Reencarnação
13 Culpa do Levi
Notas iniciais
Eren
Dei uma espreguiçada na cama, mas continuei num sono quase pesado. Virei de lado me encolhendo debaixo dos cobertores. Estava tão quentinho e confortável. Não dava o menor pique de sair dali. Entretanto, um barulho alto e estrondoso surgiu de repente e começou a perturbar. Eu virei para o outro lado, tapando os ouvidos com o travesseiro numa tentativa sem sucesso de abafar o som. Que incômodo.
Fui tentando abrir os olhos aos pouquinhos até sair do transe do sono. Lembrei na hora que eu tinha aula hoje. Isso me fez dar um pulo, pondo-me sentado na cama pra logo tatear o criado-mudo ao lado à procura do celular. Cocei os olhos e dei uma bocejada.
Olhei ao redor, o quarto estava bem escuro. Não dava pra ver quase nada. Na verdade não me lembrava direito de como vim dormir ontem, nem quando tinha ativado o despertador. Só sei que... o sonho que tive desta vez foi o mais pervertido de todos. E o mais realista também. Me impressionava com a minha própria imaginação. Uh, Levi não ia gostar nada de saber que sonho essas coisas com ele...
Estranhamente senti muito frio ao sentar-me. Passei as mãos em meu peito e percebi que estava sem camisa... Sem camisa? Fui apalpando o resto do meu corpo por debaixo das cobertas. Sem calças também? E sem roupa íntima?! Depois dessa arregalei os olhos.
– Oh... meu Deus... – Murmurei a mim mesmo enquanto sentia a cama bem mais espaçosa do que a que eu costumo dormir. Fiquei desacreditado.
Levantei rapidamente da cama. No meio do movimento eu senti uma dor muito perturbadora no quadril... na verdade num ponto específico lá atrás... Tive até que dar uma pequena pausa antes de alcançar o interruptor e acender as luzes. Eu estava de fato no quarto do Levi. Eu dormi aqui esta noite, mas o próprio não estava. Bem, levou um tempinho pra refletir. Mas sim, era evidente que o que fizemos ontem não foi um sonho. Agora lembrava-me com mais clareza.
Na mesma hora senti muita vergonha, não crendo ainda que havia conseguido fazer uma coisa dessas com ele. Meu Deus, o que será que ele achou disso tudo? Será que ele gostou? Será que se arrependeu? Como que eu conversaria normalmente com ele depois disso? O clima ficaria estranho entre nós? Será que foi errado? Eram milhões de perguntas que surgiram de repente.
Sentia meu corpo tremer de frio novamente, me lembrando que continuava nu. Respirei fundo e calmamente. Primeiro de tudo, tinha que voltar ao meu quarto e me vestir logo antes de me encontrar com o Levi. Me enrolei nas cobertas e saí de fininho pelo corredor até o meu quarto. Ainda sentia aquela dor chata no quadril a cada passo dado.
...
Chegando depois ao banheiro, com minhas roupas em mãos, a primeira coisa que fiz foi lavar o rosto e escovar os dentes antes de vesti-las. Quando olhei-me no espelho com um pouco mais de calma, vendo minha cara de cansaço, e, aproveitando que ainda não havia colocado a camisa, percebi... Haviam duas marcas em meu pescoço. Marcas roxas. Uma de cada lado e ambas bem visíveis. Arregalei os olhos. Tinham o formato certinho de uma boca, num quase hematoma.
– Ow, Levi... – Por um breve momento fiquei abobado relembrando como ele havia deixado aquelas marquinhas ali. Mas o que me desesperou mais de momento é que eu devia tirá-las logo. Eu vou pra aula daqui a pouco, não podia aparecer na escola com aquilo, causaria muitos mal-entendidos. Passei um pouco de água bem gelada no local e roçando a toalha logo em seguida. Mas não pareceu mudar alguma coisa. Fui passando água fria várias vezes ali e nada. Resolvi umedecer a toalha, enrolá-la no pescoço e deixar por um tempo, mas também não funcionou.
Fui ficando desesperado. Por que as marcas não saiam? Achei que sairiam com facilidade se sofresse um choque térmico... Fiz de novo, fui aplicando água fria varias e várias vezes numa tentativa sem esperança de poder pelo menos deixar esses “hematomas” menos visíveis. Mas nada parecia nem diminuir o tom de roxo...
Levi
Eu olhei para o relógio da cozinha. Os ponteiros marcavam exatos seis e trinta e quatro da manhã. De carro até que a escola do Eren era perto, mas mesmo assim era bom sair cedo. Sua aula começava às sete. Eu já estava quase indo acordá-lo, mas ouvi seus passos caminhando pelo corredor, então dei de ombros e continuei sentado à mesa da sala de jantar, lendo meu jornal enquanto tomava uma boa quantia de café.
Logo Eren surgiu do corredor, chegando de fininho até a mesa sem dizer nada. Apenas dei uma olhada de canto em sua direção. Ele estava prontinho, devidamente vestido com seu uniforme da escola e um... cachecol? Sim, usava um cachecol verde bem enrolado em seu pescoço. Já dei um riso interno imaginando o porquê... É, acho que é parcialmente culpa minha... mas é culpa do garoto também. Se não fosse sua insistência, não estaria como está agora.
Ele timidamente sentou-se, não fazendo muito contato visual. Imagino como ele deve estar se sentindo hoje, então... resolvi eu mesmo começar a falar.
– Bom dia, dorminhoco. – Usei meu tom indiferente.
– B-bom dia... D-dorminhoco? – Ele arqueou uma sobrancelha pra mim. – Como assim? E-eu acordei cedo...!
– Não acordou não. – Dei outra golada em meu café, não tirando os olhos do meu jornal. – Eu deixei cinco despertadores ativados no seu celular e você acordou só no último.
– Hã? Sério? Nossa... Nem ouvi os anteriores... – Comentou.
– Hum, mas agora que está aqui, tome logo seu café. Vamos sair daqui cinco minutos.
