Reef Break
1 Capítulo único
Notas iniciais
No começo, eu não ia muito com a cara do Pedro. Tipo, eu nasci e cresci aqui, sempre fui o rei das ondas e, de repente, esse cara se muda pra cá, se torna meu vizinho e começa a encarar ondas que muito veterano nem sonharia em pegar.
É claro, acho que eu sempre fui meio mimado e estava acostumado a ser o centro das atenções — filho único, razoável na escola, aprendendo a ficar em cima de uma prancha quase ao mesmo tempo em que aprendia a ficar de pé. O meu velho é surfista aposentado, então é óbvio que ele sempre incentivou. Foi ele quem me ensinou tudo e quando eu era criança a gente sempre podia ser visto na praia todo fim de semana; um moleque de pele queimada de sol e cabelo quase até os ombros e um tiozinho todo orgulhoso – um parecendo uma versão miniatura do outro. E como nesta cidadezinha as únicas duas coisas que se tem pra fazer são surfar e babar o ovo dos turistas, a maioria dos jovens que têm escolha prefere surfar. E a minha vida toda, eu tinha sido mais ou menos o rei deles.
Eu estava com 16, já era tão alto quanto sou agora e não pensava em mais nada a não ser passar o dia inteiro na água quando as coisas começaram a mudar. Foi na última semana de férias antes do 2º ano que eu notei que a casa ao lado da minha, que tinha ficado vazia por quase um ano, ia ser ocupada de novo. Antes que eu tivesse tempo de reparar nos novos vizinhos ou no filho deles, o garoto já tinha começado a aparecer na praia e encarar onda com o pessoal. Na primeira vez em que eu vi o Pedro — aquele moleque de cabelo preto, tão queimado de sol quanto eu, com cara de quem mal criou pentelho — ele já parecia quase completamente enturmado com a galera. Eu tinha reparado nas manobras dele um pouco antes e estava um tanto impressionado — e, é claro, um pouco enciumado, já que nunca tive concorrência séria por ali -, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ele me reconheceu dos torneios juvenis dos quais eu tinha participado. Eu não me lembrava dele e ele disse que nem tinha como, já que nunca tinha participado de nenhuma competição. Eu achei que deveria, já que era bom o bastante pra isso, mas estava mordido demais pra dizer.
Desde então, não era raro ver o Pedro na praia. Ele também tinha começado bem cedo e também vivia numa cidade costeira antes, e mesmo não sendo mais velho que eu, encarava ondas que a maioria dos caras da nossa cidade preferia ficar só olhando — com exceção de mim, é claro. E ele não era melhor do que eu, não era isso, a questão é que ele era tão bom quanto, ou quase. Ele não era imprudente, mas não tinha medo, via a onda e ia até ela. Quando voltava de uma que ninguém mais tinha tido coragem de encarar, ele sempre estava eufórico e confiante e nem parecia cogitar se sentir melhor do que os outros por ter conseguido – bastava o prazer de ter feito. Apesar do meu despeito inicial, que ele nem pareceu ter notado, nós ficamos amigos e quando eu vi, começava a gostar dele e não fui parando.
E ele também parecia gostar de mim. Bem, ele gostava de todo mundo e todo mundo gostava de mim, mas o que eu quero dizer é que, além da amizade, ele parecia se importar muito com o que eu pensava. Mesmo sendo tão foda quanto era, ele meio que tinha me tomado como modelo e sempre me perguntava no que eu achava que ele poderia melhorar, se a inclinação dele estava boa e tal. Cara, uma vez, ele até me perguntou se eu achava que ele conseguiria pegar uma determinada onda. Como o único semiprofissional da cidade, eu estava acostumado a dar conselhos pros amigos, mas quando era com ele eu sempre me sentia meio constrangido. Eu pensava que devia dizer a ele o quanto ele era bom, mas algo que eu não sabia bem o que era me impedia. Não era despeito, eu tinha superado isso. Acho que eu tinha medo de mostrar que o admirava, porque também não entendia até que ponto eu o admirava.
Com o tempo, eu pensava nele sempre que lia ou via algo sobre surf. Quando estava sozinho no mar, desejava que ele estivesse comigo pra ver a atuação perfeita dele, mas principalmente pra ver aquela expressão alegre e triunfante. Mesmo quando estávamos na praia, descansando enquanto o sol se punha, eu gostava de saber que ele estava ali, deitado a menos de meio metro de mim, com as costas nuas na mesma areia que eu. Ele era sempre calmo e simpático, feito o mar na baixa estação e nós dois estávamos sempre juntos. Na escola, apesar de não estarmos na mesma sala, sempre estávamos juntos no intervalo. Na praia, parecíamos dividir as ondas e na areia nunca estamos muito longe um do outro. Ele ia na minha casa tanto quanto eu na dele e durante as competições em outras cidades, ele sempre estava presente.
Uma vez, acho que numa tarde qualquer na areia, eu finalmente disse ao Pedro que ele devia se profissionalizar, que ele tinha potencial, poderia estar na Califórnia, na Indonésia, em qualquer lugar. Ele nem se abalou, respondeu que não se interessava muito por troféus e não queria a pressão de ser profissional. Existiam caras que nasceram pra ser campeões, como eu, e outros que só queriam se divertir, foi isso que ele disse. Ele só precisava que o deixassem no mar. Mas ele se desenvolvia, acho que principalmente com a minha ajuda, e se tornava ainda melhor do que já era e eu notava que logo ele seria melhor do que eu jamais seria. Isso não me incomodava, só me fazia admirar ele, querer estar com ele ainda mais. Amar ele, acho que essa é a palavra, apesar de eu não admitir nem entender isso direito naquela época.
E assim, entre as competições juvenis, as tardes inteiras pegando onda, os estudos e alguns rolos sem importância, o tempo foi passando. Eu fui crescendo, me aproximando dos 18, o corpo e a mente melhorando e amadurecendo à medida que a escola e as outras coisas da adolescência iam ficando pra trás. Eu iria pra faculdade em três meses; outra cidade, outras pessoas, prancha só quando o tempo deixasse, pai só nas férias, os amigos de sempre mais na memória do que em contato. A formatura tinha sido no dia anterior, todos muito felizes e orgulhosos, mesmo o Pedro, que tinha repetido. Ele estava ali comigo. O sol estava morrendo no horizonte e o céu se dividia em tons de laranja e vermelho. Apesar de ser verão, a gente estava quase sozinho no mar, só com um ou dois surfistas em outros pontos da praia. Nós dois estávamos sentados nas pranchas, ondulando em conjunto com a água, esperando uma onda decente, enquanto o frio da noite chegava e nos fazia tremer um pouco. Eu tinha passado o dia todo no mar, talvez pra abafar a expectativa entre os horários e regras que tinha deixado pra trás e tudo de incerto que estava pela frente. Quando notamos uma formação, eu perguntei, pela primeira vez, a ele e a qualquer um: — você acha que eu consigo? Ele pareceu meio surpreso com a pergunta e, ao invés de responder, sorriu e se curvou sobre a prancha, remando com os braços em direção à onda, olhando pra trás pra ver se eu o acompanhava. Eu o segui, entendendo uma coisa em mim, e naquele momento sentia alegria, orgulho, adrenalina e até uma tristeza boa por algo que não aconteceria, mas já era bom mesmo assim.
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