Reencarnaciòn
4 Quarto ato - Almas que se reencontram
Notas iniciais

⏺️ Bruce: Sir Bernard Thomas Wayne II, filho único de lord Timothy Bernard Thomas Wayne e lady Marta Maria da Consolación de Castilho Wayne. Os Wayne são uma abastada e próspera família de origem britânica, que fez fortuna administrando negócios comerciais comandados por homens brilhantes. Uma família de intelectuais, poetas, economistas, filósofos, médicos e senhores de terras.
Bernard foi nomeado Segundo, herdando o nome de seu pai, versado nas Ciências do Direito, da Filosofia e da Medicina.
Sua mãe tinha origem espanhola, dada em casamento ao inglês bem-sucedido, por meio de um acordo entre cavalheiros e famílias. Descendente direta da monarquia espânica, prima da rainha Isabel II, a família Castilho geria os reinos de Valência e Granada.
Bernard fora criado sob as rigorosas regas de etiqueta e formação da época, formando-se com honras na Universidade de Oxford. Sendo o mais jovem a receber o título de Sir na história Inglesa, em virtude de seus serviços prestados em honra à Grã-bretanha.
⏺️ Diana: Princesa amazona, filha de Hipólita, campeã dos deuses. Migrou das terras do Norte até a Inglaterra, onde vive em uma propriedade distante, que pertence à família Wayne, herança da família Wayne desde o século XVII.
Ela é cuidadora da fazenda, visitada apenas pelo chefe da família Wayne, que se afeiçoou a ela, oferecendo-lhe abrigo e comida, em troca de trabalho.
Com o passar dos anos, o patriarca, formado em Direito e Medicina, conseguiu uma identidade civil para ela: Diana Prince. Única forma de garantir-lhe algum direito após sua morte.
"O homem não morre quando deixa de viver,
mas sim quando deixa de amar".
(Mark Twain)
♣ País de Gales || Ano 1885 ♣
♣ QUARTO ATO ♣ Almas que se reencontram ♣
|| Norte do Castelo de Conwy || Propriedade da família Wayne ||
Não lhe era estranha a calmaria do lugar, tampouco não ser abordado desde a sua entrada, sobre quem era, o que pretendia ou se carregava algum tipo de permissão formal concedendo-lhe adentrar em propriedade privada.
O lugar preferido de seu pai, que ele usava como um refúgio, um santuário pessoal, sempre fora silencioso, calmo, exemplo indiscutível de reclusão e tranquilidade. Por isso, não era surpresa não haver empregados para bloquear-lhe a entrada – já que ainda em vida, seu pai empregara poucos e extremamente confiáveis serviçais para cuidar do lugar, mantendo sua privacidade e discrição.
No entanto, após anos, o lugar parecia ainda mais desabitado e isolado. Contudo, chamara-lhe a atenção a aparência impecável do ambiente por todo caminho que observara. Estava tudo muito limpo e bem cuidado, tal qual a mansão de seus pais em Manchester e o casarão de Londres – ambos com dezenas de criados.
Bernard escondera com facilidade a expressão curiosa quando saudado pela pequena beleza morena de olhos vibrantes, que abrira-lhe a porta do casario principal. Acostumado à ostentar um semblante ilegível, ele mantivera-se indiferente ao amplo sorriso de boas-vindas pendurado no rosto da jovem que o recebera com evidente excitação.
— Estou aqui para ver a Senhora Prince! – O barítono imperioso desferiu a ordem direta, como um senhor que delega uma ordem aos criados. Deixando claro que sua visita não era uma amigável cortesia.
— Claro, senhor! – A descortesia do inglês a feriu. – A quem devo anunciar?
— Sir Bernard Thomas Wayne – A resposta fora imediata e ele erguera o queixo, assumindo a postura aristocrática egocêntrica de elevar-se para olhar os outros de cima, mostrando superioridade.
(...)
“Thomas...”, Bernard despertou de seu transe de observação minuciosa da sala de repouso quando ouvira a voz melodiosa entoando seu nome.
Ele ouvira o trote de passos rápidos se aproximando do cômodo. Ela entrara apressada e afoita, como quem atravessa a linha de chegada após uma corrida. O aborrecera que, à primeira vista, não pudesse afirmar a que escala social ela pertencia (dama, criada ou vassala). Seu vestido de cores opacas era simples demais para uma dama elegante e, no entanto, fora feito com tecidos suaves e frágeis demais para uma criada.