– O quê?! Não dá tempo de tomar café em cinco minutos!
– Se ficar enrolando, não mesmo. – Levantei-me da cadeira, deixando a louça na pia. Eren rapidamente despejou café em uma xícara e foi bebendo-a, ao mesmo tempo em que tentava passar manteiga no pão.
Enquanto isso, fui até o espelho ao lado da porta de entrada ajeitar minha gravata e vestir o casaco. Dado os cinco minutos, abri a porta e chamei pelo menino que veio correndo até mim. Não pude deixar de notar algo... Antes de sairmos do apartamento, chamei-o de volta.
– Eren!
– Oi? – Ele levantou o olhar para mim (ou seria ‘abaixou’?)
– Você está bem, não é?
– Ah... Aham! – Ele fez que sim com a cabeça. – Por quê?
– Hum, seu rosto está vermelho desde o momento que apareceu na sala até agora...
– S-sério? – Ele passou as mãos sobre as bochechas. – Er... E-eu n-não sei porquê...!
Eu ia dizer algo, mas optei por ficar em silêncio. Pois eu sei o quanto esse menino estava constrangido em me encarar depois da nossa noite agitada de ontem... Bem, não faria pressão. Agirei como sempre ajo com ele para que se sinta mais à vontade. O porém é que... não era apenas ele que se sentia meio estranho com tudo isso. Eu também. Na verdade, estava até com a consciência pesada. Até sonhei com a Carla esta noite. Sonhei que ela me dava vários tipos de castigos, como se eu fosse um filho que acabara de fazer uma pirraça a desagrado da mãe. Não achei que fosse me sentir tão culpado assim de violar... Bem... Ver o Eren andando de forma desconfortável a caminho do elevador não ajudava em nada.
Não era para eu ter feito tal coisa com o Eren. Era apenas um menino. Um jovenzinho, nasceu esses dias. Era virgem até ontem... Mas... Ele me tentou tanto... tanto... Eu não consegui aguentar mesmo. Mais ainda quando ele falou de seus sonhos. Aquilo mexeu demais comigo e me deixou, digamos, vulnerável. Fiquei mais sensível depois de tal conversa e no calor do momento, terminamos nos amassos. Não sei Eren se arrepende ou não... Eu, pelo menos, estava em cima do muro nas opiniões.
Chegando na garagem, ambos entramos ambos no carro, finalmente senti um pouco mais de segurança para falar, já que o carro parecia um lugar mais confinado e particular.
– Eren.
– Hum?
– ... – Eu olhava para o lado, apenas, enquanto manobrava o carro. – Olha... Não conte a ninguém o que fizemos ontem, tá? – Falei simplesmente. Tinha mais o que dizer, mas... isso foi tudo que consegui pronunciar por hora. Eu só tinha que garantir que esse ocorrido não se espalharia. Eren deu um baixo riso.
– Er... acho que eu nem tenho cara pra falar isso a alguém, Levi... – Ele ficou mais vermelho. Incrivelmente não questionou meu pedido. Pensei que soltaria um “Mas por quê?!” com uma carinha confusa. Mas ele parece entender a situação. Sabe que aqui na cidade grande, principalmente nos tempo atuais, esse tipo de relação entre mim e ele é bastante mal visto e criticado pela maioria do povo. O melhor é manter em segredo absoluto.
Fui para o trânsito, dirigindo normalmente. Eu e Eren não falamos quase nada um com o outro no caminho e quando falávamos, saía uma conversa fática, como um comentário sobre o clima...
Chegando em seu colégio, parei próximo à guia bem depois do portão de entrada. Eren ajeitou a mochila nas costas e abriu a porta do carro, pronto para sair.
– Até mais tarde... – Me despedi. Ele voltou a me olhar e logo se arrastou pra mais perto de mim. E assim, de uma forma inesperada, Eren se esticou e me deu um beijo no rosto.
– Tchau, Levi... – Ele deu um sorriso tímido, logo cobriu o rosto com seu cachecol e saiu do carro, correndo até o portão do colégio.
Eu dei umas duas piscadas antes mudar a marcha e me arrancar dali. Vi pelo retrovisor Eren adentrar o grande muro que cercava a escola. Assim que parei no próximo farol, passei de leve os dedos na bochecha, onde seus lábios tocaram. Estava quentinho...
Eren
As aulas foram passando, e eu me mantinha sentado na carteira, sem me mover muito. Ainda estava com aquele dolorido chato no quadril, sem falar no sono insuportável. Tentei ao máximo disfarçar qualquer incômodo e me focar nas palavras da professora Rico. Mas, mesmo conseguindo parar de pensar na dor, me vinha na cabeça imagens da noite passada. Cobri metade de meu rosto com o cachecol. Estranhamente eu sorria a toa. Estava feliz de ter feito tal coisa com o Levi. O Levi! Me senti tão especial na hora...
Eu só via a imagem da professora Rico apontando aquele mapa-múndi. Sua boca se movia, mas eu não a escutava direito. Só conseguia ouvir a voz do Levi meio alterada de ontem... Ah... Ele estava tão diferente do normal... Mostrava um olhar de desejo para mim e isso me deixou com o peito aquecido.
– ...Eren. Eren! – Uma voz ao lado me chamava, fazendo-me dar uma acordada. Era Mikasa.
– Hã? Que foi?
– Se quiser eu tenho um remédio para resfriado... – Ela sussurrava.
– Ah, n-não precisa. Já falei que não estou resfriado. – Respondi. Mikasa e Armin, por enquanto foram os únicos com quem conversei até agora e ambos estranharam tanto o cachecol em meu pescoço quanto minha forma de andar. Me encheram de perguntas sobre a minha saúde. Armin parou depois de um tempo, mas Mikasa continuava preocupada, pelo visto, até agora.
– Tem certeza?
– Sim! – Voltei o olhar para a lousa, numa tentativa de prestar atenção na aula sem sentir sono. Mas estava difícil... Já estava sonhando acordado.
