomates, o que mais terá?

Cenoura, repolho, isso é o que há!


A noite promete,

Quer mais? Repete.


Mais tarde, dormirei.

E a ceia? Não esquecerei!


_Até que ela sabe cantar, mas essa música parece até canção de Ho- EPA! QUEM ME AMARROU?


Rikko ainda não tinha se dado conta que estava amarrado com cordas feitas com palha rançada que seguravam seus pés e asas juntos.


_Hâ? Podia jurar ter ouvido alguém gritar.


A garota levou uma das mãos à orelha no topo da cabeça para ouvir melhor, mas Riko havia ficado em silêncio para tentar cortar as cordas com seu bico e tentar se soltar.


_Hum, acho que foi minha imaginação. Bom, acho que o fogo está forte o bastante, Agora vou dar um jeito de arrancar as penas e- EI!


Quando ela se virou, Riko estava quase conseguindo arrebentar a corda em torno de seu peito. Ela largou a pedra afiada que pretendia usar como faca e foi correndo segurar a ave fugitiva.


_Ei, você é meu almoço! Onde pensa que vai?


_Eu não sou almoço de ninguém, trate de me soltar agora!


_…


_…


_...O quê?


_Por acaso você é surda?


_AAAAAAAHHH!!! A GALINHA FALOU!!!


Com o susto, a garota jogou Rikko ainda amarrado para o ar e correu para se esconder atrás de uma árvore. Ele se esborrachou no chão soltando um grito de dor.


_AI! ISSO DÓI!


_Ela tá falando mesmo!


_Sim, eu falo! E só pra deixar bem claro, eu sou um GALO! Não sabe a diferença?


_Eu sei, sim! Mas pra mim, na panela é tudo igual!


_VOCÊ PRETENDIA ME COMER?


_Ah, sim, mas só um pouquinho!


_TÁ DE SACANAGEM COMIGO ? Um pouquinho já faz estrago!


_EU NÃO SEI O QUE É SACANAGEM!


_É MANEIRA DE DIZER! E ME SOLTA LOGO!


_EU NÃO POSSO!


_NÃO PODE PORQUÊ?


_É QUE TÔ COM FOOOMEEE!!!


RRRROOOOOOONNNNC!!!


Foi nessa hora em que a barriga dela roncou tão alto que parecia um animal feroz.


_…


_VIU? EU TE DISSE!


_TÁ BOM! ME SOLTA QUE EU TE DOU COMIDA!


_...SÉRIO?


_ TE DOU MINHA PALAVRA!


_…


_…


_Tá bom.


Usando a pedra afiada, as cordas caíram e finalmente Rikko estava livre. Ele olhou seu corpo para ver se ficaram marcas das cordas enquanto ela o encarava.


_O que foi? O que tá olhando?


_Eu tô esperando você botar.


_Botar o quê?


_O ovo, ué.


_Já te disse que sou um galo!


_Ah, é. Mas de onde vai tirar a comida? Não é mentira, né?


_Não é mentira. Espera um pouco. Caixa de Itens!


_AHHHH! O QUE É ISSO?


_É uma caixa de itens. Nunca viu?


_Eu não.


_Então não é qualquer um que tem, mesmo.


_O quê?


_Nada não. Aqui, prepara isso pra nós.


Com um movimento de asas, peixes e frutas caíram no chão, além do odre de água. A garota estava maravilhada com tanta comida e um fio de baba escorria no canto de sua boca.


_UAU! Quanta coisa! Posso mesmo?


_Contanto que divida comigo. Estou louco para comer peixe assado.


_Tá bom! Deixa que eu pre-


GRRRRUUUUULLLLL…


_Ugh.


_Mas o que foi isso?


_É… é que… eu comi… uns cogumelos mais cedo…


_Então isso é…?


_ ÉEEEEE SIMMMMM!!!


Em um ato de desespero, a garota correu para dentro de uma moita e logo se ouviram os sons característicos de uma bela caganeira com gemidos ao fundo.


_Caraca… você tá bem aí?


_Uuuughhh…


_É, não tá.


Rikko abriu mais uma vez sua caixa de itens. Antes de partir, havia feito bom uso de sua habilidade de avaliação e isso fez descobrir que havia uma espécie de erva medicinal na floresta, então por via das dúvidas estocou ela também.


- Camomille de Pierre x15


Erva aromática com efeito relaxante. Pode ser preparada na forma de chá ou mastigada diretamente. Ajuda a aliviar os nervos e problemas digestivos.


_Hum, isso vai servir. Ei, você aí! Você tem alguma panela ou pote que eu possa usar?


_Uuuuugh… não, eu… uuuuugh... não tenho.


_Eu tenho uma erva aqui que deve te ajudar. Se não tem como fazer um chã, vai ter de comer pura.


_Eu odeio... ervas.


_Prefere ficar aí?


_NÃO! EU COMO! EU COMO!


_Espera um pouco.


Rikko utilizou a água de seu odre para lavar as ervas e então tentando ignorar o cheiro fétido vindo da moita, se aproximou e as ofereceu com seu bico. A garota pôs a cabeça para fora da moita para abocanhar o galho de ervas, mastigou e engoliu de uma só vez e então puxando a cabeça de volta para a moita.


_Uegh. Que amargo…


_Remédio bom é remédio amargo, era o que minha mãe dizia.


_Sua mãe… ugh… também falava?


_Digamos que sim. Está se sentindo melhor?


_Ainda não, ugh. Mas eu vou tentar uma coisa.


_Tentar o quê?


_Ó gloriosa mãe que nos dá a terra e uma mesa farta. Dai a tua fiel serva a cura e leva embora o açoite.


Um brilho branco cresceu na moita de dentro para fora durando alguns segundos. Depois apenas havia silêncio.


_...Garota? Tudo bem aí?


A garota saiu de dentro da moita. Seus olhos ainda expressavam dor e suava muito na testa, mas parecia bem melhor.


_Agora estou bem melhor.


_O que você fez?


_Eu sou uma sacerdotisa. Usei uma prece mágica para me curar.


_Não teria sido melhor fazer isso desde o começo?


_Não é assim que funciona. É uma prece de tratamento, mas só funciona quando se combina com remédios.


_Ah, entendi.


_Você me salvou de uma pior, muito obrigada! — Agradeceu com uma reverência — Você tem um nome?


_Eu me chamo Rikko. E você?


_Muito prazer, Rikko. Eu sou Inako.


_Muito prazer, Inako. E… posso fazer uma pergunta?


_Claro! O que quer saber?


_Como você caga sem sujar seu rabo?