Desta vez, fora preciso empregar doses cavalares de energia na concentração, a fim de manter a postura e o semblante regiamente implacáveis ao encarar a mulher diante de si. Seu esforço fora nada menos que hercúleo para camuflar o grande impacto em suas emoções que a visão dela lhe causara. Uma experiência que ela parecera compartilhar, tendo em vista as reações expressas sem filtros por sua figura.
Ele quase lamentou ver o sorriso caloroso e o olhar brilhante que ela trouxera consigo fechar-se em uma expressão séria quando ele voltou-se em sua direção. Mas ele não poderia dar-se ao luxo de deter-se com leviandades fúteis, por causa de uma mulher qualquer.
Uma mulher por quem nutriu um desgosto silencioso desde a morte de seu pai. Responsável pelos sentimentos de aversão, decepção, frustração e revolta que passou a dirigir ao seu pai (que fora seu exemplo de virtude por toda sua vida), desde que tomou ciência da existência dela, há 6 anos, após a leitura do testamento do patriarca da família.
Bernard esforçara-se ao extremo para não deixar-se seduzir pelos encantos daquela mulher, assim como seu pai. Por um minuto, observando-a de perto, sua raiva diminuíra um pouco, quando a consciência provara-lhe o quão tentadoramente apaixonante ela era. O quão facilmente capturado o coração de um homem seria por sua simples figura. Seduzido com tamanha facilidade por ela, sem a necessidade sequer de fazer uso das armas femininas de sedução.
— Então... Finalmente, tenho o prazer de conhecer a amante do irrepreensível Dr. Thomas Wayne! – Bernard não escondeu seu demasiado desdém – Perdoe-me se não fiz uso da palavra adequada, senhora Prince... A senhora prefere concubina, amásia... Ou outro predicativo que sugere, não apenas luxúria leviana de sua parte, bem como o quão desavergonhadamente aproveitadora a senhora é?!
O jovem aristocrata britânico, o melhor partido de toda Grã-Bretanha, o noivo mais desejado pelas descompromissadas, casadas, afortunadas e desafortunadas ladies nascidas e não nascidas em sua pátria, ocultou a surpresa quando ela não reagiu imediata ou instintivamente à sua ofensa direta e desmoralizante, como qualquer mulheres reagiria.
Diana tomou meia dúzia de respirações lentas e profundas, assumiu uma postura e expressão mais sérias (mas não rude, como ele esperava) e erguera o queixo, como ele em princípio, para olhá-lo com o mesmo olhar superior – mas ao contrário dele, seus olhos não sugeriam elitismo, mas sabedoria. Um brilho que o diminuíra por sua ação agressiva, fazendo-o envergonhar-se.
— Em nome de Zeus, leviano é quem se digna a dirigir deliberadamente ofensas a outrem. – Ela trancou seu olhar no dele, sem medo, sem desviá-lo, como fazem os mentirosos – Especialmente, injúrias infundadas que não serão toleradas nesta casa.
— Não me importa que me ofendas, senhor Wayne. Mas qualquer sugestão que ponha em xeque o caráter virtuoso de Thomas, o torna persona non grata nesta casa. O senhor não é bem-vindo!!
Bernard avaliou com cuidado o semblante dela e chegou à conclusão que ela estava sendo honesta com ele – ao menos, no que diz respeito às suas preocupações em defesa de seu pai, não na sua.
— Seu pai me contara muitas coisas sobre você, levando-me a crer que seu filho se assemelhava a ele na riqueza de caráter. – Ela cuspiu – Lamento que ele não tenha cumprido a promessa de trazê-lo aqui, mas me apetece o fato de sua ausência livrá-lo da vergonha do comportamento de seu amado herdeiro... Se me permite a indagação: O que o trouxe aqui, sem a companhia de seu pai?
— Eu sugiro que façamos um pequeno acordo – Wayne resolvera tomar uma nova linha de ataque para ser bem-sucedido na missão que o levara até lá. Ele não esperava ter qualquer dificuldade em persuadir uma amante qualquer a aceitar sua oferta.