~*~
Levi
Percorri o hospital todo me sentindo estranho. Mesmo sendo só coisa da minha cabeça, parecia que todos olhavam para mim. Olhavam de uma forma desgostosa, como se eu tivesse cometido uma inflação. Só mantive meu olhar indiferente e segui reto até o meu escritório, lá ao menos eu não sentiria tanto o peso da culpa em meus ombros.
Petra, que sempre chega ao trabalho antes de mim, já logo me cumprimentou com seu alegre sorriso. Passei por ela, respondendo de forma meio seca. Ela fez uma expressão de quem estranhou o jeito.
– Ah... Senhor Levi, está tudo bem hoje? Está passando mal? – Petra demonstrou sua preocupação, mas logo tentei amenizá-la.
– Não... Não é nada. Só estou um pouco mais cansado hoje.
– Oh... Certo então. – Petra, levemente conformada, sentou-se a sua mesa. Eu fui entrando em minha sala. Lá, joguei minha maleta na poltrona e acomodei-me na cadeira estofada. Soltei um longo suspiro. Por que eu estava me sentindo assim agora...? Eu não estava com essa tamanha culpa antes. Só agora, depois de refletir minha noite com o Eren...
Massageei as têmporas. Estralei os dedos e logo comecei o meu trabalho, ainda tinha coisas a organizar na logística do hospital. Peguei algumas fichas na gaveta e fui as carimbando e dando entrada no computador. Estranhamente as letras dos papéis estavam meio tremidas...
No meio do meu raciocínio, a porta abre no maior estardalhaço. Levantei meu olhar e pude ver a figurinha alegre e saltitante se aproximando da minha mesa.
– Levi!! Vim aqui lhe pedir pra encomendar mais essa listinha de materiais pra enfermaria...!!
– Quatro olhos. – Interrompi-a. – Existe um gesto chamado “bater a porta”...
– Levi, é uma emergência! Estamos sem luvas descartáveis, uma das coisas que mais usamos! – Ela se justificava.
– Tá bem! – Deu um suspiro. – Vou encomendar daqui a pouco. Agora vá continuar seus afazeres. – Mantive meu olhas em meus papéis e na tela do computador.
– Ah... Ok, até mais tarde...!! – Hanji ameaçou dar meia volta e sair da sala, mas ela ficou no lugar. Ela me olhava de forma divertida.
– O que foi? Tá rindo do quê?
– Você... Seu danadinho...! – Ela fez uma cara muito maldosa.
– Hã?! – Olhei confuso para ela.
– Não se faça de desentendido.
– E-eu não estou...!
– Gaguejou!! Há!! – Ela se apoiou sobre minha mesa, aproximando bem seu rosto ao meu. Seus olhos estavam bem maiores agora e brilhavam de uma forma perturbadora.
– Enlouqueceu de vez, sua quatro-olhos?
– Você pegou ele de jeito, né safado! – Ela deu um tapinha em meu ombro.
Por dentro, eu estava prestes a explodir. Minhas mãos formigavam de vontade de apertar o lindo pescocinho de Hanji até sufocar.
– Hanji, está falando muito alto... – Sussurrei. – Quer dizer que foi você que deu ideias para o pirralho?
– Então você admite?! – Ela abriu um sorriso mais largo ainda. – Você e o Eren...!!
Voei com a minha mão até sua boca, impedindo-a de pronunciar qualquer palavra mais. Ela nunca tinha noção de quando falava muito em lugar inapropriado. Mesmo a sala estando fechada, a voz dela ainda conseguia ultrapassar as pareces com facilidade.
– Se eu disser que sim, você cala a boca? – Falei bem baixo. Ela logo fez que sim com a cabeça. – Bom...
– E então? Você ficou com o Eren ontem...?
– É... – Respondi revirando os olhos.
– Ah, responde direito!
– Hanji, você já tem sua resposta! Agora volte ao trabalho!
– Não! Não estou com paciente agora. Só prestei atenção também que você parece incomodado com algo... – Comentou analisando.
– Sim, com você não parando de falar enquanto eu tento organizar essas fichas aqui. – Apertei um pouco os olhos e afastei o papel, podendo enfim ver melhor as letras.
– Ah, Levi... Tá na cara que você está com algum sentimento de culpa. – Ela apoiou os cotovelos em minha mesa. Sua constatação me deixou sem resposta.
– É... Talvez...
– Quer conversar um pouco sobre isso? – Ela se ofereceu, fazendo cara daquelas garotinha de colégio que sempre estão prontas para dar um bom conselho. No caso, Hanji sempre foi mesmo uma grande conselheira.
– Estamos em horário de trabalho, quatro-olhos...
– E quer trabalhar sentindo algum peso na consciência, não acho que será eficiente. – Ela riu. – Vai! Vai ser rapidinho!
– Hum... – Dei outro suspiro, coçando a cabeça. – Ah... Tá bem, fique aí então... – Ofereci a cadeira para ela sentar-se. – Bem, como você... suspeitou que isso aconteceu? Você é minha vizinha, por acaso ficou ouvindo com um copo na parede? – Perguntei curioso e num tom irônico, às vezes as precisões de Hanji me assustavam um pouco.
– Claro que não! Não sou dessas não! Digamos que foi mais... intuição feminina. – Respondeu ela. – Mas então, parece que você desencanou do assunto da “camisinha que caiu por acaso da mochila escolar do Eren”!
– Esse assunto... – Olhei bem pra ela, vendo seu olhar divertido sobre mim. – Eu deixei de lado mesmo.
– Oh, eu não disse que não tinha nada com que se preocupar com o Eren?
– É... – Senti outra culpa ao relembrar disso. Eu devia confiar mais no garoto que eu criei! – Ontem, quando Eren fugiu pra sua casa, eu havia saído para o mercado...
Dito isso, Hanji logo ficou atenta na minha historinha...
~Flashback~
Chegando ao corredor dos congelados, no mercado, fui logo à procura de algo para fazer no jantar hoje. Sei que Eren voltaria com bastante fome.
