Redenção
15 Capítulo 14
Notas iniciais
POV OLIVER
Permaneci segurando seu corpo contra o meu e percebi tardiamente que estremecia de frio. A abracei ainda mais fortemente e esfreguei uma mão em seu braço a aquecendo. Já fazia um bom tempo em que seguíamos assim, apenas abraçados, concentrados no som de nossas respirações, e no fato de que não queríamos soltar um ao outro, por mais que devêssemos. Era ridículo e tolo, e eu não estava acostumado a me sentir assim com relação a alguém. Não romanticamente.
— Eu acho que deveríamos ir para casa. – Murmurou encarando-me cansada. Assenti concordando, por mais que eu não estivesse ansioso para voltar para o apartamento, já era tarde, ela queria ir para casa e mesmo que eu não considerasse mais o lugar como um lar, ela havia aprendido a considera-lo assim, o que eu poderia fazer contra isso?
Talvez estivesse na hora de eu procurar meu próprio lugar.
— Oliver? – Murmurou hesitante. – Tudo bem?
— Sim. – Murmurei voltando a esfregar seu braço antes de me levantar e puxa-la comigo. – Vamos para casa.
— Você não parece muito animado com a ideia. – Observou.
— Eu apenas lembrei que não temos um capacete extra. – Dei de ombros.
— Desculpe. – Murmurou prendendo o lábio inferior, deslizei meu polegar em seu lábio e o puxei do agarre de seus dentes.
— Você ter vindo aqui foi meu ponto alto. – Murmurei antes de beija-la suavemente. Afastei-me escutando seu suspiro de protesto. – Não se preocupe. – Continuei enquanto eu tirava minha jaqueta e colocava em seus ombros. – Eu conheço o dono do bar. Ele me vendeu a moto, não será problema me arranjar um capacete emprestado.
— Você quer que eu espere aqui? – Perguntou colocando seus braços dentro das mangas. Respirei fundo enquanto subia o zíper e fechava a jaqueta que a engolia. Sua pergunta era tão inocente, se eu queria que ela esperasse por mim? É claro que sim. Eu queria que ela sempre estivesse por mim, mas eu não saberia dizer se é possível, agora sim, mas apenas por que ela não me conhece totalmente, o que aconteceria se ela me conhecesse? As coisas que eu fiz? O sangue em minhas mãos era denso demais.
— Eu volto logo. – Prometi colocando minha mão sobre a sua ainda dentro do bolso e dando um leve aperto antes de solta-a. Ela assentiu concordando e com um sorriso pequeno se envolveu ainda mais com minha jaqueta.
Quando voltei ela estava com sua cabeça baixa, encarava seus próprios pés, mas quando escutou eu me aproximar seu rosto se ergueu e um sorriso iluminou seu rosto. O fato de seu sorriso ser para mim... Por mim, fez com que meu coração pulsasse em um ritmo mais rápido e descontrolado, e que uma resolução chegasse a minha mente. Eu queria ser aquele que roubaria seus sorrisos, que a faria sorrir mesmo quando estivesse triste, ou com raiva, ou apenas envergonhada, eu queria ser o motivo de todos eles, receber todos eles, eu não queria nunca ser o motivo de suas lágrimas, e eu não poderia ter isso sem ser honesto com ela.
Por mais que isso significasse que ela correria na direção oposta, eu devia isso a ela.
Com uma resolução em mente me aproximei dela e me apressei em ajuda-la com o capacete, agora eu estava ansioso para chegar em casa, por que apenas lá poderíamos conversar de forma adequada, não era um assunto que eu deveria contar aqui, estando tão exposto. Quando ela envolveu minha cintura após subir atrás de mim e me abraçou, eu senti como se estivesse prestes a perde algo importante.
— Você tem estado estranhamente calado. – Sua voz tirou me tirou dos meus pensamentos tumultuosos quando entramos em nossa cozinha, ela havia se livrado da jaqueta a jogando no sofá indo direto para a geladeira se ocupando em encher um copo de água. Encarava-me agora por cima do copo, seu olhar preocupado, notando que meu humor não estava melhorando, mas caindo cada vez mais. Deixou seu copo de lado com um suspiro e com impulso sentou na mesa. Sorri vagamente com o gesto.
— Temos cadeiras, sabia? – Murmurei fazendo com que ela também sorrisse. Ela estendeu sua mão me chamando para perto. Aproximei-me encaixando-me entre suas pernas e seu rosto inclinou para trás não deixando de me observar, seu olhar não escondendo sua preocupação.
— O que aconteceu? – Perguntou voltando a me encarar insegura. – Ainda se trata sobre hoje mais cedo?