Todavia, bastaram-lhe alguns minutos na presença dela, para demovê-lo de continuar com seu plano de ação atual. Ela provara-se uma espécie feminina tão distinta das demais e de personalidade tão incrivelmente singular, que sua mente dedutiva logo percebera que tratá-la como uma mulher comum seria um desperdício de tempo e energia.
Ele precisava conhecê-la, aproximar-se dela, ganhar sua confiança e só então, saber como a convenceria a agir em favor dele.
— Eu respondo suas perguntas e você as minhas...
Diana arqueou a sobrancelha, um tanto desconfiada com a mudança de postura súbita de seu visitante.
— Sendo assim... Sente-se, senhor Wayne. Ele vou pedir que nos sirvam um chá, enquanto conversamos.
♣ ♣ ♣
Nem a previsão mais pessimista dos cenários possíveis projetados em sua mente, avaliando todas as possibilidades à exaustão, até ter as soluções que cobrem todas as arestas, encurralando sua ‘presa’ em uma armadilha que a obriga a fazer o que ele quer, porque é a única opção possível.
No máximo, uma semana, prevendo a possibilidade da amante de seu pai ser uma mula teimosa e burra, que precisaria de 3 ou 4 dias para entender sua proposta e mais 2 ou 3 para formalizar o negócio e regularizar documentos.
Contudo, ele não estava preparado para resistir àquele lugar. As horas logo se tornaram dias; os dias, semanas; e as semanas foram se acumulando, até somarem quase dois meses de sua estadia. E ainda mais incomum que sua ausência de Londres e Manchester por tanto tempo, era seu desejo de ficar...
Com ela...
Por ela...
Diana!
(...)
Sua mãe certamente duvidaria se ele lhe dissesse sobre sua rotina matinal há 40 dias. Entediado de suas leituras após 4 dias, sua curiosidade o levou a observar Diana, à priori clandestinamente, depois, aos poucos, tornado sua presença perceptível.
Todas as manhãs, quando o sol mal despertara, ele e Diana buscavam leite fresco e ovos. O velho Thadeus mostraria o único sorriso que ele veria na vida, se o visse na primeira vez que tentou tirar leite da vaca... Depois do café, ela e Donna – que ele descobrira ser sua irmã – cuidavam da casa e do jardim, enquanto o mimado aristocrata inglês se encarregava dos reparos na casa principal e no resto das construções ao longo da propriedade.
Para seu espanto, ele descobrira um imenso prazer pessoal executando trabalhos manuais que não caberiam a alguém de seu nível. É claro que ele era um homem das Ciências – uma mente genial a serviço da Matemática, da Filosofia, do Direito... – Mas ainda sim, mesmo os gênios precisam relaxar. E o filho da linda espanhola Wayne, só conhecia três vias de escape igualmente imorais para a sociedade da época: jogos, álcool e sexo.
Até agora...
Bernard apreciava não apenas os trabalhos de marcenaria, sobretudo, ele amava tudo que envolvia mecânica.
Contemplando a pintura bucólica das imensas terras que foram de seu pai e o degradê alaranjado do céu ao pôr do sol, ele deixou-se perder-se em pensamentos, que trouxeram à mente lembranças de seus pais.
Cavalgar com ela, a tardinha, em silêncio, o fizera não se esforçar para enterrar essas memórias, sempre que tentavam vir a tona. A lembrança era uma memória cruel de que ele perdeu as únicas pessoas que amava. Mas mesmo as coisas que o machucavam, não feriam quando ele estava com ela. Ele queria contar a mãe o que estava fazendo. Ver seus olhos castanho-esverdeados com um brilho divertido, por saber que ele não estava em um bordel de luxo. Queria que seu pai estivesse com ele agora. Uma lembrança que não trouxe dor ou raiva, pela primeira vez, em 6 anos, desde sua morte, vítima de tuberculose. Sua mãe, falecera há 10 meses, mas apesar da dor, havia um alívio por sua morte libertá-la das dores que a debilitaram por anos, por sofrer de uma doença óssea dolorosa e alijante.
Bernard jamais admitiria, nem mesmo para si, que Diana era a razão dele ficar todo esse tempo. Todo resto, por mais que o tenham feito bem, não teriam o mesmo efeito sobre ele, sem ela. Ele nunca assumiria que essa mulher, ex-amante de seu pai, o fizera experimentar uma miríade de emoções prazerosas, afetivas e intensas que chamamos de felicidade.