Passei os dedos nos lábios, ainda lembrando um pouco do beijo que aquele garoto havia me dado de repente. Eu ainda estava surpreso... Mas eu continuava sem entender direito aonde a parte do ‘preservativo’ que Eren carregava na mochila entra na história... Eren... planejava usar aquilo... comigo? Mordi o lábio inferior e engoli seco. Ainda estava confuso. Estaria mesmo aquele garoto tão ingênuo do mundo dos adultos com ideias promíscuas pra cima de mim? Eren não era de pensar muito em fazer essas coisas avançadas por iniciativa própria... Ou será que era? Eu precisava saber...
Ao olha adiante, avistei uma cabeça loira bem familiar andando no corredor paralelo ao meu. Foi então que me bateu a vontade de pesquisar em qualquer fonte. Normalmente, os adolescentes gostam de falar assuntos de relacionamentos primeiramente com os amigos ao invés dos pais. Eu rapidamente fui até o rapazinho, chamando-o.
– Oe, cabeça de cogumelo!
– Hã?! E-eu?! – Ele olhou para todos os lados, pra enfim virar-se para trás e me ver. – Ah!! T-tio Levi?! Ops! Q-quero dizer... S-senhor Levi! Não! Er... Levi! – O garoto sempre se embaralhava na forma de me chamar.
– Oe, calminha, rapaz. Pode me chamar do jeito que quiser. – Falava na minha indiferença costumeira.
– Ah, tudo bem então... Que coincidência encontrar o senhor aqui. Como está o Eren? – Ele perguntou curioso.
– Ele está bem. Só... – Cocei a cabeça. Estava mesmo prestes a investigar o Eren através de seus amigos? Sim. – Ouça, Armin. Pode falar para mim, só quero saber... o Eren... Ele por acaso te falou algo sobre... preservativos? – Perguntei, revirando os olhos. Sei que Armin é um rapaz sincero e que não consegue esconder mentiras, logo, é um rapaz confiável.
– Hã? Preservativos? Está falando dos preservativos que ganhamos na aula de orientação sexual na escola?
– O quê? Aula... de orientação sexual... – Agora parei pra ver o rosto de Armin. Sei que ele era incapaz de mentir, ainda mais aos mais velhos.
– É, todos da sala ganhamos um par. Eu até os tirei da minha mochila, querendo evitar mal-entendidos na escola... – Armin virou sua bolsa e retirou dali o par de pacotinhos iguais aos do Eren. – Era com este?
– Sim... – Olhei bem o quadradinho em sua mão e bati na minha própria testa. No final, Hanji estava certa. Eren recebeu isto na escola... Dei um riso de canto com toda essa situação. – Ah... Certo então. Obrigado, garoto. Era só isso... – Dei meia volta acenando para o loiro. Até.
– Tchau, senhor Levi! – Armin acenou.
Eu fui andando massageando as têmporas. Ainda ria internamente. Era apenas uma palestra na escola! Por algum motivo, senti um certo constrangimento de lembrar das coisas que eu imaginava que Eren faria...
~Flashback off~
Eren
No intervalo, eu, Mikasa e Armin procuramos lugares vagos no refeitório. Mas parece que todos já haviam sido ocupados. Isso é o que acontece quando não vem da sala de aula direto pra cá. Eu quis dar um pulinho no banheiro antes pra tirar o cachecol e ficar sem por um tempinho, eu estava suando muito nele. Aproveitei para olhar no espelho. As marquinhas da boca do Levi ainda estavam ali. Se eu já não estivesse meio corado pelo calor, teria ficado agora de novo. Essas marcas, uma de cada lado de meu pescoço, eram a prova de que a noite anterior havia acontecido mesmo... Eu gostava de ficar relembrando... e vendo provas! Quando um evento tão único como esse acontece na vida, realmente, pessoas ficam desacreditadas no dia seguinte. Talvez até duvidando se realmente aconteceu por ser algo muito desejado e supostamente impossível de ocorrer! Eu ainda estava assim.
Pois bem, agora estava eu aqui no refeitório, com o cachecol já colocado novamente. Mikasa e Armin me esperaram pra pegar a fila do rango. Eu ainda me esforçava pra andar de forma normal. Aquela dorzinha ainda estava ali. Não achei que ficaria assim...
Finalmente encontramos lugares vagos para sentar. Connie ao longe acenou para nós e assim fomos até ele e Sasha. Assim que nos acomodamos (eu com um pouco mais de dificuldade, claro), o careca me olhou de forma curiosa.
– Pra quê esse cachecol, Eren? Já tá calor agora. – Argumentou ele.
– Talvez Eren esteja com resfriado. – Supôs Sasha, não parando de comer seu lanche nem pra conversar.
– Não... Eu pensei que fosse, mas ele disse certo que não era. – Comentou Mikasa. Via que Armin me olhava de canto de forma analítica. Eu sempre ficava meio nervoso quando recebia esse olhar dele, pois com isso ele sempre descobria o que eu estava escondendo, não importa qual segredo for. Talvez pelo menos para ele eu devia contar o que houve comigo e com o Levi... Eu queria poder compartilhar com mais alguém que não fosse a minha vizinha doidinha de óculos. Mas isso teria que esperar. Tinha muita gente aqui.
– Está tudo bem comigo, só estou sentindo um pouco mais de frio hoje. – Tentei justificar.
– Nossa, Eren, mas você sempre foi o mais calorento da sala... não é? – Comentou Sasha.
– É só que... Er... – Tentei disfarçar comendo minha comida e olhando para o lado.
– Nossa, Eren você está suando, cara! – Afirmou Connie. – Melhor você tirar isso antes que desmaie... – Ele logo segurou a ponta do meu cachecol, no intuito de puxá-la pra fora, mas eu afastei sua mão.
– Não!! Er... quer dizer, eu estou bem, Connie! É sério. Mikasa também está de cachecol e vocês não estão falando nada! – Tentei passar o máximo de confiança a ele.