— Não. – Meneei minha cabeça em negativa enquanto ela erguia uma sobrancelha duvidosa. – Sim. – Confessei. – Mas não totalmente. Nós temos que conversar.
— Uh-oh. – Murmurou antes de estalar a língua. – Isso nunca termina bem.
— Por favor. – Murmurei não contente em prosseguir. – Eu preciso contar algo sobre mim, mas eu não sei realmente como começar. Então, eu estou pedindo um pouco de paciência.
— Paciência? – Repetiu confusa.
— Por que ai chegar um momento ou vários, em que você não irá querer me escutar mais e vai querer se afastar. – Falei explicando. – Não se afaste. – Pedi. – Apenas me escute.
— Ok. – Murmurou com o cenho franzido. – Você tem minha atenção e está me preocupado. – Seus olhos se abriram mais de repente, chegando a uma conclusão precipitada. – Oh merda, você me traiu.
— O quê? – Murmurei incrédulo.
— Você andou entrando nas calcinhas de alguém que não era eu. – Acusou-me. – É isso?
— Felicity. – Murmurei divertido. Era para eu ficar preocupado, sua mão me afastava enquanto eu resistia e segurava sua cintura a mantendo no lugar, nem ao menos eu conseguia ficar sério, meu sorriso me traia.
— Pare de rir! – Ordenou.
— Desculpe. – Murmurei não totalmente arrependido. Envolvi seu rosto com minhas mãos e a encarei finalmente assumindo um ar sério. – Eu não estou te traindo. — Jurei.
— Então do que se trata? – Perguntou segurando minha camisa com o punho fechado, suspirou diante meu olhar aflito. Sua expressão se transformou parecendo se encher de compreensão. – Você pode me contar qualquer coisa Oliver, relacionamento não se trata apenas de beijos e sexo, trata-se de dar um pouco de si mesmo, mesmo quando acha que a parte que está dando é feia.
— E se realmente for muito feia? – Perguntei hesitante me afastando apenas para puxar a cadeira e me sentar, seu olhar nivelou com o meu e um sorriso lento se espalhou.
— Eu terei que torna-la bonita. – Deu de ombros.
— Se tudo fosse tão simples. – Meneei minha cabeça.
— Nada é tão complicado ao ponto de não poder simplificar. – Retrucou. – Seja lá o que você quer me dizer, apenas me diga. Eu te prometo, eu não estarei correndo na direção contrária. – A encarei ainda com hesitação, podia soar tolo e totalmente clichê, mas eu não sabia por onde começar, eu não sabia se havia uma introdução certa para o que eu iria dizer agora, e nem poderia apenas jogar em seu colo o fato de que eu havia matado alguém, não havia uma abordagem certa e eu tinha certeza que ela sairia sim correndo na direção contrária. Ela não disse mais nada, se limitou a me encarar e me dar espaço. Hesitação me dominava, me sufocava, mas ela ainda estava ali apenas me encarando com seu olhar tranquilizante. E aos poucos senti meu coração se acalmar, o peso que estava ali e me impedia de falar diminuía lentamente, ela me passou calma, mesmo enquanto não dizia nada.
POV FELICITY
Concentrei-me em controlar minha ansiedade enquanto notava a expressão de Oliver se tornar cada vez mais sombria. Eu estava curiosa, nervosa e confesso um pouco assustada com o que ele poderia me revelar, mas não queria dizer nada antes que pudesse interrompê-lo. Oliver finalmente havia chegado à conclusão por si só que queria se abrir para mim, ele queria paciência, e era o que eu iria dar, respirei mais tranquila notando seu rosto se tornar mais leve, apesar do nervosismo ainda ser perceptível.
— Eu estava procurando uma melhor forma de começar. – Confessou. – Mas suponho que aqui terei que aplicar o clássico “Pelo começo”. – Deu de ombros. – Eu te contei um pouco sobre minha família. No dia de seu aniversário.
— Sua mãe e sua irmã. – Murmurei assentindo.
— Minha mãe e minha irmã. – Sorriu ironicamente. – Não sobre meu pai. – Pareceu falar para si mesmo. – Meu pai não precisa de algum foco ou mais do que alguns segundos falando sobre, ele nos abandonou tão logo pôde. O maldito bastardo só servia para beber, trepar com algumas prostitutas e gastar todo o dinheiro que minha mãe levava quando ainda trabalhava. Ele ficou até que completei oito anos e Thea nasceu. A essa altura minha mãe já não era a melhor mãe do mundo, e não se cuidava direito, quanto mais dos filhos.
— Seu pai apenas abandonou você e sua irmã recém-nascida? – Perguntei incrédula.