Todavia, ainda que ele a colocasse no conjunto geral de motivos para ficar, negando-se a dar a Diana a devida importância que aumentava progressivamente em seu coração, todas as noites, seu pensamento corria para ela – antes de dormir e em seus sonhos.
Bernard estava longe de ser tímido, mas também não fazia o tipo extrovertido – era avesso à conversas longas, falava pouco, sempre preferiu ficar sozinho e as únicas três pessoas cujos diálogos não o aborreciam eram seu pai, sua mãe e o melhor amigo de seu pai, um oficial aposentado da Guarda Real, a quem sua família confiara os cuidados do casarão em Londres, o velho comandante Thaddeus Crane*.
Ele passou a compreender o encantamento de seu pai por aquele lugar. Mesmo para um incrédulo como ele, negar a sensação de tranquilidade pacífica que experimentava seria hipocrisia. Mas por mais bem-vinda e agradável que fossem os sentimentos dele em relação ao lugar, estavam longe de ser o motivo que o mantinham longe de casa por tanto tempo.
Ele não teve dificuldade pra dormir desde sua chegada, mas sua última noite na casa, despertou seus hábitos noturnos, que roubavam-lhe o sono. Após 2 meses e meio ausente, seu retorno tornara-se urgente e inadiável.A felicidade de uma vida simples fora um sonho, mas ele sabia que cedo ou tarde, teria que voltar à realidade hostil de sua vida.
A carta do velho amigo de seu pai o aborrecera em demasia. Não apenas por citar uma série de problemas decorrentes de sua ausência prolongada à frente dos negócios da família; mas, principalmente, por persuadi-lo a retornar, lembrando-lhe de suas obrigações.
Uma fúria desmedida que somara sua raiva de ser obrigado a abrir mão do que quer para fazer o que não quer, à frustração causada pelos seus sentimentos por Diana. Ela jamais vacilou ao negar que o relacionamento com seu pai não era romântico, tampouco íntimo. Que eram amigos apenas. Ele oferecera abrigo e comida, sem exigir-lhe nada. E ele a deixou cuidar de tudo, quando viu que ela já fazia isso voluntariamente.
Ela era tão transparente que ele sabia que ela não estava mentindo, mas ele nunca se livrava do joio do ciúme que o deixava zangado com ela.
Pensar nela o deixara aborrecido toda madrugada. Coisas incompreensíveis, ilógicas, que não faziam sentido adicionavam gasolina à fogueira da raiva. Ele não entendia porque a simples presença dela com ele, era o bastante para fazê-lo feliz. Ela não era sua mãe!
Ele não tinha nenhuma inclinação para o amor, tampouco predisposição de se apaixonar. Sua falta de interesse em comprometer-se formalmente, tomando uma dama como esposa, não foi motivada por baixa libido. Pelo contrário, suas peripécias sexuais nos bordeis mais sofisticados de Londres e Paris eram lendárias e escandalizavam seus pais.
Bernard tinha plena consciência de que mulheres bonitas e sedutoras eram capazes de provocar nele um nível primitivo violento de desejo. E Diana era, de longe a mulher mais bonita que ele viu na vida. E, claro, que ele a desejava, mas não como as outras. Não havia só desejo e luxúria. Ela preenchia seus sonhos eróticos, bem como os sonhos em que fazia parte de sua vida diária.
Ele não poderia ir sem ela... E a convencera a ir com ele.
Por um tempo!
♣ ♣ ♣
|| Londres || Casarão da família Wayne || Baile de Máscaras ||
Bernard era noivo de uma senhora Chamada Miranda, filha do abastado mestre Tate, um senhorio latifundiário escocês. A linda mulher de cabelos cor de chocolate e olhos de mel, chamara sua atenção pela beleza exótica.
Quando o pai de Miranda o convencera que seria um excelente negócio para ambos o casamento com sua filha, pesara em sua decisão o fato deles terem personalidades parecidas e dela ou seu pai se importarem com suas noitadas boêmias.
E apesar dela ter-lhe despertado sentimentos mais relevantes que a apatia habitual, não chegavam a ser arrebatadores.
Quando Miranda viu a tão falada mulher que sir Bernard trouxera de Gales, no baile de máscaras que ele organizara para marcar seu retorno à Londres, o ciúme de sua noiva elevou-se a níveis exorbitantes.