– Bem, se você diz... Mas no caso da Mikasa, esse pano já virou parte do corpo dela. – Connie sentou-se e jogou a cabeça pra trás. Eu soltei um suspiro de alívio, por pouco ele via minhas marcas. – Cara, to morrendo de sono... e pensar que ainda temos o segundo tempo inteiro de aula... – Connie mostrava seu desânimo.
– Mas as matérias de hoje são tranquilas. – Comentou Armin.
– Ah... Meu cérebro só começa a funcionar na terça. – Explicou Sasha.
– O meu também. – Completou Connie.
– Gente, desse jeito vocês vão ficar de recuperação... de novo. – Avisei.
– A gente não liga... – Sasha logo olhou o pão doce que Mikasa retirava da embalagem. – Mikasa...!! Dá um pedacinho pra mim?? – Ela deu uma chorada para a de cachecol vermelho. Ela estendeu o pão para a esfomeada, mas assim que ela ia dar uma mordida, Mikasa recuou o pão. Connie começou a rir alto da cara que a pobre Sasha fez.
~*~
Já no corredor, nós três já estávamos a caminho de nossos armários, que ficavam bem na esquina de um dos corredores, pra já pegar o material da próxima aula. Chegando lá, avistei ao longe o time de futebol da escola no outro corredor. Eram caras meio metidos e que adoravam exibir sua jaqueta oficial do clube. Eles eram muito respeitados pelos outros alunos, pois já ganharam dois campeonatos só neste ano.
Olhando com mais atenção, mesmo eles estando encostado aos armários, pudemos dar uma espiada de lado e ver alguém familiar ali com eles.
– Ué... Aquele ali parece...
– É o Jean! – Completou Armin.
– Oh... Será que ele conseguiu? – Mikasa perguntou retoricamente em voz baixa.
– Do que está falando? – Me virei para ela.
– Jean falou pra mim, na semana passada, que ia tentar se juntar ao time de futebol da escola. – Explicou ela.
– Ahh... Por que ele disse pra você? – Perguntei.
– Vai saber...
Armin arqueou a sobrancelha olhando para o grupinho ao longe.
– Gente, eles estão encurralando o Jean... – Avisou o loiro.
– Hã? Como assim? – Olhei interrogativo para eles. Ao que pareceu eles estavam falando alguma coisa para o Jean. Não dava pra ouvir bem o que era, mas eles pareciam o estar intimidando. – O que eles estão fazendo com ele?
– Shh! Vamos tentar ouvir. – Armin, sorrateiramente se encostou quase à dobra da esquina dos corredores, observando-os sem que fosse percebido, eu e Mikasa ficamos bem atrás dele. Os corredores foram esvaziando, o que possibilitou ouvir um pouco melhor o que diziam...
– ...eu já falei que isso não foi nada! Por que vão decidir minha entrada no time com base nisso? Eu passei no teste do treinador! – Jean falava. Parecia querer impor seus direitos.
– Cara, foi mal, mas... tem a opinião do treinador... e tem a opinião do time. – Um sujeito mais alto peitava Jean, parecia esnobá-lo. – Podemos expulsá-lo se quisermos.
– Hã? Mas eu já falei que aquilo foi um acidente! – Jean mostrava-se bem puto.
– Ah, então você “acidentalmente” beijou o Jaeger na boca. Por favor, né Kirschitein! Quais as chances de alguém beijar “acidentalmente” outra pessoa? – O comentário me fez corar. Então estavam falando de mim também? Ouvir meu nome me fez ficar mais atento à conversa deles. Pelo que eu lembrava, esse rapaz era o capitão do time.
– Eu não beijei o Jaeger!
– Há, minha namorada me passou uma foto que diz o contrário... – Ele mostrou a tela do celular para Jean. De onde estávamos não deu pra ver nada da foto, mas pela cara que Jean fez, devia ser de fato uma foto nossa... naquele momento constrangedor... Apertei os punhos sentindo uma raiva queimando no corpo. Sempre tem um infeliz que tira foto da cena ridícula que acontece com você na escola, e depois posta nas redes sociais e manda para os amiguinhos também rirem.
Jean mordeu os lábios, olhando raivosamente para o capitão do time.
– Ouça, Kirschitein. Nossa reputação que levou anos de conquista pode cair rapidinho se admitirmos um gay no time. Vão pensar que todos somos gays...
– Eu não sou gay!! Isso aí foi um acidente, caralho! Já falei! Eren tropeçou na escada e caiu em cima de mim!
– Não é isso que os boatos dizem. Por isso optamos por não correr qualquer risco. Somos muito severos na seleção de membros da equipe, sabe? Por isso sempre vencemos, não só no futebol, no social também.
– Hunf. Então que se foda vocês...! – Jean deu de ombros, colocou as mãos nos bolsos e foi vindo para nossa direção, dando pesados passos.
– Ui, não fique irritadinho não Kischitein! Logo você encontrará um clube adequado ao seu perfil, tipo o balé! – Um dos jogadores zombou.
– Ou o clube de natação, lá sim é o seu lugar! – Os caras riam, riam bastante. Era até uma coisa repugnante de se ver. Não achei que eles fossem desse jeito.
Vi Jean parar de andar, pra logo fechar seu punho direito com força. É... ele estava no limite de tolerância. Conheço bem o Jean e sei que ele é tão pavio curto quanto eu. Ele virou-se e acertou um cruzado bem dado no rosto do capitão do time. Isso o fez cambalear pra trás. Mikasa, vendo isso, quase ia até lá fazê-los pararem, mas eu segurei seu braço. Não sei se era muito seguro ela ir enfrenta-los...
– Caralho! Eu já pulei fora do time! Por que ainda estão aqui enchendo meu saco?!
– Kirschitein... – O capitão limpou o sangue de sua boca com a manga. – Seu viadinho... Vai pagar por esse corte que fez na minha boca... Por que não vai logo chorar nos braços do seu Jaegerzinho?! – O cara estava com o punho pronto pra acertar Jean.