— Ele quis me levar, mas eu precisava ficar. Por Thea. – Explicou. Franzi o cenho sem entender a atitude do homem, por que levar Oliver e deixar o bebê para trás? Ele pareceu ler minha pergunta em meus olhos, pois suspirou e meneou a cabeça. – Thea não era sua filha, desde que meu pai não se preocupava em atuar como um marido fiel, minha mãe não se preocupou em ter que praticar a fidelidade também. Não é como ele se ele quisesse me levar por me amar profundamente, nada disso, ele queria fazer com que minha mãe sentisse miserável. Eu precisava ficar. Por Thea. – Repetiu com seriedade. Mudei minha mão para seu rosto o acariciando. Uma criança de oito anos deveria pensar em como estava feliz em ter uma irmãzinha, deveria apenas abraçar a felicidade de ter alguém para acompanha-lo em novas travessuras, alguém com quem compartilharia momentos alegres. Com oito anos você não deveria sentir o dever de responsabilidade, não devia ter ciência de que deveria proteger sua irmã de algo, você não deveria ter esse senso de responsabilidade. – Mas eu só poderia fazer o básico Felicity, cuidar dela, mantê-la limpa, alimentada e amada. Eu não tinha condições de trazer qualquer dinheiro para casa, não ainda. Então quando minha mãe estava sóbria ela matinha algum dinheiro rolando, ela matinha trabalhos arranjados por conhecidos, pouca grana e nada certo, eu já tinha alguma ideia de que se eu não fosse até sua bolsa e tirasse metade de lá enquanto ela estava desmaiada de bêbada, ela gastaria o restante com uma nova bebedeira.
— Mas não era o suficiente. – Murmurei inquieta. – Mais cedo ou mais tarde você teve que se virar não é mesmo? – Deduzi percebendo seu semblante carregado. – Como você começou? Você roubou?
— Um pouco. – Assentiu. – Eu me juntei a outros por que percebi que a vantagem estava nos números. Você se arrisca sozinho e corre o risco de ser preso e mandado a uma casa de menor, um verdadeiro tormento. – Suspirou. – Eu não poderia ser pego. Aos 14 anos eu me meti em uma briga de rua, por causa de dinheiro, eu não sabia no momento, mas estava sendo observado. Havia esse cara que gostou da forma como derrubei alguém que era o dobro do meu peso e mais velho, ele entrou em contato comigo, disse que eu poderia fazer alguns trabalhos para ele, que também conhecia uma maneira de eu conseguir dinheiro fácil em cima disso. Ele me apresentou as lutas clandestinas.
— Eu pensei que você tinha começado a lutar com meu pai. – Murmurei confusa.
— De acordo com a lei, sim. – Concordou. – Mas eu fiz minha própria fama antes, não de uma forma legal, você viu uma luta clandestina, aquela com Tommy foi amigável. As que eu tive antes? Brutais.
— O que acontecia com Thea? – Perguntei pensando na garotinha cuja mãe não se preocupava e que seu irmão tinha que se desdobrar para proteger. – Com quem ela ficava quando você fazia esses “Trabalhos”. – Um sorriso inesperado surgiu em seus lábios.
— Sara. – Respondeu. – Ela era minha vizinha. Muito calada, quase não nos falávamos, eu a via na escola quando eu comparecia a alguma aula, não éramos da mesma sala. Ela tinha esse ar confiável, então um dia eu pedi para ela cuidar de Thea enquanto precisava resolver alguns “problemas”, ela me encarou com seu olhar cheio de julgamento, observando meu rosto cheio de hematomas e deu de ombros, segurou a mão de Thea e entrou em seu apartamento pequeno, mas antes que eu alcançasse as escadas e descesse escutei ela me chamar , quando me virei para encara-la, senti o peso de algo gelado sendo jogado contra meu peito e agarrei automaticamente, ela tinha jogado uma bolsa de gelo, quando a encarei novamente ela deu de ombros e fechou a porta.
— Então Thea tinha a Sara. – Murmurei respirando profundamente. – O que aconteceu com Thea, Oliver? Eu não quero tocar em uma ferida aberta, mas sinto que o que você quer me dizer vai além de roubar para sobreviver e entrar em lutas clandestinas. Tudo o que você fez foi por sua irmã. Por você, você não tinha ninguém olhando por vocês, eu não posso e não vou julgar você por ter se virado não dá melhor forma, mas da única forma que pôde para proteger vocês. Se você acha que sou mesquinha ao ponto de julga-lo por isso... Você não me conhece.