Ela fez de tudo para ofender Diana durante o evento.
Especialmente sobre sua decência... O que Bruce tentou veementemente combater, mas vez ou outra, acabava deixando escapar algo que corroborava com uma intimidade que eles ainda não tinham, mas que era evidenciada, dada a amizade que acabaram nutrindo um pelo outro.
Os senhores a cercando como abelhas no mel também fizeram o ciúme do homem ir às alturas, deixando evidente que ele a queria apenas para si, para quem quer que fosse.
Depois de um tempo no baile, ela não agüentou mais e saiu do salão às pressas.
(...)
Diana não conseguia lembrar-se da última vez que sentira o calor de suas entranhas queimando dentro dela. Uma demonstração dolorosa de que a intensidade de sua ira descontrolada era tão forte que ultrapassava os limites da dor emocional, causando também dores físicas.
Por que agora, mesmo tendo se reencontrado, eles não estavam juntos? Os séculos distantes um do outro apagaram seu amor por ela? Por que, ao contrário das vidas anteriores, ela podia ver facilmente o quanto ele a amava? E desta vez, não. Porque não havia nada para ler. Como se ele fosse um recipiente vazio?
Ela ponderou que apesar do corpo físico bem esculpido tenha apenas a consciência de seus 28 anos, seu espírito milenar guarda as chagas e as dores de suas separações. E nesta vida, na tentativa de evitar a dor, provoque o inconsciente a se afastar dela, ao invés de deixá-lo livre para amar sem medo mais uma vez.
Ainda que pareça fantasioso, certas coisas são incompreensíveis vistas no presente, mas fazem total sentido se considerarmos que a alma é imortal, que guarda medos, desavenças, e afinidades. Todo mundo tem um medo inexplicável; tem alguém que não gosta (sem a pessoa ter feito mal); tem os que ama e nem sabe porque;
Ela não esqueceu a dor de perdê-lo, e compreendia sua escolha por afastar-se dela, mas entender e aceitar não a obrigavam a estar ao lado dele para assisti-lo desposar outra mulher com resignação.
Diana puxara duas vezes com força o tecido da parte de baixo do vestido. Subir as escadas correndo a fez pisar diversas vezes na bainha do vestido longo que usara no baile. Desenhando uma longa fenda sobre a perna esquerda, que subia caprichosamente do chão à coxa. Enquanto o segundo prendeu o tecido da saia e busto e ampliou seu decote ao nível de provocar infarto em idosos cardíacos.
Ela mal teve tempo de jogar as roupas na mala aberta sobre a cama. Ela não conseguia pensar na ira crescendo dentro dela, uma soma de muitos sentimentos ruins, de frustrações e perdas, vindo a tona através da raiva. Ela não conseguia pensar em afastá-lo agora, para fazê-lo provar o mesmo gosto amargo que ela. Ela não conseguia pensar...
A amazona não o vira seguir em sua direção pouco depois que ela se retirou. Ele viu a tristeza em seus olhos antes da fúria que a tomou em seguida, quando despediu-se educadamente e se retirou.
Bernard deu a noiva a desculpa de que, como anfitrião, seria uma descortesia com seus convidados permanecer exclusivamente em sua companhia, ao invés de circular pelos salões e dirigir suas atenções entre os presentes.
Miranda duvidaria dele se ele não fizesse o caminho oposto ao de Diana. Mas ele conhecia cada atalho que o levaria na direção dela. Ele não sabia com certeza o porquê, ou que fazer. Mas não podia suportar a dor no peito quando a viu fazer as malas para ir embora. Não podia mais esconder o que sentia por ela, ao ver seu choro silencioso. Não podia resistir a soma de sues desejos, ao ser arrebatado pela imagem das longas pernas torneadas e da coxa grossa exposta, da visão de mais de seus seios no decote.
(...)
Seu primeiro movimento foi agarrá-la por trás, pela cintura, fazendo uma alavanca com o braço direito para puxá-la. Sua ansiedade, somada ao medo de que ela o deixasse, fez-se visível pela força excessiva que ele impôs quando a apoiou contra a penteadeira de madeira. Contudo, nem o mais desmedido dos seus excessos poderia machucá-la.
