Redoma de Palavras
1 Capítulo 1
Eu sou um dos ursos, foi o que pensou.
Guilherme observava o tumulto debruçado sobe a mesa e encostado na parede no fundo da sala. Não era uma sala grande. Não grande o suficiente. Não para aquela classe em especifico. Eram quarenta e sete cabeças, talvez. Ele achava. Na verdade, era o que ele chutava achar. Cerca de quarenta e cinco alunos aglomerados, espremidos a cotoveladas e irritados como siris na lata lutavam por qualquer fagulha de espaço. Guilherme não via claramente, embora imaginasse que alguns estivessem jogados sobe a mesa do professor, dado alguns tênis se fazerem vistos por outras canelas. Do fundo, era impossível de se ver o quadro, não que aquilo importasse. Naquele momento, o que mais importava era que a aula corria. Não havia calculado direito, mas sentia que vinte e cinco minutos haviam sido perdidos após o inicio daquela barbárie.
O calor reinava junto às reclamações, impiedoso.
Já não bastassem os grunhidos e os gritos, as risadas e os barulhos de celulares, o ar-condicionado havia quebrado três dias antes daquele, fazendo o verão ficar mais intenso e abafado. Sinto-me como Jon Snow em Mordor. Mas talvez ele duvidasse de Jon Snow. Deveria duvidar. Talvez o Senhor Comandante da Patrulha da Noite nunca chegaria a pisar fora da muralha para uma longa caminhada a Mordor. Não, é impossível. Ele nem se quer sabe sobre suas irmãs, vai conhecer o caminho até Mordor. Impossível.
Mas aquilo não importava. Nem o próprio Jon Snow esperaria mais daquela discussão do que Guilherme esperava. Nem o nongentésimo nonagésimo oitavo Senhor da Patrulha da Noite poderia fazer algo, mesmo que ele quisesse.
Alencar, o professor de história nacional mais psicodélico que Guilherme já teve, tentava acalmar os ânimos exaltados dos alunos, mas falhava miseravelmente a cada tentativa. Os animais, vulgo alunos, se atropelavam em suas reclamações. Uma parte falava mal abertamente dos outros terceiros anos, como se não ligasse para o que ou quem estivesse a sua frente. Outro grupo do time de futsal ameaçava até sair na pancada se aquilo que estava sendo discutido realmente viesse a acontecer. Mas já estava decidido. Alencar não tardou a explodir, como sempre:
— Chega! – vociferou claramente irritado. – Eu sou o professor de vocês, ora! Vocês são os meus alunos! Essa é minha palavra final! Não à volta!
— Mas, professor! – o uníssono parecia uma salva de balas de tão alto. Eu não estudo em uma sala e sim num zoo. E com toda a certeza eu sou o urso desse zoo.
— Mas nada! – voltou a dizer – Irão trabalhar com o 3-B e não se fala mais nisso. Nós professores concordamos, inclusive os representantes de cada classe... – por um momento aquelas palavras pairaram como um toque fúnebre. Ninguém contestou. – Todos aos seus lugares, a aula irá começar. E ai de vocês se reclamarem mais. Não pouparei esforços para acabar com vossas vidas em minha matéria se ousarem prolongar o assunto, entendido?
E o uníssono se fez presente novamente.
Aquela era a deixa. Era quase como entregar o bolo todo a alguém que pediu apenas uma fatia. Guilherme sabia do cacoete. Era tão observador quando um espião indetectável. Se não pegarem a ideia agora, estaremos realmente fodidos pelo resto do ano. Era algo simples de se perceber para quem tinha aulas frequentes com o excêntrico Alencar Baltovic, colegialmente conhecido por suas manias linguísticas bem visíveis e seus maus modos. Ficava clara as vezes que aquele tiozão falava sério. Quando suas palavras emboladas se tornavam sofisticadas, como as dos grandes reis de 1200 e bruxas soltas, Guilherme sabia que não vinha coisa boa. Mesmo um macaco estudando com um professor por três anos seguidos conseguiria perceber. Um macaco, um chimpanzé, não um aluno daquela sala.