Eu nem notei quando, mas Armin logo correu até eles, ficando na frente de Jean. Isso fez o capitão parar o golpe antes de acertá-lo.
– Armin?! – Eu e Mikasa exclamamos juntos, um tanto perplexos com sua atitude e rapidez. Armin era sempre o primeiro a fugir quando haviam brigas na escola. Logo corremos até ele.
– Vocês... Não achei que fossem tão repugnantes assim. Esta foi a cena mais detestável que vi na minha vida. – Armin falou com uma voz firme e desgostosa. Logo voltou seu olhar para Jean. – Você está bem?
– Armin...? – Ele olhou surpreso para o loiro. – Ah... não é nada.
– Hunf, porra Kirschitein, você precisa das suas putinhas te protegendo? Vê se se vira como homem pelo menos pra encarar seus problemas. Olha, até o seu amor Jaeger veio! – Notei que o capitão estava mesmo era a fim de provocar e menosprezar o Jean até o fim com base nesse boato.
– Não fale assim com o Armin. – Mikasa encarou o capitão de forma intimidadora, sem mudar a expressão de seu rosto. – E deixe o Jean... – Depois dessa ameaça, o cara e todo o resto do time deu uma recuada. Mikasa parece ser uma figura bem temida pra eles.
– Argh, dois frouxos vocês. Tendo que ser salvos por uma menina. Hunf. – Foi o que disseram enquanto saiam de fininho pelo corredor até a porta da quadra. Mikasa ainda ficou encarando eles até que sumissem de vista.
Jean massageou as têmporas. Mostrava-se super irritado ainda, mas até que estava contido.
– Valeu Armin... Mikasa... – Ele olhou agradecido para os dois, até se voltar em minha direção. – Ah, e valeu também, Eren! Olha os problemas que você me causa! Sabia que ficaram mexendo comigo o dia inteiro por causa daquele acidente de sexta? Até as menininhas do primário estavam rindo! – Jean desabafou, aproximando o rosto de mim numa forma intimidadora. Fiz um olhar confuso.
– Ué... Te zoaram?
– Como assim? Não zombaram de você também não? – Ele arqueou uma sobrancelha.
– Não. Não ouvi nada sobre isso até agora. – Falei.
– M-mas... então por que? O que é isso, Deus?! É conspiração contra mim? – Jean se ajoelhou e ergueu os braços pra cima, fazendo um drama.
– Er... Relaxe Jean. – Armin tentava acalmá-lo.
– Tsc! Mas que droga é essa?! Foi ele que caiu com a boca aberta em cima de mim, por que não estão zoando ele? – Jean perguntou perplexo apontando pra mim. Eu apenas mostrei a língua a ele.
– Hum... Acho que é porque a Mikasa está sempre por perto, ninguém tem coragem de mexer com o Eren nem comigo nessa condição. – Explicou Armin. Nesse momento quem fez a cara perplexa fui eu. Quer dizer que estou sendo o tempo todo protegido pela Mikasa? Eu sou homem, eu que devia estar protegendo alguma coisa por aqui!
– Hunf. Tanto faz. – Jean deu meia volta e já estava para voltar para a sala.
– Jean. – Armin chamou-o. – Talvez... Er... você e o Marco podiam andar com a gente. Pelo menos até esse assunto de beijo esfriar. Com a Mikasa por perto, nada vai acontecer com você. – Garantiu Armin e Mikasa concordou com a cabeça.
– Tá, mas... Andar com ele? – Ele me fitou com certo receio. Era inevitável, nós não nos aguentávamos ficar juntos. – Isso só vai fortalecer a ideia de que eu estou saindo com esse viadinho.
– Como é que é, cara de cavalo?! – Agarrei a gola da sua camisa.
– Não briguem. – Mikasa amenizou o clima novamente, puxando minha mão pra longe da gola de Jean. – Façam a pazes. – Ela pediu, não mudando sua expressão nem por um momento.
Jean suspirou, mas logo estendeu o dedo mindinho em minha direção, procurando não olhar pra mim. Fiz o mesmo, com uma certa timidez, também estendi meu dedo mindinho ao dele e selamos uma “paz”. Ou pelo menos tentaríamos. Ambos sabíamos que discordávamos na maioria das coisas.
Fomos indo os quatro até a sala de aula. No meio do caminho, Jean perguntou estranhando.
– Mano, Eren, por que você está de cachecol? Tá resfriado?
– Não... Er, não exatamente. – Escondi meu rosto no tecido fino verde e desviei o olhar para o lado.
– Então tira isso aí, já to suando só de te ver assim! – Ele disse já puxando meu cachecol.
– Não!!!
Ele conseguiu fazer um dos lados do meu pescoço ficar visível. Jean logo arqueou a sobrancelha.
– O que é isso aí? – Ele apontou. Eu rapidamente enrolei o cachecol no pescoço de novo.
– Er... F-foi um pernilongo... u-uma picada!
Jean continuava estranhando.
– Mas desse tamanho?
– É que... Er... E-eu cocei demais onde ele picou e... ficou assim! – Desculpa esfarrapada! Jean olhou de forma desconfiada para mim, mas depois pareceu ignorar. Ainda bem que nós dois estávamos atrás de Mikasa e Armin. Pelo menos os dois não viram, ainda mais Armin que era muito bom observador. Ia enxergar na hora que eram marquinhas de boca.
Levi
Já era horário de almoço e eu saí de minha sala, já pronto para ir rumo ao refeitório. Já logo vi Petra no telefone, parecia discutir com alguém. Provavelmente era o Auruo. Ele costuma deixar a ruiva irritada com queixas desnecessárias na ala de enfermagem ou da pouca eficiência dela no trabalho, mas ela sabe que isso não era verdade, não sei porquê perdia tempo discutindo.
– Petra.