Diana o conhecia a ponto de relevar a sequência de ações, aparentemente, infames dele, que no presente, mostravam apenas a agressividade bestial de um aristocrata canalha. Mas a visão geral, não apenas do agora, mas do passado dele, fizeram-na capaz de entender que seus excessos não são fruto de violência consciente, mas uma reação involuntária quando seu vigor físico é intenso. O que a fez sorrir ao vê-lo novamente faminto por ela, como em todas as suas vidas.
Ela derretera-se com seus beijos desde o primeiro toque de seus lábios. Ela amara cada um de seus beijos. Ela amava a maneira como ele a beijava em cada vida. Todavia, nesta vida, apesar do desejo faminto e da urgência desmantelada da saudade, seus beijos eram deliciosa, sedutora e perfeitamente bem executados. Bernard era um maestro, regendo com precisão harmônica, a orquestra de lábios e línguas.
Quando ele tomou a mínima distância dela para desfazer-se das peças de roupa, afrouxando seu aperto, ambos tomaram seu tempo focados nos olhos um do outro, sem desviar-se. Era uma conversa entre espíritos imortais, pelas janelas da alma.
A expressão de espanto de Diana ao vê-lo nu o fez exibir um sorriso lascivo. Há muito ele não sentia esse tipo peculiar de satisfação masculina ao observar o comportamento de uma mulher muito menos experiente sexualmente que as fogosas e belas cortesãs do sofisticado bordel de Londres.
Bernard roçou as mãos no topo dos seios, e as usou para abrir uma fenda vertical no meio do decote. Depois, puxou cada pedaço para lateral, descobrindo-lhe o busto e o abdômen. Diana não sabia porque ele não rasgou a parte de baixo, só abriu um pouco mais a fenda, se desfez apressado de suas peças íntimas, afastou suas pernas para se encaixar entre elas, a beijou, e assim que seus dedos sentiram a umidade gotejante dos macios lábios de sua intimidade, sinalizando que ela estava pronta, ele fez sua entrada sem cerimônia.
Se pudesse escolher, sua primeira ação seria colocá-la na cama e feito amor com ela, devagar, sem pressa, por horas, até amanhecer. Contudo, a visão do busto desnudo de Diana contornado pelo brilho perolado da lua, o enchera de saudade. Como se não fosse a primeira vez. Uma saudade de ser novamente amado por ela. Como se não fosse a primeira vez. E quando a saudade doeu, eu só queria senti-la...
(...)
Bernard Wayne sequer dignara-se a avaliar prós e contras de seu curso de ação. O abastado aristocrata desejava fazer amor com ela, como planejara, em seu quarto. Seria cômico, não fosse insanamente excitante, se a garbosa figura do homem nu, carregando em seus braços um modelo feminino igualmente deslumbrante e despido, através do imenso corredor, em direção à última suíte.
Ao deitá-la em sua cama, a sensação de familiaridade voltou. Novamente, quando outra visão dela dava-lhe a sensação de deja-vu. Como se não fosse a primeira vez... Acompanhada por outro sentimento totalmente incoerente com as emoções de quem ama pela primeira vez. Um sentimento que não era de prazer em ter a mulher que ama. E sim uma estranha sensação de alívio – como se reencontra seu amor após um longo tempo – e depois, uma pequena dose de felicidade – como se Diana estivesse no lugar que sempre foi dela, com ele, em sua cama.
Bernard deitou devagar sobre ela, sem nenhuma pressa, bebendo da visão da criatura divina, a quem cabe precisamente o conceito de perfeição.
Ao fim do baile, Miranda recusara-se a ir embora. Ela estava decidida a encontrá-lo. Mas ele não estava em lugar algum, nem no quarto da odiosa Diana que, para sua ledice, parecia ter ido embora.
A noiva de Bernard finalmente desistira quando os raios do sol da manhã já estavam despertos. Convencida por seu amigo Banett, que seu noivo certamente fugira de uma festa tediosa, para outra muito mais apreciada por ele, regada à pôker, whisky e prostitutas.
Mas diferente de uma mulher comum – para quem tais palavras seriam humilhantes – Miranda não esboçava a mínima insatisfação. Tudo que disse foi que após o casamento, tudo iria mudar.
(...)