Não um aluno do 3-A.
E como Guilherme já esperava, os cerca de quarenta e cinco colegas não haviam pescado a ideia. Entretanto, eles não rebateram as palavras duras do Professor Alencar Baltovic. Era um alívio que Guilherme não poderia desfrutar. Sentiu-se frustrado e estalou os dedos, puxando-os até proporcionar a dor prazerosa que tanto gostava, agradecendo mentalmente aos animais de sua sala.
As mesas e os lugares eram ocupados de maneira preguiçosa, muito embora os milhares focos de conversa não cessassem. Prof. Alencar havia começado a escrever no quadro negro após escutar mais alguns insistentes, só parando para pedir silêncio uma vez ou outra. Mas a visão era decadente. Só um punhado de alunos estava com os cadernos abertos e tinham calado à boca realmente. Bem, ele não se importava. A classe não se importava. Então, ninguém de fato se importava. E como era esperado, ele parou de pedir silêncio e deixou que os realmente interessados escrevessem. De realmente interessados, o grupo aglomerava quinze alunos.
E no grupo de interessados, Guilherme não fazia nem frente e nem parte.
— Sei que não gosta de muita gente junta, mas poderia, pelo menos, dar uma força quanto a isso dessa vez. – a voz vinha de trás, um pouco longe ainda. – É o 3-B. Aqueles nerds não combinam com desleixados, patricinhas e futuros bandidos como a gente.
Rafael tinha se sentado uma mesa atrás da dele, apoiando as pernas sobe uma banca vazia ao seu lado. Guilherme se sentiu levemente ofendido. Quem você está chamando de desleixado? Conhecia aquele projeto de meliante mal acabado desde o primeiro ano, e mesmo agora, no último de sua vida escolar mediana e chata, ele ainda insistia em começar uma conversa normal com ele, falando de assuntos genéricos.
— Um a mais ou um a menos... Não faz diferença. – respondeu Guilherme com desdém. –Deixem que os macacos briguem por suas poucas bananas. Eu não me importo em trabalhar com o 3-B.
Espere, porque eu falei trabalhar? Trabalho se resume a estresse, e estresse gera insatisfação e raiva. E insatisfação e raiva é a penúltima coisa que eu quero na minha vida. A última é trabalhar.
— Você continua igualzinho a quando nos conhecemos, falando essas analogias absurdamente sem nexo toda a hora.
— Considero minhas analogias uma das minhas quatrocentas melhores qualidades. – Guilherme respondeu com orgulho, lançando um sorriso de canto de boca.
— Sabe que isso não foi um elogio. – Rafael girou a caneta no dedo.
— De toda maneira, ainda considero isso uma boa qualidade. – Guilherme esticou as pernas – Uma ótima qualidade, na verdade. Deveria tentar também. Imagine só? Hein, hein?
— Não, obrigado. Já tenho problemas demais para um adolescente de dezessete anos, não preciso encabeçar mais um.
— Posso falá-los se quiser...
— Não, não, não, não, nã–
— Problema número um: parecer um assaltante. – Guilherme negou com a cabeça, rindo, levantando o dedo médio para fazer companhia ao indicador. – Problema número dois: não é um dos mais inteligentes, problema número–
— Beleza, beleza! – cortou-o Rafael – Eu já sei de todos, de todos. Não preciso que você os liste para mim. Inclusive, não sou o único com problemas aqui, não é?
De fato. Ambos tinham mais problemas que o normal. Rafael seria um aluno extremamente genérico se não fosse por sua aparência. Apesar de ser tão branco quanto palmito, tinha um rosto quadrado e desafiador, com uma barba que beirava a necessidade de ser feita. Sua altura também não ajudava muito. Quase batia no parapeito da porta de entrada da classe, e Golias se sentiria com inveja de seus músculos hipertrofiados. Se ele topasse num toco de árvore, o toco pediria desculpas, pensou Guilherme. Seus cabelos eram crespos, negros, e o corte raspado na lateral não era dos melhores. Todo aquele conjunto havia dado a Rafael uma vida de isolamento durante os dois anos precários os quais viveram. Mas Guilherme acreditava que ele gostava de ser só. Só acreditava.