— Thea cresceu. Nossa mãe morreu e mesmo não sendo um exemplo maternal a ser seguido, isso abalou minha irmã. – Continuou com um suspiro pesado. – Ela mal havia completado 13 anos e eu a descobri bebendo, eu passava cada vez menos tempo com ela, ela queria me seguir para tudo que era lugar, mas eu não poderia deixa-la fazer isso. Talvez não tenha explicado direito, sempre fui muito bruto, você sabe disso, mas ela ficou ressentida, e procurava maneiras de chamar minha atenção. Eu fiquei puto nesse dia, briguei feio, quando na verdade deveria ter conversado e lhe dado mais da minha atenção. De um jeito ou outro ela aceitou o que eu disse. Não se meteu em problemas novamente, não desconfiei o porquê no começo, mas Thea estava me seguindo, ela ia para as lutas e se escondia, não era um ambiente legal para uma criança Felicity.
— Eu sei. – Murmurei lembrando-me do dia em que ele me encontrou assistindo sua luta clandestina. Eu achei sua reação exagerada, considerando que eu não era criança, eu ainda considerava, mas agora eu entendia. Algo havia acontecido com sua irmã em um ambiente parecido. – Thea tinha quantos anos quando morreu?
— 14. – Murmurou com a voz embargada. – Tão nova. – Lamentou. — Ela sequer tinha vivido certo? – Voltei a alcançar seu rosto e acariciei seus cabelos curtos.
— Oliver... – Murmurei minha voz também tremendo, eu segurava a todo custo minhas lágrimas. Por ele, por Thea.
— Eu queria tantas coisas para ela. – Meneou a cabeça como se não acreditasse mesmo após tantos anos que isso realmente havia acontecido. – Eu sempre pensava que no próximo ano eu seria capaz de me mudar e leva-la comigo, apenas mais um ano e recomeçaríamos nossas vidas.
— Você não precisa continuar. – Falei descendo da mesa e sentando-me em seu colo. – Está tudo bem, você não precisa contar mais nada.
— Sim. – Contrapôs. – Eu preciso.
— Você perdeu alguém, e se fechou. – Murmurei concentrando-me acariciar sua mandíbula com o polegar. – Eu entendo. Eu faria o mesmo.
— Eu não me limitei a me fechar. – Negou. – Eu não perdi alguém, ela foi tomada de mim.
— Tomada? – Repetiu senti meu coração pesar ainda mais ao deduzir no que isso implicava. – Ela...
— Thea foi assassinada. – Assentiu. – Em meio a uma das minhas lutas eu descobri que ela havia me seguido, eu fiquei louco, gritei com ela e mandei que voltasse para casa, disse que quando chegássemos conversaríamos. Gritamos um com o outro, ela disse que eu não era seu pai, ela disse que me odiava.
— Palavras ditas no calor de uma discussão. – Murmurei o tranquilizando. – Eu não a conhecia Oliver, mas ela o seguia para todo lugar por que ela o admirava, você era seu irmão mais velho, seu herói. Ela te amava. – Ele assentiu pesadamente. – Vocês conversaram mais tarde?
— Ela nunca chegou em casa. – Negou. – Um bastardo a seguiu. Ele a matou. Não foi um assalto que deu errado, não foi uma vingança, um acidente. Ele a viu, a estuprou e a matou.
— Mas ela... – Meneei minha cabeça com revolta, sentindo a pressão de um murro em meu peito, tomando meu ar. – Ela era apenas uma criança!
— Eu nunca vou entender o que leva um ser humano a fazer algo do tipo. – Enxugou uma lágrima de forma desajeitada, envergonhado por tê-la deixado escapar. – Eu nunca vou entender com alguém consegue ter prazer em destruir a alma de alguém dessa forma.
— Eu sinto muito. – Murmurei o abraçando e deixando minhas lágrimas teimosas escaparem, meu coração doía pelo o que ele passou. Oliver estava tenso, em pouco tempo eu havia me acostumado a sentir seus braços me envolverem de volta quando o abraçava, era o que eu esperava agora, mas ele continuava rígido, imóvel. Apenas respirando pesadamente. – Oliver?
