Redoma
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordei assustada quando ouvi a sirene tocar. Levantei-me rapidamente de meu velho colchão. Estava atrasada de novo, vou ganhar uma surra dessa vez. Coloquei minhas botas de borracha, maiores que meus pés, e sai do colchão puído com certa dificuldade. Agachei de frente ao colchão de meu irmão, ainda adormecido, e beijei levemente sua cabeça para não acorda-lo. Olhei-me no espelho pendurado na porta e arrumei meus cabelos escuros no habitual coque frouxo.
Sai de nosso pequeno quarto encontrando vovó fazendo alguma mistura com farinha e ervas que tinha colhido há algum tempo. Sentei-me a mesa e comi rapidamente a mistura mole e pouco saborosa que acabara de sair do fogão á lenha.
-Está atrasada!
-A senhora também está vó!
Ela apenas deu de ombros.
-Eu sei... E bom, amanhã terei que ir antes da sirene tocar, pois já levei muitos avisos. Então terá que preparar algo para Liam comer e trancar a casa... Por favor, Riley, não se esqueça.
Eu assenti e me levantei lançando-me preguiçosamente para fora de casa. Sentindo o sol arder em minha cabeça.
Corri pelo caminho íngreme e escorregadio até o lixão. Por sorte não encontrei nenhum vigia pelo caminho. Coloquei minhas luvas de pano velhas, com um pouco de dificuldade por estar puindo e com rasgos entre os dedos, e peguei a pá catando o lixo já separado e jogando no incinerador.
Nunca intendi muito bem como, mas é desse lixo que sai a eletricidade de toda a cúpula e da cidade. É meio complicado, mas foi o que o professor Beni disse uma vez. Alias era para isso que todas as crianças iam à escola, para aprender a serem escravos.
Quando o incinerador estava completamente abarrotado de lixo apertei o botão “Incinerar”. A máquina deu alguns solavancos antes da fumaça fedorenta sair da chaminé deixando o céu cinza. Coloquei a mão em cima de meu nariz na tentativa de minimizar o cheiro, mas só piorou por conta de minha luva fedida.
Por mais que já trabalhasse no lixão desde meus 12 anos, ainda não me acostumei com o odor péssimo que a chaminé exala, apesar de que quase toda a região não cheirava lá muito bem, mas o cheiro da fumaça do incinerador é ainda pior.
Fiz o mesmo processo pelo menos 29 ou 30 vezes. O sol quente já havia sumido e agora dava lugar à escuridão, algumas luzes do lixão já estavam acesas. Limpei meu suor com as costas da mão e respirei fundo. Com certeza o ar artificial do campo de força esta reduzido, antigamente podia senti-lo em meu rosto, agora tenho que puxar o ar pelos meus pulmões para não morrer sufocada.
-Lee!
Alexis apareceu de trás de uma pilha de lixo me dando um susto.
-Alexis!
Suspirei em vê-lo. Apesar de Alexis ser meu melhor, e único, amigo eu não gostava muito que ele ficasse por perto. Ele sempre se mete em confusões e confusões é tudo que não quero agora, com meu pai longe de casa.
Cansada e suada sentei-me a beira da enorme e fedorenta pilha de lixo certificando-me de que nenhum vigia estava por perto. Alexis sentou-se ao meu lado e me deu um sorriso largo. Alexis não é do tipo que sorri assim, a não ser quando esteja ou já estivera aprontando algo... De novo.
-O que foi Alexis?
Perguntei, quando ele alargou ainda mais seu sorriso.
-O que foi o que?
Respondeu com as sobrancelhas levemente arqueadas.
-Por que está sorrindo?
Disse num tom acusatório.
-Ao contrário de você, eu gosto de sorrir, ás vezes... Bonitinha!
Disse ele com o seu tom normal de sarcasmo.
- Alexis! Não me esconda! Sei que aprontou algo...
Uni as sobrancelhas.
Da ultima vez que Alexis aprontou, tivemos sérias consequências.
-Eu não aprontei! Eu só peguei algo pra você... Oras!
Neguei com a cabeça.
-Ah não diga? Pegou algo dos vigias de novo? Quando você for Pe...
Não pude terminar a frase antes de ele tapar minha boca.