Seus amigos do bordel diziam que Bernard Wayne somava a lendária marca de ser o dono do Record de homem com maior número de relações sexuais da Inglaterra. Que superava as pobres prostitutas do porto juntas. Exageros à parte, ele teve mais que seu quinhão de experiências sexuais. Mas fazer amor... Era sua primeira vez. Que seguira a estranheza de todo resto, como se soubesse o que fazer.
Madrugada a dentro, sabe-se lá quantas vezes iniciaram e gozaram ao fim de outro ciclo, ele olhou pra expressão de Diana, fechando os olhos, mordendo o lábio inferior e jogando a cabeça pra trás, montada sobre seus quadris, diminuindo o ritmo da cavalgada em seu impressionante obelisco de músculo, vigorosamente firme como concreto.
Ele sorriu ao vê-la satisfeita... Que o provocara uma epifania filosófica pessoal. Ele lembrou de como só estar com ela Diana o fez feliz. Que felicidade torna as coisas mais simples agradáveis. Como agora... Amor realizado era felicidade. E felicidade não tornava apenas as tarefas simples do cotidiano aprazíveis. Bem como as simples atividades íntimas cujo nome remete ao Flash, maravilhosas.
Bernard saiu da posição passiva e a fez deitar de bruços. O jovem amante depositou beijos suaves ao longo de toda coluna até a última vértebra, demorando-se na curva que se enviesa na subida dos montes gêmeos dos glúteos.
Não era apenas ele que experimentou emoções novas. Diana teve novos medos, receios e excitações. Ela não era uma virgem inexperiente, mas também estava longe de ser incrível. Suas experiências até agora, se resumiam a um general espartano e um rei nórdico. Eram homens rudes, feitos para guerra. Sexo era dever, para reprodução, não prazer. Por um lado, ela estava grata por ele não ver suas ridículas bochechas ficarem vermelhas. Ele a acharia muito imatura... Mas ela não podia maquiar a onda de nervosismo. O que ele iria fazer? E se ela não fizesse direito?
(...)
A homenagem que ambos prestaram à deusa do amor e sexo, para deixar a carne também se fartar ao limite, se alongara por quase um dia. Beijos, bocas, lábios e línguas... A saliva dele nunca fora tão doce pra ela. Nenhum lábio fora tão macio pra ele. Seios, mamilos, lábios, grandes, pequenos. O sabor era real ou uma ilusão de sua mente? Ele passou a língua ao redor dos lábios, encharcados com o líquido viçoso que descia como as águas de cachoeira, deslizando entre seus montes de carne macia, de tom-rosa-canela, como as finas linhas de quedas d’água nas estações mais secas.
Nunca fora tão prazeroso para ele levar seus lábios cheios ao encontro dos lábios outros de uma mulher, abaixo da linha do Equador. Ele nunca sentiu-se igualmente estimulado quando sua língua, boca e lábios desciam ao andares abaixo. Nenhuma outra tinha o gosto agridoce dela.
Os olhos curiosos dela arregalados, olhando o falo por vários ângulos, enquanto as mãos deslizam por ele em vai-e-vem, o fazem rir. Ela olha... É bonito. Depois os olhos varrem o todo pela primeira vez. Ele não era tão alto quanto Bhaegnar, mas tinha a mesma medida de seu primeiro amor. Sua tez era quase tão pálida quanto a de seu marido, mas o tônus do viking sugeria vigor e saúde, diferente de Bernard.
Sua pele branca parecia não tão saudável pela privação de sol. Diferente de vidas passadas, seu porte físico estava muito aquém dos modelos de perfeição na estrutura física de suas etnias, de seus antecessores. Mas era uma comparação desleal.
Ele tinha um porte bem mais projetado que a maioria. Excelente para um homem de negócios, na Inglaterra do século XIX.
“Oh, minha doce Afrodite!”
Ele era lindo.
E ela o amava... tudo mais era irrelevante.
♣ ♣ ♣
|| Mancherster || Propriedade Wayne || 3 anos depois ||
Há três anos, na mesma data, seu noivo fora à casa de seu pai para desmanchar o acordo de noivado entre ele e Miranda Tathy. No inicio, seu pai protestara veementemente, mostrando aborrecimento. No início... Assim que Wayne mostrou que manteria a palavra quanto aos negócios entre os dois, seu pai sequer disfarçou qual das alianças com Bernard era relevante pra ele.