— Eu o matei. – Murmurou deixando-me igualmente tensa. Olhei para baixo percebendo que ele falava a sério. Não era uma forma de dizer. Não havia quaisquer figuras de linguagem aqui. Então eu soube que era isso que estava abaixo da superfície. Que era a isso que ele se referia quando disse que eu não queria conhecê-lo de verdade, que era mais do que eu poderia suportar. Talvez fosse. Afastei-me dele o máximo que podia diante da nossa posição e observei seu rosto. Seus olhos me encaravam com tristeza, como se já soubesse que eu faria isso, talvez soubesse, e por isso recusou a me abraçar de volta. Ele me deu espaço para me afastar. – Eu o cacei. – Continuou sua explicação. — Não foi tão difícil assim saber quem era, não quando anda com as pessoas certas, nesse caso “erradas” seria a melhor escolha, mas eu o encontrei. Eu planejei sua morte princesa, eu atormentei por um par de dias, espreitando, deixando-o saber que estava sendo seguido. Que o que viria a seguir não era bom. Eu o amedrontei tanto quanto pude, tanto quanto minha paciência deixou, eu só queria mata-lo, mas ao pensar no quanto ela sofreu antes, eu não pude agi por impulso. Eu fui frio, calculista, não tive misericórdia. Nesse dia eu descobri como algumas pessoas podem ter prazer arruinado à vida de outra. Por que tanto quanto posso mentir sobre muitas coisas, eu nunca vou mentir sobre isso, eu gostei de mata-lo, e nunca me arrependi. – Seu peito subiu e desceu lentamente, em uma respiração profunda. Seu olhar recaiu sobre o meu com maior profundidade. – Isso é feio o bastante? Eu não sei você princesa, mas eu não acho que sequer você pode tornar isso bonito.
— Eu... – Respirei fundo tentando me acalmar. – Eu... – Tentei me levantar. Eu precisava de um tempo, eu precisava respirar e assimilar o que havia escutado, mas suas mãos seguraram minha cintura com força, impedindo-me de concluir a ação.
— Você não consegue não é mesmo? – Perguntou sua voz soando fria demais, tão diferente da forma com que ele vinha falando comigo. Eu não tinha uma resposta para sua pergunta, não agora. Ele se limitou a me encarar por mais alguns momentos antes de voltar a falar. – Depois disso eu voltei para casa, alterado. Eu sabia que precisava me mudar. Fugir. – Franzi o cenho com o que disse. Ele percebeu e se apressou em esclarecer. – Eu não sou daqui, alguns acham que sim, mas eu vim de Seattle. Mas eu não podia continuar lá, nem poderia deixar Sara para trás, eu contei a ela o que fiz, ela queria a Thea como uma irmã, eu sabia que ela não ligaria muito, ela não hesitou, ela veio comigo e temos estado juntos desde então. Durante um ano nos preocupamos em nos mudar de lugar para lugar, eu a ensinei a lutar e ela tomou algumas aulas sempre que parávamos em algum lugar com algum outro lutador. Quando cheguei aqui procurei de imediato entrar nas lutas clandestinas, era tudo o que eu conhecia. Então um dia seu pai me abordou, disse que viu potencial e que eu não precisaria continuar nesse tipo de luta. Eu o mandei para o inferno, ainda tinha receio de ser preso e não queria acabar tendo que receber seu olhar decepcionado quando fosse, ele deu de ombros e se afastou, mas sua conversa ficou presa em minha mente, e tive coragem em ligar para um amigo antigo e ver como estavam as coisas em Seattle. Nunca ligaram a morte daquele filho da puta a mim, nunca se importaram de investigar sua morte, sabe por quê? Ele tinha não ninguém. Ninguém para sentir sua falta, não tinha irmãos, pais ou esposa, ele assim como eu não tinha ninguém. Nós somos exatamente iguais.
Alguma coisa em sua expressão quando disse a última frase fez algo quebrar dentro de mim. Eu estava preparada para pedir meu tempo, eu estava preparada para me afastar, o que ele havia dito era muito, muito para se processar de vez. Ele havia matado alguém e havia confessado que havia gostado. Mas sua expressão nesse exato momento era tão contrária, ele estava se torturando pelo seu passado, pelo o que havia feito.
“Nós somos exatamente iguais”
— Não. – Surpreendi-me com a força com que eu havia posto na palavra, demorou alguns instantes até que eu percebesse que havia dito alto. Ele me encarou surpreso e confuso. – Não diga isso. Você não é igual a ele.
— Eu sou. – Repetiu. – Eu gostei.
— Sua irmã havia morrido de uma forma brutal. – Murmurei surpresa comigo mesma por estar defendendo suas ações. – E ele havia sido o culpado. O fato de ter sido premeditado, de não ter sido impulsivo? Assusta-me como o inferno, eu posso afirmar isso, mas não importa o quão assustada eu esteja, eu jamais iria o comparar com ele. Vocês não são iguais, Oliver, a fúria o guiou, não foi o prazer de matar, de ferir alguém, foi uma fúria fria, até mesmo calma, mas foi fúria. – Segurei o tecido de sua camisa na região de sua barriga e deixei meu olhar lá. – Eu honestamente não posso olhar em seus olhos, me ver na mesma situação, com alguém que eu amo sendo ferida dessa forma, uma filha, uma irmã... Eu não posso me colocar em seu lugar e dizer que não faria o mesmo. Tendo o nome, a oportunidade... O meio? — Balancei minha cabeça em negativa. – Seria hipocrisia demais. Apontar dedos e ignorar aqueles que apontam de volta. Thea era sua irmã, você a amava, ela era sua humanidade, e quando ela se foi você se viu sem ela. Você não teria paz se não tivesse... Se não o tivesse matado. E eu juro, se ninguém lamentou a morte daquele filho da puta até o momento... — Ergui minha cabeça encontrando seus olhos. – Não serei eu a lamentar.