– Ahh! Hã... Senhor?! – Ela se virou para mim surpresa, logo desligando o telefone. – Ah, me desculpe a gritaria. Auruo está reclamando de alguns pedidos de materiais na ala de enfermagem...
– Eu sei. A entrega atrasou, só isso.
– Oh, então vou avisá-lo!
– Não. Deixe-o pra lá. Hanji logo o avisará de qualquer forma. – Falei. – Já almoçou?
– Ainda não...
– Então venha, antes que não tenha mais lugares no refeitório. – Fiz gesto com mão indicando que me seguisse, isso por algum motivo a fez ficar sem graça.
– Er... M-mas... E quem vai atender o telefone se nem eu... e nem você...?
– Erwin vai subir daqui a pouco pra resolver umas pendências aqui no escritório. Ele cuida do atendimento. Agora venha...! – Chamei-a novamente e já saí andando na frente.
– Oh... S-se for assim, então tá! – Petra pegou sua bolsa e logo correu para me alcançar, até ficarmos lado a lado.
Chegando no refeitório, nos sentamos no balcão da lanchonete. Realmente não tinha mais lugar para sentar, já que fui num horário um pouco mais tardio do que o meu costume, já esperava por isso.
Pedi um lanche enorme. Estava com bastante fome afinal, e sua quantia servia bem de almoço. Petra pediu um sanduíche menor e um suco natural de maracujá. Sentir o cheiro da fruta me inspirou a pedir um copo para mim também.
Notei que Petra estava um pouco acanhada. Parando agora pra pensar, acho que esta era a primeira vez que eu almoçava com ela, em três anos trabalhando juntos. Essa deve ser a provável causa do seu “nervosismo”.
– Pode relaxar aí, não é porque sou seu chefe que você não pode relaxar na minha frente. – Falei indiferente.
– Ah, sim, senhor. – Ela logo abaixou os ombros e respirou profundamente. Mas ainda não aparentava ter relaxado.
“Será que ela...?” Supus algumas coisas em minha mente, mas resolvi ignorá-las. Olhei a garota ao meu lado como alguém pra conversar, alguém que não fosse doido varrido como a Hanji, e que pudesse dar uma opinião sobre esse tipo de relação que estou tendo com o Eren. Mas claro, não vou falar explicitamente que estou me referindo a mim e ao garoto.
– Petra, o que você acha de um relacionamento amoroso entre duas pessoas com uma diferença grande de idade? – Fui curto e objetivo. Mas mesmo eu sendo neutro, Petra deu uma engasgada com o suco. Logo ficou com o rosto mais ruborizado, olhando-me de forma interrogativa.
– H-hã?! O-o-o... O que quer dizer com isso??
– Então você acha incerto?
– Não! Er... Bem, claro que é meio diferente, mas... É só que você me pegou de surpresa com essa pergunta. – Ela ria de forma encabulada.
– Então, você acha que não é um problema?
– Ah... Não. Claro, não coloquemos uma criança com um ancião, mas se for uma diferença...
– Algo do tipo uns quinze anos... – Não falei a diferença exata, foi só um arredondamento abaixo.
– De diferença...? Ah, espere, de quem o senhor está falando? – Notei que ela ficara bem mais corada depois que eu disse “quinze anos”.
– Não importa, só quero saber a sua opinião. Acha isso... é uma coisa mal vista?
– Não. Pelo menos pra mim não. – Ela sorriu docemente. Logo dei um suspiro.
– Hm... Bom então... – Dei um gole em meu suco. Achei que poderia estar cometendo um crime. Mas também pensei pelo lado do Eren, foi ele que flertou comigo primeiro. Isso quer dizer que eu não estava o obrigando a nada. Na verdade, eu que fui entrando na dele e... até gostando... Isso quer dizer que eu estava isento de qualquer culpa, não é?
– O senhor... está gostando de alguém, chefe...? – Perguntou curiosa.
– Hã...? – Olhei para Petra, saindo de meus pensamentos.
– Não. Só queria saber... Vi num noticiário noturno um caso desses. – Menti de forma esfarrapada. Se eu estivesse a fundo nesse negócio de Direito, estaria sabendo melhor do assunto perante a lei. Mas perguntei à moça de cabelos alaranjados pra saber sua opinião como uma pessoa comum, não como um juiz da corte.
Mas a palavra “gostando” que Petra usou me deixou meio inquieto. Tanto que passei a mão em meu rosto e senti o local da bochecha, onde Eren havia depositado um beijo, estar mais quente de novo...
~*~
Cheguei ao prédio de casa já era mais de sete horas. Demorei a chegar desta vez por ficar um bom tempo conversando com o Erwin sobre uns assuntos do hospital. Acabei por pegar um trânsito do horário de pico na nossa região. Mas pra fugir disso, contornei a avenida e já aproveitei pra passar num restaurante chinês e pedir o meu jantar e o do Eren no Drive-thru.
Segurando as caixinhas ainda bem quentes dentro da sacola, adentrei meu apartamento. Eren se encontrava sentado na mesa da sala de jantar, de costas para mim. Aparentemente fazia seu dever de casa bem concentrado. Estava usando fones, por isso não me ouviu entrar. Sua música estava bem altinha, eu conseguia ouvir o abafado chiado de longe. Pensei em não incomodá-lo e só seguir reto até meu quarto, mas resolvi ir até ele.
Não sei por quê, mas me veio à cabeça o momento que Eren me deu um beijo no rosto ao se despedir e ir pra aula. Fez exatamente como quando era criança. Claro, de uns tempos pra cá não estava mais fazendo isso. Mas ele ter feito hoje por iniciativa própria até que foi um gesto... adorável dele. Sendo assim, resolvi retribuir.
Cheguei de fininho atrás dele, apoiei a mão em seu queixo afastei sua franja e inclinei-me, dando-lhe um beijo na testa. Eren, claramente surpreendido, apenas arregalou os olhos e ficou com o rosto ruborizado.
– Ah, L-Levi?! J-já voltou?! Eu... E-eu nem te ouvi entrar...! – Exclamou enquanto retirava os fones.