Ele não mostrou a mínima preocupação com ela. Mas isso pouco importava.
O importante era o que o levara a desfazer o compromisso, se livrar do obstáculo e tomá-lo de volta.
Ela não reagiu às desculpas dele. A indiferença era tão pesada, que ela assustava por parecer emocionalmente vazia.
Ele se perguntou se era assim antes de Diana.
E desejou que ela encontrasse alguém como sua Diana, um homem que a fizesse feliz.
(...)
Bernard e Diana moravam na casa de seus pais viveram até morrer. Ele odiava estar lá, até viver com ela.
A casa voltou a ter os sons bons que refletem a vida que habita nela. Estava sempre cheia:
Donna morava com eles e Diana fez um orfanato na propriedade que Thomas deixara de herança pra ela. O velho amigo de seu pai também, convencido por Diana. Mais três irmãos que vieram terminar os estudos, Richard, Timothy e Jason, sobrinhos de Thadeus, se juntaram a eles.
(...)
Miranda esperou pacientemente por anos, até o momento em que poderia se livrar de Diana, livre de qualquer suspeita sobre ela. Além disso, ela precisaria garantir que Bernard aceitasse seus pêsames e seu consolo.
Ela estudou todos os hábitos deles, até achar o dia e horário que eles costumam repetir com maior frequência.
Ela procurou discretamente por atiradores exímios em tiros de média distância, hediondo o bastante para matar por dinheiro e profissional o suficiente para não ser pego, nem implicá-la no crime.
(...)
A brisa da manhã de domingo de primavera trouxe o cheiro das gardênias até Diana, quando ela abriu a porta da varanda.
Ela olhou o homem que amava dormindo pacificamente.
Quando a dor em seu peito chegou.
Ela sentou suavemente na cama para não acordá-lo, massageando o coração com a mão direita. Ela reconhecia o corte do punhal atravessando o peito, como as primeiras dores do infarto.
Diana deslizou os dedos pelos cabelos negros de Bernard, dedicando-lhe um carinho afetuoso e maternal. Era seu instinto de proteção querendo livrá-lo dos males e perigos.
O destino o tiraria de seus braços novamente...
“Eu prometo, que vou encontrá-lo, meu amor”
Ela deitou e despediu-se dele, em uma manhã feliz, fazendo amor.
“Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem, são eternos como é a natureza”.
(...)
Ele viu o brilho de algo refletindo a distância, em seguida, o cano da arma.
Diana era a primeira no campo de visão do atirador.
Estava longe demais para chegar antes do tiro e Bernard viu ele engatilhar para disparar.
Ele tomou-lhe a frente e a bala atingira o abdômen.
Desta vez, ele ouviu ela dizer que o amava até o fio da vida ser cortado.
Se o destino, podia ser minimamente generoso com ele, desta vez, ele fora.
Dizem que para o amor chegar...
Não há dia...
Não há hora...
E nem momento marcado para acontecer.
Ele vem de repente e se instala...
No mais sensível dos nossos órgãos...
O coração.
Começo a acreditar que sim...
Mas percebo também...
Que pelo fato deste momento...
Não ser determinado pelas pessoas...
Quando chega, quase sempre...
Os sintomas são arrebatadores...
Vira tudo às avessas...
E a bagunça feliz se faz instalada.
Quando duas almas se encontram...
O que realça primeiro...
Não é a aparência física...
Mas a semelhança das almas.
Elas se compreendem...
E sentem falta uma da outra....
Se entristecem...
Por não terem se encontrado antes...
Afinal tudo poderia ser tão diferente.
No entanto sabem que o caminho é este...
E que não haverá retorno...
Para as suas pretensões.
É como se elas falassem além das palavras...
Entendessem a tristeza do outro...
A alegria e o desejo...
Mesmo estando em lugares diferentes.
Quando almas afins se entrelaçam...
Passam a sentir saudade uma da outra...
Em um processo contínuo de reaproximação...
Até a consumação.
Almas que se encontram...
Podem sofrer bastante também...
Pois muitas vezes...
Tais encontros acontecem...
Em momentos onde não mais podem extravasar...
Toda a plenitude do amor...
Que carregam, toda a alegria de amar...
E de querer compartilhar a vida com o outro...
Toda a emoção contida...
À espera do encontro final.
(Pablo Fuentes)
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