— Você não tem medo de mim? – Perguntou inquieto. – Nojo? Ainda não quer correr na direção contrária?
— Apenas se você tivesse lá para me encontrar no meio do caminho. – Murmurei o surpreendendo cada vez mais. Dei de ombros. – Talvez eu esteja apenas sendo tola aqui, irresponsável e imatura. Talvez eu esteja correndo em direção a um precipício. Na maioria das vezes é assim que eu me sinto perto de você, o coração acelerado, a sensação de estar caindo no desconhecido, o medo e a incerteza de se você estará lá para me pegar. Eu posso ter medo da sensação, da dúvida, e de que você não estará lá, mas eu nunca terei medo de que você de alguma forma vá me fazer mal, você nunca me machucaria, não assim. Nós dois sabemos que não.
Seu olhar admirado continuou cativando o meu. Oliver não mais tinha o semblante fechado, agora ele sorria, era um sorriso pequeno, ainda cheio de dúvidas, mas havia leveza e certa descrença acompanhada. Suas mãos ocuparam-se do meu rosto, atraindo até o seu.
— Você é uma boa pessoa, Felicity Smoak. – Murmurou com timbre rouco. – E uma mulher incrível.
— Você também. – Murmurei sem hesitar.
— Uma mulher incrível? – Perguntou trazendo graça a seu sorriso.
— Uma boa pessoa. – O corrigi. Ele meneou a cabeça em negativa, mas me limitei a corta-lo colocando um dedo sobre seus lábios, para tira-lo de lá logo em seguida, uma vez que tinha sua atenção. – Sim, você é. Você pode achar que sua alma é feia, que eu sou mais do que você merece, mas você está errado. Se você ao menos se visse como eu o vejo... Você perceberia que sua alma é linda, e que nós dois de uma forma conturbada e caótica, fomos feitos para ficarmos juntos. – Seu semblante se tornou mais terno.
— Eu não acho que eu em qualquer momento eu vá concordar com você. – Deu de ombros. – Mas enquanto esse pensamento te manter perto de mim, eu vou aceita-lo. – Sua mão desceu pela lateral do meu corpo e se infiltrou em minha blusa, acariciando meu ventre por baixo do tecido.
— Hummm. – Ronronei percebendo o quão íntima era nossa posição e que eu me sentia muito confortável estando assim, eu não podia dizer o mesmo de Oliver que moveu-se ajustando-se e fazendo perceptível que seus pensamentos já não estavam mais ligados aos eventos do passado. Pousei minhas mãos em seus ombros largos e concentrei-me em seus dedos inquietos, que moviam-se lentos pela minha pele, a carícia não era ousada, parecia até de certa uma forma distraída, o tipo de carícia que fazemos quando estamos envolta de nossos próprios pensamentos, que fazemos sem sequer perceber. – Eu não acho que quero mais conversar.
— O que você quer? – Perguntou. Seu tom rouco agora devido ao desejo. Eu deveria saber, Oliver não fazia nada ao acaso, nem mesmo uma simples carícia. – Eu mantenho minha palavra de mais cedo, não precisa acontecer nada. – Murmurou antes de sua boca esperta ir de encontro ao meu pescoço, eu me sentiria mais segura de suas palavras, caso ele não tivesse devotado toda sua concentração em beijar o ponto justo abaixo a minha orelha, segurei sua cabeça pelos cabelos curtos enquanto seus lábios deslizavam lentamente por todo o comprimento do meu pescoço até descansar justamente acima da minha clavícula, seu corpo curvando-se sobre o meu, meu quadril moendo contra o seu, meu corpo ansiando por maior contato com o seu. Quando se afastou foi para me encarar novamente. – O que você quer princesa? — A intensidade em seus olhos famintos os tornando mais escuros. Eu observava cada aspecto do seu rosto, cada linha invisível, seus ângulos perfeitos, seus olhos azuis que me fitavam com tanto desespero, desespero que eu compartilhava. Eu o queria tanto. Sua expressão ansiosa se transformou quando cravei minhas unhas em seus bíceps e aproximando meu rosto ainda mais do seu murmurei contra seus lábios entreabertos. Nossos fôlegos se mesclando.