-Fale baixo Lee! Eles podem escutar!
Sussurrou ele olhando para todos os cantos. Empurrei-o para longe, fazendo-o quase cair no lamaçal.
- Como se isto importasse!-Disse alto. Deixando-o com um ar de apavorado. — Agora eles devem estar te procurando. Você é um homem morto, Alexis! E eu não posso ser vista com você...
Levantei- me rapidamente, mas Alexis foi mais rápido e me pegou pelo braço, fazendo me sentar novamente. Bufei pelo seu ato impróprio. Ele com toda certeza está querendo uma surra.
-Ei! Calma ai, Riley! Você ainda vai me agradecer quando eu te mostrar o que peguei.
Apertei meus olhos com força com as pontas dos dedos. Respirei fundo algumas vezes procurando o ultimo pingo de paciência que tinha.
-O que pegou? Diga antes que eu lhe dê um soco!
-Sempre tão delicada Lee.
Revirei os olhos, enquanto ele apalpava o bolço de sua calça suja e rasgada, retirando dali algo pequeno em um amarelo berrante. Ele meu deu um sorriso falso e esticou um retângulo para que eu pegasse mais eu apenas o encarei.
-O que é isto?
Peguei o retângulo e o examinei com os olhos. Um dos seus lados lia-se “Twix”.
-É chocolate!
Ele respondeu. Arregalei os olhos. Chocolate? Ouvi dizer que chocolate é delicioso, mais gostoso que arroz! Engoli em seco e passei minha língua por meus lábios, já faz mais de oito horas que fiz minha ultima refeição.
E ao ver comida á minha frente, a inquietude de meu estomago piorou. A fome já me enlouquecia. E o chocolate parece ainda mais suculento assim.
Alexis riu com esse ato. Dizem que os moradores da cúpula comem quase todos os dias depois de suas fartas refeições, por isso que quase todos que moram lá têm a aparência rechonchuda e as bochechas tão fofas que espremem seus olhos deixando-os quase impossíveis de se ver. Pelo menos era assim a aparência deles nos livros de história.
Mas eu não poderia me entregar a este retângulo misterioso. Joguei o chocolate no colo de Alexis e me levantei batendo a mão em minhas calças na tentativa de tirar o barro impregnado ali.
-Não vai comer?
Olhei-o e neguei com a cabeça.
-Não acredito que arriscou sua vida por um chocolate!
-Não é um chocolate... -Disse ele se levantando e balançando o chocolate perto do meu rosto. — É o chocolate! Se provar irá saber por que valeu tanto a pena. -Ele estendeu o chocolate para mim. -Vamos Riley, não seja tão teimosa! Prove!
Peguei o chocolate novamente e o abri. Nunca tinha visto ou comido um. Confesso que minha curiosidade, e fome, falou mais alto. Abri a embalagem, o tal chocolate é marrom e tem elevações por toda sua extensão. Hesitei antes de morder um pequeno pedaço.
Quando senti descer por minha garganta, fechei os olhos. Realmente eu nunca tinha comido algo tão gostoso, aliás, eu nem sabia que pudesse existir algo assim tão delicioso. Alexis me olhava com um ar de superioridade. Não! Eu não poderia dar esse gosto de vitória a ele.
-Ainda não intendo o porquê de tê-lo roubado.
-Eu sei que gostou Lee, não precisa mentir.
Bufei e joguei o chocolate em seu peito. Ele pegou em um ato desesperado, como se aquilo fosse algo muito importante.
Comecei a caminhar e como já esperado Alexis veio atrás de mim. Para me importunar, claro!
-Não estou mentindo!
Parei de andar para encara-lo.
-Está sim!-Alexis riu brevemente e colocou a mão em meu ombro.- Se você quiser posso te ensinar como pegar mais alguns...
-Eu não posso me dar o luxo de roubar coisas dos vigias e ser pega! –Bravejei tirando sua mão de meu ombro. Comecei a caminhar novamente com Alexis atrás. –Meu pai está nas colinas e me deixou com a missão de cuidar de meu irmão. Ele precisa de mim! Já você não tem...
Parei de falar rapidamente quando percebo o que já estava prestes a dizer. Alexis parou bruscamente, segui seu movimento e o encarei. Acho que é tarde demais.
