Redenção

3 The Basement


Depois de chegar em casa, Helena tomou banho e colocou seu pijama mais quente — que eram uma calça de moletom preta e uma camiseta de manga comprida com um pentagrama na frente — e sentou-se no sofá, a espera de Joseph. Sua irmã saíra meia hora mais cedo, com o pretexto de que ela e Jesse queriam pegar um bom lugar no cinema. Verdade ou mentira, Helena agora estava sozinha, enrolada até o pescoço em seu cobertor de pelinhos brancos, tentando se distrair assistindo Bob Esponja.

Quando o relógio deu 17:30 em ponto, Helena ouviu a campainha tocar. Tomou um susto, porém logo foi atender, sabendo que seria Joseph.

– Olá, princesa. — disse Joseph, e sorriu para ela. Helena retribuiu o sorriso, e convidou-o a entrar. Assim que ele passou pela porta, Helena a fechou, não reparando na sombra encostada na árvore em seu jardim.

Joseph estava com várias sacolas, cheias de guloseimas as quais Karin enfartaria ao ver Helena chegando sequer perto.

– Meu Deus, comida de verdade! — exclamou Helena, rindo.

– Sim, das terras longínquas denominadas de Supermercado. — disse Joseph, rindo com ela.

Eles levaram as sacolas para a cozinha da casa, que não era muito grande — pelo menos não comparada a maioria das cozinhas de seus amigos — mas que tinha um balcão, onde eles colocaram as sacolas e começaram a desempacotar as coisas.

– O que vamos assistir hoje? — perguntou Joseph, que havia ligado a uma hora atrás, avisando para que Helena escolhesse algum filme para verem.

– Bem, eu procurei mais ou menos, e não encontrei nada digno de ser assistido. Então, não sei. — disse ela.

– Sabe... — começou Joseph — eu fiquei sabendo que hoje era a inauguração de um bar bem interessante, no centro da cidade. Fiquei em dúvida se convidaria você, porque ele é muito peculiar. Mas já que você está usando uma camiseta com um pentagrama, acho que ia achar interessante este lugar. — disse ele.

– Como é o nome desse bar? E o que você quis dizer com relação ao pentagrama? — perguntou Helena, franzindo a testa, curiosa.

– O bar se chama The Basement. Pode parecer esquisito a primeira vista, mas é realmente muito legal. Um amigo meu estava participando da construção, e me disse que é um lugar um pouco sombrio, mas que é "instigante", ou algo do tipo. Segundo meu amigo, não é muito bom levar pessoas que não tem a mente aberta, por causa da decoração e do ambiente. Mas como sua camiseta tem o símbolo de proteção, então creio que você não seja assim. O que acha, princesa? Quer ir? — terminou Joseph.

Helena pensou por um momento, e decidiu seguir sua intuição. Por mais que receasse ver A Sombra — como ela havia nomeado a coisa no banheiro — ela queria sair. Seu lado curioso venceu.

– Tudo bem, Jo. Vamos. Mas que roupa eu devo vestir? — perguntou Helena.

– Você poderia trocar apenas sua calça, se quiser. Porquê não coloca uma jeans, e um casaco de frio por cima? — disse Joseph.

– Tudo bem, boa ideia. Espera um pouco, já volto. — disse Helena, enquanto caminhava em direção ao seu quarto para se trocar. Foi um pouco difícil para que ela encontrasse o casaco sozinha, mas após longos 10 minutos, voltou para a sala de estar, devidamente vestida.

– Vamos? — disse Joseph.

Helena assentiu, e eles desligaram a tv e foram até o carro de Joseph.

Durante todo o caminho, Helena se esforçava para enxergar direito, já que as noites eram sempre piores para sua visão, do que os dias. Quando chegaram, Helena logo percebeu o que Joseph quis dizer com "um pouco sombrio". Pelo que Helena podia ver através de sua visão embaçada, o lado de fora do bar era todo fechado, a não ser pela porta. Era todo pintado em uma cor escura — que Joseph disse a ela ser um tom de preto, que as vezes parecia sangue — e um letreiro brilhante de neón vermelho, o qual Helena deduziu ser o nome do bar. O lugar não parecia muito grande por fora, porém já havia uma pequena aglomeração de pessoas esperando a abertura da casa, para que pudessem entrar. Aquelas pessoa eram realmente diferentes das que Helena estava acostumada a conviver.

Apesar de sua visão embaçada, Helena reparou que a garota por quem passaram tinha os cabelos de um tom de azul que devia ser realmente muito vibrante, já que ela o enxergava com muita nitidez. Eles receberam algumas reclamações por passarem na frente de todos — e Helena algumas cantadas, o que a fez se encolher ao lado de Joseph -, porém ignoraram, já que entrariam pela lista VIP. Quando eles atravessaram as portas, a visão de Helena escureceu um pouco mais, já que o lado de dentro do bar era um pouco mais escuro que o externo. Helena sentiu um arrepio na espinha ao olhar em volta, mas ignorou-o.

– Bem, todos vão entrar em 10 minutos. Quer escolher uma mesa? Podemos sentar em qualquer uma das que estão no segundo andar. — disse Joseph, apontando para a plataforma de vidro com mesas, acima de suas cabeças.

– Tudo bem, escolherei os lugares. Você pode buscar algo para eu beber? — perguntou Helena, gentilmente.

– Claro que sim. Vodka, gim ou rum? — perguntou Joseph, rindo.

– Uma pepsi com limão já está de bom tamanho, obrigada. — retribuiu Helena, rindo também.