— Lembrá-lo de suas falhas como ser humano é o meu dever como seu melhor amigo. – foi o que Guilherme disse. – Considere minhas palavras como um presente.
— Ei, essa deveria ser a função do vilão, não do melhor amigo do protagonista. O amigo do principal deveria levantar seu astral, ajudar ele com os problemas e pá...
— Ajudar os outros é cansativo. – respondeu o amigo, levando as mãos às têmporas. – Desperdiçar energia para mim é um crime. Não, espere. Está querendo dizer que você é o protagonista? – Guilherme gargalhou o que fez Rafael sorrir. – Hilário.
— Protagonistas possuem amigos brincalhões, engraçados e com senso de humor. Você é basicamente o contrário. Além de ser um narcisista em potencial, é pragmático e indecente com as pessoas. Você é horrível, cara. – Bem, obrigado, pensou Guilherme. – Quem precisa de um amigo quando se tem um inimigo assim tão próximo?
— “Possuem”. – Guilherme fez as aspas com os dedos – Pelo o que eu estou vendo, você não tem mais um amigo além de mim. Então, tecnicamente, você não é o protagonista. Protagonistas são carismáticos e bonitos, engraçados a sua maneira e possuem sempre uma namoradinha.
— O melhor amigo do protagonista que é carismático e bonito, e tem uma namoradinha. – rebateu Rafael – O personagem principal é genérico, muitas vezes sem função alguma.
— Então você é genérico? Você? – Guilherme não se conteve a rir. Aquele rosto não podia ser genérico. Nunca poderia. – Então eu sou Robert Baratheon comandando os sete reinos com punhos de gordura.
— Só falta a pança de vinho, na real.
Ambos riram alto o suficiente para que se fizessem ouvidos, mas ninguém nas mesas próximas prestou atenção. Guilherme olhou em volta. A grande maioria dos alunos estava imersa em suas próprias conversas e risadas, juntos a seus próprios grupos. A aula era a última coisa que eles queriam. Essa é a pior classe que existe, pensou. Ele não estava errado, embora também não fosse o melhor exemplo de aluno ou disciplina. O 3-A era realmente uma classe, digamos... Complicada. Guilherme era um desses complicados. Havia sido posto ali depois de sair de um segundo ano conturbado, repleto de atritos e idas repetidas à diretoria. Segundo ano esse onde, de maneira genial, conseguira arrumar discussões fúteis com alunos chatos e meninas mimadas. Pelo o que se recordava do 2-B, havia feito, pelo menos, cinco alunas chorarem em menos de sete meses de aula. Ele não era um dos mais gentis. A forma como tratava as pessoas era algo incomum. Tinha sua lábia sem limites, além, claro, do título de aspirante a stalker. Após todos esses incidentes, só havia um bloco de salas onde ele poderia ser encaixado, o bloco A. O bloco que toda a escola conhecia como os deslocados e desinteressados, sem expectativas para o futuro incerto que provavelmente grande parte deles iria seguir. Então, eles eram segregados dos outros ditos “aplicados” ou “prodígios”.
— Havia me esquecido de perguntar, Raf. – disse Guilherme, totalmente a esmo, rabiscando no caderno – O que exatamente vamos fazer com o 3-B? Abraçar árvores?
— Feira Histórica. – respondeu Rafael, desinteressado. – A ditadura militar, Castelo Branco, revoltas pelo Brasil... – Rafael começara a escrever o assunto do quadro negro vinte minutos depois que o Prof. Alencar havia saído, afirmando voltar logo. Pelo o que Guilherme sabia a próxima aula era vaga.