— Eu quero que você me foda. – Murmurei sem hesitar. – Duro. Forte e sem consequências. – Um relampejo de diversão somado a excitação brilhou em seus olhos, um sorriso matreiro escorregou em seus lábios antes dele envolver meu rosto com ambas as mãos, segurando algumas mexas de meu cabelo ele inclinou o rosto contra o meu em uma mudança de ângulo, mas ainda mantendo nossas testas unidas.
— Eu vou. – Prometeu. – Mas não agora. – Murmurou me surpreendendo. – Agora vamos fazer lento e suave, iremos tomar nosso próprio tempo e teremos todo o tempo de consequência possível, por que eu as quero, não é sexo por sexo, não com você, eu não vou fazer uma vez e dispensa-la em seguida, por que eu não consigo ficar farto de você, eu sempre quero mais, eu sempre vou querer mais. E enquanto você me permitir, eu vou ter. Então, eu vou repetir: O que você quer?
— Você. – Murmurei sem hesitar. – Eu quero você.
— Você me tem. – Respondeu, suas palavras soando mais como uma promessa. Ele me beijou sem restrições, sua boca devorando a minha por que assim era para ser, mas seu beijo foi se tornando mais suave, mais lento. Eu não conhecia um beijo assim, estava acostumada com o contrário, de irmos lentamente até que as coisas evoluíam até um beijo quente e carnal. Esse beijo começou impetuoso, línguas se encontrando com avidez, roçando uma a outra com paixão e ímpeto até que lentamente o ritmo diminuiu. Suavidade dominando, suas mãos não traziam mais apenas calor quando se ergueu ainda comigo em seu colo, minhas pernas circundando sua cintura em puro instinto, havia carinho em cada ação, desde o momento em que se ergueu, até o momento em que paramos no centro do seu quarto, suas mãos experientes movendo-se para tirar minha blusa, seguida do sutiã, movendo-se sobre a pele exposta com devoção enquanto mais uma vez tomava posse dos meus lábios em um beijo mais quente, Oliver aos poucos estava perdendo seu controle. Parecendo perceber isso ele se afastou tomando fôlego.
Senti um arrepio de expectativa se propagar por todo o meu corpo enquanto o observava puxar sua camisa sobre a cabeça e retira-la com um movimento natural, mas que parecia provocante a meus olhos. Não havia uma forma de Oliver Queen se despir que não parecessem provocante, seus olhos passearam por sobre a pele exposta com seu habitual calor, mesmo enquanto ele continuava a se despir. Enquanto os meus estavam ocupados em fazer o mesmo. Oliver era todo duro, músculos e sem nenhuma grama de gordura sobrando, ele era perfeito, seu corpo podia fazer uma mulher literalmente babar se ela não tivesse o devido cuidado, agora ele estava completamente nu e pronto. E eu ainda vestia minha calça, por que estava perdida demais o contemplando e não terminei de me despir.
Ele não parecia preocupado com isso, sua mão envolveu meu pescoço, inclinando para dar facilidade a seus lábios que voltavam a descer sobre a lateral dele, ele chupou e lambeu a carne macia antes de descer até um seio e fazer seu estrago ali, seu braço me mantendo firme enquanto lambia um mamilo e depois o outro, sua respiração quente indo de encontro à pele úmida de seus beijos antes de voltar a chupa-lo. A essa altura eu me derretia contra ele, gemidos saindo de minha garganta de forma incontrolável, enquanto eu puxava seu cabelo e arranhava o couro cabeludo, sua mão insinuou entre nossos corpos e após desabotoar minha calça jeans entrou em minha calcinha, suspirei quando seus dedos rapidamente encontraram o ponto de prazer e inclinei minha cabeça para trás recebendo mais um beijo seu. Sua língua tocava a minha com destreza enquanto seus dedos seguiam brincando comigo, eu estava me desfazendo em seus braços, e ainda nem estávamos na cama.
Ele tornou a se afastar apenas para me livrar do restante das minhas roupas e me levar até o centro da cama, seu corpo guiou o meu até que eu estava deitada e ele pairava em cima de mim, nossas pernas entrelaçadas. Ele voltou a dar sua atenção a meus seios, então sua boca úmida desceu pelo meu estômago até desviar até meu quadril, seus dentes prendendo a pele antes de sua língua aliviar a pequena dor mal registrada pela pressão deles, ele me encarou breve e intensamente antes de descer e beijar a parte interna da minha coxa delicadamente, a respiração me aquecendo e trazendo uma nova onda de estremecimento em meu corpo. Então sem gastar mais um segundo ele baixou sua cabeça para tomar aquilo que estava lhe sendo oferecido.