Enquanto Joseph ia até o balcão de bebidas — que era visivelmente decorado com réplicas de cabeças de animais empalhados -, Helena subiu as escadas para o segundo andar lentamente, tentando não cair e se machucar. Quando chegou ao topo da escada, olhou a sua volta, e viu que haviam poucas mesas a sua volta, e algumas estavam com plaquinhas sobre elas, indicando que já estavam reservadas. Andou mais um pouco, e ao lado de uma mesa maior, que tinha vista para o palco, Helena encontrou uma mesa pequena, para duas pessoas, sem reserva aparente. Ela rapidamente se sentou, e ficou esperando que Joseph chegasse com as bebidas.

– Demorei muito? — disse Joseph, aparecendo do nada.

– Não muito. — disse Helena, e riu.

– Eu tentei convencer o barman a ir buscar uma pepsi pra você, mas ele disse que o único refrigerante que eles vendem aqui é coca-cola. Então trouxe coca com limão mesmo, tudo bem? — explicou ele.

– Tudo sim. Não gosto muito de coca, mas se é so o que tem, eu aceito.- disse ela, e o agradeceu.

– Deve ser alguma alusão as notícias de que coca-cola faz mal, e etc. — disse Joseph.

– Ou talvez algum problema com a distribuidora de bebidas, quem sabe. Esse lugar é meio doido mesmo. — disse Helena, e riu.

Alguns minutos depois, as portas do bar foram abertas para que as pessoas entrassem. Era uma verdadeira turba, todos se aglomerando na pista de dança e em volta do balcão de bebidas. A música começou a tocar nos altos falantes e, por mais incrédula que eu estivesse, era boa.

As mesas a nossa volta começaram a lotar, e apesar de eu não poder ver os rostos de ninguém ali — já que não estavam perto o suficiente — eu sabia que todos olhavam pra mim com estranheza.

Helena sentiu-se um pouco deslocada ali.

Até o momento em que reparou nisso, a mesa grande com vista pra pista permanecera vazia. Mas quando voltou seu olhar para a mesma, ela já se encontrava lotada de pessoas, nenhuma que tenha chamado sua atenção. Ainda havia um lugar sobrando, uma cadeira que era visivelmente maior que as outras. "Talvez seja do dono do bar", pensou Helena.

Ela e Joseph conversaram mais um pouco sobre alguns assuntos, até que o amigo de Joseph que o havia convidado veio até ele, cumprimentá-lo.

– Hey, Jo. Que bom te ver aqui, cara. — disse o amigo de Joseph.

– Bom te ver também, parceiro. — disse Joseph — Essa é Helena, minha amiga. Helena, este é Abby, o amigo de quem te falei.

– Oi, Abby. — disse Helena, sentindo sua nuca formigar de uma forma intensa ao tocar a mão de Abby. Ela não enxergava muito bem na escuridão, mas reparou que Abby era muito pálido, e tinha os cabelos bem escuros, pretos, talvez.

– Hey, cara... — disse Abby — vamos ali conhecer uns amigos meus que ajudaram na decoração do bar.

– Quer vir conosco, princesa? — perguntou Joseph.

– Não, obrigada. Vou ficar aqui esperando vocês voltarem. — disse Helena, sentindo uma súbita intuição de que não deveria sair dali.

Quando ambos se afastaram, Helena voltou a sentir sua nuca formigar. Sentiu-se gelar por dentro, sabendo exatamente o que aquela sensação acompanhava. Quando voltou os olhos pra pista, esperava ver A Sombra parada bem a sua frente, mas o que encontrou foi apenas um homem sentado onde antes Joseph estava.

– Você parece assustada. — disse o homem. Sua voz possuía um timbre estranho. Era ao mesmo tempo melosa, mas com um toque de crueldade. — Está assustada por que motivo? — continuou o estranho. Ele estendeu a mão para tocar o rosto de Helena, e esta se afastou.

– Não é da sua conta. — disse Helena, sem saber porque havia reagido daquela maneira. O estranho gargalhou, e então se aproximou um pouco mais sobre a mesa. Seu rosto era rígido, sério, e com um pouco de humor. Pele morena, cabelo curto e escuro. E olhos. Olhos tão negros quanto a mais escura noite.

– Meu nome é... Lucian. Olá. — disse o homem, e sorriu.

Helena estava prestes a mandá-lo embora, quando reparou que, atrás dele, estava parado A Sombra, imóvel e sorridente. Lucian percebeu seu olhar assustado, e olhou por sobre o ombro. Algo em seu olhar denunciou que ele também podia ver a criatura, que misteriosamente sumiu após isso. Ele franziu a testa, e olhou-a de volta.

– Você parece... interessante. Agora me explique uma coisa: por que um de meus demônios está atrás de você, princesa? — disse ele, e sorriu de uma forma que assustaria até o mais bravo cavalheiro.

"Um de meus demônios". Para Helena, isso bastava. Ela levantou-se da mesa aos tropeços, ignorando tudo a sua volta, e correu cegamente em direção as escadas. Desceu saltando degraus, e correu, passando pela porta segundos depois de ter se levantado da mesa. Ela correu em direção ao beco lateral do bar — uma atitude admiravelmente estúpida — e recostou-se na parede, respirando sofregamente. De repente, A Sombra apareceu bem a sua frente, segurando-a pelo pescoço. Quando a criatura abriu a boca, expondo os dentes, Helena fechou os olhos para não ver tal cena. Foi então que sentiu algo gosmento espirrar em seu rosto e em seu peito, e a garra que a segurava pelo pescoço, a largou. Do chão, ela olhou pra cima, e tudo o que viu foi a silhueta de Lucian a sua frente — onde antes estava o demônio — segurando uma espada ensanguentada. Seu corpo, novamente não resistiu, e ela se deixou levar de boa vontade pela fraqueza que a atingiu.

Notas finais
Hey folks, espero que estejam gostando.