— Que merda, hein. – queixou-se, suspirando – Sempre esperei mais daquela turma de “formandos”. Feira histórica... Feira histórica... – repetiu debilmente. – Usando a lógica, o Professor Alencar vai ser a cabeça por trás das duas turmas. É o único professor que realmente tenta dar uma aula nessa sala, o que quer dizer que...
Rafael o olhou com olhos preocupados, como se acabasse de saber que o anel de Frodo havia sido roubado. Sem dúvidas. Ele vai formar um grupo de organização. Um grupo chefe. Guilherme soltou o lápis, mas já era tarde. Seus pensamentos não haviam se esvaído quando a porta da classe se abriu com um rangido. Os passos nem eram ouvidos abaixo dos gritos e brincadeiras.
— Silêncio! Ei, vocês! – gritou Alencar para o grupo de jogadores de Magic – Silêncio! – Ele nem se deu ao trabalho de saber o nome dos alunos, pensou Guilherme, esse professor é o pior.
Professor Alencar havia entrado na sala acompanhado por quatro alunos. Um garoto e três garotas, esses que claramente aparentavam estar inquietos. A quietude reinava solene e inquebrável.
Rafael se aproximou da mesa de Guilherme e murmurou:
— O que acha? – foi o que perguntou.
Aquilo era clássico vindo de Rafael, quase nostálgico. Todas as vezes que ele percebia que algo aparentava estava errado, ele sempre pedia sua opinião. Mas, dessa vez, a resposta já estava clara até para ele.
Ambos eram vistos como os piores alunos do colégio, tendo visto que eram considerados os piores alunos da pior sala. O pré-julgamento das pessoas não tem limite, sabia Guilherme. No entanto, eles não eram encarados daquela forma pelas notas, mas sim pelas suas aparências distintas e seu isolamento, não contando com seus problemas dos anos anteriores. Além de Rafael, Guilherme também não era um adolescente genérico dentro daquela classe de problemáticos. Fora seu corte samurai, ele não era tão alto ou assustador como Rafael. Tinha um rosto esguio, e não se achava nem de longe atraente. A fama criada a sua volta se dava por conta de suas brigas, e, não menos importante, por fazer garotas chorarem.
E ele odiava não ter paciência com seres humanos que nem ele.
Eles eram os Bastardos Sem Causa.
— Prepare-se para ser envolvido.
— Hã? – Rafael parecia confuso.
— Ele está olhando para cá.
E como Guilherme havia dito, ele estava. Eu não sou o único urso agora. Existem mais de um, eu e Rafael.
A analogia era simples. Os ursos são animais solitários que defendem seu espaço a todo custo. Esses poderosos mamíferos demarcam seus territórios através de avisos, rastros... Caçam, buscando uma vida satisfatória e segura, buscando estabilidade. Entretanto, são vistos e tratados como predadores natos, julgados como ameaça por nós mesmos.
A maioria os vê os ursos como animais carnívoros, mas a realidade é muito diferente. Eles não são quem atacam, eles são quem defendem. Um urso vai ser hostil contra invasores, um instinto de defesa, mas não ultrapassará suas demarcações. E o que está acontecendo aqui é o inverso. Estão no nosso território, correndo em minhas terras, nos invadindo. Nós somos os defensores. Bem, talvez apenas Rafael, pois eu ainda carregava alguma ambição em meus bolsos vazios.
Eu ainda quero mais terra do que já tenho.
— Os dois do fundo. Os bastardos. – anunciou Alencar com um risco de nojo em sua voz. Os alunos prenderam a respiração quando Rafael e Guilherme levantaram. A sala claramente os temia, e alcançavam-lhes olhares afiados e rasteiros. – Para a sala dos professores, agora. Prof. Marta pediu para que os chamassem.
Guilherme e Rafael seguiram Prof. Alencar e os outros quatro. Ambos eram como ursos acorrentados a seu mais novo captor. Captor esse que não demoraria a vendê-los.
Ursos prontos para o trabalho.
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