-Não tem ninguém que precise de minha proteção?
Suspirei e me aproximei tocando sua mão. Esqueci-me completamente que Alexis é órfão e, quase, soltei palavras duras a ele.
-Não quis dizer isso.
-Mas pensou... E você está certa! Liam precisa de cuidados e você não pode se arriscar por uma coisa idiota, que nem eu... Desculpe-me?
Disse pegando minha mão que tocava a sua.
-Tudo bem! Não precisa pedir desculpas. Eu te chateie, eu que tenho que pedir perdão.
-Você está certa Lee, eu tenho que parar de me arriscar... Ou eu vou ter um final igual ao de minha família.
Falou cabisbaixo e caminhou rápido saindo de minha visão. Antes mesmo de tentar formar a palavra “desculpa”.
-Mas que desgraça!
Chutei a primeira coisa que vi a minha frente. Só assim percebi que aquilo que havia chutado era o chocolate. Magoei tanto Alexis, que ele largou o precioso chocolate ali no chão.
Abaixei e peguei-o, guardando dentro de meu bolço rapidamente. Talvez Liam vá gostar deste chocolate.
-Ei indigente? O que faz parada?
Congelei quando vi um vigia vindo em minha direção. Limpei a garganta e ergui minha cabeça.
-Nada senhor, só checando se as pilhas estão seguras de despencar.
-Qual é seu número? -Suspirei. Senti meu corpo tremer só de pensar que dando meu número ele poderá retirar o único suprimento que me fornecem 2 vezes por mês... Não de novo, não! Meu irmão não pode passar fome novamente- Perguntei o seu número garota! Vai dizer ou vou ter que olhar sua tatuagem?
Disse ele já tirando o porrete da cinta. Recuei com esse ato.
Segurei firme a barra de minha calça e me lembrei de quando os números foram tatuados em minha pele...
-Família 1004, membro 97.
Disse meu pai à mulher nariguda de vestes pretas, diferente das vestes dos vigias que eram da cor azul escuro. Ela anotou o número que meu pai dera em uma tecnologia.
-Posicione-se a frente da câmera.
O que é câmera? Nem precisei fazer a tal pergunta já que papai percebeu meu desconhecimento e me posicionou a frente de uma coisa redonda e preta acima da tecnologia da mulher. Será que irá doer? A coisa fez um click, fechei meus olhos esperando a dor. Mas nada aconteceu, ainda.
-Pode ir menina!
Disse a mulher de preto. Apontou a fila de crianças atrás de si. Perguntei-me o que estava fazendo ali com meu pai. Mas tinha tanto medo da resposta que não quis pergunta-lo. Caminhei com ele até a fila, mas um vigia se pós a frente de meu pai, impedindo-lhe de avançar.
-Filha agora você vai ter que ir sozinha, pequena.
Disse meu pai. Senti minhas pernas falharem quando ele proferiu tais palavras.
-Não papai, não me deixe!
Agarrei as pernas de meu pai com força. Será que ele irá me abandonar aqui? Não, ele não poderia. Papai acariciou meus cabelos para me acalmar.
-Riley, você vai ter que ser corajosa! Em menos de meia hora estarei novamente com você, prometo-lhe.
Soltei de vagar as pernas de meu pai e caminhei até a fila de meninas. Ainda encarando papai ao longe. Quando cheguei ao começo da fila quis fugir dali na mesma hora. Alguns vigias caminhavam com um tipo de agulha por ali. Ouvi os gritos das crianças e dei um passo para trás.
Afinal o que estavam fazendo com eles? O que iram fazer comigo?
Logo estas perguntas foram respondidas, quando a vigia mulher me puxou pelo braço para um biombo, cor pele, onde ela ordenou que tirasse minhas calças. Eu me neguei a tal ato. Ela apenas assentiu e quando pensei que ela iria me deixar ir, alguns vigias apareceram e me seguraram sobre uma cama que ali havia. Tentei lutar contra eles, mas eram mais fortes. Berrei meu pai até meus pulmões doerem, enquanto a vigia mulher retirava minhas calças. Quando ela conseguiu me deixar parcialmente sem roupa, pegou a agulha estranha e mergulhou em um líquido preto. Quando a agulha tocou em minha pele, senti queima-la. Gritei pela dor que a agulha me causava, a sensação de queimação ficava pior a cada toque na minha pele. Fechei meus olhos com força e desejei, que fosse o que for, que acabasse logo.