Ondas de prazer me dominaram enquanto minha carne exposta recebia a atenção de sua língua. Eu estava muito perto de romper em um orgasmo quando ele parou bruscamente, e voltou a subir sobre meu corpo, suas mãos agarrando as minhas e colocando-as acima da minha cabeça e mantendo-as assim enquanto separava minhas pernas ainda mais com as suas, eu sentia-o pressionar contra mim levemente, mas ainda sem fazer qualquer movimento para ir em diante, deslizei minha perna pela lateral do seu quadril abrindo-me mais para si e em um movimento involuntário ondulei meu corpo contra o seu.
Seus olhos me fitavam incertos. Havia um monte de desejo ali, mas tinha também insegurança.
— Você tem certeza? – Perguntou rouco.
— Sim. – Suspirei contra sua boca. – Faça-me sua. – Observei com decepção seu corpo deixar o meu, mas sorri internamente quando notei que ele estava preocupado com proteção, logo estávamos na mesma posição, sua mão mantendo meus braços acima da minha cabeça, nossas peles pressionadas firmemente, e logo sua ereção se chocando com minha entrada fazendo com que eu arqueasse de prazer ao ser penetrada. Oliver movia-se com um ritmo viciante, arrancando gemidos involuntários enquanto deslizava dentro de mim, sua cabeça encontrando a curva do meu pescoço, minhas mãos lutando para escapar do seu agarre, ansiosas por toca-lo, mas ele manteve presa enquanto uma e outra vez me atormentava com suas estocadas lentas, sempre me deixando na borda, mas nunca indo além, no momento em que ele percebia que eu estava muito perto ele parava, suas respiração agitada o denunciando que ele também estava em seu limite, senti-a em meu ouvido antes de sussurrar.
— Minha. – Murmurou antes de finalmente acelerar seus movimentos e bombear com paixão. Depois disso foi questão de instantes antes que eu sentisse a ponderosa onda dominar meu corpo me deixando momentaneamente desnorteada, Oliver finalmente me soltou deixando-me correr minhas mãos por seus ombros enquanto ele ainda bombeou uma e outra vez mais, até que escutei o som rouco vindo de sua garganta, seco, quase um rosnado, seu corpo estremecendo mostrando-me que ele havia gozado. Quando ele puxou suavemente para fora foi feito com um gemido nosso feito em um uníssono. Ele voltou a se afastar, mas dessa vez eu sabia que ele logo estaria de volta, o observei ir até o banheiro e me afundei mais na cama macia, deitando-me de lado. Senti o colchão ceder com seu peso antes mesmo de sentir seus braços me rodearem, atraindo-me mais para si enquanto ele permanecia deitado atrás de mim. Seus braços me segurando e passando a sensação de proteção, eu estava naquela neblina pós-sexo, relaxada e ele parecia estar em sintonia comigo. Não parecia ser necessário que fosse dito nada, mas ainda assim senti sua voz rouca se elevar em meio à escuridão do seu quarto.
— Obrigado. – Murmurou contra meu ombro.
— Você não está me agradecendo por sexo. – Sorri diante a ideia. – Está?
— Não. – Escutei o tom risonho escondido na negativa. – Foi bom, mas não por isso.
— Bom? – Murmurei incrédula. – Oliver Queen...
— Excelente. – Corrigiu-se. – Você sabe disso.
— Hum. – Murmurei desconfiada. – Então pelo o que está agradecendo?
— Por confiar em mim. – Respondeu.
— Você é mais do que um erro, Oliver. – Falei em tom baixo e sério. – Somos mais do que isso. – Ele ficou em silêncio, por um momento achei que havia dormindo, mas sua mão deslizou por minha cintura, me acariciando levemente. – Obrigada. – Murmurei por minha vez.
— Por excelente sexo? – Brincou.
— Por confiar em mim também. – Murmurei antes de girar em seus braços e encara-lo, ele assentiu sem se importar em falar mais nada, ele me abraçou fortemente, antes de guia-me para voltar a ficar deitada de lado com ele atrás de mim, não demorou muito e senti que dormia, e bastou saber que ele dormia tranquilo para eu mesma me entregar ao sono. Eu deveria passar horas pensando no que ele havia me revelado, e talvez em outro dia eu fizesse, mas agora, tudo o que me importava era esse abraço, era tê-lo junto a mim, completamente em paz. Então, eu não fiquei horas pensando no passado, eu dormi aconchegada em seus braços pensando na promessa de um futuro.
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