– Hunf. Por isso que vim te cumprimentar. – Disse irônico.
– B-bem-vindo de volta então... – Ele falou timidamente.
– Eu trouxe nosso jantar. – Coloquei as caixinhas do restaurante chinês sobre a mesa.
– Ah, que bom, eu estava morrendo de fome! – Eren fechou seus cadernos e logo abriu sua caixinha e sacou os hashis da sacola, pronto para atacar. Eu sentei-me ao seu lado e comi o meu também, antes que a comida esfriasse. Nem conversamos no durante, a fome era tanta que só conseguíamos nos concentrar em comer até o último fio de macarrão.
Eu logo fui buscar duas latas de refrigerante para nós. Eren se mantinha sentado na cadeira abraçado às pernas. Notei que momento ou outro ele dava uma massageada em seu traseiro. Ele olhava de uma forma estranha pra mim. Ele sorria... Estava sorrindo abobadamente. Seu olhar mostrava que ele estava esperando por algo...
– Que cara é essa? – Perguntei, tomando um gole da minha latinha.
– Nada... – Ele olhou pra baixo. – Você é... tão bonito, Levi...
Dei uma engasgada com o refrigerante ao ouvir isso. Como assim? Que comentário foi esse? Assim do nada!
– Hã...? – Arqueei uma sobrancelha. – Está tentando me cantar, Eren? Agora?
– É...!
Eu ri levemente diante de sua sinceridade. Mas eu ainda estava com meus receios. Nem conversamos seriamente sobre... bem, a relação dele comigo. Ontem apenas apelamos para nosso lado animalesco e nem falamos direito no assunto. Não sabia se estava correto seguir a diante com isso ou não...
– Ouça, Eren... – Chamei-o com uma voz mais suave. – Você... O que você achou de ontem? – Vi que ele ficou mais encabulado com a pergunta.
– Er... Por que está perguntando isso agora...?
– Eu quero saber, oras.
– M-mas...! E-eu... – Vi que ele estava com muita vergonha de responder, começou a evitar me olhar nos olhos. – Até que eu... Quer dizer, achei super... F-foi bem diferente... Foi algo... bom...
– Bom? – Como vi que ele estava embaralhado com as palavras, resolvi brincar um pouquinho... – Só “bom”?
– Er... Foi muito bom...!
– “Muito bom”?
– Hum... Levi...! – Ele mordeu o lábio. Ele estava envergonhado, mas sua resposta sincera estava para pular de sua boca, então simplesmente fechou os olhos e falou. – F-foi ótimo, foi incrível!!! E-eu nunca me senti tão bem como me senti ontem com você!!
– Oh...! – Fiz uma cara surpresa. Mas no fundo eu me senti mais aliviado com sua resposta. – Hum... E não sentiu... Sei lá... Como se eu estivesse te forçando a nada, não é?
– Não. – Ele deu um discreto riso. – Fui eu quem... er... avançou. – Relembrou ele.
– Hm, verdade... Ah, Eren, é que... – Massageei as têmporas. – Você é um menino. É o menininho que eu vi crescer... E agora...
– Desculpa... É meio estranho pra mim também, mas... ao mesmo tempo eu sinto que isso é tão normal...
Ele falou espontaneamente, bem certo no que sentia. Eu soltei um suspiro. Pior é que eu me sentia da mesma forma... Achava que ter uma relação carnal com esse garoto era uma coisa errada, mas ao mesmo tempo achava... certa. Na verdade, acho que eu também estava querendo...
– Eren... – Eu ia perguntar algo que estava me remoendo, mas... decidi deixar de lado, pois eu via que mesmo ele talvez não tivesse uma resposta certa ainda.
– Hã? – Ele ficou esperando pela continuação da frase.
– Nada... – Levantei-me da cadeira. – Bem, vou indo tomar um banho então. – Antes que eu fosse, Eren segurou minha mão. Voltei meu olhar a ele. – Que foi...?
Eren me olhava nos olhos e vinha me puxando para baixo. Ele logo apoiou as mãos em meu rosto e aproximou seus lábios dos meus. Por ato reflexo, eu virei o rosto na hora. Não sei bem o porquê, talvez estivesse com receio de cair em tentação outra vez. Afinal, eu admito, esse garoto tem o poder de me tirar da razão com poucos gestos. Ele fez um olhar meio triste diante da minha reação.
– Hã...? O que foi? E-eu não... posso te beijar...? – Ele olhou de canto, sem graça. Eu segurei seu queixo, fazendo-o me olhar de novo.
– Você gosta de mim, Eren? – Perguntei num sussurro. Eren apenas sorriu e fez que sim com a cabeça. Usei o termo “gostar” por enquanto, achava que a outra palavra seria um tanto forte pra falar... Eu logo puxei-o para que tivesse o seu beijo. Foi só um selinho... um selinho demorado, só para satisfazer a vontade de sentir seus lábios. Mas o garoto resolveu abrir um pouco a boca e tentar aprofundar o contato. Diante disso eu logo separei.
– Ahh? – Ele olhou meio decepcionado pra mim.
– Guarda essa linguinha aí na sua boca, menino. Toma teu rumo! – Falei em tom irônico. Na verdade apenas interrompi o beijo pra deixá-lo na vontade.
– Ehh?! Ahh, Levi... – Ele fez bico.
Baguncei seus cabelos e logo fui em direção ao corredor. Eu sorria de canto. Eren continuava a agir como as garotas com quem saí. Isso quer dizer que ainda sentia de verdade atração por mim... talvez podia estar de fato com um “sentimento especial”... Senti uma palpitada em meu peito. De alguma forma eu me aliviava saber disso.
Pois bem, depois conversaria melhor com ele sobre isso... Por hora eu queria tirar logo aquela roupa social, tomar um bom banho quente e relaxar a cabeça. Eu estava sentindo uma dor incômoda no meio das sobrancelhas... isso já faz dias e eu não entendia o motivo.
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