Os vigias me soltaram jogando-me no chão. Peguei minha calça e calçola. Abaixei escondendo minha parte intima dos vigias que me olhavam sem paciência. Limpei minhas lágrimas com as costas de minha mão e olhei para baixo, com certo medo, para observar o dano que a vigia havia me causado. Levei um susto quando vi. Havia números em minha pele, números que permaneceriam ali para sempre, cravados em minha pele... 100497. Mas afinal... Qual é a finalidade disto? Perguntei-me antes de ser lançada para fora do biombo.
Descobri logo depois a resposta, infelizmente como se era esperado não é para algo bom. As tatuagens, como meu pai disse chamar, são para identificar cada indigente, assim fica mais fácil castigar não só o próprio indigente como também sua família.
Perguntei-me se eles tatuavam os números embaixo do umbigo e a cima da parte sexual de propósito, para sermos ainda mais humilhados. Não duvido nada que este seja exatamente o intuito.
-100497.
Disse em um sussurro.
-Diga alto indigente!
Encarei o vigia nos olhos, apesar de sentir medo, não o demonstrei e muito menos desviei meu olhar.
-100497!
Disse alto, mas sem gritar. Ele pegou a estranha coisa quadrada e tecnológica do bolço. Ergui minha cabeça para ver melhor a coisa. Sempre quis ver de perto e hoje estou tendo essa grande oportunidade.
O vigia colocou meu número ali, demorou alguns minutos até que meu rosto aparecesse no objeto.
-Riley, certo?-Fiz um breve movimento com a cabeça afirmando. Mordi o canto dos lábios esperando o que está por vir. – Você tem mais de 20 detenções... –Ele retirou os olhos do objeto em questão, eu voltei a minha posição anterior rapidamente. O vigia encarou-me friamente-Não tem vergonha de afrontar seus senhores?
Disse ele em um tom ríspido. Não! Não tenho vergonha, já que vocês não são meus senhores. Se meu irmão não precisasse de meus cuidados, tinha proferido essas palavras sem um pingo de culpa ou medo.
-Sim, senhor! Prometo que não cometerei mais essas atrocidades.
-Assim espero... Mais uma e eu a prendo deixando-a sem comer e beber! –Engoli em seco e assenti. Quem irá cuidar de meu irmão se for presa? Minha velha avó? Não! Ela não teria condições. Alexis? Muito menos! Ele se mataria e mataria meu irmão junto, antes mesmo de completar 24 horas. O vigia voltou a olhar a coisa e mexer em algo ali, antes de me encarar de novo. Desgraça! Há esse tempo eu já deveria estar em meu chalé. — Já que tem tanta preocupação com as pilhas de lixo... Quando a luz estiver em seu auge, você deverá estar aqui, fazendo seu trabalho.
Mordi a boca para não dizer palavras feias ao vigia. Isso com certeza só piorariam a situação.
-Sim, senhor!
Fiz uma leve reverencia e ele assentiu. Dei um passo ao lado oposto ao vigia.
-100497?
Voltei minha posição anterior e olhei-o.
-Senhor?
-Eu mesmo estarei aqui para ver se cumpriu a detenção, caso não esteja, eu cuidarei eu mesmo de você e seus entes. Agora vá, antes que escureça totalmente... Não vai querer que os lobos noturnos devorem-na, vai?
Estremeci só de lembrar-se das enormes criaturas peludas e com dentes afiados como serra. Virei-me e comecei a correr, deixando um vigia rindo alto atrás de mim.
Saltitando entre os buracos no chão e desviando das enormes pilhas de lixo. Cheguei, finalmente, a meu pequeno chalé de madeira. Onde avistei uma cabeleira branca me aguardando à porta. Vó Megan! Com certeza ela está na porta para que Liam não escute a bronca que vai me dar.
-Onde é que estava Riley?
Disse cruzando os braços.
-No lixão, onde mais estaria?
Disse dando de ombros.
-Não me diga que fez algo impróprio Riley?! Vi Alexis entrando em seu chalé faz mais de meia hora! Por que demorou tanto?
-Não se preocupe dona Megan! Eu não fiz absolutamente nada! Foi apenas um vigia intrometido.
-Ah... Um vigia intrometido?! Se for só isso, amanhã não haverá problema de me retirar cedo e você cuidar de seu irmão não é mesmo?
Droga! Esqueci completamente disso. Vou ter que pedir pro Alexis cuidar disto.
-Não, não haverá problema algum vó.
Menti. Se eu falasse a verdade, ela me jogaria pros lobos para me devorar.
Apalpei meu bolço, me certificando de que o chocolate ainda estava ali. Quando o senti adentrei no chalé, não me importando com a expressão de insatisfação de minha avó.
-Onde está o Liam?
-No quarto!
Respondeu ela se sentando no nosso velho e desconfortável sofá verde.
Abri a porta de madeira quebrada com certa dificuldade, por estar bastante envergada, e adentrei no quarto encontrando meu irmão empoleirado no batente olhando pela janela, com as mãos na altura do queixo, mexendo seus dedos em movimentos rápidos, movimentos que ele fazia desde muito novo.
Parei para observa-lo. Na verdade nunca vi Liam quieto ou totalmente parado, a não ser quando estivesse dormindo, coisa que eu nunca intendi muito bem o porquê. Meu pai diz que ele é especial, por isso temos que esconde-lo de todos, quase ninguém sabe de sua existência, à pedido de meu próprio pai. E eu o entendo, já que não deixam qualquer pessoa impossibilitada de trabalhar, viva. Senti um arrepio percorrer meu corpo só de pensar que há alguma possibilidade disso acontecer.
-Liam?-Chamei-o, mas ele continuou a olhar pela janela, me aproximei dele e encostei minha mão em seu ombro. — Liam?
Ele deu um pulo e se afastou de mim.
-Lee? Lee! Você chegou? Lee chegou!
Disse ele batendo palmas com um sorriso que eu retribuo.
-É cheguei e trouxe uma coisa para você.
-Trouxe pro Liam? O que trouxe? O que trouxe Lee?
Ele bateu palmas novamente. Ele teve a mesma reação quando trouxe o sofá com ajuda de Alexis, alias não é a primeira coisa que trago para casa. Eu e Alexis exploramos o lixo todo final de semana em busca de algo que preste. Bom... Eu acho que o chocolate ele vai gostar mais do que qualquer coisa que trouxe, já que dificilmente encontro algo de comer, ou melhor, encontro algo que esteja em condições de ser comido.
Coloquei a mão em meu bolço e retirei o chocolate oferecendo-o. Ele olhou para o chocolate e hesitou antes de pega-lo e observa-lo.
-O que é? É amarelo... Liam adora amarelo...
Ele sacudiu o chocolate e eu me aproximei.
-É chocolate.
-O que é chocolate? O que é?
Liam deixou cair o chocolate no chão, ele pegou de volta rapidamente.
-É de comer... -Consegui ver seus olhos brilharem com tais palavras. Ele se sentou no colchão velho e retirou o pouco da embalagem que ainda restava. Observou-o novamente e deu uma mordida grande, quase o comendo completamente. Ele fechou os olhos e sorriu. Nesse ato ele babou um pouco. Limpei seu queixo com as pontas dos dedos. — Bom?
Ele assentiu e pronunciou algo que não entendi por sua boca estar cheia. Sentei-me ao seu lado e acariciei suas costas. Liam me encarou e seus olhos sorriam pra mim. Lembro-me exatamente da primeira vez que os vi.
Meu corpo todo tremia de raiva por ele. Liam havia matado minha mãe. Ela havia morrido por ele. Entrei aquele dia no quarto de meus pais disposta a matar o causador de minha maior dor. O vi na cama rodeado de travesseiros. Aproximei-me e posicionei a faca em seu peito pronta para crava-la em seu coração. Foi quando os vi, os olhos de minha mãe, um azul intenso como ninguém tinha, instantaneamente soltei a faca quando ele sorriu pra mim, não só com os lábios, mas também com os olhos assim como minha mãe sorria pra mim.
-O que estava vendo pela janela?
Ele riu e deu a última mordida no chocolate.
-As crianças... As crianças Lee.
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